Próprio

Leia o post original por André Kfouri

O encanto do futebol apresentado pelo Flamengo nas últimas semanas tem um componente perceptível a torcedores de todos os times. Basta ser capaz de tratar o que se conhece como rivalidade pelo significado respeitoso do termo, ou seja, a alimentação de um desejo de ser melhor, e não um motivo para destruir. Sem ingressar no território das minúcias táticas – não por serem desimportantes, mas por não serem o ponto central dessa conversa –, quando o Flamengo atual extrai atuações complementares de seus jogadores ofensivos mais capazes, o resultado é uma imagem que remete a momentos saudosos do que se pode chamar de “jogo brasileiro”, sem correr o risco de exagerar.

O futebol é manifestação cultural como tantas outras, e as características de sua evolução como esporte em cada lugar onde é considerado importante traduzem um modo de fazer as coisas que é próprio, no sentido antropológico. O amor pela bola, a necessidade do contato com ela, a reunião de jogadores no entorno dela, a sobrevivência no espaço curto, a movimentação que parece desordenada, a perícia técnica, o drible, o sorriso… traços de uma personalidade futebolística tipicamente brasileira e reconhecível quando jogadores se expressam individual e coletivamente da forma que lhes é natural. O observador casual, de um ponto distante, tem a impressão de que esses futebolistas foram entregues às próprias decisões, totalmente responsáveis por um entendimento espontâneo, regidos por “normas” que aprenderam sem que jamais tenham sido ensinados.

Sabe-se que não é assim, pois, se fosse, bastaria agrupar três ou quatro jogadores privilegiados e tudo aconteceria como mágica. Não deixa de ser interessante que este Flamengo seja a visão de um treinador europeu que ainda está na fase inicial de seu trabalho, e que as mesmas peças que agora se encaixam como se fossem íntimas por toda a vida não transmitissem essa sensação antes de sua chegada. As comparações com times memoráveis e o potencial para marcar época em um clube como o Flamengo são méritos de Jorge Jesus, que soa empolgado com o que vê não apenas como treinador, mas como admirador do bom jogo e dos ambientes que equipes com essas virtudes costumam proporcionar. Ele tem razões para estar orgulhoso do que faz com o time mais talentoso que já dirigiu, mesmo que a caminhada seja longa e o julgamento, de maneira geral, dependa do que houver para mostrar ao final.

O Flamengo não é o único conjunto brasileiro que pratica esse futebol essencialmente “local” e identificado por suas peculiaridades mais admiráveis. O Grêmio tem trilhado esse caminho ao longo dos últimos anos, com menos fartura e indiscutível sucesso (a seleção brasileira foi intérprete desse jogo entre setembro de 2016 e o final das Eliminatórias, e seria na Copa do Mundo se as lesões não impedissem, mas aqui se trata de clubes). O que distingue o time dirigido por Jesus é a quantidade de futebolistas top de linha juntos, algo provavelmente visto no país pela última vez no elenco do Corinthians entre 1998 e 2000. Embora o futebol seja indomável, o que se percebeu nas semanas recentes permite imaginar que o melhor está adiante, e para tanto não é necessário torcer. Apenas gostar.

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