Embuste

Leia o post original por André Kfouri

Então Argel Fucks quer que você acredite que ele evitou o rebaixamento do Ceará. Em uma das exibições de desfaçatez mais constrangedoras vistas recentemente no futebol brasileiro, o técnico que dirigiu o Ceará nas últimas três rodadas do campeonato incluiu o clube em uma lista de salvamentos que levam sua assinatura, adicionando “missão dada é missão cumprida” para se vangloriar. Não importa que os dois pontos somados no período não tenham feito qualquer diferença para a classificação final, uma vez que o Cruzeiro ficou três pontos abaixo. O que interessa é apresentar a propaganda e ver se funciona.

Não funciona, claro. Na era da imbecilidade orgulhosa, é mais importante falar sobre o próprio trabalho do que permitir que o trabalho fale por si. Gerações estão crescendo, em diversas áreas de atividade, sem qualquer apreço pelo valor de subir a escada, desde que possa mostrar uma foto no último degrau. São enfermos da “doença do eu”, sem perspectiva de cura. Argel os alimenta ao ter a coragem de exibir um “trabalho” de dez dias como uma amostra honesta de sua capacidade, embora um raciocínio de poucos segundos seja suficiente para desnudá-lo: o Ceará estava salvo quando ele chegou, e assim permaneceu.

Na infame noite de 28 de novembro, quando Argel abandonou o CSA após vencer o Cruzeiro no Mineirão, era o clube alagoano que rumava para a Série B. Eis uma oferta razoável do trabalho de um treinador: vinte e seis jogos, sete vitórias, cinco empates e quatorze derrotas. Este é o currículo de Argel no comando do CSA. Um aproveitamento de 33%, mas aparentemente suficiente para que ele declarasse que deixava o clube com o sentimento de “dever cumprido”. Dever cumprido?! Naquela ocasião pareceu apenas um exagero mal colocado, na tentativa de explicar a decisão de largar um time quase condenado antes do final do campeonato. Hoje se percebe que esse nível de abuso propagandístico é, de fato, um hábito. Também se sabe que no mesmo dia em que o CSA caiu, Argel se apropriava da permanência do Ceará na primeira divisão.

Sim, é só futebol. Sim, setores mais importantes da sociedade têm sofrido com a disseminação do que não é real, sempre com interesses embutidos em estratégias de comunicação construídas para enganar e iludir. O oportunismo desavergonhado e desafeto dos fatos talvez seja apenas um produto do tempo, mas certamente conduz a um caminho perigoso. O que pensa a torcida do CSA do ex-técnico de seu time, que se apresenta como um mago? Por que a magia não funcionou em Maceió? O que pensam desse tipo de publicidade os demais treinadores das Séries A e B, que compartilham com Argel um mercado competitivo, composto por apenas quarenta postos de trabalho? O que têm a dizer aqueles que pretendem ingressar neste mercado?

Há uma razão pela qual profissionais inteligentes e capazes não se comportam como se estivessem no set de “Tropa de Elite”, especialmente quando, ao contrário do contexto retratado pelo filme, a postura não passa de um embuste.

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