O, o, o, queremos torcedor!U

Leia o post original por Mauro Beting

No estádio pela primeira vez em um clássico, Cauê não cabe de felicidade, do baixo dos oito anos de idade.

Quer ver, sentir, ouvir tudo.

Pela internet e pela TV, sabe quase todos os cânticos da torcida do seu time. E muitos da torcida rival. Até aqueles que sabe que o pai e mãe não gostam.

– Ei, @#$%*$, vai tomar no $#!

O pai pede silêncio. Por tabela, respeito. Cauê fica quieto. E tenta, então, ouvir e entender o que a torcida adversária – e não inimiga – está cantando.

– Pai? O que eles estão gritando?

– Eu não acredito, Cauê. Deixa ver se é isso mesm…. É isso…

Desolado, o pai oferece sorvete ao filho do vendedor que está distante.

– Pai, o que eles estão gritando?

– Filho… Deixa pra lá…

Cauê nota o desapontamento do pai. Justo ele que adora criar musiquinhas e piadas contra os rivais. Ele que já saiu no tapa em um estádio com um torcedor que era conhecido dele. O pai que o ensinou que fazer o nome do time rival no banheiro era sinônimo de “número dois”. E outras dessas coisas que não se falam. Mas se fazem.

– Pai, eu acho que eles estão gritando que…

E Cauê ficou quieto. Ouviu muito bem. Ou muito mal.

– Pai, eles estão falando que ele morreu?

O  pai ficou com lágrimas nos olhos. Não aquelas que caíram quando, semanas antes, o ídolo havia morrido em um acidente. Um ídolo de campo e de banco. Um cara idolatrado pelo que fez, e respeitado pelos rivais pelo que também respeitou o adversário e a rivalidade.

– É isso mesmo?

O pai tinha um misto de raiva e de tristeza. Na vida em campo, já tinha cometido barbaridades. Falado maldades. Tinha sido preconceituoso, até. Sabia que não era santo.

Mas ainda era gente.

Ele não conseguia nem olhar para o filho. Pensou o que o filho do ídolo poderia estar sentindo no primeiro clássico entre os clubes desde a morte do pai. Justo no dia dos pais. Justo ele que ouvia gente celebrando a morte do pai. Só pelo pai ter jogado pelo outro clube.

Cauê olhou para o pai e viu as lágrimas. Não as entendeu. Como muita coisa ele ainda não sabe. Mas só sabe que certas coisas não são mesmo para serem compreendidas.

Ele pensou xingar quem falava assim do ídolo do pai dele. Mas alguma coisa o fez ficar sentado na cadeira. Olhando e pensando feio para aquele tipo de gente que fazia algo que não tinha sentido.

– Pai, o que a gente faz agora?

– Cauê, não faz nada. Não fala nada…

– Mas pode fazer isso?

– Não pode. Mas quem tinha de fazer alguma coisa não fez… Eles cresceram assim.

– Não pode ficar de castigo?

– Pode, Cauê. Pode. Deveriam proibir esses caras de virem ao estádio. De sair de casa!

E o pai de Cauê se levantou, falou muitos palavrões que nem o filho sabia (e ele talvez tenha inventado na hora), e mais um monte de coisa que não se deve pensar. Muito menos falar.

Cauê ficou quieto. O jogo começou, o time dele ganhou, o pai ficou feliz, comprou três sorvetes (mesmo estando frio), e voltaram para casa. A mãe estava feliz, comeram pizza, e ele foi dormir feliz com a vitória.

Mas alguma coisa ficou lá no fundo.

Aquilo não se faz.

Nem o que os caras falaram, nem o que o pai dele respondeu.

– Quando eu tiver um filho, eu vou levá-lo para o estádio!

Mas Cauê pensou melhor.

– Acho melhor ver pela TV.

E Cauê não dormiu direito.

Ficou com medo do pai. E dos outros pais do outro lado.

Ficou com medo de ser adulto. De ficar do mesmo jeito.