Nove cartolas explicam a crise administrativa do Corinthians

Leia o post original por Perrone

Processo de impeachment contra o presidente do clube, Roberto de Andrade. Constantes atrasos nos pagamentos dos jogadores. Dificuldade para pagar a dívida pela construção de seu estádio. Orçamento de 2017 que ainda não foi aprovado. Falhas chamativas nas tentativas de contratar Drogba e Pottker. E ainda a quase escalação de Moisés, suspenso, na vitória por 1 a 0 contra a Caldense, pela Copa do Brasil, nesta quarta (8). Por que o Corinthians tem enfrentado tantas dificuldades administrativas, principalmente de origem financeira e política?

Em busca dessa resposta e também das sugestões para colocar ordem na casa, o blog ouviu nove cartolas corintianos, entre membro da atual diretoria, ex-dirigentes do mesmo grupo que está no poder e conselheiros experientes. Caos na arena, presidente ausente, interesses pessoais em primeiro lugar, sócios ocultos nos lucros do clube, gastos descontrolados, falta de transparência e um modelo de gestão baseado no toma lá, dá cá foram algumas das explicações para o conturbado momento corintiano.

Todos os entrevistados responderam a três perguntas iguais. Elas também foram enviadas à assessoria de imprensa do presidente do clube, que não enviou resposta até a publicação do post.

Abaixo, em ordem alfabética, a resposta de cada cartola.

André Luiz Oliveira, primeiro vice-presidente.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“Política: este ano é de tensão pré-eleitoral, isso é normal. Financeira: o mundo passa por dificuldades, e o clube também. Muitas empresas deixaram de investir, e as dificuldades pegaram também o maior gigante, kkkk”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“O principal problema é que nosso grupo parou de fazer política, e isso ajudou a piorar a situação!”

3 – Qual a solução?

“Ter calma, aceitar que estamos em dificuldade e fazer só o que for melhor para o clube, sem loucuras!”.

Antônio Roque Citadini, candidato à presidência do clube em 2015, quando Andrade foi eleito.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“A crise financeira não é recente. Desde que iniciou a gestão do atual grupo dirigente (Renovação e Transparência, liderado por Andrés Sanchez) optou-se por gastar em todas as áreas. Quando assumiram havia R$ 19 milhões em caixa e dívidas renegociadas. Os gastos no futebol, especialmente na base, foram descontrolados, além de alguns negócios ruins (caso de Alexandre Pato). O período pré-Copa, de grande aumento das receitas, escamoteou o crescimento das dívidas. Com a crise econômica de agora, o quadro apareceu”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“São dois problemas claros: o descontrole orçamentário com gastos por todo lado e o estádio em situação de caos”.

3 – Qual a solução?

“No clube é adotar uma política de gasto na altura das receitas. Sem isso vamos pro buraco. No estádio é renegociar tudo mas, neste caso, o atual grupo dirigente não tem a menor condição. Está há meses paralisado, sem conseguir qualquer iniciativa para solucionar o problema”.

Eduardo Ferreira, foi diretor de futebol na atual gestão, mas pediu demissão.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“Na minha visão é devido à falta de presença no dia a dia e de liderança política do Roberto (de Andrade), estranhamente, uma pessoa que mudou muito nos últimos tempos”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“Muitos grupos políticos querendo e pensando só no poder, deixando para trás o Corinthians. Estão pensando apenas em projetos pessoais, sem se preocuparem com os efeitos colaterais que estão causando”.

3 – Qual a solução?

“União entre as pessoas, entre todos os lados e que na próxima eleição apareça um nome forte para assumir o clube. E que esse nome de consenso tenha dedicação para conduzir o Corinthians”.

Fran Papaiordanou, conselheiro.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“Por causa do desgaste administrativo e político do grupo Renovação e Transparência, que está no poder há dez anos”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“Os principais são os problemas financeiros, os problemas do estádio e a falta de credibilidade dos dirigentes que estão no comando”.

3 – Qual a solução?

“Uma mudança radical na parte diretiva do clube, uma modernização na área administrativa. Por melhor que seja a próxima administração, ela vai levar alguns anos para reorganizar o Corinthians financeiramente”.

Paulo Garcia, ex-candidato à presidência.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“Temos que acabar com isso, sentar, discutir os pontos em comum, negociar os pontos divergentes e trabalhar pelo clube.”

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“Precisamos de união. Se nos unirmos rapidamente, passamos esse momento complicado. Ninguém tem a força que nossa torcida tem. Temos que estar comprometidos só com o Corinthians”.

3 – Qual a solução?

“É a união. Temos que estar juntos agora, alinhar os principais assuntos do clube, trabalhar para resolver os problemas mais imediatos. Todas as forças do clube devem ser convergentes.”

Raul Corrêa da Silva, diretor financeiro nas gestões de Andrés Sanchez e Mário Gobbi.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“Fez (e continua fazendo) grande investimento em atletas nos últimos anos em meio a uma crise política e econômica do país. (O Corinthians) se comunica mal. Os poucos diretores que falam para a imprensa querem falar sobre todas as áreas, não rebatem as críticas e nem divulgam as vitórias, que são muitas”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“A gestão. Não foi dada continuidade a um trabalho de transparência, profissionalismo e meritocracia. A diretoria precisa ter tempo para se dedicar ao clube, além de ter competentes gerentes remunerados”.

3 – Qual a solução?

“Parar de fazer investimentos, ter uma diretoria cujos membros, individualmente, teriam condições de serem presidentes, reimplantar fluxo de caixa, eliminar de imediato os boatos que apareçam e ter transparência com a Fiel e demais stakeholders (partes interessadas) para resgate da credibilidade”.

Romeu Tuma Júnior, conselheiro.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“Por ter adotado um modelo de gestão calcado no compadrio, no toma lá, dá cá, sem qualquer responsabilidade administrativa e financeira. Isso gerou o descontrole financeiro, graves irregularidades e em consequência a crise política”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“A falta de compromisso com a legalidade e com um modelo de gestão que priorize os interesses do clube em detrimento de interesses políticos e pessoais”.

3 – Qual a solução?

“Mudar radicalmente não só as pessoas que comandam o Corinthians, mas principalmente o sistema que impera há anos. Esse modelo onde não há qualquer compromisso com as leis, com procedimentos éticos e morais, em que não há planejamento estratégico, e principalmente em que os programas apresentados em campanha viram peças publicitárias, de museu. Ou seja, são esquecidas logo após o resultado das urnas. Criar uma diretoria de controle, compliance e transparência para ditar e controlar procedimentos, além, é claro, de instituir uma gestão descentralizada com a participação de sócios que se identifiquem com as especificidades das áreas, não com oportunistas.”

Rubens Gomes, conselheiro.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“A grave crise financeira acontece devido aos desmandos de um presidente que vem obedecendo a um ex-presidente, gestão por gestão.  Cada presidente que assume fala que pegou o clube na UTI. Mário Gobbi e Roberto de Andrade falaram isso. Só que eles se esquecem que fazem parte da mesma gestão e que ocuparam o mesmo cargo (diretor de futebol). Todos eles gastaram dinheiro com contratações e comissões de empresários. Em 2016, o Corinthians recebeu (cerca de) R$ 140 milhões com vendas de jogadores e ficou com (aproximadamente) R$ 70 milhões. Então, o Corinthians tem um sócio, precisamos achar esse sócio. Cada um com 50% do que entrou com a venda de jogadores. A despesa fica só com o Corinthians.

A crise política acontece porque quem saiu da cadeira continua querendo dar ordens no clube. No caso, o ex-presidente Andrés Sanchez. Ele deu ordem pro Mário Gobbi e pro Roberto. Gobbi não fala mais com Andrés, e o Roberto está indo pro mesmo caminho. Então, ele sai do poder e quer continuar mandando. Se não fosse ele, nenhum dos dois teria sido eleito. O clube não tem dinheiro, não consegue fazer o que ele (Andrés) pede, e entra em crise política porque ele fica o tempo inteiro ameaçando o presidente (Nota: Andrés não foi ouvido porque não fala com o blog). É aquele caso de, se você não deixar eu jogar, levo a bola pra casa”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“É que cada um que senta na cadeira esquece que faz parte do mesmo grupo político, da mesma gestão, e diz que o clube está quebrado. Eles estão há muitos anos no poder. De Renovação e Transparência não tem nada”.

3 – Qual a solução?

“É estancar essa sangria que vem em abundância. Trazer o clube de volta para o Corinthians, pois, na verdade, o Corinthians está cheio de sócios que não conhecemos. Eles dividem o lucro e o clube fica com as despesas. Precisamos fechar essa torneira, fazer uma administração equilibrada, trazer as categorias de base 100% pro Corinthians, porque é aí que o clube vai ter lucro e parar de pagar comissões astronômicas. Daí vamos parar de ver toda hora o clube ameaçado por empresário de tirar jogador”.

Tomas Lico Martins, conselheiro.

1 – Na sua opinião, por que o Corinthians enfrenta graves crises financeira e política?

“A atual gestão convive com vícios administrativos decorrentes do longo período em que este grupo político está no poder. Entenda por vícios administrativos erros, incompetência e desonestidade”.

2 – Qual o principal problema do Corinthians hoje?

“O principal problema é a reformulação da gestão, tornando-a mais independente dos movimentos políticos internos”.

3 – Qual a solução?

“A gestão deve seguir o exemplo das grandes empresas da iniciativa privada: seleção de executivos no mercado, com comprovação de capacidade e experiência, e assessoria de empresas especializadas em reengenharia e aperfeiçoamento de gestão”.