Seleção pra quê?

Leia o post original por Antero Greco

No final da manhã de ontem repetiu-se o ritual costumeiro de convocação da seleção. O roteiro seguiu o script invariável dos recomeços, com o treinador de plantão a confirmar diversos nomes das listas do antecessor e a acrescentar novidades. Tudo previsível, pois não se apaga o trabalho precedente, com sucesso ou fracasso, ao mesmo tempo em que se tenta dar o toque pessoal do recém-chegado. Não faltou sequer o discurso em que se pede comprometimento dos atletas e há promessa de resgatar o carinho e a confiança do torcedor brasileiro.

A cerimônia de pontapé inicial da segunda aventura de Dunga no comando da amarelinha estimula a reflexão e a dúvida. Afinal, para que mesmo serve hoje em dia a seleção? A quem e a quais interesses ela atende? Qual a relação do time com a identidade nacional? Que benefícios trazem essas chamadas? Que papel exerce num cenário em que a tendência é a de prevalecerem equipes de clube, ao menos as que se transformaram em multinacionais, ou têm projetos de expansão?

No caso do Brasil, é possível arriscar algumas respostas, e não muito animadoras. Para começo de conversa, se um dos objetivos tem como alvo o público doméstico, não faz sentido programar amistosos fora do país. Não convence muito a alegação de que se cumpre contrato com a empresa que comprou os direitos de levar a trupe para onde quiser. A CBF, se estivesse empenhada de mente e alma em reaproximar-se dos fãs, trataria de negociar com os parceiros comerciais e convencê-los da necessidade de atuar por aqui. Apesar do risco de treinador e rapazes ouvirem vaias. Ou também aplausos, oras.

Em vez de fincar raízes em casa, lá vai o bloco de globetrotters divertir plateias nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, enquanto o admirador de cá se limita a seguir os passos pela televisão. Como se fosse um programa qualquer, mais um de tantos e tantos jogos de seleções estrangeiras que inundam os canais esportivos. E assim querem vender a ilusão de que o Brasil estará em campo, de que a mística verde-amarela será reforçada?

Por isso, soa vazio, lugar-comum insosso o papo de Dunga (e de antecessores, a bem da verdade) e patrões de que acima de tudo se encontra o culto à história da seleção. Nacionalismo de boteco que cola ainda para ingênuos, pachecos ou vivaldinos, sobretudo estes últimos, de olho nos lucros que podem obter, seja em audiência, em publicidade, em caixa fornido ou em lucro com futuras transações com jogadores valorizados no mercado pelas convocações. Pessoal, seleção faz tempo se tornou produto rentável, fonte de grana alta. Paixão não passa de lero-lero.

Já foi o tempo em que desastres desabavam sob as cabeças dos envolvidos na trama. Ok, não se deve jamais repetir episódio de condenação eterna, como ocorreu com Barbosa e outros integrantes da geração de 1950. Aquilo foi desumano. Vivemos, porém, o outro extremo. Diversos responsáveis pela frustração no Mundial de 2014 saíram com polpuda indenização e dias depois estavam empregados – e bem pagos. Jogadores retornaram aos respectivos clubes, a maioria na Europa, como se nada tivesse acontecido em BH e em Brasília. Vida que segue, como pregaram, um dia depois dos 7 a 1 para a Alemanha.

Dunga mudou meia convocação e apresenta jogadores como Rafael, Alex Sandro, Danilo, com relativo destaque em Napoli (o primeiro) ou Porto (os outros dois), além de vários que atuam nestas bandas e que desfalcarão times em rodadas importantes dos campeonatos locais. Vai mudar muito? Tanto faz. Seleção deveria ser reflexo do futebol que se pratica no Brasil, indício da força dos clubes, consequência natural do produto que se vende em casa.

No entanto, está longe de tal realidade. A seleção virou corpo estranho, à parte, e que subsiste para encher as burras da CBF e agregados. Como sempre, veremos resultados bons, outros nem tanto. Uma conquista aqui, uma decepção ali. Mudanças profundas? Nem pensar.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, dia 20/8/2014.)