Fora de foco*

Leia o post original por Antero Greco

Hoje completa um mês que a seleção levou a maior surra da história – nem escrevo o placar, porque dói pra burro – e se discute a grande crise em que mergulhou o futebol brasileiro. Nestes 31 dias desde a lavada no Mineirão, muita coisa aconteceu: foram retomados os campeonatos nacionais e a Copa do Brasil, o governo recebeu de novo representantes do Bom Senso e ouviu queixas de dirigentes amedrontados com as dívidas, a CBF desencavou outra vez o Dunga e o torcedor não suporta a enxurrada de jogos ruins e a mesmice dos times.

A tevê entrou no rolo, alarmada com a queda de audiência. Aí está aspecto fundamental. Há muito, se transformou na origem da maior fatia de recursos financeiros dos clubes, fonte para onde recorrem sempre que o caixa mingua. Quotas de transmissão são antecipadas, com frequência para anos seguintes, o que desemboca em dependência difícil de romper. Sem se darem conta, agremiações ficaram reféns do sistema e se rendem a exigências do benfeitor, que trata dos interesses dele. Com razão: ninguém investe de graça.

O credor se sente no direito de convocar os clientes para debater com eles alternativas para melhorar o produto que compra – as competições – antes de repassá-lo para o telespectador. Como age com profissionalismo que falta aos administradores esportivos, propõe o cardápio que avalia como mais adequado – sobretudo para si. Por isso, nem cogita de avaliar se é bom ou ruim para o torcedor jogo às 22 horas.

Há itens sensatos, assim como se detectam sugestões que soariam como meter a colher em assuntos alheios (investimento em categorias de base, aperfeiçoamento da gestão dos clubes) até na tentativa de mudar fórmula de disputa. A volta do mata-mata na Série A desponta como ovo de Colombo para recuperar índices do ibope. Os pontos corridos? Eleitos como vilões.

Taí uma distorção. Ataca-se a forma e não o conteúdo. Durante muito tempo o Brasileiro teve a fase de pontos corridos e a de eliminação direta. Os números de audiência e a lotação dos estádios cresciam nos jogos finais, o que dava a impressão de sucesso. Ao longo de boa parte do campeonato viam-se partidas arrastadas e arquibancadas desertas. Uma década atrás, se retornou ao clássico todos contra todos e campeão o que somar mais pontos. O fenômeno de arenas às moscas se manteve, enquanto diminui a quantidade de aparelhos ligados na televisão.

O desafio, portanto, é atacar o motivo do desinteresse – e este salta aos olhos: o empobrecimento das equipes de cá, que mudam a cada três meses, a ausência de ídolos, a falta de ousadia de treinadores, a inércia de executivos. O descaso com que o torcedor é tratado. Raros os movimentos da cartolagem para atrair gente para os campos, para fidelizar o freguês/fã e tê-lo por perto.

O produto é ruim – seja no mata-mata, seja nos pontos corridos. Mas é menos penoso para o dirigente pedir grana para a tevê do que criar mecanismos para ganhar em outras frentes – bilheteria incluída. Alguns tentam, mas de jeito equivocado, com preços extorsivos de ingressos sem a contrapartida da qualidade. Apaixonados e tontos caem no conto do vigário por tempo determinado. Depois, percebem a cilada e pulam fora.

Por miopia diretiva, também, se reforça a tendência de espanholização do futebol. Não faz sentido Flamengo e Corinthians ganharem da tevê 50%, 60%, 70%, 80%, 90% a mais do que a maioria, sob argumento de que dão retorno. O Brasil é mais amplo do que a Espanha, tem diversidade clubística e de mercado incomparáveis. Não cabe concentrar forças, a longo prazo, numa restrita casta. Afundará mais clubes e audiência.

Os espanhóis discutem efeitos perniciosos do poder descomunal de Real e Barça em detrimento do restante. A Liga das Estrelas em geral brilha só com ambos; no mais, há sombras. Ingleses e alemães detectaram o mal e têm distribuição equânime da bolada da tevê. Mas clubes de lá têm rendas alternativas; os daqui, não. Isso faz diferença tremenda.

*(Minha coluna publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 8/8/2014.)