Lição e contradição*

Leia o post original por Antero Greco

O episódio de hostilidade contra Aranha, na semana passada, dá o que falar e sugere reflexões. O tema é escorregadio, e o menor vacilo leva a análise para pieguice, ou para justicialismo rasteiro ou conservadorismo e manutenção de velhos preconceitos. Difícil encontrar a ponto de equilíbrio, a medida exata entre o que seja comportamento civilizado e digno, arroubo no calor de jogo de futebol, infração e postura de fato racista.

A torcedora do Grêmio flagrada pelas câmeras de tevê a chamar o goleiro do Santos de “macaco” cometeu ato grosseiro, quanto a isso não parece haver dúvidas. Existe lei para enquadrar casos como esse, e ela responderá. Assim como outros rapazes identificados em igual atitude, ou até mais agressiva, porque acompanhada de gestos. Todos prestaram declarações e alegaram não ter tido intenção de ofender o jogador. Caberá à Justiça decidir.

Após o incidente houve reações positivas, no mínimo porque volta a ser discutida questão tabu em nossa sociedade: o preconceito racial. Que existe, de forma aberta ou velada, no dia a dia, na rotina das pessoas. Negros, mulatos, pobres, determinados estrangeiros, sentem a discriminação nas mais prosaicas atividades. Estigma que vem de séculos, que deveria nos envergonhar.

Da mesma maneira, não faltam excessos, oportunismo e contradições. As redes sociais encheram-se de mensagens contra a jovem, fãs do Grêmio foram chamados de racistas e alguns ameaçados de agressão por vestirem a camisa do clube. Moralismo oco. Ex-dirigente do clube gaúcho chegou a dizer que Aranha simulou e que não aconteceu nada de anormal na Arena naquela noite. Absurdo constrangedor.

A grande contradição, porém, fica para o Superior Tribunal de Justiça Desportiva. O órgão optou pela exclusão do Grêmio na Copa do Brasil ao considerá-lo culpado pelo comportamento de seus seguidores. Decisão drástica, vista por gente de bem como pedagógica. Muito bom. Mas será que, em eventuais e futuros casos semelhantes, adotará medida idêntica? Terá o mesmo rigor? Ou agiu sob impacto de clamor popular, que condenou clube e moça de antemão? Agirá com firmeza em brigas de torcidas, atentados, mortes?

A ironia suprema veio na noite de anteontem. Poucas horas depois do julgamento, descobriu-se que um dos auditores tinha, em conta no Facebook, diversas postagens com fotos e comentários, digamos, ligeiros e toscos a respeito de negros. E, de acordo com relatos de jornais e sites, durante a sessão do tribunal, distraiu-se a manusear o celular. O referido julgador, na madrugada de ontem, excluiu a conta.

Não serei eu a julgá-lo. Mas não é curioso que tenha ajudado a infligir penalidade dura a um clube porque um torcedor teve conduta injuriosa e racista? O STJD diz que não tem nada com atos de seus integrantes fora da corte. Certo. Porém, faz sentido acatar o voto dele? Não caberiam anulação, troca de auditor e novo procedimento? Com a palavra advogados e juristas.

Para encerrar estas divagações com dúvidas que divido com você: em vez de punir times, não seria melhor se os infratores respondessem na Justiça e, ao mesmo tempo, ficassem impedidos de frequentar estádios? Por outro lado, os clubes se empenhariam de verdade em afastar os mal-educados e/ou vândalos? Ou fingiriam que não era com eles?

Lição que serve para todos vem da mãe de Aranha, em depoimento ao extraordinário repórter Roberto Salim: “Chamaram meu filho de macaco, de fedorento. O cheiro e o suor dele saem com o banho. O fedor dessa gente, não, porque vem de dentro.” O racismo nosso de cada dia extrapola a fronteira dos estádios.

Novo reinício. A seleção começa o ciclo para 2018 no amistoso de hoje com a Colômbia, em Miami. Dunga mantém a base da Copa de 2014, usa discurso semelhante ao dele mesmo e de outros – “compromisso, alegria, eficiência”. Enfim, mais do mesmo. Sou cético quanto a mudanças profundas. Aguardemos.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 5/9/2014.)