Fora do prumo*

Leia o post original por Antero Greco

Que situação de porca miseria a do Palmeiras. Empatava com o São Paulo no sufoco e com pênalti mandrake. Já no fim, desperdiçou duas chances consecutivas pra virada, na mesma arrancada e num ataque que começou com impedimento. Na sequência, Alan Kardec, o ex que pulou o muro, deu uma testada que pegou na trave, bateu nas costas de Fábio e entrou. Gol em cima da hora, sem tempo para a reação. Nona derrota verde em 15 rodadas, 14 pontos e na zona de rebaixamento. Retrospecto de candidato firme para a Série B.

Os 2 a 1 para o São Paulo doeram na pele dos palestrinos – ainda que esteja curtida de tanto flagelo, aí incluídas duas imersões na Segundona nos anos 2000. Talvez esperassem tropeço no Pacaembu, porque a fase anda ruim de lascar. (O empate servia como consolo, vá lá.) Mas levar gol de centroavante que até meses atrás era a esperança de salvação da lavoura verga o ânimo de qualquer um, fere, humilha. Espezinha tanto quanto a política infeliz e suicida que há décadas mina o clube.

A subida de Kardec, com marcação frouxa, como fosse um treino – ou jogada anulada –, carrega ironia brava que vou te contar. A cena resume o Palmeiras, não apenas de Paulo Nobre, mas também a de antecessores: economia e acertos no varejo, gastos equivocados e erros no atacado. Um clube que se livra de Barcos e do próprio Kardec, sob a alegação de contenção de custos, e aposta em Leandro e Valdivia, por exemplo, com retorno ridículo para investimento alto. Difícil de engolir a lógica embutida nesse modo de agir.

O Palmeiras outra vez virou um bando de jogadores a ciscar pra lá e pra cá, em tentativas desesperadas e individuais para resolver situação de risco. E, o que é pior, sem tranquilidade e/ou qualidade para tal. O elenco não tem um craque, não conta com um goleador, não possui talentos com carisma, poucos são os jovens promissores, parca a serventia dos mais experientes. E a toda semana desembarca no Palestra Itália alguma nova esperança…

Enfim, é um nada. Sob o comando de um técnico cada vez mais assustado com o tamanho da encrenca em que se meteu. Ricardo Gareca, coitado, imaginou que dirigir o Palmeiras equivaleria a sentar no banco do Velez, com a pressão costumeira da função. Em vez disso, caiu num caldeirão, num fogo fervente de uma agremiação com tradição e torcida formidáveis, mas que vive o dilema de não saber mais como ser grande. O Palmeiras perdeu a identidade – e não adianta vir com papo furado de campeão do mundo em 1951!

Eventual terceira queda é pra jogar a pá de cal e se contentar com o papel de figurante, cuidar da bocha, da malha e dos Periquitos em Revista. E das discussões de aliados do califa, do pescador, da harmônica ou da nobreza. Um monte de grupelhos que olham pro umbigo, vivem do passado e deixam passar o trem da história. A torcida que se lasque e aguente o tranco. Para ela, os modelitos de camisa lançados a todo momento. É o que resta: camisa.

O embaraço fica maior com o fato de que o São Paulo não teve atuação impecável. No primeiro tempo, enredou-se na postura do rival, com jogada bem elaborada aqui ou ali pelo quarteto Kaká, Ganso, Pato, Kardec. A turma de Muricy emitia sinais tímidos de que entrava nos eixos, depois da eliminação na Copa do Brasil diante do Bragantino. O Palmeiras no trivial habitual e com Valdivia, na enésima volta e, claro, na enésima contusão: ficou no gramado, 16 minutos e alguns quebrados.

O nó começou a desfazer-se na segunda parte, com bola mal reposta por Fábio, bem roubada pelo São Paulo e que foi parar nos pés de Pato para abrir a vantagem. O mérito palmeirense foi o de correr, o prêmio veio com a ajuda da arbitragem, na forma de pênalti mal marcado e de impedimentos inexistentes no ataque tricolor – ao menos dois.

O desfecho veio com a cabeçada de Kardec, um dos poucos destaques de um clássico (outro) sem brilho. Allione teve lampejos de criatividade no Palmeiras. Muito pouco.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 18/7/2014.)