Serginho

Leia o post original por Mauro Beting

O que eu escrevi há 10 anos, na minha coluna no jornal AGORA S.PAULO

 

 

Possivelmente nada conseguiria salvar Serginho.

Mas os segundos que se passaram entre a queda do atleta do São Caetano no gramado do Morumbi no jogo contra o São Paulo e a chegada dele até a ambulância poderiam ter mudado a história.

Não por culpa dos médicos dos clubes, não por falta de estrutura do estádio tricolor.

Mas pela absurda determinação que proíbe o motorista de permanecer na ambulância do São Luiz.

O Hospital não viu problema algum no atendimento realizado. Meus dois filhos nasceram na Maternidade São Luiz. Também não vejo problema algum na instituição.

Mas foi difícil entender a versão oficial.

 

 

A AGONIA DE SERGINHO

tempo de jogo; tempo de atendimento; o que aconteceu

13:21           Serginho dá um carrinho e desarma Danilo, no meio-campo. Foi o último lance dele.

13:52          Serginho cai na área.

14:15          23 segundos depois da queda de Serginho no gramado: O médico Paulo Forte e o massagista Itamar Rosa (São Caetano) começam a atender o zagueiro.

14:22         30 segundos depois da queda de Serginho: chegou a maca-móvel próxima ao atleta.

14:24         32 segundos: Início do boca-a-boca do dr. Forte. Se estivesse disponível, o desfibrilador semi-automático poderia ter sido usado pela primeira vez quando o médico do São Caetano iniciou o boca-a-boca.

14:37        45s: chegada do dr. José Sanches (São Paulo)

14:38       46s: Jogadores gritam por ambulância

15:14        1min22s: Torcida grita pela ambulância

15:20         1min28s: Fabão (São Paulo) chega até a ambulância, estacionada na ponta direita do ataque do São Paulo, e pergunta do motorista. O veículo segue parado com as portas fechadas.

15:37        1min45s: O carro-maca leva Serginho para a ambulância

16:29       2min37s: Ainda no carro-maca, Serginho recebe oxigênio.

16:50      2min58s: A maca enfim entra na ambulância. 1min13s foi o tempo levado pelo carro-maca para percorrer pouco mais de 100 metros com o jogador Serginho. Pelo menos um minuto foi o tempo mínimo perdido pela falta de deslocamento da ambulância até o local onde estava Serginho. Bastaria uma ré para diminuir o percurso do carro-maca em cerca de 80 metros.  2min05s foi o tempo em que a ambulância esteve fechada por determinação da FPF, que impede que o motorista se encontre próximo a ela, para evitar a criação de “atritos com atletas e torcedores”…

16:56      3min04: Aparece um desfibrilador na mão de uma médica que entra na ambulância. Exatos 2min26s depois de ele poder ter sido usado pela primeira vez pelo médico do São Caetano se ele tivesse em mãos a “lancheira” – como outros médicos diziam se chamar o aparelho que raros clubes possuíam em seus jogos.

17:02     3min10s: A ambulância manobra pra tentar descer o trilho, em vez da rampa que não existe no estádio. Leva mais de 20 segundos para conseguir descer do nível do gramado.

19:30:   Jogadores dos dois times fazem roda de oração no centro do gramado do Morumbi.

18:41      Estádio inteiro grita “Serginho” por quase 15 segundos.

20:02      Quase todo o Morumbi fica em silêncio

20:25      Aplausos da torcida ao final da oração dos atletas e membros da comissão técnica.

 

Dias depois, 0 Hospital São Luiz disse que “ todos os protocolos médicos de atendimento emergencial foram seguidos” – cardiologistas apontaram falhas nas medidas adotadas ainda no gramado, um erro lamentavelmente comum.

Disse que “a ambulância estava com as portas abertas” quando chegou o carro-maca. Sim: depois de 2min05s fechada, sem motorista (que não pode ficar lá!!!), a espera de um lento carro-maca. A ambulância poderia ter se deslocado até o atleta, ou mesmo entrado em campo, para usar o desfibrilador acionado com pelo menos 2min17s de atraso.

Disse que “o desfibrilador só pode ser empregado após o primeiro diagnóstico médico”. É fato. Mas o semi-automático poderia ser utilizado segundos depois da constatação da falta de pulso. Quando o médico do São Caetano iniciou o boca-a-boca, já poderia estar usando o aparelho (se ele o tivesse -como usa o médico do Palmeiras-, se o Morumbi também tivesse).

O Hospital disse que o desfibrilador “foi usado ainda dentro da ambulância”. Ótimo. Imagine se ela tivesse entrado em campo quando iniciada a respiração boca-a-boca e a massagem no peito, 2min26s antes de Serginho de fato ter entrado na ambulância, quase três minutos antes do primeiro choque.

“Um tempo fantástico”, disse Dino Altmann, do São Luiz, chefe do atendimento nos GPs de F-1 no Brasil. Maravilhoso para um atendimento em qualquer lugar que não tenha uma ambulância. Ou pior: tenha, mas não tenha usado por falta de motorista.

* Só o São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Atlético Paranaense e Flamengo fazem exames cardíacos regularmente em seus atletas. O São Paulo há 30 anos.

* Não é possível o Hospital São Luiz considerar “normal” uma ambulância sem motorista. Nem para dar ré para ficar mais próxima do jogador caído.

* Não se culpa o São Paulo, o médico e o massagista do São Caetano, o motorista. Mas por que uma ambulância da UTI fica parada como se fosse a própria UTI do hospital?

* Responsabilidades

Serginho quis jogo. Como muitas vezes a família, os empresários, os cartolas, alguns médicos, todos querem ver o jogador jogando. Jogando futebol. Jogando a própria vida.

 

Com tanta gente tirando da reta, com outros tantos botando pimenta na tela, cada vez mais entendo que é necessário o exame cardiológico preventivo. Até para algumas pessoas saberem se têm ou não coração.

*

Não vou falar da cardiomiopatia hipertrófica assimétrica de Serginho. Não sou médico (que, dizem, pensa que é Deus); sou jornalista – que tem certeza que é. Como ser humano, é desumano imaginar alguém se arriscando tanto, tipo um cardíaco que é fumante. É livre arbítrio. Mas para evitar uma morte é preciso ser arbitrário com a vida.

*

Sou leigo. Mas não sou besta. Como todos que estiveram no Morumbi (e não aqueles que não viram tudo pela TV), me desesperei. Como a torcida, que urrou chamando a ambulância. E ela não veio. Sei que dificilmente Serginho seria salvo, mesmo com o desfibrilador. Mas e se fosse outro problema? Briga, queda de alambrado, sei lá, onde estaria o motorista da ambulância?

A FPF, sabe lá o diabo por que, proíbe o motorista de ficar na ambulância. Muito melhor, claro! Depois do que se viu, o melhor mesmo é deixá-la trancada, enquanto se espera a veloz macamóvel levar o paciente até ela. Para que pressa? Deixa…

Seria ridículo não fosse estúpido. Como se “defendeu” o São Paulo: [não deixar o motorista próximo da ambulância] é uma medida preventiva (?!) para evitar a geração de atritos com a torcida, no caso de uma celebração de gol do motorista (!?!).

Não é só o coração que mata.

Não houve negligência, imperícia, incúria, incapacidade, incompetência. Houve o imponderável. Uma fatalidade. Morreu uma pessoa de 30 anos de uma pane elétrica do coração. Nessa idade, é quase irreversível.

Mas poderia ser ressuscitado Serginho se um aparelho estivesse à mão. Algo que está há quase dois anos no gabinete do senador Tião Viana (PT-AC). Um projeto-de-lei que obriga a existência de desfibriladores semi-automáticos em eventos do porte de um jogo de futebol. Um aparelho de US$ 3 mil que pode ser operado por qualquer um.

Se estivéssemos em um mundo perfeito, um desfibrilador do tipo ficaria na mesa do representante, ao lado do quarto árbitro. Este, capacitado por um curso que, em São Paulo, dura quatro horas e custa R$ 500, sairia correndo em direção ao Serginho caído, e realizaria o que não foi feito no Morumbi.

Ou só foi realizado minutos depois, quando as chances de ressuscitação são inferiores a 20%. Não é preciso ser médico. Basta seguir as orientações que são ditadas pelo próprio aparelho. Uma engenhoca do tamanho de uma bolsa que vai ditando, por meio de uma gravação, e com desenhos facilmente inteligíveis, os procedimentos a serem adotados.

Único brasileiro a participar de um congresso de medicina esportiva da Fifa, na semana que vem, o cardiologista Nabil Ghorayeb disse, em outro encontro, há uma semana, que “precisa morrer alguém para que se tomem as providências devidas em eventos esportivos.”

Morreu. E agora?

O dr. Marco Aurélio Cunha fez o possível e quase o impossível para salvar Serginho. Os médicos de São Paulo e São Caetano também. Houvesse um desfibrilador na mesa do representante, as chances de ressuscitar Serginho seriam de 70%, desde que atendido em menos de três minutos.

Por que a ambulância estava trancada? Por que o motorista é orientado a deixá-la fechada? Por que ele é obrigado a ficar no centro médico ou na arquibancada?

Para que serve um motorista sem veículo, ou uma ambulância sem médico? E se fosse um tumulto no estádio, que não precisasse de desfibrilador, só de ambulância?

Por que não há uma rampa para a ambulância sair do estádio? Por que a ambulância não foi ao encontro de Serginho? Por que só cinco clubes realizam exames cardíacos nos atletas?

 

 

Foi assim, em 2004.

Espero que não seja mais, em 2014.