Boleto

Leia o post original por André Kfouri

O portal Superesportes, em trabalho de Bruno Furtado e Tiago Mattar, publicou ontem que uma funcionária do Cruzeiro foi orientada pelo filho do presidente Wagner Pires de Sá a pagar impostos de veículos que pertenciam à ex-mulher do dirigente. À época, janeiro de 2018, a proprietária dos seis carros e duas motos era legalmente casada com Pires de Sá. Foi um dos filhos do casal que enviou um email à secretária do presidente, que trabalha na sede administrativa do clube, para determinar pagamentos de IPVA, licenciamento e seguro DPVAT, no total de 11 mil reais. O que importa aqui evidentemente não é o valor, mas a prática, mais uma evidência da maneira como os clubes do futebol brasileiro são administrados.

Em resposta à reportagem, o Cruzeiro, em tom indignado, não nega as operações feitas pela funcionária, mas afirma que os cartões bancários usados para os pagamentos pertencem a Pires de Sá. Na versão dos fatos apresentada pelo clube, os assuntos pessoais do dirigente não se confundem com os afazeres de sua secretária com objetivo de lesar o Cruzeiro, apenas lhe tomam tempo. Seriam, afinal, contingências decorrentes da mais pura abnegação de um advogado e empresário que doa seus dias ao clube que ama, em detrimento das próprias obrigações. Um ato de sacrifício. Ainda de acordo com a matéria, Pires de Sá, seus dois filhos – um deles, também funcionário do Cruzeiro – e sua ex-mulher são sócios de uma empresa, acredite, de consultoria em gestão. Não se sabe se recomendam a clientes esse tipo de terceirização de funções.

O modelo de administração de clubes no Brasil impede que tenham donos, como se dá em lugares onde o futebol é mais bem tratado. Mas a engenhosidade dos políticos nacionais do esporte se encarregou de solucionar essa questão com o brilho que os caracteriza: não são donos, mas agem como se fossem. Não podem, mas fazem. O que os torna os donos de clubes mais espertos que existem, pois brincam com um patrimônio que não lhes pertence, cientes de que o próprio patrimônio jamais estará sob risco. E exceto nas ocasiões em que desrespeitam os limites do aceitável por tempo suficiente para levar um clube como o Cruzeiro ao rebaixamento, sempre haverá tolos úteis para chacoalhar pompons em sua defesa, dispostos ao papel ridículo de protetores da instituição. Não há nada como a decepção de quem é vagamente perspicaz quando percebe que foi feito de bobo.

Como contraponto a esse nível de usurpação, é frequente a aparição de argumentos como o da “entidade privada” para despistar o evidente interesse público quando o tema é a gestão do futebol. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos já demonstrou como isso funciona durante a condução do chamado “escândalo da Fifa”, e, para quem ainda tem dúvida, basta lembrar que um ex-presidente da CBF é hóspede do sistema carcerário daquele país justamente por agir como se a confederação, entidade privada, pertencesse a ele. Claro, é preciso lembrar que se José Maria Marin não estivesse em Zurique quando recebeu a visita matinal do FBI – ou se tivesse sido ágil como o Marco Polo que não viaja – atualmente ainda seria visto nos seus restaurantes paulistanos prediletos.

No final de maio, reportagens de Rodrigo Capelo e Gabriela Moreira, ambos do grupo Globo, mostraram como eram feias as entranhas administrativas do Cruzeiro, objetos de investigação da polícia em Belo Horizonte. Os cheerleaders de mídia antissocial entraram em modo de escândalo, enquanto os dirigentes envolvidos – entre uma ameaça e outra a jornalistas – tentavam explicar o que filhotes de raposas podem entender por conta própria. As denúncias provavelmente impediram que a diretoria que levou o Cruzeiro à Série B contraísse um empréstimo de 300 milhões de reais. Calcule quantos IPVAs poderiam ser pagos pela secretária da presidência.

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