Santos não merecia perder

Leia o post original por Odir Cunha


Cheque os melhores momentos e confira se o Santos merecia perder

eu e Marcos Eu e meu irmão Marcos: vendo o mesmo jogo, 50 anos depois.

Em outubro de 1968 eu e meu irmão Marcos fomos ao estádio pela primeira vez. Eu tinha 16, ele 12. Fomos ao Morumbi ver o Santos de Pelé contra o Cruzeiro de Tostão, dois dos melhores times do mundo. O Santos venceu por 2 a 0 e caminhou para o seu sexto título brasileiro. Eu e meu irmão guardamos na memória as imagens daquele confronto fantástico. Ontem fiz questão de levá-lo ao Pacaembu para comemorarmos o cinquentenário de nossa primeira vez, vendo o mesmo jogo, agora em uma época em que o futebol brasileiro já não domina o mundo.

Ponderado, Marcos achou que o jogo poderia pender para um lado ou para o outro, dependendo do aproveitamento das oportunidades. O Santos teve, no mínimo, três chances muito boas: com Gabriel, que penetrou sozinho e mostrou mais uma vez que não sabe chutar com o pé direito; com Bruno Henrique, que também arrancou livre na sua primeira jogada ao entrar no segundo tempo; e com o mesmo Bruno Henrique, ao corajosamente enfiar a cabeça quase na chuteira do adversário e jogar a bola rente à trave.

No todo, o Cruzeiro é um time mais bem postado, que toca melhor a bola, mas o Santos parecia querer um pouquinho mais a vitória. Tanto, que Jair Ventura tirou Diego Pituca, o que melhor marcava no meio campo, para colocar Bruno Henrique. Aí ele decidiu ir para o tudo ou nada e o pontinho do empate virou nada. A lógica seria tirar Rodrygo, muito errático desde que surgiu o interesse do Barcelona.

Nas duas últimas partidas o garoto não foi nem sombra do que pode ser. É compreensível. A possibilidade de se tornar um milionário da noite para o dia, além de jogar em um grande europeu, deve mexer com a cabeça de qualquer um. Porém, espero que as pessoas que o cercam tenham a calma e a sabedoria de orientá-lo a, antes de tudo, voltar a jogar um bom futebol vestindo a camisa do Santos, o que tem deixado de fazer.

Com Pituca o Santos manteria o meio campo mais sólido e provavelmente sairia ao menos com o empate. Jair foi ousado, mas a ousadia custou caro. Em um escanteio, a bola foi ralada para trás e um cruzeirense saltou às costas de Dodô para fazer o único gol da partida. O Santos ainda tentou o empate até o final, em vão. Não é a quantidade de atacantes que torna uma equipe mais ofensiva. Já escrevi sobre isso dias atrás.

De qualquer forma, no todo o Santos foi bem e não merecia sair derrotado do Pacaembu que, mesmo com a falta de combustível na cidade, recebeu mais de 10 mil pessoas. Voltei com o pessoal no metrô e o pai de uma família santista veio me cobrar, dizendo que assim não dá e tenho de fazer alguma coisa, pois faço parte da diretoria. Não deu tempo de explicar a ele que não decido sobre o futebol, mas tudo bem. Reconheço a tristeza do torcedor, pois eu e o Marcos também fomos embora de cabeça inchada. O torcedor comum, como eu próprio, sempre me respeitou, como eu o respeito. Só os paus mandados que perderam suas boquinhas ou que querem privilégios é que armam arapucas contra nós, geralmente após as derrotas.

Derrotas que fazem parte e que devem ser recebidas sem medo. São lições a serem aprendidas. Um dia o técnico trocará um jogador do meio por um atacante, este fará o gol da vitória e sairemos radiantes com a genialidade do nosso professor. Assim é o mundo emocionante, instável e às vezes amargo do futebol. O importante, porém, é que dias melhores virão e o Santos, todos nós sabemos, jamais cairá.

Sei que ver o Santos perder dá vontade de xingar meio mundo, mandar muitos para aquele lugar, soltar o verbo. Mas não apele para palavras de baixo calão neste blog, ou será sua última participação entre nós. Abraço!

E você, o que acha disso?