Já que é seguro, Feldman e Caboclo topariam viajar com times no Brasileiro?

Leia o post original por Perrone

O mais importante é que nenhuma vida de atleta foi colocada em risco”. A frase traiçoeira foi dita ao UOL Esporte por Walter Feldman, secretario-geral da CBF a respeito do protocolo contra a Covid-19 elaborado pela entidade. Isso apesar de nas séries A, B e C jogadores conviverem  com companheiros contaminados por conta de atrasos nas entregas dos testes.

Pelo Brasileirão, Goiás x São Paulo foi adiado depois de o time da casa saber que 10 de seus atletas têm covid-19 e acionar o STJD para a partida não acontecer neste domingo (9).

Apesar de toda essa perigosa lambança, Feldman disse que “o balanço é positivo. Tivemos sucessos em todas as outras operações”.

Diante da segurança das palavras de Feldman, uma pergunta é inevitável: o secretário-geral da CBF e seu presidente, Rogério Caboclo, topariam viajar e se concentrar com um time das três divisões do Campeonato Brasileiro a cada rodada?

Pensar nessa pergunta talvez ajudasse a dupla a enxergar como a confederação está sendo arrogante e alienada. Tal postura expôs jogadores a riscos desnecessários.  Confederação e clubes subestimaram a  pandemia.

Incrível terem feito isso depois de o novo coronavírus já ter mostrado ao mundo do que é capaz.

Ao contrário dos chineses, primeiros a enfrentar o problema, os cartolas brasileiros não estão pisando num solo totalmente desconhecido, apesar das inúmeras perguntas ainda sem resposta na pandemia.

Dava para desconfiar que laboratórios em locais mais sobrecarregados tivessem dificuldade para entregar os exames. Se a testagem em massa é um gargalo no Brasil desde o começo da pandemia, porque não seria para o futebol? Não seria mais humano deixar esses testes pra quem divide um cômodo com vários parentes e não tem como se proteger?

Não é egoísmo inventar testes periódicos para times de três divisões enquanto o país ainda não se livrou da macabra marca de mais de mil óbitos por covid-19 registrados por dia?

O confiante Feldman diz que “não há risco zero”. Nesse caso há, sim. Se não houver campeonato e nem treino, não tem como jogador se contaminar no exercício da profissão.

Forçar a volta do futebol antes de uma melhora média radical da situação no país é pensar que podemos controlar o vírus quando quisermos. As incontáveis mortes pelo mundo mostram dolorosamente que não funciona assim.

Não bastasse a arrogância de desafiar o vírus, os cartolas responsáveis pela volta do Brasileirão não tiveram nem a humildade de tentar aprender com a NBA. Num país que lidou mal com a doença como o nosso, a liga norte-americana de basquete enxergou o óbvio: não dá pra ficar colocando jogador em aeroporto com um vírus tão severo à solta.

Os responsáveis por um dos campeonatos mais famosos do mundo entre todas as modalidades se adaptaram, adotaram novo formato com  sede única na tentativa de diminuir os riscos.

Pessoalmente, também acredito que a NBA ainda não deveria ter voltado, e que sua bolha não é infalível, mas pelo menos houve um reconhecimento de que era preciso mudar.

No futebol brasileiro prevalece o “temos que entregar todos os jogos para a TV, senão ficamos sem parte do dinheiro”.

Preferiram colocar a saúde de atletas e demais profissionais em risco e passar vergonha a ter bom senso e enfrentar efeitos financeiros mais agudos da pandemia. A primeira rodada do Brasileiro deixou isso claro.

Porém, pelas palavras de Feldman, não teremos uma mudança radical em nome  da saúde. Pelo jeito, ele aposta numa velha máxima da cartolagem: “vamos acertando as coisas com o tempo. Quando os gols começarem a sair, esquecem os problemas”.