O começo

Leia o post original por André Kfouri

O diário espanhol El Mundo perguntou a Filipe Luis “o que o Brasil oferece agora para que tantos jogadores de elite voltem?”. A resposta foi enfática: “Dinheiro”. O lateral do Flamengo, inteligente como é, elaborou sobre clubes que sanearam suas finanças nos últimos anos e podem remunerar jogadores “ao nível da Europa ou mais, em alguns casos”. Também falou sobre dez ou doze clubes dos quais se exige que sejam campeões e que são alimentados por grandes bases de sócios-torcedores. O retorno ao futebol brasileiro, que no início lhe pareceu um passo atrás no âmbito profissional, hoje o agrada em vários aspectos. “Tudo me parece perfeito agora, até os campos ruins em que jogamos e a torcida, que é tão exigente que nos vaia em qualquer momento”, disse.

A etapa carioca de uma carreira essencialmente europeia lhe apresentou um bônus inesperado. Trabalhar com Jorge Jesus tem sido uma espécie de conclusão de curso para um jogador que já sabe o que fará quando descalçar as chuteiras. “Tenho trinta e quatro anos, meu plano é ser treinador e quanto mais coisas diferentes aprender, melhor”, explicou, acrescentando que, depois de jogar sob a orientação de Simeone e Mourinho, Jesus o levou a “descobrir outro futebol”. Quando o jornal espanhol quis saber qual era o estilo de jogo de sua preferência, Filipe respondeu por dois ângulos: “Todo jogador gosta de propor, sair jogando, ter a posse… Isso é o que fazemos no Flamengo e me encanta, claro, mas o futebol não tem verdades absolutas. Como jogador, isso me diverte mais. Como treinador e como vencedor, seria estúpido discutir o modelo do Cholo [Simeone]”.

A conversa naturalmente teve várias referências ao Atlético de Madrid, clube em que Filipe experimentou as melhores temporadas de sua vida. A saudade, contou, bate mais forte quando ele vê a Liga dos Campeões pela televisão. É uma mistura do desejo de participar do que ele qualifica como “a competição da excelência” com a dor de duas finais disputadas e perdidas. “Tenho essa espinha cravada, vi esse troféu de perto duas vezes, mas não consegui vencê-lo. Se não foi como jogador, será como treinador. Vou persegui-lo por toda a vida”, revelou. Ainda no tema do retorno ao Brasil, a Champions marca a grande distância entre o futebol na Europa e no resto do mundo. “Todos os futebolistas querem jogá-la, mesmo que seja perdendo dinheiro. Não é um menosprezo à Libertadores, claro, mas é a melhor competição do mundo com diferença”, disse.

Às portas da final da Copa Libertadores, e em contagem regressiva para um título brasileiro que, pelo que mostra o campo, está conquistado há várias rodadas, Filipe Luís tem convicção de que a decisão de jogar no Flamengo foi correta. Se tudo correr bem, quando voltar a Madri para iniciar sua trajetória como treinador – um plano já desenhado –, ele terá absorvido as experiências de uma temporada verdadeiramente histórica para o clube e o ambiente do futebol no país. Mesmo porque, com mais dois anos de contrato adiante, 2019 pode ser apenas o começo.

O post O começo apareceu primeiro em Blog André Kfouri.