Interessante

Leia o post original por André Kfouri

Na semana passada, quando a conversa sobre Balotelli no Flamengo ficou publicamente quente, um áudio de WhatsApp ganhou contornos virais. A mensagem, em um carioquês típico em forma e conteúdo, solicitava à diretoria do clube que apressasse o acerto com o controverso atacante italiano. Reprodução literal: “Balotelli é a cara do Flamengo, porra, a cara da torcida Jovem… jogador maluco, problemático, olho parado, porra. Usa bigodinho da favela do Mandela, pinta o cabelo de louro-pivete, porra. É a cara da Jovem, porra. Tá maluco? Estreia do Balotelli no Maracanã: 2 x 0 Flamengo, dois do Balotelli, porra… ele já vai pra noite, já vai ligar pro Adriano Imperador, já vai pra Vila Cruzeiro, já vai tirar foto de fuzil na favela, porra… Coisa linda… Balotelli batendo com o carro na Linha Amarela, porra, quebrando a mureta… vai aparecer em Madureira jogando ronda, vai pra Vila Mimosa visitar as ‘primas’… porra! Manchete em tudo o que é jornal no domingo de manhã, tu vai comprar o jornal, tá lá: ‘Balotelli estreia, faz dois, bate com o carro, tira foto de fuzil na favela, vai no puteiro..’.

O realismo é fantástico, mas se tratava de uma peça artística, feita por um canal de YouTube especializado em sátiras. É possível estabelecer, no entanto, uma conexão entre o humor escrachado e o impacto da chegada de um jogador como Mario Balotelli ao futebol brasileiro, especialmente ao Rio de Janeiro e a um clube como o Flamengo. A introdução de um personagem do futebol internacional num ambiente inusitado – considerando a trajetória “normal” de um jogador como ele – seria pródiga no aspecto da novidade e um verdadeiro acontecimento, uma história a ser contada semanalmente, por causa da empatia automática com a torcida rubro-negra. Basta pensar na recepção no aeroporto, na apresentação oficial, em cada comemoração de um gol no Maracanã, e, claro, nas aparições de Balotelli como pessoa física, fora do campo de jogo.

Poderia dar errado, mas a história seria relatada da mesma forma, apenas em outro tom. Em caso de sucesso, o que dependeria fundamentalmente do próprio, Balotelli de vermelho e preto seria, de fato, uma série digna de altos níveis de interesse. A propósito, se é verdade que a chance de voltar à seleção italiana era/é um dos fatores determinantes da escolha do atacante e seu superagente, é complexo avaliar o peso da repercussão de um período elogiável no Brasil. Não é o tamanho dos clubes envolvidos que está em debate, mas a percepção do desempenho de um jogador italiano atuando no Campeonato Brasileiro. Do ponto de vista estritamente técnico, não há dúvida de que Balotelli, aos vinte e nove anos, teria todas as condições de brilhar. Não se deve dispensar, porém, a opinião de quem vive o futebol na Itália e tem mais elementos para fazer todos os cálculos.

Ao final, o Flamengo considerou a operação proibitiva, agradeceu e se levantou da mesa. O tom da curta nota oficial para informar o encerramento da negociação foi equivocado, mas coerente com o que tem sido produzido pelo departamento de comunicação do clube. Uma entidade como o Flamengo, em especial nessa era de alta capacidade de investimento, não precisa se preocupar com um possível dano de imagem por não fechar uma contratação desse patamar. Constrangedor é não ter como estabelecer esse tipo de conversa, ou não ser levado a sério. A nota soou mais preocupada em revelar que as partes concordaram em discordar do que em comunicar que Balotelli não vem. O Flamengo pode ter perdido uma oportunidade ou se livrado de um problema. Em ambos os casos, se entendeu que Balotelli era caro, fim de papo. Mas que não reste dúvida de que seria interessante.

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