Excelência

Leia o post original por André Kfouri

O encontro entre Grêmio e Flamengo, nas semifinais da Copa Libertadores, promete oferecer os jogos mais interessantes da temporada no Brasil. Mais ainda do que a finalíssima, entre um deles e o sobrevivente do superclássico argentino, porque o fetiche da Conmebol com a Liga dos Campeões conseguirá a proeza de cassar uma partida do que será, sem dúvida, um confronto colossal. As semifinais ao menos preservarão – mãos para os céus, porque os eventos da decisão do ano passado ensinam que nunca, nunca se sabe – as características dos choques de ida e volta, com cada time em sua casa e ao lado de seus torcedores, em datas (2 e 23/10 no caso de Grêmio e Flamengo, um dia antes para Boca Juniors e River Plate) que devem ser circuladas com caneta marca texto no calendário de quem se interessa por futebol.

Nenhum clube brasileiro tem tantos jogadores tecnicamente privilegiados quanto o Flamengo. A reunião desses futebolistas em um contexto coletivo capaz de acionar tamanha coleção de virtudes tem produzido, desde o clássico com o Vasco, trechos cada vez mais duradouros de completa submissão do adversário. Ao olho neutro, por consequência mais objetivo, não resta outra conclusão a não ser a ideia de que, com continuidade, será cada vez mais complexo conter uma equipe que causa danos quando cria e não perdoa quando o oponente falha. Os jogos contra o Internacional ilustram as qualidades do rubro-negro, transmitindo a sensação de que, assim como a água acaba por encontrar seu caminho cedo ou tarde, o time dirigido por Jorge Jesus prevalecerá de um jeito ou de outro. É muito talento junto.

Nenhum time brasileiro joga bem há tanto tempo quanto o Grêmio, campeão continental em 2017 e remontado nas temporadas seguintes com as mesmas ideias. Considerando que as equipes bem-sucedidas no Brasil normalmente duram pouco, o trabalho de Renato Gaúcho merece elogios ainda mais efusivos por manter, com breves hiatos, um nível de jogo difícil de alcançar e uma clara personalidade de equipe. E além do bom trato da bola, o Grêmio tem uma característica rara: a intenção e a capacidade de se estabelecer em campo mesmo quando atua como visitante, o que o separa de todos – sim, todos, até mesmo o Santos – os concorrentes no país. Na eliminatória contra o Palmeiras, após ser controlado em seu próprio estádio, o time gaúcho ainda mostrou que equipes desse nível não se descaracterizam por dois jogos seguidos.

Com o primeiro encontro marcado para daqui a cerca de um mês, qualquer prognóstico é fútil. Enquanto é óbvio que para ambos será fundamental chegar nas melhores condições possíveis em termos de disponibilidade de jogadores, o intervalo de tempo não permite que se pense nesses jogos agora. E nem mesmo a ordem, pensando na ideia costumeiramente aceita de que o mandante da partida de volta – Flamengo – tem um bônus teórico, serve como fator de desequilíbrio. A Arena do Grêmio e o Maracanã proporcionam atmosferas amplamente favoráveis aos times locais sem que haja influência direta na forma como o jogo é jogado, o que depende unicamente da coragem e dos atributos de cada time. No caso desses dois gigantes, bem dotados e bem treinados como são, a vaga na final da Libertadores será uma questão de futebol de ataque em alto nível. É isso que ambos fazem com excelência.

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