Serginho: jogo de qualquer maneira

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 14/06/1982

Serginho Chulapa pela Seleção BrasileiraSEVILHA (De Wanderley Nogueira especial para A GAZETA ESPORTIVA) – Os momentos de tensão vividos por todos que estavam no Estádio de Mairena, onde treinava a Seleção Brasileira, quando da contusão de Serginho, já foram mostrados por todos. Jogadores assustados, centenas de torcedores brasileiros envolvidos por enorme expectativa. Telê Santana gritando contra fotógrafos que queriam registrar o flagrante de Serginho caído e chorando. O médico Neylor Lasmar, trêmulo, medindo as palavras. Jornalistas e radialistas correndo de um lado para o outro em busca de informações quentes e precisas. Os espanhóis, olhando para todos os lados, querendo saber maiores detalhes sobre toda aquela correria. Quando Serginho fugiu pela porta dos fundos, o receio de que ele também estivesse fora da Copa aumentou ainda mais. Tudo isso foi escrito, dito e mostrado. As lágrimas de Serginho ao sair de campo, foram ressaltadas q que aumentou ainda mais o temor de ver a seleção perdendo mais um centro-avante.

Médico, treinador, preparador físico anunciando “somente depois de 24 horas poderemos dizer alguma coisa sobre o estado de Serginho”. Um enorme mistério foi elaborado pelos componentes da comissão técnica.

Ao chegar ao Parador Carmona, levado por um automóvel particular< Serginho já podia andar normalmente, embora estivesse calçando um chinelo e carregando numa das mãos o par de chuteiras. Foi direto para o seu apartamento e lá o massagista Paulinho – auxiliar de Nocaute Jack – iniciou um tratamento conhecido e eficiente; aplicação de uma bolsa de gelo no local atingido, o calcanhar de Aquiles.

Serginho jantou no quarto e em seguida, cansado, adormeceu. Mas ao lado dele, por muitas horas, o massagista ficou substituindo o gelo derretido por novas pedras. Os jogadores conversaram entre si sobre as contusões, mas todos demonstraram entusiasmo: “Acho que nada vai tirar aquele crioulo do primeiro jogo…”

O dia amanheceu e o local atingido pelo jogador do Alcala não estava inchado e Serginho não sentia nenhuma dor. Foi uma alegria geral. No café servido aos jogadores, foi o principal assunto e Careca fez questão de dar um apoio ao Serginho: “Levei um susto quando soube que você tinha saldo do treino…Mas você está andando bem, calçando o tênis… Ainda bem, estou torcendo por você. Quero vibrar com seus gols.”

Telê Santana, Gilberto Tim, Moraci Santana, Neylor Lasmar, Ricardo Vivacqua, Nocaute Jack, Paulinho, estavam satisfeitos pela boa disposição de Serginho, mas queriam esperar um pouco mais. No treinamento que seria realizado, mais uma vez, no Estádio Mairena. Serginho seria submetido a um teste pelo preparador físico e pelo médico.

Não treinou com bola, mas foi exigido fisicamente. Fez alongamento, foi forçado a movimentar o tornozelo e o calcanhar e nada sentiu. O doutor Neylor sorriu, Moraci Santana também, Serginho voltou a cantar baixinho os sambas que aprende na Casa Verde, um bairro de São Paulo. Foi abraçado por Sócrates, recebeu um tapa nas costas por parte de Falcão e Oscar não conseguiu resistir: “Ainda bem, negrão. Pensei que você ia deixar a gente na mão…”

Telê, Neylor e Vivacqua não conseguiam esconder o otimismo, mas mesmo assim preferia deixar para “instantes antes do jogo a confirmação de  Serginho…” Oficialmente, a dúvida permanece, entretanto, ao lado de Gilberto Tim a frase de Serginho simplesmente defina a sua escalação:

“Graças a Deus, professor, não está doendo absolutamente nada e só não jogo se me prenderem na concentração ou se o pessoal me algemar…”

Dirigindo-se para o vestiário, orientado pela comissão técnica para não falar nada, não confirmar a sua presença, para provocar preocupação nos adversários e deixar a torcida do Brasil vivendo uma enorme ansiedade, o centro-avante diria umas palavras como se fosse gravação: “Tudo bem… vamos ver… amanhã é outro dia… o doutor é que vai decidir…” Mas num dos corredores do Parador Carmona, logo após entre Bélgica e Argentina, Serginho, foi claro:

“Fiquei apavorado quando tomei o pontapé, por trás e senti o local inteiramente adormecido. Inicialmente, pensei que fosse uma fratura, depois, pensei que meu calcanhar de Aquiles tivesse sido estourado. A dor diminuiu um pouco, mas quando vi todos os jogadores formando uma rodinha e com expressões de preocupação, comecei a chorar. Foi uma mistura de dor, medo e decepção…”

Eu lutei muito para chegar a esta Copa. Cometi erros, e em determinado momento pensei que o Telê não desejasse mais contar com o meu futebol tive problemas particulares sofri expulsões, atritei com companheiros de profissão, lembrei da contusão do Careca, do corte de meu companheiro, da tristeza que ele sentia e continua sentindo. Naquele instante imaginei ficar de fora da Copa…”

“Hoje estou certo que jogarei, não sinto mais nada, quero marcar gols na União Soviética, isso não sai da minha cabeça. Descansei um pouco esta tarde e com a cabeça no travesseiro continuei pensando sobre a participação de um jogador decisivo. É uma espécie de desafio, não como deixar para outro dia.  Já pensou seu fosse tirado do time por uma contusão, um dia antes da estréia da seleção? Confesso que seria melhor nem ter viajado.”

“Mas os momentos em que eu passei naquele treino, jamais irei esquecê-lo. Foi um instante de medo. Ficou provado que ninguém deve pensar que é o dono da posição, que é insubstituível, que é intocável. Um problema físico pode liquidar ou arranhar uma carreira.”

“De que adiantaria a um jogador ter sido o mais brilhante jogador dos treinamentos da seleção, ter marcado dezenas de gols, ter sido aplaudido por companheiro de dentro e de fora, concedido centenas de entrevistas? Nada, absolutamente nada… Se ele um dia antes do jogo for vetado, será esquecido, simplesmente.”

Foi mais um capítulo escrito na vida desta seleção que começa hoje uma nova participação brasileira num Mundial, pela décima segunda vez ficou provado que o homem importante. Ficou claro que o homem é sim insubstituível. Esquemas são importantes, mas não são primordiais. No esporte tudo gira em torno do atleta.

Um pontapé desferido por um desconhecido jogador de uma equipe de terceira divisão espanhola poderia ter diminuído sensivelmente o poder de fogo da seleção do Brasil, a favorita em todas bolsas de apostas do mundo. Por muito pouco, aquele moço do Alcala, pequena cidade há 14 quilômetros do Parador de Carmona, não arrancou gols dos brasileiros. Os bons e maus momentos são feitos pelos homens e isso valoriza ainda mais a vida, a vontade de viver, de participar, de ultrapassar, obstáculos, de enfrentar emoções, de vencer, de ser forte no segundo da derrota.