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Leia o post original por André Kfouri

É triste a confusão que se faz em torno do aparecimento do zagueiro são-paulino Robert Arboleda, fotografado trajando uma camisa do Palmeiras durante férias no Equador, seu país natal. A dicotomia da condenação sumária de um ato inadmissível e a defesa das “liberdades” de um futebolista profissional revela um debate raso, que não observa camadas importantes de um episódio que deveria ser didático. Não, enquanto for jogador do São Paulo, Arboleda não pode vestir a camisa de qualquer outro clube, em qualquer situação. E não, o fato de ter se permitido flagrar com o uniforme de um rival não deve ser penalizado com expulsão do clube como se ele fosse um pária, ou justifica vaias eternas da arquibancada sempre que tocar na bola.

A razão pela qual um jogador sob contrato com um clube não pode aparecer com outra camisa não é esportiva, ética ou moral. Nem está associada à rivalidade sem a qual o jogo perde essência. E não tem absolutamente nada a ver com fanatismo. É pura e simplesmente uma questão profissional, comercial, traduzida pela figura dos direitos de imagem, cada vez mais importante na remuneração de atletas. Ao licenciar o exercício da exploração de sua imagem a uma entidade esportiva, um jogador permite a utilização de seu alcance popular por ações conjuntas que beneficiem a ambos, evidentemente mediante uma compensação financeira. Essa utilização pode ser a divulgação do programa de sócio-torcedor do clube, uma campanha de um patrocinador, um evento social. É uma relação paralela ao compromisso estritamente esportivo que não pode restringir a liberdade ou prejudicar a personalidade do atleta.

A partir do momento em que uma fotografia de Arboleda com a camisa de outro clube surge nas mídias antissociais, o uso da imagem que ele mesmo autorizou ao São Paulo sofre um sério e claro dano, uma vez que, por um período impossível de calcular com exatidão, a reação automática das pessoas será lembrar do caso. Para fazer um teste, basta imaginar o zagueiro como garoto-propaganda de uma ação do clube para vender ingressos de um setor do Morumbi. Se o São Paulo fica impossibilitado, ainda que temporariamente, de explorar a imagem de um jogador que tomou uma decisão equivocada, o objeto desta relação deixa de fazer sentido. E neste âmbito, não importa se Arboleda estava em férias, fora do Brasil, etc. A própria existência do direito de imagem se alimenta da velocidade de propagação de uma foto nos tempos atuais. Não existem fronteiras geográficas ou distâncias no ambiente virtual, fundamental para a difusão de ideias, boas ou ruins.

O São Paulo multou Arboleda, que se desculpou publicamente e já se expôs ao julgamento do torcedor na estreia do clube pelo campeonato estadual, no Morumbi. Houve vaias do setor mais radical da torcida e compreensão em outras áreas do estádio, o que mostra que agir como vítima de uma ofensa, muitas vezes, é uma opção. Ninguém é proprietário do sentimento de torcer por um clube, nem existe um regulamento que rege a conduta de quem escolhe essa relação. Independentemente da capacidade de acreditar que Arboleda não sabia que usava uma camisa do Palmeiras – versão oferecida pelo superintendente de relações institucionais do São Paulo, Diego Lugano – na fatídica foto, o erro que ele cometeu está muito distante de uma afronta ao “espírito são-paulino”, aos “valores do clube” ou “à paixão do torcedor”. Nem mesmo pode ser descrito como desrespeito. É apenas um deslize do qual o São Paulo deveria lembrá-lo, como reprimenda, a cada vez que depositar seus vencimentos.

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