Quimera

Leia o post original por André Kfouri

A narrativa da chegada de Mano Menezes ao Palmeiras aponta um caso de rejeição popular motivada pelo “estilo” do sucessor de Luiz Felipe Scolari. Seria maravilhoso se fosse verdade, um indício de que uma das maiores bases de torcedores do futebol brasileiro contempla a maneira como seu time se apresenta em campo, e não, apenas, o produto final. Não que não haja alguém suficientemente interessado no “como” e incomodado com o tipo de jogo extraído de um dos elencos mais valiosos do país. A questão é a relevância que se dá a esse aspecto, e, principalmente, o fato de a origem do incômodo ser, na verdade, outra: o Palmeiras parou de ganhar.

É preciso cavar muito fundo para encontrar um “projeto de futebol” em andamento num clube brasileiro, em termos de construção de ideia de jogo, prospecção e desenvolvimento de jogadores conforme essa ideia, além, é claro, de identificação das lideranças para sua aplicação. Talvez o Athletico seja o que mais se aproxima desse cenário utópico. Uma broca da magnitude de “O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” seria necessária para encontrar um trabalho com essas características e que tenha recebido suporte ao se deparar com uma fase de resultados desagradáveis, exatamente a linha que separa o que se diz e o que se faz na indústria nacional de futebol.

A melhor história que o jogo tem contado por aqui nos últimos anos se dá no Grêmio, mas não alcança o significado de um projeto. Renato Portaluppi tem provado ser o nome certo no lugar perfeito ao dirigir um time – remontado a cada ano – que agrada e vence, mas relacionar sua contratação a seus trabalhos anteriores como exemplo de “perfil futebolístico” que se encaixava com o que o clube entendia ser correto é, simplesmente, um exercício de ficção. Sampaoli no Santos? Um caso clássico de aproveitamento de oportunidade, pela disponibilidade do treinador argentino e a iniciativa do dirigente do momento. Jesus no Flamengo? A temporada começou com Abel Braga, o que encerra o debate. Seja qual for a proposta, a linha de sobrevivência de treinadores no Brasil só está conectada ao “dar liga” e a resultados rápidos e frequentes.

Voltando ao “estilo” de Mano, a opção do Palmeiras ao menos acerta em investir numa abordagem mais próxima do que vinha sendo feito, ao invés de encomendar uma ruptura em setembro. Os times de Mano são diferentes dos de Scolari em algumas áreas, mas, no grande esquema das coisas, estão na mesma gaveta. A propósito: ao deixar o Cruzeiro e considerar o próximo passo (trabalhar na China, em Portugal ou em São Paulo, e não no Corinthians), Mano decidiu se aprofundar na elaboração de movimentos ofensivos e estava preparado para trabalhar nisso, quando Alexandre Mattos telefonou. Não significa que o Palmeiras, com ele, será radicalmente diferente do que se viu desde agosto do ano passado, mas é possível que a narrativa seja surpreendida. Enquanto isso, é natural que um treinador associado a um rival tenha de superar olhos tortos no início, o que obviamente não se resolve com “estilo”.

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