Distinto

Leia o post original por André Kfouri

Nas ondas do rádio paulistano num final de noite, ouve-se uma das incoerências mais frequentemente repetidas quando o assunto é Jorge Sampaoli. “Não inventou o futebol, não trouxe nada de novo, mas…”, vaticina a voz desconhecida – o horário era incomum, o volume estava baixo – em suposta análise do trabalho do técnico que lidera o Campeonato Brasileiro não apenas somando mais pontos, mas apresentando um tipo de futebol diferente dos demais. O elogio parcial é sempre uma opção arriscada, pois deixa no ar a dúvida sobre a intenção e parece produto de uma obrigação que não existe. Pior ainda quando o argumento não fica em pé.

A parte sobre “inventar o futebol” é uma figura que pretende esclarecer o que não precisa ser esclarecido: não há uma revolução em curso no futebol brasileiro sob as ordens de um treinador argentino com sete meses de trabalho (a última revolução no jogo se deu há pouco mais de uma década em Barcelona, e, como as anteriores, não introduziu elementos inéditos, mas releituras de conceitos conhecidos, evidenciando o caráter cíclico do futebol). Ocorre que a hipérbole também é uma espécie de julgamento, pois supõe, ou faz supor, que Sampaoli tinha/tem o desejo de revolucionar. Um pensamento que não passa pela mente de um técnico que apenas, e isso já é muito, está determinado a fazer seu time jogar da maneira que sente.

O equívoco mais grave está na negação do novo, uma vertente da resposta-padrão de alguns treinadores brasileiros, não todos, cuja última versão foi oferecida por Vanderlei Luxemburgo, em entrevista ao SporTV: “É legal essa troca, mas não tem ensinamento”. Primeiro, novidade não é sinônimo de lição. Até se compreende a reação do ego à sugestão de que Sampaoli esteja lecionando futebol aos técnicos – aos observadores, torcedores, jornalistas, ex-jogadores, futuros treinadores… – locais, como se todos fossem juvenis na própria profissão. Mas, na frieza do idioma, como existe método envolvido, é bem provável que haja mesmo algo a aprender. E perde tempo quem não presta atenção. Quanto ao que aqui se descreve como “novidade”, talvez seja mais apropriado escrever “distinção”.

Porque é isso. O Santos é muito diferente da grande maioria da concorrência na forma como faz as coisas, e isso fica escandalosamente evidente na comparação direta. Considerando que o processo ainda não tem uma temporada de vida, é necessário ao menos esboçar alguma curiosidade sobre o que Sampaoli aplica no campo de treinamentos. Essa não é uma tarefa para “a imprensa” ou um tema de interesse restrito aos santistas, mas um questionamento que se impõe ao futebol no Brasil. E não, não se trata da “busca incessante pelo gol” mesmo em vantagem. Há várias maneiras de fazê-la, entre elas o recuo proposital para jogar no espaço e chegar ao segundo gol, expediente utilizado pela maioria e por diversas razões. O futebol de Sampaoli é mais intenso, mais ofensivo, mais coletivo e menos saciável, e o que importa é que teclas ele pressiona para extrair do elenco do Santos uma interpretação do jogo que nada mais é do que sua ideia preferida de competição.

Aí está a distinção que salta aos olhos quando o Santos joga, mesmo que tenha falhado nas copas ou sido goleado um par de vezes no campeonato estadual. Para quem não está interessado nas sensações geradas quando um time de futebol se apresenta, sempre haverá um “mas…”. Pode ser em relação ao que o Santos ganhou, ao fato de não ter outras competições em seu calendário, ou mesmo ao clássico de hoje contra o São Paulo. Porque para a cabeça pequena, basta um resultado para que tudo não passe de romantismo, de “conversa de poetas”, e assim se pode dormir tranquilo pois, afinal, tudo já está feito e os inventores do futebol descansam há mais de um século.

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