Deixem as armas e tragam o cannoli

Leia o post original por Mauro Beting

Em um campo de jogo deixamos tudo.

Na Argentina, a expressão é usual. E, normalmente, respeitada pelos atletas.

Na Javari, o mais paulistano dos estádios, na República da Mooca, deixamos todos nós tudo. E um pedaço doce de nós.

Dulcíssimo como o cannoli do seu Antonio, no campo do Juventus. Há 44 anos ele faz não apenas o melhor doce de estádio do planeta. É o melhor doce do universo a versão grená da iguaria siciliana. Tem mais gente para comer o cannoli que torcedor em jogo do Juventus. É a mais gostosa fila que um torcedor de qualquer time pode vivenciar em um campo. E que cancha! E que doce!!!

“Crocante” era como o meu pai adorava dizer a respeito de algo gostoso. Fosse uma sopa ou uma picanha. Crocante! Não há nada como a crosta que o seu Antonio prepara. Nada tão doce por dentro como é o amor pelo nosso Palestra – e pelo cannoli de todos – que me fez neste sábado, pela manhã, tirar meus Luca e Gabriel da cama bem cedo para a incursão futebolística e culinária da Javari.

Tenho 24 anos de jornalismo esportivo. Por ser 47 anos Palmeiras.

Torneio Oberdan Cattani. Vestiário da rua Javari.

Torneio Oberdan Cattani. Vestiário da rua Javari. Preleção para a disputa do troféu Joelmir Beting. 16 de agosto de 2014

 

Prazer de ofício foi gravar para meu documentário “O Campeão do Século” a preleção de Dudu para Ademir da Guia, Evair e companhia, no vestiário mítico e místico da Javari. Com o Dudu pedindo para a gente não gravar nada. E, depois, dizer que tudo bem, já que a “gente não iria entender nada mesmo” – como bons jornalistas que somos…

Foi tocante como também havia sido em 11 de dezembro de 2012. Quando gravamos, no Pacaembu, a palestra de Dudu, Ademir, Leivinha e César para os palmeirenses no jogo de despedida do anjo-guardião alviverde; o  “Amém” de São Marcos, em 2012. 

Quando todo o Palmeiras de 1999 (e 1993, 1994, 1996, e segunda Academia) veio me abraçar pelo meu pai que havia morrido duas semanas antes. Como todo o Brasil de 2002 também fez, logo depois, na entrada em campo, minutos depois.

Hoje, esse time venceu o Paulistano depois dessa preleção e ficou com a taça Joelmir Beting, na primeira partida do quadrangular, na Mooca.

Na decisão, contra o Germânia onde meu pai foi conselheiro, Evair fez o gol do título. De pênalti. Com meu velho amigo pinheirense Sergio na meta. Fui reserva dele no clube, lá por 1980, 1981. Ótimo goleiro que é, Sergio fez como o outro Sergio, em 12 de junho de 1993: quando Evair foi para a bola, ele pulou. E, no fundo, também celebrou. Sabia que não tinha como. E nem queria que tivesse.

O Palmeiras, no centenário, ganhou a Copa Euroamericana da Fiorentina, no Pacaembu. Por tabela, o troféu Julinho Botelho ficou na nossa galeria. Agora, na Javari, o Palestra que jogou com trajes, regras e bola de 1941, venceu o  torneio Oberdan Cattani. Outro mito alviverde. Outro que honrou nosso manto.

Mais não deve conseguir o Palmeiras no ano do centenário. Como pouco conquistou nos anos anteriores. Como pouco deverá conquistar nos próximos.

Mas esses todos da foto acima não precisam ser campeões pelo Palmeiras.

Só precisam ser o que são: o Alviverde inteiro.

Essa paixão que levou meu pai a ser nome do troféu conquistado na vitória contra o Paulistano – rival do primeiro título palestrino, em 1920, a pazza gioia.

Essa paixão que me levou ao jornalismo esportivo e, por tabela, junto com meu filho Gabriel, a entregar o troféu com o nome do avô do Gabi a Jorginho Putinatti. O maior craque palmeirense dos anos de ferro de 1980.

Um craque que não precisou levantar caneco para ser campeão.

Um palmeirense como tantos e todos.

Um torcedor como o de qualquer outro clube.

Ganhar é sempre ótimo. Bem sabe o campeão do século XX, o maior vencedor de títulos nacionais.

Mas ainda mais importante é ser um time, e não ter tantos títulos.

É ser, mais que ter.

Na bola e na vida.

É ser palmeirense que nos faz ser.

É poder levar os filhos para comer cannoli na Javari e receber tanto carinho quanto Palmeiras de muita gente.

Para vibrar com o Matador por um gol do Palestra. Gol do Evair. Pra alegria do goleiro que sofreu – Sergio. Do Alfredo que apitou. Do Joelmir que era taça. Do Oberdan que era troféu.

Alegria do nosso time. De Edu Bala, Toninho Catarina, Rosemiro e Odair Bruxinha (e ainda diziam que só tinha beleza no futebol de antes…), Gilmar, Pires, Polozi, Esquerdinha, Arouca, Célio, Reinaldo Xavier, Luís Sérgio, Chiquinho, Celso Gomes, Reginaldo Pernilongo, Adãozinho e Gallo, que ajuda a manter esse time todo junto.

Não, ninguém precisa reconhecer nada desse torneio festivo do passado glorioso de 1941 disputado em 2014, e nem mesmo discutir a indiscutível qualidade e dificuldade da conquista do título intercontinental de 1951.

Basta um palmeirense para conhecer que, com Evair, a gente vai soltar a voz em um pênalti decisivo.

Basta um palestrino pela rua Javari para celebrar a vida e os mortos.

Ou, como visto no filme “Poderoso Chefão” que é título deste post: depois de realizar um serviço de vida ou morte (mais a coluna dois que a um), livrando-se de um tradittore da famiglia Corleone no meio de uma plantação, o capanga Clemenza ordena ao comparsa:

– Leave the gun. Take the cannoli.

É isso que se leva da vida.

Vamos deixar as armas pelo caminho. Vamos levar os doces para casa.