Sem coitadinhos*

Leia o post original por Antero Greco

O futebol tem coisas inacreditáveis – e, por isso mesmo, compõe o retrato do Brasil, país contraditório. Os clubes das principais divisões estão com pires na mão, pedem água para o governo, clamam por ver aprovada lei que parcele as dívidas em suavíssimas prestações mensais durante 25 anos.
Como contrapartida, acenam com vagas punições para os que não cumprirem o acordo – o projeto, em princípio, ficou travado na Câmara Federal e volta à cena após as eleições. A montanha de dinheiro devido gira em torno de R$ 4 bi, entre impostos, contribuições trabalhistas e outras taxinhas disto e daquilo.

O quadro pintado por cartolas e parceiros da bancada da bola e da CBF é gravíssimo. O Botafogo, por exemplo, teme fechar as portas se não encontrar saída para o estrangulamento financeiro. Com maior ou menor dramaticidade, as lamentações se assemelham. Alguém desavisado ou distraído – e sobretudo de boa fé – terá dó das entidades que representam um dos bens culturais da nação, etc e tal.

Verdade, não será nem um pouco bacana assistir à bancarrota de agremiações tradicionais. Uma tristeza danada nos respectivos seguidores. Mas, se ocorrer, é da vida, faz parte do jogo capitalista do qual todos participam. Catástrofes de idêntico teor atingiram clubes como Fiorentina e Napoli, na Itália, que se viram obrigados a promover reviravoltas administrativas. Hoje, aparentemente, são saudáveis. Sombras pesam sobre times europeus.

Se lá se chegou a tal ponto, muito se deve a gestões incompetentes ou desonestas, ou ambas. Quem criou o monstro que trate de domá-lo. O mesmo deve valer para cá. Todos ouvimos, há décadas, histórias escabrosas de malversação financeira, de investimentos equivocados, de balanços obscuros, de obras superfaturadas, de calotes. Entra ano, sai ano, repetem-se episódios mal resolvidos – que, em geral, caem na vala comum do esquecimento. Seja nos próprios clubes, seja em esferas oficiais.

Você tem notícia de algum dirigente que respondeu a processo criminal por suspeita de aplicar golpe do baú no clube que esteve sob o comando dele? Alguém foi em cana por sumir com dinheiro? Que me recorde houve um caso rumoroso no Palmeiras, no fim dos anos 70, com um ex-presidente. Ao que consta, o então empresário falido se redimiu ao transferir imóveis para o clube como ressarcimento. E, em seguida, passou-se borracha no assunto.

Há costume de empurrar as dívidas com a barriga, para ficar no popular, e outro de varrer para baixo do tapete indícios – ou mesmo comprovações – de que tal ou qual cartola não cuidou do dinheiro que não lhe pertencia, mas que estava sob a guarda dele. É a saída mais conveniente para todos; caso contrário, é um deus nos acuda e o ventilador jogará lama para todo canto.

No que se refere a débitos com órgãos governamentais, a solução é simples: sempre se poderá contar com anistia, com descontos, com a boa vontade de políticos – vários com carreira pública construída a partir do futebol. Esporte popular, mexe com paixão e votos. Portanto, fácil convencer poderosos e eleitores.

Estes, afinal, são os que pagam a fatura – e, de quebra, reelegem os benfeitores de araque. Depois, se queixam do governo. Não quero, nunca, ver a falência de Santos, Palmeiras, Flamengo, Fluminense, Galo, Grêmio ou seja lá qual time for. Mas não podem viver num universo paralelo, com benesses inacessíveis para empreendedores, comerciantes, profissionais liberais e assalariados comuns. É desvio de conduta, entortada na lógica e no bom senso.

O futebol virou indústria de entretenimento, que movimenta somas altíssimas. Não sejam tratados como coitadinhos os altos personagens.

Abre o olho. O Palmeiras terá eleições no final do ano e se preveem dificuldades para a reeleição de Paulo Nobre. Não por má conduta do presidente. Ao contrário, por ele mexer em vespeiros. Pobre Palestra, que pode derrubar quem não o trai.

*(Minha crônica publicada no Estado de quarta-feira, dia 6/8/2014.)