R.G.

Leia o post original por André Kfouri

“Diga-me seu nome e te direi quem és”, afirmou César Luis Menotti em uma entrevista em 2012. O cérebro futebolístico argentino, hoje reconduzido a uma função ativa na associação de futebol de seu país, falava sobre as armadilhas embutidas nos sistemas de jogo, especialmente a respeito da figura do “doble cinco”; o uso de dois jogadores de meio de campo comprometidos quase exclusivamente com a marcação, fetiche de treinadores especializados em aspectos defensivos. Ocorre que futebolistas são mais do que apenas números, de modo que é fundamental saber de quem se trata para entender o que se pretende. “Se você diz ‘doble cinco’ e os ‘cinco’ são Riquelme e Messi, não são os ‘cinco’ que [normalmente] querem para essa função”, explicou Menotti.

Na mesma entrevista, ele prosseguiu: “Uma vez fui dar uma palestra e um rapaz me perguntou de qual sistema eu gostava mais. Respondi que era o 4-5-1 e se fez um tremendo silêncio. Um outro rapaz levantou a mão e disse ‘César, é muito defensivo’. Respondi ‘Te parece? Agora vou nomear os cinco: Gérson, Clodoaldo, Pelé, Rivellino e Tostão…”. Com o devido pedido de licença para parafrasear, “diga-me quem joga em seu meio de campo e te direi quem és” talvez funcione melhor, o que nos conduz à escalação da seleção brasileira para o amistoso de hoje contra o Panamá. A segunda linha de quatro jogadores deverá ser formada por Richarlison e Philippe Coutinho abertos (ambos treinaram dos dois lados, embora obviamente o corredor esquerdo seja o território de Neymar, indisponível), com Lucas Paquetá e Arthur trabalhando por dentro. Os jovens do Milan e do Barcelona se associarão a Casemiro – como o “um” à frente da defesa e antes do meio de campo – nas funções de proteção e construção.

Considerando o trio de meio-campistas, a reunião de jogadores talentosos e tecnicamente privilegiados permite a projeção de qualidade neste setor por um longo tempo. Casemiro (27 anos), capitão neste sábado, tem ao menos mais uma Copa do Mundo em seu horizonte pessoal. Paquetá (21) e Arthur (22) são tão jovens e tão promissores que podem atravessar carreiras inteiras a serviço da seleção brasileira. As interações entre esses jogadores e a forma como influirão no desempenho coletivo do time provavelmente são os aspectos mais interessantes a serem observados no amistoso no Porto, mesmo levando em conta a fragilidade do adversário. Eles determinarão como a equipe se orientará ofensivamente, conforme características próprias e acomodando as virtudes dos demais no processo de reconstrução do modo de atacar que Tite pretende implantar até a Copa América. Num contexto complementar, o retorno de Coutinho ao lado do campo – fora do embate mais bruto no qual ele realmente sente dificuldades – pode contribuir para o resgate do jogo e da confiança de um futebolista capaz de desequilibrar encontros.

“Meu ponto de vista de futebol sempre foi o do passe ser a maior característica que um meio-campista precisava ter para chegarmos com a bola trabalhada da defesa até o ataque”, disse Arthur, nesta semana, em conversa com o jornalista Alexandre Lozetti (globoesporte.com). A aparição do ex-gremista como gerador de jogo na seleção brasileira tem potencial extremamente relevante, especialmente se seu desenvolvimento evoluir para uma atuação decisiva na região próxima ao gol adversário, como faziam os jogadores que serviram de modelos para um Arthur ainda criança. “Me encantava a maneira como Xavi e Iniesta recebiam a bola e giravam com facilidade (…) e como acertavam os passes entre as linhas”, contou o camisa 8 do Barcelona, na mesma entrevista, antes de explicar como chutava a bola no portão de sua casa e girava para recebê-la de volta com um toque só. No meio de campo da seleção, Arthur estará bem acompanhado por nomes que Menotti certamente gostaria de mencionar.

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