Paladar

Leia o post original por André Kfouri

“O torcedor passa a querer um outro futebol”.

A frase é de Mano Menezes, em entrevista coletiva no Maracanã, após a derrota do Palmeiras para o Fluminense. Mano se referia a uma das repercussões, talvez a mais relevante, da temporada inédita de “dupla coroa” em que o Flamengo obrigou seus concorrentes a perceber que, de fato, eles não alcançam essa estatura. Em troféus e em jogo, especialmente em jogo, não passam de aspirantes resignados pelo reconhecimento de que a distância é muito maior do que imaginavam. É emblemático que o técnico do time que se apresentava no início do ano como o “principal adversário” do futuro campeão brasileiro e sul-americano, dono de um aproveitamento de pontos que permitiria pensar em título no passado imediato, perceba que o futebol do Flamengo alterou todas as percepções. Que o levem a sério, pois é ele quem está sentindo as dores dessa transformação.

Mano, como se sabe, dirigiu o Cruzeiro por boa porção do Campeonato Brasileiro. Enquanto ele falava com os repórteres no Rio de Janeiro, o clube mineiro perdia em casa para o CSA com o requinte cruel de um pênalti desperdiçado por Thiago Neves, o jogador que acumula funções na administração do elenco. O jogo que envolveu dois dos piores times do campeonato entrará para a história infame do futebol no Brasil por levar à demissão DE AMBOS os treinadores envolvidos. Abel Braga não resistiu ao caos absoluto que corrói o clube e o time cruzeirenses; Argel Fucks desistiu do CSA para tentar evitar o rebaixamento do Ceará. Antes da sexta-feira amanhecer, Adilson Batista, demitido pelo Ceará na quarta, acertou sua ida para o Cruzeiro. Alguém ainda criará um app para entregar treinadores a clubes em necessidade, da forma como se pede comida sem falar com ninguém. Faltam três rodadas.

As palavras de Mano Menezes soam como um dilema. A urgência por um “jogo novo” trará complexidades que hoje parecem esmagadoras para a maioria dos clubes. Basta apreciar o tipo de futebol que vem sendo praticado por quem está na vastidão chamada de “zona da Libertadores”. Enquanto se esforçam para assegurar algum tipo de participação na próxima edição do torneio continental, provavelmente não pensam na montanha que os separa do nível que será exigido de quem pretende vencê-lo. Mais parecem banhistas brigando por um palmo de areia numa praia superpopulosa, desatentos aos alarmes sonoros que avisam que um tsunami se avizinha. Talvez seja mais razoável torcer para que Jorge Jesus resolva encerrar sua aventura pelo futebol competitivo com as taças que acaba de erguer.

O que pode significar pouco em termos práticos. O Flamengo de hoje está apto a solucionar problemas futebolísticos, contratando profissionais ou os convencendo a permanecer, com a mesma pujança que construiu o time de 2019. Proliferam análises que minimizam a possibilidade de uma era hegemônica, mencionando outros grandes times que duraram pouco. Ignora-se, porém, que por mais dinheiro que tivesse para gastar num período específico, nenhum clube brasileiro esteve posicionado economicamente como o Flamengo está. E nenhum tem o potencial de receita que o Flamengo tem. O risco – ou a esperança, conforme o ponto de vista – é pensar que o trabalho terminou e o colosso se moverá em piloto automático, um equívoco de proporções semelhantes ao choque pela chegada de um novo tempo, ilustrada pela declaração de Mano.

O jogo brasileiro em seu patamar mais alto é um ambiente inclusivo, em que a tecnologia 5G convive com telefones de disco. Enquanto o Flamengo pensa no Liverpool, três técnicos dirigirão times pela PRIMEIRA VEZ neste fim de semana, começo de dezembro. Mano Menezes está certo, é preciso querer um outro futebol.

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