Carta ao nosso amor…

Leia o post original por Luiz Nascimento

São Paulo, 14 de agosto de 2014

Minha amada Portuguesa,

Quisera eu ter a pontaria de Julinho, o encanto de Enéas ou a genialidade de Dener para escolher as melhores palavras neste seu aniversário. Aos 94 anos, você atravessa um momento difícil, de turbulências. As forças parecem se esgotar, eu sei. Afinal, são décadas marcadas por batalhas injustas e desproporcionais.

Não presenciei o esquadrão de Djalma Santos, não vivi o principado de Ivair e meus olhos não viram Badeco erguer a taça. A experiência de um lusitano, porém, não precisa ser das maiores. Percebe-se cedo que as guerras disputadas dentro dos próprios muros são sempre as mais complicadas. E quase eternas.

Incontáveis foram as vezes em que você, Portuguesa, transformou pontos finais em vírgulas. Quando tudo parecia acabado e todos acreditavam no fim, você ressurgiu. Quantos entendedores de bola já haviam jogado a toalha quando o predestinado Alex Alves fez os corações lusitanos voltarem a bater na Ilha do Retiro?

Tão segura quanto a meta de Félix está a certeza de que apenas o amor a mantém viva. Sim, o amor. Não tenha dúvidas, Rubro-Verde. Podem nos levar os títulos, as vitórias, os pontos e as divisões. Contudo, não nos levam a paixão. Quando se fala em resistência, somos pioneiros como Filó e temos a raça de um Capitão.

Não morreremos enquanto tivermos brilho nos olhos ao vermos o verde e o encarnado em campo. Não morreremos enquanto os ingressos vierem acompanhados de um inconfundível aroma de bolinho de bacalhau. Não morreremos enquanto nossa felicidade for tão simples quanto degustar uma porção de tremoço na arquibancada de concreto. Não morreremos enquanto o alambrado for o nosso altar.

Não desista, Lusa. Não esmoreça. Sinto na pele a dor do momento que você atravessa. Muitas vezes, no Canindé, me peguei pensando: “essa não é a minha Portuguesa”. Sua camisa não combina com quem usa, seu brasão não combina com quem comanda e sua história não combina com a divisão. Por isso mesmo precisa lutar.

Travar uma batalha em busca de suas origens. Você, Rubro-Verde, tem história e tradição. Seja na Ilha da Madeira, no Independência ou até no exterior. Encantou o mundo, foi Fita Azul, superou a Academia e bateu o Expresso. Formou seleções e foi o celeiro.

Lusa, pra mim, significa a vida. De ver o jogo nos ombros de meu pai e de gritar gol ao lado de meu avô. De fazer amigos ao perseguir o bandeirinha e de viajar horas rumo ao interior. De ser chamado de português em todo canto e de recusar tantos convites por uma partida. De passar frio numa terça congelante e de torrar no sol do meio-dia. De recordar as lágrimas de euforia e de aprender com a dor de uma derrota.

Foi você, Portuguesa, que me ensinou. Que ser maioria quase nunca traz vantagens. Que ser exceção quase sempre vale a pena. Que a alegria honra cada sofrimento. Que cada dor valoriza uma conquista. Que as vitórias são títulos de três pontos. Que as derrotas são questão de saber ser. Que a esperança anda ao lado do amor.

Que a sua bandeira verde e encarnada mais uma vez seja a luz da sua jornada. Que sempre façamos parte de uma grande família. Que a vitória sempre seja a certeza da sua força e tradição. Que nunca falte a coragem dos conquistadores e a audácia dos descobridores. Que nosso amor abrace a glória do amanhã. Que sempre tenhamos orgulho de dizer: na alegria ou na tristeza, somos todos Portuguesa!

Obrigado por existir, minha melhor amiga…

Luiz Nascimento