Cachaça

Leia o post original por André Kfouri

Vittorio Medioli, prefeito de Betim e ex-CEO do grupo que hoje comanda o Cruzeiro, gerou manchetes anteontem por causa de um vídeo divulgado em sua página no Facebook, especialmente por chamar jogadores de bêbados antiprofissionais. Para que não reste dúvida ou haja terreno para má compreensão: “tem que ter todo um sistema para levar os atletas ao máximo desempenho. Eles tomam cachaça, ficam na gandaia e fica por isso mesmo, ninguém toma providência”, disse.

Talvez seja natural que declarações desse tipo tenham mais repercussão, mesmo que a generalização, sempre um sinal de equívoco, impeça qualquer leitura além do sensacionalismo. Medioli se refere a todos os jogadores do Cruzeiro? À maioria? Apenas a um? Sem falar no perigo de expor um grupo de pessoas que já teve de lidar com ameaça de morte e invasão de eventos familiares, como se deu na festa da mulher do zagueiro Dedé. Atribuir o rebaixamento do Cruzeiro ao comportamento dos futebolistas fora do campo é o recurso mais prático para apontar a discussão na direção de quem está sempre mais exposto.

Neste âmbito, é curioso que o trecho mais sério da manifestação de Medioli não tenha sido recebido com a devida preocupação. É este: “hoje as pessoas ficam tão distraídas em ganhar dinheiro com trambique lá dentro, que não cuida [sic]do atleta, não cuida do clube”. Veja, ganhar dinheiro com trambique. O caos organizacional do Cruzeiro poderia ser descrito de forma mais clara? O pouco tempo de contato entre Medioli e as entranhas do clube – retirar-se foi uma decisão acertada, uma vez que as posições de prefeito de Betim e executivo-chefe de uma entidade desse tamanho exigem dedicação integral – foi suficiente para que ele dissesse publicamente que o Cruzeiro foi assaltado por dentro.

O que não é exatamente uma novidade. As reportagens dos jornalistas Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo, do grupo Globo, e a investigação da polícia de Belo Horizonte indicaram o tamanho do problema e os nomes dos atores. Foram eles que levaram um clube irresponsavelmente endividado ao dilema de sobreviver sem um orçamento de Série A. Já seria criminoso se fosse apenas resultado de incompetência. A desonestidade e o interesse pessoal jogam sal sobre a ferida, transferindo a história do desastre esportivo para o escândalo policial.

Enquanto isso, não se sabe com qual time o Cruzeiro iniciará uma temporada crucial em sua história quase centenária, e as aparições de Adilson Batista são as únicas ocasiões – além do gesto de Léo e, ao que tudo indica, de Fábio – em que o torcedor consciente se sente representado por uma preocupação genuína com a situação do clube e as dificuldades que estão adiante. A falência do Cruzeiro (falar em situação pré-falimentar é um eufemismo, por se tratar de um clube de futebol no Brasil) é causa e efeito do enriquecimento de muita gente beneficiada por gestões predatórias que, como se pôde verificar em outros clubes, terminaram por encaminhá-lo à segunda divisão. Seria bem menos complexo se a culpada fosse a cachaça.

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