Ideal

Leia o post original por André Kfouri

“É minha contratação mais completa, a que reúne todos os passos: jogador jovem, desconhecido e barato. Se adapta, ganha e o vendemos por muito. Uma operação ideal. É um modelo dificilmente repetível, mas com método é possível ter os ingredientes para cozinhar algo similar”. Assim o ex-goleiro Ramón Rodríguez Verdejo, famoso no mundo do futebol como Monchi, descreve a contratação de Daniel Alves, em 2003. A história ocupa um capítulo do livro “El Método Monchi”, um manual sobre o trabalho de diretor esportivo no futebol, cargo que Monchi ocupava no Sevilla – para onde voltou após um curto período na Roma – quando fisgou o lateral brasileiro do Bahia.

Antonio Fernández, o olheiro enviado por Monchi ao Campeonato Sul-Americano Sub-20 realizado naquele ano no Uruguai, conta no livro quais foram os comentários que fez a seu chefe, após observar Daniel em campo: “Imediatamente liguei para Monchi para dizer que havia um futebolista de dezoito anos que era um canhão, que já era um jogador internacional embora ainda jogasse na segunda divisão brasileira, que não iria custar uma fortuna porque não estava numa equipe grande. Transmiti a ele que era um jogador diferente, com muita personalidade e que oferecia múltiplas soluções ao ataque desde a posição de lateral direito. Tinha a alegria dos laterais brasileiros, mas às vezes pensava como um ‘dez’ puro”. A análise, perfeitamente aplicável dezesseis anos mais tarde, foi definitiva para fechar a transação pelo valor de quatrocentos mil euros.

Quando o Sevilla vendeu Daniel Alves para o Barcelona por noventa vezes o montante investido, em 2008, não imaginava estar se desfazendo do jogador que viria a ser o maior vencedor de títulos da história do futebol. A maioria dos troféus de sua coleção pessoal foi conquistada no período em que ele atuou como sócio de Lionel Messi no clube da Catalunha. Além da prataria, Daniel pode se orgulhar por ter sido peça fundamental de um dos melhores – se não o melhor – times que jamais praticaram este jogo, o chamado BarçaPep. Suas digitais são visíveis no funcionamento da equipe que sepultou a ideia de que não se pode vencer com futebol encantador, uma honra muito maior do que a decepção pela forma como foi tratado durante seu último contrato no Camp Nou.

É de Sid Lowe, colunista do diário britânico The Guardian, provavelmente a mais precisa definição de Daniel Alves como futebolista: “eu diria que Dani Alves é o melhor lateral direito que já vi, se ‘lateral direito’ não fosse uma descrição tão inadequada”, escreveu em sua conta no Twitter, em 2015. Marcelo Bielsa, em palestra na sede da CBF, em 2017, referiu-se a ele – e a Marcelo – como um “atacante disfarçado de lateral”. Tite deu a ele a chave do ataque da seleção brasileira na última Copa América, e Daniel respondeu com as melhores atuações individuais do torneio, aos trinta e seis anos e recém-recuperado de uma lesão nos ligamentos do joelho.

O que é verdadeiramente impressionante a respeito de Daniel Alves não é uma sala com quarenta taças, mas o fato de ser um jogador com vaga na elite da elite de sua profissão com a idade que tem. Não fizesse questão de um contrato de no mínimo duas temporadas, ele provavelmente estaria na Juventus, ou na Internazionale, ganhando algo entre sete e oito milhões de euros. Por desejo pessoal, ele se junta a Filipe Luís – por coincidência, os dois laterais titulares da seleção – ao oferecer nível europeu ao futebol brasileiro, em movimentos extremamente valiosos para o jogo que se joga aqui. Se as coisas andarem no São Paulo como andaram desde o garimpo do Sevilla, Monchi terá ainda mais motivos para falar sobre sua operação ideal.

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