Amigos

Leia o post original por André Kfouri

A definição mais inteligente sobre o “novo” Maracanã talvez seja de João Máximo, dita ao jornalista Paulo Vinicius Coelho, logo após a última reinauguração do estádio que de certa forma simboliza o futebol brasileiro. Referindo-se apenas ao que sentiu ao conhecer a versão atual, entregue em 2013, Máximo, que também esteve no jogo inaugural há sessenta e oito anos, simplesmente externou que tinha ganhado “um novo amigo”. Enquanto se lamentava a descaracterização, o custo astronômico, os indícios – comprovados mais tarde – de corrupção, a escolha de João Máximo foi motivada pela íntima relação com o jogo de futebol e as sensações que ele provoca.

Desde então, o Maracanã recebeu todo tipo de mau trato. Abandono, rejeição, ganância e a mais pura burrice. O que é ainda mais grave, considerando a transformação pela qual passou a propósito da Copa do Mundo de 2014. Mas o sentimento de “ganhar um novo amigo” se renova quando as coisas conspiram para uma tarde de feriado nacional, com futebol, e as providências acertadas são tomadas para que as pessoas queiram e possam ir ao Maracanã. E uma vez lá, preencham o estádio da personalidade que se tornou famosa, tomem parte do espetáculo que não existe sem elas e, de fato, colaborem para que o resultado final seja aquele que esperavam.

O que se viu durante a vitória do Flamengo sobre o Bahia foi uma janela para o que o Campeonato Brasileiro deveria ser, não só em uma tarde de Corpus Christi, mas com a frequência que a importância do futebol no país justifica. E é evidente que a torcida do Flamengo acrescenta um caráter especial ao ambiente, o que enfatiza a exceção. Quem acompanha futebol se desacostumou a ver o Maracanã com cinquenta mil pessoas, e é justamente por isso que as imagens de anteontem sugerem algo ficcional. É curioso relacioná-las ao treino aberto que houve ali, em abril, na véspera do jogo contra o Santa Fe. No dia seguinte, o encontro foi realizado com portões fechados, como punição pela noite em que mais de sessenta mil foram ver a final da Copa Sul-Americana e inúmeras falhas de organização ocorreram.

A questão da utilização do Maracanã obviamente é apenas mais uma, mas é complexa e triste a ponto de merecer destaque. Quando o normal passa a ser o impasse e a política de preços que resulta em espaço vazio, eventos como Flamengo x Bahia exibem o quanto se perde em tantos aspectos, especialmente naquele que é a vocação de um lugar, continuamente desrespeitada, que um dia resolve se apresentar para realçar a própria ausência. Sem falar no impacto da conexão torcedor-jogador nos destinos da partida e na própria experiência de quem está em campo, algo que se pode comprovar ao ouvir jogadores após esse tipo de ocasião.

Após o jogo, Vinícius Júnior foi visto na fronteira entre o gramado e as cadeiras, abraçado e fotografado por torcedores que muito provavelmente não poderão fazê-lo de novo. O jovem astro logo estará longe, e ir ao Maracanã se tornou uma proposta complicada. Só havia sorrisos ali, dele e deles, em um momento de legítima felicidade que remete à frase de João Máximo. Não há explicação para que novos amigos deixem de ser feitos em tardes e noites de futebol no Maracanã.

PRESENTE

É assustador pensar que Roger Machado pode ter seu trabalho interrompido no Palmeiras se perder o clássico de logo mais para o São Paulo. Se não fosse o histórico – e o resultado – das mudanças de técnicos no ano passado, a própria situação do rival deveria ser suficiente para que Roger recebesse suporte. Ou então as pessoas que tomam decisões no Palmeiras admiram a linha de pensamento de “trazer qualquer um”.

FUTURO

De tudo o que Zinedine Zidane não disse, e se diz a respeito de sua saída repentina do Real Madrid, o mais interessante é o que ele fará quando retornar ao futebol. Está claro que, assim como quando jogava, Zidane é diferente.

O post Amigos apareceu primeiro em Blog André Kfouri.