Trinta dias

Leia o post original por André Kfouri

Flamengo e Athletico vão disputar a Supercopa do Brasil no dia 16 de fevereiro de 2020, em Brasília. Num ambiente de futebol coerente e minimamente preocupado com o produto que oferece, a ocasião deveria marcar a abertura da temporada nacional. Uma decisão de título simbólico entre o campeão brasileiro e o vencedor da Copa do Brasil, algo como um evento de inauguração do ano futebolístico no país. Mas não, claro que não. Os campeonatos estaduais estarão em andamento (um deles já começou, acredite), porque ainda é necessário agradar os cartórios da bola com uma porção do calendário que deveria ser dedicada a um estágio crucial no processo de construção de equipes. E se o 2019 do Flamengo não tivesse terminado tão tarde, a Supercopa do Brasil seria realizada quase um mês antes, coincidindo com o início dos festivais das federações.

Na programação divulgada pela CBF, a data de 22 de janeiro aparece como a largada dos estaduais. Alguns começarão antes, no dia 18, como é o caso no Rio de Janeiro e no Paraná. Ou melhor, não é bem isso. O torneio carioca de 2020 já está em ação em dezembro do ano anterior, com equipes disputando uma fase preliminar à Taça Guanabara. O elenco principal do Flamengo retorna das férias exatamente no dia 22, o que levou à decisão do clube de se fazer representar na competição da FERJ, uma das mais anacrônicas federações do país, pela equipe Sub-20. O Athletico repetirá a estratégia das duas últimas temporadas, utilizando um time formado por jogadores em desenvolvimento no campeonato paranaense, enquanto se apronta para o que realmente importa no longo ano.

Já se comentou amplamente, com os devidos elogios, sobre o impacto do trabalho de Jorge Jesus no 2019 do Flamengo, assim como sobre os convites estendidos aos demais atores do futebol no país. Há reflexões importantes a serem feitas em relação, por exemplo, à administração de elenco em competições simultâneas e ao valor dado ao Campeonato Brasileiro. O nível de jogo, evidentemente, é o argumento mais relevante. Mas é preciso considerar que o grande presente de Jesus ao futebol brasileiro talvez seja a exigência por trinta dias de pré-temporada, algo natural para quem tem formação europeia. Se as loucuras do calendário local impõem um conflito com a programação de competições, que as escolhas sejam feitas conforme a importância de cada uma.

Claro, não é novidade. A conversão do período do estadual em pré-temporada está no planejamento do Athletico, com frutos colhidos em dois anos seguidos. Pode-se atribuir a conquista da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil (e, em nome dos fatos, dos dois estaduais disputados dessa forma) a coincidências permitidas pelo futebol, ou se pode prestar atenção e compreender as relações que se apresentam. A diferença aqui é a reverberação de uma posição semelhante assumida por um clube como o Flamengo, e os efeitos que poderiam estimular os demais. É acintoso que os primeiros três meses do ano competitivo sejam ocupados pelos torneios estaduais, empurrando o Campeonato Brasileiro para a primeira semana de maio. É ainda mais grave que uma parte significativa deste período não sirva para uma adequada preparação.

Em fevereiro, a Supercopa do Brasil reunirá os dois únicos clubes que conquistaram troféus no país em 2019. Que a maneira de olhar o calendário seja mais uma correspondência entre eles, e que inspirem, liderem aqueles que ainda acreditam que os clubes brasileiros precisam obedecer aos tabeliães do futebol. Dois mil e vinte terá mais chances de ser um feliz ano novo.

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