Livre trânsito

Leia o post original por André Kfouri

Está em aquecimento uma temporada caracterizada por um conflito entre duas forças que não existem. E as tentativas de tratar do ano futebolístico com um mínimo de racionalidade serão fúteis, porque as redes antissociais – onde a racionalidade foi banida há muito tempo – já decidiram quem enfrentará quem a cada rodada de futebol, especialmente durante o Campeonato Brasileiro. Não serão clubes, nem mesmo técnicos, mas passaportes. A generalização que pariu o rótulo “treinadores estrangeiros” e, consequentemente, o subproduto “treinadores brasileiros” se encarregará de fomentar um confronto de nacionalidades, no qual o Brasil disputará com o “resto do mundo” o troféu de “melhores ideias sobre futebol”.

A preparação para a batalha se deu durante 2019, quando os Jorges Jesus e Sampaoli fizeram uma dobradinha no Campeonato Brasileiro ao som de uma onda – absolutamente merecida – de elogios que incomodou demais dois tipos de figuras: os técnicos que por algum motivo tenham se sentido preteridos pelos holofotes ao longo do ano; e os torcedores que os enxergam como forasteiros que pretendem ensinar futebol ao país pentacampeão. Por vezes, houve casos de antipatia indireta: o sujeito não tem nada contra um determinado treinador, mesmo porque não há motivo para isso, mas se irrita com o tratamento que “a mídia” lhe dispensa. É quando a incapacidade de formar a própria opinião se abraça à arrogância de querer supervisionar o trabalho alheio, uma combinação explosiva. No ano passado, Jesus e o Flamengo não permitiram que houvesse concorrência, mas o futebol sempre traz um recomeço.

As chegadas de Eduardo Coudet, Rafael Dudamel e Jesualdo Ferreira evidenciam a definitiva ampliação do mercado brasileiro de técnicos. É um movimento lógico: a restrição a profissionais formados em outros países sugere a ideia de que a capacidade para a função só se encontra aqui, um completo absurdo. Furtar-se a buscar competência onde ela estiver é agir declaradamente contra os interesses dos clubes, um contrassenso impensável em qualquer centro onde o futebol é importante. Como disse o novo técnico do Santos, a onda não vai parar. A questão é como ela será percebida enquanto ainda for uma novidade. Por ora, o ambiente do futebol no Brasil tem tido de conviver com coisas como “o que ele ganhou?”, “é bom só porque é português?” ou – essa, a melhor, infelizmente foi repetida durante a semana por um técnico em início de carreira, no momento sem clube – “quero ver ele ganhar com um time ruim”. Mais ou menos como pedir a Michael Phelps para nadar de calça jeans.

Quanto a Jesualdo e os outros treinadores portugueses que têm sido cogitados, ao menos houve um avanço em relação ao que se viu quando Jorge Jesus foi contratado. O desconhecimento da importância da escola portuguesa de formação de técnicos – para a qual Jesualdo Ferreira é uma referência – não levou a gracinhas nos programas de debates, o que não significa uma lição de casa mais caprichada, apenas o receio de passar ridículo. Mas aguarde uma sequência ruim do Atlético Mineiro com Dudamel, algo natural e até esperado, e dissertações sobre o futebol venezuelano serão feitas sem nenhum constrangimento. Enquanto se perder tempo com aparências e pré-conceitos, os benefícios da presença desses profissionais no Brasil, para eles e para quem os observa, serão desperdiçados.

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