Vasco 2 x 1 Náutico | Carta aberta a Kleber

Leia o post original por Bruno Maia

kleber2

Na saída de campo, Kleber deu uma entrevista ao Sportv, falando da dificuldade que foi a partida contra o Náutico. Dizia que, do ponto de vista dele, dos jogadores e de todos do elenco, o Vasco tinha feito um grande jogo, mas que era uma situação muito difícil física e psicologicamente. Ele explicava que, depois de dois resultados ruins, o time começou bem o jogo, criando muitas oportunidades, mas que as bolas insistiam em não entrar e com isso todos começavam a ficar mais nervosos. Pra piorar, veio o gol do Náutico e isso colocava a torcida contra o time. Para ser justo, Kleber foi muito cuidadoso com as palavras e, logo depois, deu razão aos torcedores, dizendo que entendia o porquê disso, já que as coisas têm sido muito difícil para nós, e que era nesse cenário que os jogadores tinham que buscar um resultado, faltando pouco mais de 25 minutos pra partida acabar. Fiquei pensando muito naquela fala do atacante. É uma reflexão interessante. Zero nova, mas foi bem elaborada. O grande ponto da questão de São Januário hoje é: a torcida nunca fica contra o Vasco, mas a torcida quase sempre fica contra o time.

Sejamos francos, não é de hoje que jogadores vêm e vão e, invariavelmente, condenam a postura de nós, vascaínos, em São Januário. Como torcedor, queria responder/comentar o que Kleber disse, tentando manter o nível inteligente e gentil que ele teve em pintar o cenário que sente, como jogador. Não tenho a ilusão de que esse texto ajudará a costurar uma relação mais sadia entre esses dois lados, porque, como vocês vão ler, não acho que nenhum deles seja o grande culpado desse cenário incômodo para ambos.

O torcedor não torce por um time, por um elenco. O torcedor torce por um clube, por uma história, pelo quanto as cores que a camisa estampa representa as próprias cores da sua vida. Pela memória, pelo afeto, pela família, pelo futuro, pelo significado mais profundo que existe na decisão irremediável e definitiva de ser vascaíno. Pela possibilidade de que um dia seu filho, seu neto, possa compartilhar daquele amor que é seu. Isso já torna impossível conciliar com a efemeridade da formação dos elencos e dos ídolos do futebol brasileiro hoje em dia. Você, Kleber, teria bola para ser um ídolo do Vasco. Teria, se tivesse condição de se conectar a todos esses significados que nunca irá entender do que é ser vascaíno. Mas não, Kleber, de coração, não te culpo por isso. Você é só mais de uma lista gigante de profissionais de futebol que vieram cumprir uma parte de sua curta carreira, vestindo a camisa do Vasco. Você é mais uma vítima desse sistema burro que é o futebol brasileiro atual.

Após anos e anos e anos de um clube abandonado em seus sentidos mais profundos, inundado de dirigentes que o usam para seus interesses políticos, o vascaíno se sente em busca de uma ilusão. Ele olha para os anos e não vê o Vasco. Mas veja, Kleber, que essa torcida raras vezes grita coisas como “time sem vergonha”, “mercenários”, etc. No fundo, o torcedor vascaíno sabe que os jogadores que têm passado pelo clube, invariavelmente se esforçam, trabalham, rendem mais em São Januário do que rendiam em seus clubes anteriores – você está sendo só mais um destes que melhorou por aqui. Ela implica, sim, com alguns outros, ela pressiona muito quem está em campo. Mas quando vocês, jogadores, acham que ela está “jogando contra o time”, ela está, mais do que nunca jogando a favor do clube. Pensem nisso. Ela não deve fidelidade a vocês que chegaram ontem. Vocês passam. O que a torcida do Vasco faz é uma crítica incansável e inconciliável a um cenário estéril em mudanças que nós seguimos sem admitir. A torcida do Vasco não deixa a peteca cair. A torcida do Vasco é quem o mantém como time grande, do tamanho que ele é, porque se nos deixarmos levar pelo que você e seus companheiros de profissão têm conseguido desempenhar com esta camisa nos últimos anos, o Vasco talvez já tivesse sumido.

Mas como eu estava tentando dizer, Kleber, a culpa não é de vocês, jogadores. É de anos de gestão irresponsáveis que nos colocam na situação de, hoje, recorrer a ídolos de aluguel, aos bons jogadores que vivem maus momentos em suas carreiras mas que têm bons empresários que o alocam no Vasco, pra já já, levá-los embora. E nesse momento, Kleber, eu coloco no mesmo saco de merda dos nossos dirigentes, essa geração nojenta e incompetente de “executivos de futebol” que inundam os grandes clubes brasileiros. Nós, no Vasco, temos dois dos nomes mais “festejados” dessa turma: Rodrigo Caetano e Cristiano Koehler. Qualquer MBA de gestão empresarial fala da importância de um executivo entender a cultura da empresa para se adaptar e decidir as melhores práticas que o levarão aos resultados. No futebol brasileiro, essa geração de executivos é cega no que diz respeito à história e à cultura dos clubes. É um profissionalismo capenga. É impossível um trabalho de curto prazo numa função como essa. É da essência deste postos de comando trabalharem a médio/longo prazo. Mas essa geração de executivos se comporta, via de regra, como jogadores, a espera de se valorizar para ir pro próximo estágio. No nosso caso, nossos “executivos” vão responder que, ambos, já somam alguns anos de Vasco, que não chegaram ontem. Só que isso, em vez de atenuar, só piora a análise de seus trabalhos. Anos depois, eles não só não entenderam, como não conseguiram mudar em nada o cenário do clube, que segue dependente de empresários para ter time, de certidões negativas – sempre em falta – para conseguir dinheiro, de documentos para inscrever jogadores na federação nas primeiras rodadas do campeonato, de vender seus jovens ídolos sendo incapazes de segurá-los com contratos mais longos e mais lucrativos. Eles seguem dependentes de desculpas para tanta incompetência.

O cenário do Vasco que o torcedor vê hoje, Kleber, é exatamente o mesmo que Roberto Dinamite recebeu de Eurico em 2008. Na conversa de retórica, essa turma vai falar das milhões de conquistas e dívidas pagas nos bastidores e que a torcida não vê. Só que isso nunca se transforma em gestos reais de um Vasco mais forte, em nada que a gente… veja. Hoje, somos essa filial do Grêmio, com você, Biteco, Maxi Rodriguez… Recentemente fomos filial do Corinthians, filial do Cruzeiro… É essa gente incompetente, que se usa da cruz-de-malta para construir seus CVs ou os cabides de emprego de suas corjas, que nos põe, torcedores e jogadores, nessa encruzilhada.

O único caminho de reconciliação possível, Kleber, é um compromisso maior, diferente de vocês jogadores, que eu nem sei se seria justo cobrar, uma vez que seu contrato acaba daqui a alguns meses e você precisará pensar na sua família. O torcedor vascaíno precisa de gente que compre nosso barulho. Que compre essa dor, mesmo não sendo quem a construiu. Mesmo se você chegou agora. Mesmo se você vai embora daqui a pouco. Esse torcedor, que segura a onda, que mantém o Vasco grande, está sempre a espera e de braços abertos para quem entenda isso. Se não der pra você fazer isso, beleza. Só não espere nada a mais do que a nossa protocolar relação. Cada um cuidando do seu.

Mas por ora, obrigado a você e aos jogadores que, em campo, lutaram ontem para virar aquele jogo. Admito que, depois do gol deles, eu não acreditei que isso aconteceria. A atuação não foi isso que vocês viram, foi fraca de novo, mas realmente as chances foram criadas. O fato é que qualquer coisa que tenha acontecido ontem é menor do que esse cenário complexo que tende a se repetir, que merece toda nossa preocupação e que você fez muito bem em tocar.

Ademais, obrigado pela gentileza com que você soube colocar esta situação séria, importante e delicada,em sua entrevista, mesmo ainda de cabeça quente, minutos após o apito final. Somos uma torcida torcendo por um clube. E enquanto os times forem só times, essa relação seguirá sendo inconciliável. Se achar que você pode fazer algo diferente, é contigo. Se não, beleza também. Que assumam as rédeas de mudar isso quem as tiver na mão. Mas não confio neles. Nenhum torcedor confia. Quando olhamos para a próxima eleição, seguimos sem confiar. E, por isso, não dá pra ser otimista nesse sentido. Até lá, vamos na raça, vamos cada um cuidando do seu, levar o Vasco ao G-4 na última rodada. E ano que vem, vida que segue.