Guerra política no São Paulo começou meses atrás; conheça as entranhas da crise

Leia o post original por Vitor Birner

De Vitor Birner

“O que foi que eu fiz?”

A pergunta em tom de arrependimento foi feita por Juvenal Juvêncio a si mesmo, em conversa com alguns de seus homens de confiança, no período da Copa do Mundo (quando o São Paulo excursionou nos EUA).

Tinha a ver com o fato de optar por Carlos Miguel Aidar como seu sucessor e com a quantidade de jogadores ruins, mais de duas dezenas segundo gente próxima ao ex-presidente, que duas pessoas com cargos na atual gestão – uma delas saiu –   indicaram para o São Paulo contratar na intertemporada forçada pelo Mundial.

Esses parceiros do ex-presidente acham inexplicável, por fatores técnicos do futebol, a iniciativa.

Ataíde Gil Guerrero, vice-presidente de futebol escolhido por Aidar, ( Ataíde é amigo de Juvenal e lutaram juntos na briga do Clube dos 13  para a realização da negociação em bloco dos direitos de transmissão dos jogos, aquela implodida por Andrés Sanchez),  vetou, de acordo com os desconfiados, a chegada daqueles boleiros ao elenco por causa da má qualidade dos atletas.

Falam que durante o Mundial houve, inclusive, a possibilidade de alguns diretores renunciarem aos seus cargos por causa disso e que Ataíde Gil Guerrero corre o risco até hoje de perder o posto porque barrou os jogadores.

Lembram que o cargo de Ataíde Gil Guerrero tem alto valor em uma barganha política.

Tentei falar com o vice-presidente de futebol, mas o celular estava na caixa postal.

As mesmas pessoas desconfiadas me disseram durante a campanha para presidente do São Paulo que as duas chapas eram de oposição.

Uma delas me falou, em junho, que Carlos Miguel Aidar tentaria arrumar um jeito para justificar a saída de Juvenal Juvêncio da diretoria de futebol amador.

A primeira especulação não tenho como afirmar se realmente procedia ou foi apenas intriga política.

A outra se transformou aparentemente em notícia por causa da entrevista de Carlos Miguel Aidar à Folha de SP.

O tamanho da dívida é muito inferior ao orçamento anual e não justifica a crise de relacionamento.

A situação financeira da instituição, apesar de não ser a ideal, é melhor que a de quase todos grandes clubes do país e possível de ser administrada.

Não havia motivo técnico para Aidar botar lenha na fogueira, ainda mais depois de ter trocado quase toda a diretoria dos tempos de Juvenal e mantido Osvaldo Vieira de Abreu como diretor financeiro.

Os defensores de Juvenal Juvêncio fazem outras conjecturas:

Especulam que o atual primeiro mandatário do clube deseja aprovar um projeto de cobertura do Morumbi, precisa de 75% de quórum no conselho, e quer trocar o apoio de seus oposicionistas no último pleito em abril por cargos importantes.

A diretoria de futebol amador, hoje ocupada por Juvenal, seria um deles.

Nos últimos dias, por exemplo, surgiu o boato que Marco Aurélio Cunha, um dos líderes da oposição, ocupará o lugar de Ataíde Gil Guerreiro.

Conversei com MAC,  ontem, e ele negou de maneira enfática ter recebido qualquer convite.

Disse apenas que Aidar o elogiou e comentou que seria bom ter alguém como ele na atual administração, mas de maneira informal.

Isso aconteceu, segundo Marco Aurélio, domingo, no clube, quando se encontraram casualmente no jogo de futebol de sócios amigos deles, do qual não pôde participar porque machucou a panturrilha.

A afirmação de Juvenal sobre a traição de Aidar envolve algo pessoal.

Ele está brigado com o ex-genro Marco Aurélio Cunha e exigiu, ao escolher Carlos Miguel Aidar para sucedê-lo, que nenhum cargo de diretoria fosse dado ao desafeto.

Juvenal acredita, por exemplo, que o projeto da cobertura do Morumbi não foi aprovado porque a oposição liderada por MAC queria cargos em troca.

Fala em sabotagem.

Seu assessor José Francisco Manssur, comentou isso em entrevista ao blog em 5 de maio.

http://blogdobirner.virgula.uol.com.br/2014/05/09/conselheiro-do-sao-paulo-acusa-oposicao-de-boicotar-cobertura-para-tentar-ganhar-cargos-foi-a-comissao-da-mentira-disse/

Marco Aurélio negou com a mesma veemência que houve qualquer negociação de troca de cargos por votos e disse que o projeto da cobertura precisava ser mais bem explicado:

“Era estranho”, comentou.

MAC diz estar concentrado na campanha para deputado estadual e longe da crise política.

A verdade é que os pares de Juvenal Juvêncio estão desconfiados de Carlos Miguel Aidar.

E o atual presidente os culpa pela divulgação de notícias, de acordo com ele inverídicas, que prejudicam sua imagem e administração.

Creditam a um braço direito de Juvenal a reportagem postada no Blog do Paulinho, na qual o blogueiro fala na possibilidade de Aidar beneficiar parceiros e impedir uma concorrência caso a obra da cobertura seja aprovada.

http://blogdopaulinho.wordpress.com/2014/08/29/projeto-morumbi-negocio-beneficia-parceiros-de-aidar/

Do lado de Juvenal, afirmam que nem tinham ideia de nada disso.

O tempo mostrará o que é fato ou boato.

A única certeza é que a entrevista de Carlos Miguel Aidar em nada contribui para melhorar as finanças e a política do clube.

Até dificulta.

Os empresários sérios podem escolher aonde querem investir seu dinheiro e a confusão política é um pequeno entrave para preferirem o time do Morumbi.

E mais:

Ao declarar abertamente que a instituição precisa de grana, Aidar aumentou o poder de barganha de quem cogita estampar a logomarca da empresa na camisa ou fazer quaisquer negociações.

Além disso, a entrevista turbinou uma crise política.

O ideal para o São Paulo é que todas as partes se entendam, inclusive Juvenal e a oposição liderada por Marco Aurélio Cunha.

As questões pessoais devem ser deixadas de lado em prol da instituição.

Os conselheiros têm que pedir explicações caso algo os intrigue e precisam cumprir o papel precípuo de fiscalizar o que se passa em todas as áreas do clube.

Juvenal Juvêncio, até abril, e Carlos Miguel Aidar, daquele mês em diante, se propuseram a comandar a instituição.

Jamais podem esquecer do compromisso, apesar disso ser difícil no sistema de gestão obsoleto do futebol.

A função exige dedicação em tempo integral para lidar com problemas complicados, enormes, e a ‘remuneração’ se limita ao exercício de cuidar de tudo apenas por amor ao clube e ganho de status social, tudo em meio ao clima pesado nos bastidores.