Que perda

Leia o post original por André Kfouri

Desde domingo passado, o compartilhamento de histórias sobre Kobe Bryant tem contribuído para que seus fãs iniciem o processo de conciliação com um desaparecimento tão precoce e estúpido. Na maioria, são relatos de pessoas próximas, companheiros, adversários, em que a natureza competitiva de um dos principais esportistas de nossos tempos assume o protagonismo, revelando um caráter obsessivo que só sabia se alimentar de vitórias, mesmo quando perdia. Bryant jogava basquete com a obstinação de quem precisava conquistar tudo em apenas uma noite, e como se a noite anterior tivesse deixado de existir quando o cronômetro zerou. A mitologia a seu respeito tende a aumentar após sua morte, um fenômeno comum quando se trata de ícones que passam a viver no imaginário das pessoas, cuja decisão espontânea é acreditar no que lhes parece apropriado.

Uma dessas histórias remonta ao último jogo da carreira profissional de Bryant, a célebre noite dos sessenta pontos contra o Utah Jazz, quando Kobe foi capaz de transplantar seus melhores momentos para um corpo em declínio físico e oferecer uma atuação inacreditável. Conta a lenda que, ao converter seus últimos dois pontos da linha do lance livre, Bryant teria recebido uma colaboração de Gordon Hayward. O ala do Jazz teria pisado propositalmente dentro do garrafão no momento do segundo arremesso, de modo a dar a Kobe uma nova oportunidade de totalizar sessenta pontos em caso de erro. Não foi necessário, mas o vídeo mostra a invasão claramente. Embora o relato sugira um notável gesto de admiração por parte de Hayward, algo soa incompatível com a imagem que Bryant sempre cultivou: ele jamais, sob nenhuma hipótese e em nenhuma circunstância, faria qualquer tipo de caridade para qualquer adversário. E evidentemente ficaria enfurecido se soubesse que ganhou um presente, em especial em sua última noite na quadra.

Há ocasiões em que o que parece suspeito realmente é. Durante a semana, Hayward abordou a história em seu perfil no Twitter: “O fato é que não é verdade”, esclareceu. “Meu objetivo naquela noite era competir o máximo possível contra Kobe, porque era isso que ele representava e eu queria oferecer a ele o meu melhor”, continuou. “Ele fez sessenta [pontos] em mim e eu não dei a ele nada de graça. O que aconteceu no lance livre não foi intencional. Kobe perderia o respeito por mim se eu fizesse isso”, concluiu. Não só perderia o respeito como viveria com sensações conflitantes sobre seu último jogo, em que a pontuação astronômica poderia ter sido produto não apenas de sua capacidade ofensiva, mas também de uma atitude benevolente por parte de um adversário. O esclarecimento de Hayward restaura o assombro gerado pela atuação final de Bryant, sem permitir uma vírgula relacionada a seu legado como jogador.

Aqueles que o conhecem, sabem. De acordo com Dave McMenamin, repórter da ESPN nos Estados Unidos, a primeira reunião dos jogadores do Los Angeles Lakers após a morte de Bryant foi marcada por uma longa conversa coletiva, em que cada pessoa presente relatou de que forma lembraria de Kobe. LeBron James voltou ao jogo da medalha de ouro em Pequim 2008, entre Estados Unidos e Espanha, quando Bryant jogou Pau Gasol no chão com um golpe violento durante uma tentativa de bloqueio do espanhol. A reação de James foi “uau, você terá de jogar com ele na próxima temporada”, lembrando que Kobe e Gasol eram companheiros nos Lakers. Foi tudo premeditado. Los Angeles tinha perdido a final da NBA na temporada anterior para o Boston Celtics, numa série em que Gasol foi criticado por ter sido “suave” no jogo físico. O encontrão foi uma lembrança para que ele mudasse seu comportamento. No primeiro dia da pré-temporada seguinte, a medalha de ouro que Kobe ganhou naquela noite estava pendurada no armário de Gasol. Que jogador. Que perda.

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