Retorno

Leia o post original por André Kfouri

Mais do que vencer sem Neymar, jogar sem Neymar foi o crédito valioso para a seleção brasileira na Copa América. O troféu – obrigatório para muitas opiniões, embora o futebol não reconheça esse termo – legitima a campanha para a sequência do trabalho até a Copa do Mundo, mas, com a permanência de Tite praticamente assegurada, o que importa de verdade é o funcionamento do time a partir do momento em que seu principal jogador retornar. Onde Neymar jogará no ambiente clubístico é um tema nauseante que ocupará o noticiário incessantemente até uma decisão ser tomada. Sua volta à seleção brasileira, porém, é uma simples questão de tempo.

A formação do trio ofensivo com Gabriel Jesus, Roberto Firmino e Everton, no jogo contra o Peru em São Paulo, pode ser identificada como o clique que viabilizou a maneira de atuar que Tite enxergava. E enquanto as preocupações mais urgentes eram com o ataque, o olhar da comissão técnica se concentrava em uma etapa anterior: a recuperação da bola. Nenhum time de elite do futebol de hoje trabalha sem alguma forma de pressão no campo do adversário, o que exige o compromisso de todos os jogadores. A sequência do 2 x 1 no Maracanã ilustra como a seleção aplica essa necessidade. Carrinho de Firmino, condução de Arthur, diagonal e gol de Gabriel Jesus. Considerando o bônus por ter Phillipe Coutinho mais centralizado e menos preocupado com o embate defensivo, esse desenho impõe uma questão sobre o encaixe de Neymar.

O assunto, por óbvio, não é Neymar ou Everton. Embora a contribuição do atacante gremista tenha sido enorme, essa comparação sobrevive apenas na mente de quem não consegue distanciar Neymar Júnior, fonte inesgotável de decisões equivocadas e removidas da realidade, do futebolista que ele é capaz de ser. Erra, também, quem entende que sua ausência no título da Copa América o força a rever sua postura e entender que “é mais um”. O efeito da conquista está do outro lado: o cacife da comissão técnica para mostrar a Neymar que se trata de uma questão de jogo, não de egos ou tratamento. Ao que parece, o retorno ao Barcelona depende de uma redução salarial suficiente para ser compreendida como a admissão de um erro. O retorno ao Brasil depende de condições físicas e de disposição para exercer um papel em campo.

Esse papel pode não ser o que foi ocupado por Everton, porque a capacidade de Neymar oferece outras leituras. Ao mesmo tempo, também não pode representar um obstáculo, ou até um impedimento, para que a equipe atue em seu melhor nível.

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