Clubes devem pensar mais na sociedade do que em seus cofres na pandemia

Leia o post original por Perrone

Discutir o retorno dos campeonatos de futebol no país em meio à pandemia é muito mais do que tratar da sobrevivência dos clubes. É óbvio que o mais importante é a saúde da população, mas grande parcela dos dirigentes parece imitar o presidente Jair Bolsonaro e dizer “e daí?” para as mais de 6 mil mortes por Covid-19 no Brasil até agora.

Nesse cenário, a crise dá a oportunidade para os cartolas mostrarem o quanto são capazes de entender ou não um problema global. Autorizar a retomada dos treinos presenciais agora ou fazer lobby para os jogos voltarem com portões fechados o mais rapidamente possível são atitudes de quem teima em olhar para o próprio umbigo enquanto milhares ao seu redor morrem.

Grêmio e Internacional, por exemplo, apoiados num decreto da prefeitura de Porto Alegre, retomam os treinamentos físicos presenciais nesta semana. Os dois clubes se cercam de cuidados para evitar que seus jogadores e outros funcionários não sejam contaminados. Esse é o problema. A preocupação não pode ser apenas interna. É preciso pensar no exemplo que será dado para população. É natural que muitos se sintam estimulados a sair de casa para retomar parte de sua rotina.

Outro ponto importante: as duas agremiações prometem testar jogadores e demais funcionários e adotar o uso de EPIs. Ninguém nos clubes pensou que há uma falta testes para covid-19 e de EPIs? A carência de equipamentos de proteção individual, aliás, se tornou um pesadelo para médicos e enfermeiros já que sem os materiais adequados o risco de contaminação é imenso.

Não seria melhor Grêmio e Internacional retomarem os treinos à distância, como parte dos clubes vai fazer? Testes e EPIs seriam poupados podendo ficar à disposição do sistema de saúde.

Agora pense se os jogos forem retomados antes que a situação esteja sob controle, o que está longe de acontecer. Os cartolas afirmam que todos os cuidados serão tomados para proteger os envolvidos nas partidas. De novo, falta sensibilidade para entender a crise de maneira ampla. O número é maior, mas vamos pensar em 30 pessoas por time entre jogadores e comissões técnicas voltando a disputar competições. Só para as Séries A e B do Brasileiro seriam necessários 1.200 testes para Covid-19 para assegurar que todos sejam testados. É uma quantidade que faz falta ao sistema público de saúde. Não é hora de energia e recursos serem gastos fora do foco principal.

Com atletas treinando e jogando também há o risco de lesões graves. Não é tão raro, por exemplo, um choque de cabeça entre dois adversários levar ao menos um deles para o hospital. Fraturas e rompimentos de ligamentos que exigem cirurgias também não são raridades. É desnecessário correr o risco de levar mais gente para os hospitais em meio a uma pandemia.

Na opinião do ministro Nelson Teich, a volta do futebol seria boa emocionalmente para a população durante o distanciamento social. Sem dúvida, a quarentena ficaria menos chata para quem gosta da modalidade. Mas o Ministério da Saúde precisa pesar todos os fatores. Apenas distrair a população com jogos na TV cheira à política do pão e circo. Isso é exatamente o que o povo não precisa.