Consciência Negra: já vi cartola protestar contra chegada de goleiro negro

Leia o post original por Perrone

Certa vez ouvi o seguinte de um conselheiro de tradicional clube da Série A do Brasileirão: “Tem bastante conselheiro revoltado com a notícia de que vamos contratar esse goleiro que estão noticiando. Temos tradição de formar goleiros. Não precisamos contratar. E o pessoal também está reclamando porque é negro. Falam que o clube não tem tradição de ter goleiro negro”.

O doloroso relato mostra que, apesar das inúmeras manifestações oficiais de clubes neste Dia da Consciência Negra, o racismo no futebol brasileiro está longe de ser algo localizado nas arquibancadas e destinado a hostilizar o adversário, como vez por outra acontece. Reforçando essa vexatória realidade, recentemente, dois conselheiros do Santos foram acusados de injúria racial. Um deles contra funcionária do próprio clube.

A praga está enraizada nas agremiações. Seja pela origem elitista da modalidade no Brasil ou por puro reflexo da sociedade do país, tão marcado pelos tempos de escravidão. Negros em postos de comando em federações e na CBF são raros. O ex-volante Mauro Silva, vice da Federação Paulista, quebra a regra. Nas agremiações também é assim. No Corinthians, por exemplo, o diretor administrativo André Luiz de Oliveira, conhecido pelo sintomático apelido de André Negão, afirma pretender ser o primeiro presidente negro do alvinegro. Uma lacuna na história de quem se intitula “o time do povo”.

Como recentemente alertou Roger Machado, técnico do Bahia, podemos notar a falta de oportunidades dadas a treinadores negros ao olharmos para os bancos de reservas dos times da Série A do Brasileirão. Ele só não é o único negro a comandar uma equipe graças a dois que assumiram as vagas de titulares demitidos: Marcão, no Fluminense, e Dyego Coelho, no Corinthians.

Em coluna escrita nesta quarta (20) na “Folha de S.Paulo”, Marcelo Carvalho, criador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, bem pontua que os clubes não realizam ações inclusivas para os negros, como oferecer bolsas de estudos. Dirigentes não parecem preocupados com a questão. Deixam o barco correr. Como se a única forma de ascensão permitida aos negros no futebol tenha que ser como pé de obra. É nas quatro linhas que eles devem ficar ou em cargos secundários nos estafes das equipes. Esse parece ser o deprimente desejo da elite branca que comanda nosso futebol.

Nesse cenário, é emblemático que a coroa de rei do futebol adorne uma cabeça negra, a de Pelé. Mas, é bom olhar para trás e lembrar que também dentro dos gramados brasileiros os negros já foram rejeitados nos primórdios deste esporte no país. Ou seja, fora dele, a transformação também pode ocorrer. Mas é preciso bem mais do que as peças produzidas por responsáveis pelos conteúdos dos clubes em redes sociais uma vez por ano. O trabalho é duro, longo e intenso. Mas, acima de tudo, precisa começar um dia.