Viva o Palhaço

Leia o post original por Flavio Prado

O texto que segue NÃO é meu. É de Marcio Libar, que se auto denomina PALHAÇO e foi escrito para o site globo.com . Considerei tão sensacional, que me atrevi a publicá-lo aqui, sem ter solicitado, nem ao site e nem ao autor. Mas entendam como uma homenagem. Gostaria de tê-lo escrito. Ouvi tanta palhaçada sobre o caso, que me senti redimido quando li as palavras do palhaço. Então copiando a ideia central dele e em cima de tantas opiniões passionais e donas da verdade me pergunto: quem é o palhaço?

Por Marcio Libar

Palhaço

Para tentar entender a polêmica reação de Neymar, cabe um certo enfoque psicológico. Nosso cérebro límbico – responsável basicamente por controlar as emoções e as funções de aprendizado e de memória – se forma durante a infância e volta a se manifestar com toda a força na adolescência.

Emoções primitivas como raiva, medo, tristeza – que surgem diante da experiência de frustração, da ameaça à sobrevivência ou da supressão do prazer – são muito expressivas nessas duas fases da vida em que nosso cérebro ainda se encontra em processo de formação. A forma como os pais lidam com essa fase formará a base de nossas crenças e determinará o tipo de comportamento que teremos na fase adulta.

É comum ver crianças abrindo o berreiro quando sentem fome, frio ou quando são obrigados a sair da cama, a parar de brincar para tomar banho ou ir à escola. Ou seja, sempre que experimentam uma sensação de desprazer. Também é comum ver adolescentes se rebelando contra os pais, a escola e o sistema. Por incrível que possa parecer, isso é sinal de sanidade mental.

A família, os cuidadores e o ambiente completam a formação da personalidade. E caso este indivíduo, nos momentos de crise, tenha sido acolhido, compreendido e aceito – caso não tenha sofrido nenhum trauma ou fato catalisador – tenderá a ser o que chamo de adulto saudável.

Há trinta anos venho desenvolvendo um trabalho de autoconhecimento através da arte do palhaço que me possibilitou observar mais de 20 mil pessoas. Durante o processo, criei um método que me permite avaliar os padrões de comportamento, hábitos e esquemas humanos com bastante precisão.

A experiência mostra que quando por algum motivo essas fases não são devidamente vivenciadas, seja por alguma disfunção familiar ou circunstâncias aleatórias, esses comportamentos podem se manifestar tardiamente em outras fases da vida gerando um distúrbio que chamamos popularmente de comportamento infantil ou comportamento adolescente.

Tudo isso para falar de Neymar, que desde a tenra infância sofre a pressão para ser o melhor de todos e que, apesar do seu talento natural, deveria ainda treinar mais do que os outros para atingir o maior objetivo de todos os jogadores de futebol no Brasil: a independência financeira da família. Tudo isso sendo “orientado” pelo pai. Nesse sentido, o moleque foi bem obediente e entregou o que se esperava dele.

Por conta das expectativas impostas e das exigências inerentes à profissão, o atleta não pôde vivenciar cada fase de sua formação neural cognitiva e emocional. Seu cérebro automático, assim que percebeu que sua sobrevivência não estava mais ameaçada, se viu no direito de vivenciar tudo aquilo que não lhe foi permitido expressar para que sua meta tivesse o êxito esperado, ou seja, manifestar livremente sua raiva, frustração e rebeldia recalcadas na infância e na adolescência.

Então, o grande atleta, o craque, o mais veloz, o maior driblador o maior finalizador, a esperança do novo herói brasileiro… quebrou no aspecto mental e emocional, para a ira de uma multidão sedenta por sangue. Pois a multidão não admite que um homem rico e famoso se comporte como uma criança mimada.

Quando as críticas recaem sobre o mau comportamento de Neymar, estamos ignorando, por exemplo, que um direito básico da infância foi violado: o direito de brincar, que, ao lado de estudar, formam os direitos fundamentais de uma criança.

É na brincadeira que a criança percebe possibilidades e limites, que há risco e perigo na diversão, e aprende a lidar com medos e frustrações. É brincando que a criança desenha e projeta seus sonhos, não importando se serão ou não possíveis de realizar. A criança brinca por uma necessidade de experimentar o mundo e não para chegar a um fim. Neymar sempre esteve focado em um objetivo, um norte muito claro e pobre em possibilidades. Só havia dois caminhos possíveis: o da vitória ou o do fracasso. O craque venceu mas perdeu a chance de vivenciar o rico processo de descobertas por conta própria.

Diante das dificuldades financeiras presenciadas na infância vendo o sacrifício do pai para alimentar a família, Neymar Junior (como todas as crianças nessa condição) trocou suas horas de brincadeiras infantis pra trabalhar, viver, realizar o sonho de Neymar Pai, e não há nenhum pecado nisso. Afinal de contas, não faz nenhum sentido agora jogar a culpa no pai.

Se tivermos que atribuir alguma culpa, talvez o mais coerente seja olhar para nossa desigualdade social que compromete tantos talentos e o futuro de milhões de crianças e jovens. Estamos tão acostumados a ver os direitos à infância serem sacrificados que parece racional e natural acreditar que Neymar não tenha o direito de ser imaturo ou “mal educado”.

Pergunto: qual craque brasileiro que tenha brilhado nos campos do mundo foi de fato um atleta focado ao ponto de ganhar quatro ou cinco Bolas de Ouro como Messi ou Cristiano Ronaldo? Quantos destes vieram da pobreza e assim que se viram milionários tiraram o pé do acelerador da performance para se dedicar a uma vida mais boêmia, menos responsável, menos atlética para, enfim, curtir a vida? Enquanto o futebol for a única esperança de êxito social para os jovens pobres no Brasil, nós nunca teremos um jogador com cinco Bolas de Ouro. Nessas horas, anestesiados pela indignação (e inveja?), somos capazes de assistir passivamente à violação de direitos à infância e à adolescência sem qualquer ressalva.

Ignoramos o quanto essa profissão que tem a relação candidato/vaga mais injusta de todas, na qual pouquíssimos atletas têm apoio, educação, estrutura familiar e vocação pra aguentar o perrengue, pode representar a única chance de tirar toda uma família da miséria. Esquecemos que essa esperança imensa está depositada nos ainda frágeis ombros de um menino. Confesso que a falta de empatia e compaixão,nesse caso, causa-me espanto.

Aí, quando chega a hora em que um desses jovens corresponde a toda essa expectativa, chega ao topo e, pelos motivos que descrevi, quebra emocionalmente como Neymar nós o chamamos de menino mimado? Como assim? Porque ele não virou o super-herói virtuoso que nós idealizamos? Ficamos “boladinhos” porque ele é rico e famoso e por isso não tem o direito de agir assim com a gente, de nos decepcionar? Quem de verdade está sendo o mimado aqui, Neymar ou aqueles que o julgam?

O “distúrbio emocional” de Neymar revela um comportamento que talvez seja o maior distúrbio psíquico de nossa sociedade atual, na qual falar mal e achincalhar aqueles que obtêm êxito pessoal e profissional parece ter o poder de fazer com que nos sintamos melhores e superiores.