Zeroazerismo

Leia o post original por André Kfouri

Há um motivo para comemorar algo neste fim de semana, mesmo que o seu time não esteja na final estadual ou, pior, que seja o derrotado na decisão do troféu: o Campeonato Brasileiro começa no próximo sábado. Está perto, finalmente, a primeira de trinta e oito rodadas da mais importante disputa futebolística do país, uma competição regida pelo formato mais simples, que, em dezembro, coroará a equipe mais competente. Não se pode desejar um processo melhor do que este, pela óbvia razão de não existir. Ou melhor, existe, sim: erros de arbitragem que aparecem no resultado de partidas e desequilibram o balanço de forças do campeonato poderão ser identificados e corrigidos pelo árbitro de vídeo, uma novidade da edição de 2019 em todos os jogos. A neurose instalada pelas primeiras utilizações do VAR no futebol brasileiro alcançará níveis ainda mais preocupantes, mas, como se deu em países com maior experiência no assunto (onde, não por acaso, a aprovação popular ao sistema registra números indiscutíveis), a tendência é a melhora que decorre da prática.

A propósito, as atualizações mais recentes das regras do jogo de futebol entrarão em vigor desde a primeira rodada do Campeonato Brasileiro em suas quatro divisões, como informou Leonardo Gaciba, novo chefe de arbitragem da CBF. A medida evitará que a competição seja prejudicada pelo calendário nacional, que insiste no conflito com os lugares do mundo onde o jogo é tão importante quanto no Brasil. As novas orientações devem ser aplicadas a partir do dia primeiro de junho, para que a próxima temporada europeia se inicie em conformidade com as mudanças. O Campeonato Brasileiro estará em andamento e incorreria num dilema inconcebível: regras diferentes em operação entre o início e o final. O ajuste, uma obviedade, não suaviza a sensação de que os rumos do jogo são decididos como se o futebol por aqui fosse invisível, uma incoerência que se deve à cartolagem que sustenta interesses inexplicáveis como, por exemplo, a existência das federações estaduais.

A dificuldade é tamanha que 2020 será, e ainda custa crer, o ano em que o Brasil descobriu a data Fifa. O novo comando da CBF anunciou modificações no calendário de competições, que, com muito esforço e compreensão, retirarão duas datas dos torneios estaduais no ano que vem. Serão dezesseis rodadas do que se tem visto anualmente, com times em formação e futebol quase sempre sofrível, sem possibilidade de uma pré-temporada que mereça esse nome. Dezesseis! E deve se considerar um avanço, desde que os cartórios estaduais do futebol aceitem essa “nova era”. A realização de jogos da Copa Libertadores e da Copa Sul-americana nas mesmas semanas ainda colaborará para que, quem sabe, torcedores brasileiros não recebam a convocação de jogadores de seus clubes como uma notícia ruim, e o técnico da seleção não seja alvo das críticas que devem ser endereçadas aos responsáveis pelo problema.

Mas este é um cenário, ainda hipotético, que está um ano adiante. Hoje, o que se tem é o encerramento de mais uma página dos estaduais, caracterizada, como ficou evidente em São Paulo e no Rio Grande do Sul, pela “doença do zeroazerismo”. Como recurso de competição – e de sobrevivência, em vários casos – num contexto de rivalidade insana, além de fútil, técnicos que lidam com dificuldades ignoradas pela opinião pública preparam seus times para lutar e prevalecer, não para jogar e vencer. O que deveria ser um meio no desenvolvimento de equipes para o que de fato importa, converte-se em um fim agônico, às vezes melancólico, em busca de um objetivo inflado por falsas recompensas, de uma alegria que não está ali. As finais, ao menos, são um final. O próximo sábado trará um novo recomeço.

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