O pior Palmeiras que vi

Leia o post original por Mauro Beting

PALMEIRAS 1980

 

Foi em maio de 1980. Sete jogos sem vitórias, pela fase final da Taça de Ouro (BR-80) até a estreia no estadual (SP-80), iniciada com goleada sofrida para a Inter de Limeira por 4 a 1, no Palestra.

Só três mil foram ao Palestra frio ver a vitória sobre o Botafogo de Ribeirão Preto naquele pré-inverno rigoroso. Gol de Mococa. Seis meses antes, o JT desafiava o valoroso volante verde com o gigante da Beira-Rio Paulo Roberto Falcão. Deu Inter, deu Falcão, claro.

Mas Mococa era ótimo – em 1979. O Palmeiras sem Telê, chamado para a Seleção, em fevereiro de 1980, já não era tão bom no meio do primeiro semestre, embora ali permanecessem o ótimo Gilmar na meta, e a zaga daquele timaço do segundo semestre de 1979: Rosemiro e Pedrinho voando pelas laterais, e Beto Fuscão e Polozi na zaga – todos já chamados pela Seleção, na época em que não era fácil ser de seleção. Pires e Mococa eram a mesma dupla daquele timaço de 1979 que só não ganhou o Paulista por manobras de bastidores, e só parou na semifinal do Brasileirão diante do tricampeão – invicto – Internacional.

Nei estava jogando no meio-campo em 1980. O mesmo baita ponta da segunda Academia.Carlos Alberto Seixas, César e Baroninho também eram remanescentes do timaço de 1979. Mas todos jogando muito abaixo do bom nível que tinham. Como, no banco de reservas, o velho mestre Oswaldo Brandão não fazia mais milagres.

Todo o time caiu de produção em 1980. Alguns não eram o muito que pintaram em 1979 – e mesmo antes. Sem Jorginho, na Seleção de novos, o time penava um pouco mais. Vieram novos nomes. Vanderlei, de grandes passagens pelo Galo e Ponte Preta, mas sem o memo pique. Freitas, meia revelação do Coritiba, que não vingaria. Lúcio, ponta direita que jogara muito na Ponte, jogaria pouco no Palmeiras e, de volta a Campinas, jogaria demais pelo Guarani. Onde também brilharia Jorge Mendonça, que fora negociado em 1980 com o Vasco.

No SP-80, o Verdão não se acertava. Ou, quando ganhava uma, perdia em seguida, como em Ribeirão Preto. 2 a 1 para o Comercial, com gol do lateral direito Benazzi. Mais um daqueles rivais que o Palmeiras compraria logo depois por fazer gol contra o Verdão. Poucos faria a favor.

Ainda mais jogando tudo contra o clube e o torcedor. Como em amistoso contra o São Paulo, em agosto de 1980, no Morumbi, o time levou de quatro. E desse jeito foi ficando no segundo semestre daquele ano que foi dos mais frios em São Paulo. E dos mais longos invernos e infernos verdes. No jogo seguinte, a Francana venceu por 1 a 0, no Palestra. Gol de Parraga (treinador interino alviverde em 2010). Caiu Brandão. Em 16 de agosto, quase quatro anos depois do último título paulista então conquistado, novamente no Palestra, de novo contra o XV de Piracicaba, vitória por 2 a 0 em casa. A última em 1980, já dirigido por o fragilizado time por Diede Lameiro.

Mais oito jogos sem vencer – quatro empates. Derrota feia no meio para o Guarani, em Campinas, com gol de Jorge Mendonça… Teve um belo 3 a 0 na Portuguesa para acabar com o jejum. Até vir outro: quatro empates, três derrotas até o fim do SP-80. A pior classificação da história alviverde no Paulistão: 16º lugar.

Gilmar; Rosemiro (Soter), Beto Fuscão, Polozi (Edson)(Silva) e Pedrinho; Vanderlei (Pires), Carlos (Freitas) e Célio; Jorginho (Lúcio), César e Nei (Baroninho). Diede Lameiro montou esse que, não pelos nomes, mas, pela bola, era o pior dos Palmeirasa até então. Não era para isso. E foi ainda pior por conta do regulamento: para a Taça de Ouro (primeira divisão brasileira) de 1981, classificavam-se as equipes pela colocação nos estaduais. No disputadíssimo SP-80, o Palmeiras não ficou entre os seis primeiros. Foi obrigado a disputar a Taça de Prata de 1981, o equivalente à segunda divisão nacional.

Mudou a diretoria, resolveram mudar o elenco, apostando em muitos nomes do interior. Como o Palmeiras havia muito bem feito em 1968-69, iniciando a montagem da Segunda Academia. Como muito mal fez em 1981, iniciando a campanha para a segunda Taça de Prata, na temporada seguinte, em 1982.

O bom goleiro João Marcos assumiu o lugar de Gilmar. Em dois anos seria convocado para a Seleção. Mas não segurou a barra. Benazzi, Edson (Marquinhos), Darinta e Jaime Boni (Tonigato); Vítor Hugo, Sena (que era ótimo) e Célio (Adauto); Osni (Jorginho nem sempre podia jogar), Paulinho (que era bom centroavante) e Baroninho (que seria emprestado ao Flamengo ainda em 1981 e seria campeão da Libertadores e mundial…) ou Romeu ou Marquinho na ponta…

Meus Deus!

O time que nem o mito Dudu deu jeito. Nem sem ele e Ademir da Guia jogassem no meio.

 

Rosemiro, Gilmar, Polozi, Mococa, Edson e Pedrinho; Lúcio, Jorginho, César, Wilson e Baroninho. Bons nomes, péssimo futebol

Rosemiro, Gilmar, Polozi, Mococa, Edson e Pedrinho; Lúcio, Jorginho, César, Wilson e Baroninho. Bons nomes, péssimo futebol. FOTO: futografia

PALMEIRAS 1981

Era um desepero sem fim. Na Taça de Prata de 1981, ainda fez bonito. Venceu lindo o Guarani de Careca e Jorge Mendonça no Palestra abarrotado e voltou para a Taça de Ouro ainda na mesma temporada. Para levar de 6 a 0 do Inter, no Beira-Rio, e se perder novamente…

Em maio, o mito Luís Pereira voltou para a zaga. No jogo seguinte, Aragonés, bom meia da Bolívia que jogara muito contra o Brasil de Telê, estreou fazendo golaço com a camisa que fora de Ademir da Guia. E de Célio.

– Agora vai!

Pensamos. Passamos…

Não foi.

Mesmo com Jorginho Putinatti de volta ao time, o craque do time nos anos 80, a década perdida começava ainda mais perdida para o palmeirense. Depois de um belo 3 a 0 no São Paulo, no Pacaembu, cinco empates seguidos até perder para a Ponte, no Palestra, com um gol de Dicá no fim da partida. Dudu já havia substituído por Fedato, talismã artilheiro dos anos 1970, mas que não tinha como fazer milagre. E não fez. Jorge Vieira assumiu no final de junho de 1981.

Ainda havia time para vencer clássicos. Bela virada por 2 a 1 contra o Corinthians, no Morumbi. No Pacaembu, no Débi, Gilmar foi santo e garantiu o 1 a 0 num jogo que deveria ser 11 a 1 para o Timão. O time era fraco, mesmo com o retorno de Pedrinho à lateral e a chegada do atacante Enéas, vindo do Bologna. O Verdão mostrou isso na disputa do tetra do Ramón de Carranza. Foi tétrico: 5 a 0 para o Sevilla, 4 a 0 para o CSKA de Sofia.

– O Palmeiras acertou na Espanha a contratação de um goleiro búlgaro: Tomanov.

Era a piada da hora. Era a tristeza do palmeirense que continou levando ferro em 1981. Em outubro, 6 a 2 para o São Paulo. Esquerdinha, bom meia e ponta que viera da base, e Reginaldo Pernilongo sofriam com a fase. O torcedor, mais ainda. Uma virada para o Santos, depois de estar vencendo por 3 a 2, fechou com chave de chumbo um ano ruim. O 11º lugar no SP-81 foi menos pior que o 16º de 1980. Mas, de novo, não houve como se classificar para a Taça de Ouro de 1982. E, de velho, a temporada foi ainda pior.

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Benazzi, Vítor Hugo, Jaime Boni, Marquinhos, Darinta e João Marcos; Osni, Paulinho, Sena, Célio e Baroninho. O célebre time que venceu o Guarani por 2 a 0 e se classificou para a Taça de Ouro de 1981. Sena, João Marcos e Paulinho eram bons jogadores. Baroninho seria campeão da Libertadores e mundial no segundo semestre daquela temporada. FOTO: globo.com

 

PALMEIRAS 1982

Com Paulinho de Almeida no comando, vendendo o lateral de Seleção Pedrinho às vésperas da Copa para o Vasco (mais ou menos como foi Henrique, negociado em 2014 antes do Mundial…), a diretoria alviverde trouxe promessas apresentadas como o “novo Falcão” (Suca) e o “novo Zico” (Mario Sergio, meia-atacante do Matsubara)…

Gilmar; Nenê (Benazzi), Luís Pereira, Edson (Deda) e Jaime Boni; Suca (Vítor Hugo), Aragonés e Célio; Jorginho Putinatti, Almir e Esquerdinha (Rodrigues). Esse foi o time que nem da primeira fase da Taça de Prata de 1982 passou. Uma vitória, um empate e três derrotas.

Meu diabo!

Em março, chegou o volante Rocha, junto com o voluntarioso lateral da base Vargas.  Mas os bons resultados não vieram. Fora um gol no último lance de um Dérbi com Luís Pereira, poucas alegrias, muitas decepções: 5 a 1 para o Corinthians, em agosto, e 6 a 1 para o Santos, em novembro, quando Rubens Minelli já dirigia um time que até venceu bons jogos contra o São Paulo, com gols do goleador que chegara – Baltazar.

Artilheiro de Deus que fazia muitos gols mesmo estando mais impedido que o bom futebol na equipe alviverde. Centroavante que respeitava ainda que, em algumas partidas, eu ficasse correndo junto ao bandeirinha berrando para Baltazar sair da posição irregular.

Como eu fiz naquela tarde de terça, 12 de outubro, no Morumbi. Juventus 2 a 0. Dois gol de Ticão. 171 impedimentos de Baltazar, e uma cobrança de falta histórica, que o amigo André Falavigna bem descreveu no meu novo livro, “PALMEIRAS, 100 ANOS DE ACADEMIA”, lançado pela Magma Editora.

Quando Ticão fez o segundo gol, aos 40 do segundo tempo, foi a única vez em 42 anos de estádios que deixei o jogo antes de terminar. Eu e meus cinco companheiros nos levantamos sem falar uma palavra e fomos pegar o ônibus.

Era um time que não merecia uma palavra.

 

Luís Sérgio, Jaime Boni, Deda, Vargas, Rocha e Luís Pereira; Barbosa, Carlos Alberto Borges, Baltazar, Aragonês e Baroninho. O time de 1982 tinha alguns bons nomes, mas com desempenho ruim e placares pavorosos. Nesse clássico, a derrota foi para o Santos por 3 a 1, em setembro de 1982, pelo Paulistão

Luís Sérgio, Jaime Boni, Deda, Vargas, Rocha e Luís Pereira; Barbosa, Carlos Alberto Borges, Baltazar, Aragonés e Baroninho. O time de 1982 tinha alguns bons nomes, mas com desempenho ruim e placares pavorosos. Nesse clássico, a derrota foi para o Santos por 3 a 1, em setembro de 1982, pelo Paulistão. FOTO: futografia

PALMEIRAS 2002

Como o Verdão de 2002. Um time que foi rebaixado em um turno só que acaba levando a essas infelicidades. Ainda mais quando um time de bom nível começou a se perder com a saída de Luxemburgo, na segunda rodada, e mais quatro treinadores: PC Gusmão (um jogo), Flávio Teixeira (cinco), Karmino Kolombini (um) e Levir Culpi (até cair).

Nos primeiros cinco jogos de Levir, um empate e quatro derrotas de um grupo rachado. De gente que não estava nem aí e nem ficou no grupo para 2003. E de nomes históricos como Marcos, Sérgio, Arce, Zinho. De jogadores que seriam vitoriosos como Leonardo Moura, Fabiano Eller, Paulo Assunção, Rubens Cardoso e Nenê (mas não clube). De gente de qualidade como Dodô, César e Pedrinho (que voltava de lesão).

Sérgio; Arce, Alexandre, César e Rubens Cardoso; Paulo Assunção e Flávio; Juninho (Lopes) e Zinho (Nenê); Muñoz e Itamar (Dodô). Era o time que não era ruim. Mas acabou péssimo. Foi o 24º entre 26. O segundo melhor entre os quatro piores. A um ponto do primeiro que se salvou – o Paraná Clube.

PALMEIRAS 2012

Mais ou menos como o Palmeiras de 2012. Não era time para vencer a Copa do Brasil invicto como conquistou. Também não parecia ser time para ser rebaixado no final do ano. Quando ganhou a Copa, em Curitiba, sem o operado Barcos e o suspenso Valdivia, o time tinha Bruno (em grande fase); Artur, Maurício Ramos, Thiago Heleno (atuando muito bem) e Juninho; Marcos Assunção e Henrique; João Vítor, Daniel Carvalho e Mazinho (e mais Luan que atuou se arrastando no final); Betinho, inefável autor do gol do título.

Elenco que relaxou no BR-12 e foi caindo pelas tabelas e pelo gramado. Felipão perdeu a mão de vez, e deixou o clube. Gilson Kleina fez mais do que poderia. Mas, desde agosto, quando perdeu para o Atlético no Serra Dourada, com gol da derrota marcado por Rayllan, pareciam ter cortado a cabeça e o coração de um time que não se acertou mais. Foram quatro derrotas seguidas de um time onde só Márcio Araújo não se lesionava. Obina, Correa e depois o lateral Leandro voltaram ao clube e pouco fizeram. Maikon Leite perdia todos os gols que o time de Tiago Real até criava. Quando Valdivia vez e outra estava em campo, e não esteve mais ao disputar com raça uma bola com Paulo Miranda, no clássico contra o São Paulo. Com ele saiu o que havia de diferente na equipe.

Os garotos João Denoni, Patrick Vieira e Vinícius sentiram a pressão. O investimento enorme em Wesley mal pôde ser usado por lesão grave. Ele foi um dos 13 (!?) ausentes no jogo que decretou o rebaixamento, contra o Flamengo. Fernandinho, João Vítor, Valdivia, Daniel Carvalho, Betinho, Leandro, Thiago Heleno, Leandro Amaro, Henrique, Patrick Vieira, João Denoni, Marcos Assunção não jogaram por lesão. Luan, por suspensão. Com um elenco limitado, e tão desfalcado, não teve como.

Bruno; Artur, Maurício Ramos,. Henrique (Thiago Heleno)(Leandro Amaro)(Roman) e Juninho (Leandro); Correa (Marcos Assunção) e Márcio Araújo; Tiago Real (Wesley), Patrick Vieira (Valdivia) e Maikon Leite (Mazinho)(Luan) ; Barcos.

Era mais ou menos isso o time. Muito mais menos.

PALMEIRAS 2014

E todas essas muitas linhas para dizer que, em 42 anos de estádios e estúdios, nunca vi time pior em verde que este pós-Copa de 2014.

Não são jogadores tão ruins. Neste texto já vi e li e reli e revi times e jogadores fracos.

Mas nunca vi um futebol tão feio e tão ruim como este.

Só não cai se outros salvarem em 2014.

É possível, por ser tudo possível no futebol e, no meu caso, por ser Palmeiras.

Mas são muitos os jogos desde o Mundial (e um pouco antes dele, também) em que conto quantos atletas estão em campo de verde (ou azul, branco, sei lá). Parece sempre haver menos palmeirenses na própria área ou na rival, em todo o campo.

A fase é tão ruim que o treinador erra demais ao mudar o time e escalar um time ofensivo para tentar vencer um Inter muito superior. A ponto de o Palmeiras deixar de piorar quando sai um atacante como Leandro (como Leandro…) para entrar um volante como Eguren (como Eguren…) atuando em casa, perdendo. Sacar um atacante e escalar um volante em time que está perdendo como mandante foi o maior acerto do treinador – que não é o maior responsável pela fase terrível.

O Palmeiras dá chutão sempre. E, quando tem de dar chutão, zagueiros e volantes saem driblando dentro da área. A marcação é zona. Uma zona. Ou palmeirense marcando palmeirense.

Se os gandulas ganhassem por produtividade, estariam recebendo mais que muitos atletas em jogos palmeirenses. O único sentido coletivo do time tem sido o erro de todos em vários lances, como o gol de Jorge Henrique, na justa vitória colorada. A falha maior foi de Fábio. Justamente quem tem tido os maiores acertos (e muitos dos erros) do time que mais vi errando em sequência com a camia palestrina.

Ainda é possível salvar do rebaixamento. Mas não sei como é possível salvar o momento alviverde.

(Texto escrito antes da demissão de Gareca. Um que não estava acertando a mão. Mas que erra menos que os que erram com os pés).