Prato feito

Leia o post original por André Kfouri

As duas últimas interrupções de trabalhos na Série A do Campeonato Brasileiro – já são nove em quinze rodadas – evidenciaram, se é que já não era escandalosamente claro, como opera o cartola médio no país. A cada técnico contratado e apresentado em entrevistas cerimoniosas, fala-se em “perfil” e até em “ideias”. A cada demissão via nota oficial ou declarações consternadas, o modo “dê-me vitórias e eu lhe darei tempo” prevalece diante de qualquer outro aspecto do processo de montagem de equipes. O que se deu no Cruzeiro e no Fluminense é ilustrativo.

O ponto aqui não são as razões da saída de Mano Menezes do bicampeão da Copa do Brasil. Após três temporadas, um feito quase heroico para os padrões nacionais de rotatividade de técnicos, o Cruzeiro pareceu ter chegado a um nível irremediável de estagnação com Mano. A questão é a escolha do substituto, e não, mil vezes não, isso não significa que o convite a Rogério Ceni tenha sido um equívoco. É que o recurso à noção de que o Cruzeiro desenvolveu nas mãos do treinador gaúcho um jeito de jogar “que leva a títulos”, tantas vezes usado como justificativa de estilo, simplesmente não cola quando o sucessor é um proponente de outra coisa.

O sucesso de Ceni na implantação de sua forma de entender o jogo com o mesmo núcleo que trabalhava com Mano será um indício de que o elenco do clube é capaz de interpretar o futebol com diferentes abordagens. A mudança de proposta será celebrada como um acerto de quem toma decisões, mas não satisfará a pergunta principal: o que quer o clube em relação a como jogar? O torcedor adepto de obviedades como “o que importa é bola na casinha” dirá que a resposta é vencer. É o que faz o cartola, mencionando “a cultura…” e andando em círculos. Porque se o resultado fosse só o que importa, a discussão futebolística se resumiria a placares de jogos, sem tocar nos caminhos pelos quais se chegou a eles.

O “como” é um dos pilares do método de Fernando Diniz, uma vez mais demitido pela caneta nervosa de dirigentes permanentemente vencedores e jamais questionados. Novamente não se trata de discutir os motivos da decisão no Fluminense, mas o inexplicável contorcionismo na solução apresentada. De Diniz se vai a Abel Braga, de Abel a Dorival Júnior, de Dorival a Oswaldo de Oliveira. É como olhar o cardápio e pedir filé mignon com salada verde, experimentar e trocar por um espaguete à bolonhesa, e finalmente decidir por rolinhos primavera (sem qualquer relação de preferência com os nomes citados, que fique claro). No mesmo restaurante.

Considerando como se comportavam os times que dirigiu, Oswaldo ao menos não deve fazer uma reversão total no que Diniz construiu. O mesmo se aplicaria a Dorival Júnior. Ocorre que a primeira ideia foi Abel, e aí, sim, o Fluminense estaria encomendando um novo time no final de agosto, com os mesmos jogadores. Seria o arquivamento, após quinze jogos de uma competição de trinta e oito, de tudo o que se disse quando Diniz chegou, com a ressalva de que os dirigentes que o contrataram não estão mais em seus postos. O compromisso, se é que existe um, é com o aleatório. Escolhe-se um nome disponível e se torce para “dar liga”. O futebol brasileiro permanece pobre nos gabinetes e nos grupos de WhatsApp.

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