O Fla-Flu 10 anos antes de tudo

Leia o post original por Mauro Beting

Véspera do Fla-Flu semifinal. Eles não conseguem dormir. Pressão da torcida, como sempre, muito grande. A imprensa cada vez tem menos paciência. Se nos primeiros cinco jogos não ganhar quatro, corneta sobre treinador e pedido de mais reforços estelares.

Esquecendo que muitas vezes o craque o Flamengo faz em casa. Não mais na terra da Gávea, mas no Ninho do Urubu.

Onde cresceram esses meninos vencedores como o Flamengo. Sonhadores como o time de Zico, Júnior, Leandro, Tita, Adílio, Andrade, Mozer, Nunes. Todos rubro-negros de 1981-82. O melhor Flamengo que vi. Minto. O melhor time que vi no Brasil. Não é mito. É fato. É Zico. Todos eles com berço no clube.

Essa geração também é boa. Madura, leva o Flamengo a disputar tudo. Como favoritos. Não “porque deixaram chegar” o Flamengo. Porque eles chegaram ao Flamengo ainda meninos. Como Christian, goleiro de seleção desde o Sub-15, e seu reserva catarinense Bernardo. Samuel, lateral-direito, veio da Baixada, de São João de Meriti. Arthur, zagueiro, com nome de Zico que veio do interior do Rio como Leandro, e seu companheiro de retaguarda Pablo, primo de Werley que foi Vasco. O volante Jorge, mineiro como o cabeça de craque Andrade multicampeão de campo e banco, justo da mesma cidade (Além Paraíba) de onde veio Cantarele, goleiro reserva daquele timaço dos 70-80. Rykelmo também é volante. O nome inspirado no craque argentino Riquelme. Os atacantes Vítor, catarinense como o Lico de 1981, e Athila, sergipano como Nunes, o João Danado do Japão de 1981, goleador da mesma escolinha de Diego Costa, em Lagarto. Gedson é outro bom atacante. Natural de Itararé. Cidade famosa pela batalha que não houve na Revolução de 1930. Aquela que se esperava muito. E não aconteceu.

Eles não conseguem dormir nessa madrugada quente de fevereiro. Nenhum deles. Eles se encontram no salão da concentração. Altas horas. Sem fazer barulho pra não acordar o técnico. Eles se perguntam rindo o que cada um está aprontando. Todos dizem que não sabem. Mas todos acordaram cedo. Algo mandou que saíssem das camas e se juntassem com os colegas naquele 8 de fevereiro de 2029.

Já são mais de 10 anos que convivem desde os alojamentos do Ninho. De lá pra cá só orgulharam os pais com o que conquistaram. Com tudo que abdicaram desde jovens para ganhar.

Para vencer, muitas vezes é preciso perder. Ou deixar de ganhar em outros campos.

No final das contas, todos venceram. E vão ganhar muito mais pelo Flamengo. Sonho de meninos que virou adulta realidade.

Christian brinca, como sempre. “Acho que estamos vivendo aquela entrevista que dei pro F4L no YouTube, em 2018, mandando recado pra mim 10 anos depois. Chegou a hora. E deu tudo certo”!”. Ele se emociona relembrando, dedicando, como fizera ainda adolescente, para a avó que ele sabia que estava torcendo demais por ele. Embora ele não pudesse saber como e onde.

Todos riem. Christian combina a tradicional ovada de 9 de fevereiro no aniversariante Arthur. Mas, de fato, não sabem porque estão todos juntos naquela madrugada. Como se pra sempre irmanados mais do que como colegas de ofício e de paixão.

Como não sabemos um monte de coisa.

Eles não dão bola. Só agradecem por tudo que a vida deu a eles e às famílias que tanto eles defenderam desde crianças.

Eles fizeram por merecer. Parece um sonho.

Todos vão dormir. E a gente continua sonhando com esse Fla-Flu de 2029. E mais ainda pelos pais que não foram. Mas que sempre serão os que mais torceram.

Para Nelson Rodrigues, o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. Este, 10 anos antes de tudo.