Matando o futebol

Leia o post original por Mauro Beting

O brasileiro chorava a morte de Ayrton Senna e ria das piadas a respeito da tragédia. É nosso. Como a feijoada. O samba. E, também, o jiló e o sertanejo universitário. Fazer o quê?

O brasileiro repete a cena na morte de Eduardo Campos. Sujeito correto no incerto coreto político brasileiro. Também é do brasileiro enaltecer os mortos. Até aqueles muito vivos. Vivíssimos. Vivaldinos.

Não é o caso do neto de Miguel Arraes. Pai do Miguel que nasceu especial este ano. E o pai mostrou todo o amor por ele, do mesmo modo como os quatro filhos fizeram homenagem ao aniversariante no dia dos pais.

Não precisa gostar, votar, nada. Apenas respeitar. E, dever dizer, também admirar a pessoa séria. O político que seria um provável ponto de equilíbrio em uma campanha e uma política que virou um Fla-Flu do pior nível.

Do mesmo modo sem modos que as arquibancadas continuam propiciando um MMA de emes impublicáveis. O que infelizes fizeram no dia dos pais para com o ídolo do maior rival, morto semanas antes em acidente de helicóptero, não tem nome. Com a presença dos órfãos no estádio, menos ainda.

Já aconteceu antes. Na mesma cidade. Já aconteceu em outros lugares. Com outros times. Outros ídolos. Ou nem tão ídolos. Poucos, aliás, que respeitaram tanto o rival, como sabemos. E como contou um torcedor que um dia o viu felicíssimo por dar um autógrafo a uma criança que vestia as cores adversárias. Jamais inimigas. Por isso esse ídolo morto poderia ainda menos ser tratado como se desrespeitou.

Não é piada. É sério. E muito triste. Sem graça. Sem alma.

Já ouvimos antes. E quem sabe deixaríamos de ouvir se também fossem punidas com mais rigor as manifestações inomináveis. Algo que a Inglaterra ensinou no combate aos hooligans. Algo que fazemos ouvidos de mercador dentro e fora de campo.

Nos estádios brasileiros permitimos tudo. No futebol, mais ainda. Não podemos criar uma geração de carolas infiltrados entre cartolas. Mas um basta às bestas que falam b… nas arquibancadas poderia dar um pouco mais de civilidade aos nossos dias. Muito mais tolerância às talibancadas e às ruas desuniformizadas pelos intolerantes das torcidas profissionais.

Para a gente poder continuar desopilando pelo futebol, o futebol precisa estabelecer regras mínimas de
consciência e convivência.

A bola enlameada está com as autoridades que estão perdendo a própria.