Sempre andando para trás

Leia o post original por flavioprado

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

A conversa foi ouvida no metrô entre as Estações Penha e Carrão, ou seja, bem no meu pedaço. Dois garotos, entre 14 e 16 anos conversavam com entusiasmo sobre futebol. Minha aproximação foi natural e a surpresa também. Não falavam do último jogo do Corinthians, ou da recente contração do Santos, nem do São Paulo ou do Palmeiras. O papo era sobre a janela de transferências da Europa.

Os nomes fluíam com naturalidade. Discutiam sobre James Rodriguez no Real Madrid, a suspensão de Luiz Suarez, a estreia de Lewandowsky no Bayern e coisas do gênero. Pouco metros a frente um outro jovem usava uma camisa do Chelsea e o rapaz a minha frente, lia sobre o sorteio da Champions League.

Claro que o futebol brasileiro ainda tem prioridade nos papos de botequins. Mas é inegável que as novas gerações já têm olhos com visões maiores. Falar de torneios da Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, etc, virou rotina para eles. Muitos gostariam de usar camisas dos clubes de seus pais. Mas temem pela violência e até por comodismo comprar as  das equipes, que eles assistem dando shows na televisão e com as quais jogam os seus vídeogames. E aí que entra o tema da nossa conversa. O futebol brasileiro, por sua legislação falha, não estará no Fifa 2015.

A Electronic Arts, que comercializa o game, não se sentiu segura para usar os nomes e imagens dos jogadores do Campeonato Brasileiro, apesar dos acertos com as equipes. Ou seja, nossos principais clubes, que já são pouco conhecidos no exterior, pois  a CBF só pensa na seleção e tirou deles a possibilidade de intercâmbio, perderam talvez a única fonte de divulgação internacional.

Os jogos do Brasil só são vistos em horários alternativos, mundo afora e os principais craques, que estão no exterior, são ligados, quase sempre, somente a seleção, não aos clubes. Então, fica difícil alguém usar uma camisa do Flamengo, ou do Vasco,  ou do Palmeiras, no metrô de Paris, simplesmente porque não há contato com esses times, mesmo sendo amantes do futebol. E nossos garotos vão jogar vídeogame com os amigos,  incorporando Messi, Ibrahimovic, Cristiano Ronaldo, Tomas Muller e outros lá de fora.

Daí a torcer por eles é um passo. Incrível como se anda para trás no futebol brasileiro. Os clubes deixaram de ganhar dinheiro, divulgação, prestígio e espaço. Os jogadores amplitude mundial. E a própria empresa, porque gostaria de contar com essas marcas. Todos perderam. Talvez em 2016 os brasileiros voltem ao game global. Mas o prejuízo já estará feito. Cada dia mais veremos conversas, como aquela do metrô entre a Penha e o Carrão, pelas nossas cidades. E gente trocando os times daqui pelos  lá de fora.