Obrigado

Leia o post original por André Kfouri

Permissão para escrever em primeira pessoa, por força da ocasião. No primeiro espaço que ocupei na internet, um blog no portal IG, fiz durante alguns meses um exercício chamado “coluna dominical”. Era um texto semanal que servia como anúncio ao mercado editorial, uma tentativa de convencer alguém que eu poderia escrever colunas de opinião em jornais. Em algum momento de 2007, o telefone tocou. Era Luiz Fernando Gomes, com um convite para ocupar a contracapa deste LANCE! uma vez por semana, ou, se eu preferisse, duas vezes. Eu preferia, mas por suspeita da minha própria incapacidade, achei melhor começar devagar. A ideia de uma página vazia por minha causa era suficientemente assustadora, embora logo ficasse claro – e não foi por falta de aviso de quem domina este ofício – que escrever duas colunas semanais é mais fácil do que escrever uma.

Uma virou duas, que por um período viraram três, que mais recentemente voltaram a ser duas. Escrever no jornal que o futebol brasileiro lê sempre foi uma responsabilidade extremamente prazerosa, geradora do tipo mais recompensador de repercussão que jamais existirá. Alguém pode se deparar com sua imagem na tela da televisão ou sua voz nas ondas do rádio, sem necessariamente ter procurado. Para ler o que você escreve, é preciso ter a intenção, reservar o tempo e fazer a escolha. Este diário me deu a oportunidade de experimentar essa sensação e me converteu em um profissional que escreve “colunas mentais” mesmo quando não está, de fato, teclando. Ao longo dos últimos treze anos, um total de nenhuma página vazia, ainda que algumas tenham chegado ao jornal aos quarenta e nove do segundo tempo, motivo pelo qual me desculpo.

Tenho muito a agradecer. Escrever com periodicidade não é simples, pois há dias em que os temas não colaboram, a inspiração não chega e a transpiração é fútil. Mas o espaço é nobre demais para ser negligenciado ou tratado como algo que sempre estará ali. Sabemos que não é assim, que o país está em crise, que o mercado está em transformação, que a profissão está sob ataque, que páginas como esta precisam ser ocupadas e defendidas até a última linha do último dia, sempre torcendo e trabalhando para que este dia não chegue. Ao mesmo tempo, é preciso saber identificar sinais de reaquecimento que propiciam que as coisas se movimentem, que chances se apresentem e se reproduzam. Este raro texto em primeira pessoa – felizmente raro, porque a “doença do eu” precisa ser combatida e jornalistas não devem ser o assunto – tem o propósito de informar que estou deixando o LANCE! por minha decisão, algo que não imaginei que aconteceria.

O que também é raro é a total ausência de queixas ou problemas durante uma relação tão longa, mas é a pura verdade. Mais do que meus agradecimentos, o LANCE! tem e terá a minha gratidão pela confiança, pelo investimento, pela coragem e pela liberdade. Eu me despeço cumprimentando o Walter, o Luiz Fernando e todas as pessoas com quem convivi com maior ou menor proximidade, pessoalmente, por telefone ou email, desde que este diário enxergou em mim um colunista. Muito obrigado. Levo comigo as melhores memórias possíveis, e apenas um arrependimento: o fato de não termos conseguido cobrir a Copa do Mundo da Rússia como queríamos, por minha culpa. Longa vida ao LANCE! e até um dia.

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