Todos os posts de André Kfouri

Visão

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Foi do Flamengo uma das melhores atuações de um time brasileiro em duas rodadas de Copa Libertadores. Num ambiente tão favorável quanto exigente no Maracanã, a necessidade de se apresentar ao torneio continental – futebol a 4 mil metros de altitude não conta para nada em termos de análise – com um desempenho condizente com o que se espera foi alcançada até com alguma sobra, embora sempre haja defeitos a apontar e corrigir. Além do jogo convincente e da vitória merecida, o Flamengo que começa a se formar pelas mãos de Abel sugeriu uma questão interessante em termos de ideia de futebol, o que provavelmente será um tema ao longo da temporada por causa das características dos jogadores e dos planos do técnico.

No início do mês, Abel disse ao blog do jornalista Mauro Cezar Pereira (hospedado no portal Uol), com todas as letras, que pretendia alterar a maneira com a qual o Flamengo jogou nos últimos anos, em busca de um “futebol mais rápido”. O motivo pode estar relacionado apenas a preferências pessoais, ou talvez tenha sido tomada uma decisão interna de perseguir um título importante em 2019 praticando um jogo de defesa sólida e transição rápida, predominante no futebol brasileiro. O Fla-Flu de fevereiro testou e momentaneamente reprovou essa planificação, quando, após provocar o time de Fernando Diniz a vencer a seu modo, o Flamengo sofreu o gol decisivo nos acréscimos do segundo tempo. (memória: o Santos também não tentou discutir a posse com o Audax de Diniz na decisão do Campeonato Paulista de 2016, mas, diferentemente do Flamengo, teve sucesso na estratégia).

Tanto nas nuvens de Oruro quanto no aquecido Maracanã, porém, o melhor Flamengo foi aquele que se aproximou do desenho de 2018, reunindo talento e toque do meio para a frente, com Éverton Ribeiro aparecendo com destaque. O que indica um claro sentido de conforto coletivo partindo daquilo que os jogadores conhecem em termos de posicionamento e dinâmica. Especialmente na vitória sobre uma anêmica LDU, os gols construídos revelaram um time que se sente bem com a bola, numa noite de felicidade na procura de espaços e na finalização, melhor cenário possível para o modelo de elaboração e superioridade técnica que o Flamengo tentou aplicar nas temporadas recentes. Ao mesmo tempo, uma via até certo ponto óbvia, uma vez que o time equatoriano jamais cogitou se abrir e correr riscos.

Essa configuração se repetirá sempre que o Flamengo enfrentar adversários de nível inferior, em qualquer lugar, e na maioria das partidas no Maracanã, mesmo contra oponentes do mesmo pedigree. É curioso imaginar como o torcedor receberia outra postura semelhante à do Fla-Flu, ciente de que o time, por recurso humano e até mesmo por tradição, poderia – deveria? – optar por assumir o protagonismo e levar seu jogo ao campo do rival. Isso não significa ter apenas uma forma de atuar, já que determinadas ocasiões (particularmente fora de casa, diante de times que o atacarão) poderão pedir ao Flamengo o tipo de jogo com velocidade pelos lados que Abel visualiza. Ser capaz de alterar a própria personalidade durante as partidas, como fez o Athletico Paranaense na segunda metade do ano passado, é uma virtude necessária ao futebol atual, desde que, é claro, haja competência para tanto.

É possível que, com a melhor das intenções, evidentemente, a mudança idealizada por Abel seja um conflito com a natureza de seu grupo de jogadores. Neste caso, o trabalho estaria na qualificação e no aperfeiçoamento do que o Flamengo tenta ser há alguns anos, com a introdução de variações que o tornem mais perigoso conforme as circunstâncias. Mesmo considerando a fragilidade da LDU, a noite de quarta-feira pode ter sido uma visão do sucesso.

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Incontrolável

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Só é preciso voltar uma temporada no tempo para que a diferença da contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus seja notada. Com a coincidência do retorno ao mesmo local, e também para um jogo entre o time italiano e um adversário de Madri. Foi em três de abril de 2018 que Ronaldo marcou duas vezes pelo Real Madrid no Allianz Stadium, uma delas com a bicicleta que fez Buffon cumprimentá-lo e uma parte da torcida juventina aplaudi-lo apesar da tristeza. Naquela noite, os gols de Cristiano distanciaram a Juventus do sonho europeu e certamente estimularam o clube de Turim a buscá-lo, identificando-o como a peça ausente no projeto de erguer a Liga dos Campeões.

Menos de um ano depois, o mesmo estádio experimentou o que é ter um finalizador como Ronaldo atuando a favor em um confronto desse torneio, com um desempenho que superou até mesmo as projeções mais otimistas. A ideia de fazer três gols em uma equipe com a capacidade defensiva do Atlético de Madrid já é, por si, ousada. Três gols do mesmo jogador são um projeto ainda menos provável, embora a trajetória de Cristiano na UCL seja capaz de desafiar o ceticismo. Nessas ocasiões, a obrigação de estabelecer uma determinada diferença no placar multiplica a dificuldade do feito, uma vez que o adversário pode manejar os diferentes cenários em que mesmo uma derrota não significa a eliminação.

O que não se pode manejar, como se viu anteontem, é Cristiano Ronaldo dentro da área. O ex-jogador inglês Gary Lineker se sentiu obrigado a ir ao Twitter após o segundo gol, e escreveu “eu acho que Cristiano é o melhor cabeceador que já vi”, uma afirmação da qual é difícil discordar. E após uma atuação de super-herói para manter a Juventus nesta edição da Champions, a aparição de Ronaldo na conversa sobre os melhores jogadores europeus de todos os tempos não soa como exagero. É possível enxergá-lo sentado à uma mesa de ícones com Cruyff e Zidane, mesmo considerando os perfis e as características futebolísticas que os distinguem.

Foi a oitava vez em que Cristiano Ronaldo fez três gols em um jogo de Liga dos Campeões, de modo que a noite de terça-feira em Turim não é exatamente um acontecimento raro. Mas não é sempre que um jogador exercita, em campo, todos os motivos que levaram seu clube a contratá-lo, no tipo de ocasião imaginada como um obstáculo intransponível sem sua presença. Pois foi precisamente o que aconteceu, uma temporada depois da bicicleta com a qual Ronaldo conquistou Turim.

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Vassoura

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James Kerr, autor britânico que escreveu o livro “Legacy”, em 2013, provavelmente é o responsável por uma onda de boa atitude que atingiu o futebol sul-americano neste início de ano. Lançado no Brasil pela editora Benvirá sob o título “Legado – 15 lições de liderança que podemos aprender com o time de rugby All Blacks”, o livro é o produto da imersão de Kerr no cotidiano da seleção neozelandesa de rúgbi durante cinco semanas em 2010. Uma dessas lições é o costume de limpar o próprio vestiário após treinos e jogos, tal como os argentinos do Talleres fizeram no Morumbi, mês passado, quando eliminaram o São Paulo da Copa Libertadores. Como o Internacional fez no Chile, na quarta-feira. Como o Cruzeiro fez na Argentina, na quinta.

Os All Blacks não são apenas o time de rúgbi mais conhecido do mundo; são a equipe mais vencedora que existe neste patamar do esporte – qualquer esporte – profissional, com aproveitamento histórico de 77%. O uniforme preto que os caracteriza e os identifica até para quem não está familiarizado com essa modalidade representa não apenas excelência esportiva, mas uma cultura de respeito, responsabilidade e honra que transcende o jogo. Ser um all black não é fazer parte de uma determinada equipe, mas se conduzir como um determinado tipo de pessoa. São vastas as diferenças de comportamento que se verificam no rúgbi e no futebol, especialmente na relação de jogadores com os adversários e a arbitragem. Enquanto se deve aplaudir que a limpeza de vestiários se torne comum, seria formidável que fosse apenas o primeiro exemplo de uma influência positiva.

“Antes de sair do vestiário após os jogos, alguns dos nomes mais famosos do rúgbi – incluindo Richie McCaw, Dan Carter e Mils Muliana – param e limpam a sujeira que deixaram. Eles literalmente varrem o chão”, Kerr contou em um artigo publicado no diário britânico The Telegraph, em novembro de 2013. “Embora isso pareça estranho para um time de dominação imperiosa, a humildade é fundamental para a cultura deles. Os All Blacks acreditam que é impossível alcançar o sucesso estratosférico sem que seus pés estejam firmes no chão”, explicou. Importante salientar que não se trata apenas de deixar o vestiário nas mesmas condições em que ele foi encontrado (o que pode ser feito por funcionários); são os próprios jogadores que se encarregam desse trabalho.

Fica claro, portanto, que é uma questão de conduta. Os All Blacks a explicam por intermédio da frase “never be too big to do the small things that need to be done”: nunca seja tão grande a ponto de deixar de fazer as pequenas coisas que precisam ser feitas. Filosofia de vida aplicada ao esporte, em respeito aos valores que compõem o espírito de um time que não se distingue apenas no gramado, e que não ficam restritos ao ambiente coletivo. Quando não está a serviço do time nacional, cada all black varre a grama, os pedaços de esparadrapos e retira as garrafas de água dos vestiários após jogos entre clubes; o chão limpo é o sinal de que um jogador da seleção neozelandesa esteve ali.

A limpeza do vestiário também é um gesto de respeito ao adversário, consequentemente uma demonstração de respeito ao jogo, que está acima de todos. Mas quem a faz está, de fato, respeitando a si mesmo ao se portar com tal senso de responsabilidade. Outra frase que ajuda a compreender o jeito all black de ser é “leave the jersey in a better place” (em tradução livre: “leve a camisa a um lugar melhor”), mandamento que conecta todas as gerações que vestiram o uniforme preto ao longo dos tempos, voltando até os ancestrais dos jogadores atuais. Sim, o futebol está bem distante disso, é verdade. Mas nunca é tarde para entender que varrer o chão é apenas um signo de algo muito maior.

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Cura

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O nível de ódio endereçado a Vinicius Júnior nas redes antissociais é doentio. Não se pode considerar normal nem se o garoto tivesse comprado um lugar num colosso do futebol mundial, pagando seus concorrentes de posição para deixá-lo jogar antes do que se planejava. Sabe-se, claro, que é exatamente o oposto: a desastrosa temporada do Real Madrid (encerrada em uma semana após três jogos em casa contra o que se convencionou chamar de Barçajax, o que machuca mais) enxergou no atacante brasileiro uma saída do atoleiro. Sua presença no time titular foi solicitada.

E ele correspondia brilhantemente até se machucar. Brilhantemente. Menos para quem se julga conhecedor do funcionamento do futebol a ponto de determinar, do alto da importância do próprio sofá, que um futebolista ainda em formação tem obrigação de acertar em todas as oportunidades que surgem. Ou que um jovem milionário candidato a astro planetário tem de absorver as pancadas em silêncio, no mínimo, mas melhor seria se sorrisse. É vergonhoso. Pois quando a origem de tanta radioatividade não é a inveja ou o preconceito, é o fato de Vinicius ser associado ao Flamengo, como se isso justificasse o desejo de quem não é Flamengo pelo seu fracasso. Ou então é a combinação de todas essas forças, quer dizer, fraquezas. De caráter.

O ataque do Real Madrid é um território monárquico no futebol. Basta pensar nos nomes que o habitaram ao longo dos tempos. Eis que as coisas andaram tão mal que um clube dessa magnitude teve de olhar para um rapaz contratado para ser parte do futuro, buscando em seus pés o alívio imediato. Mesmo que seus fundamentos técnicos ainda precisem de polimentos. Mesmo que seu corpo ainda esteja em desenvolvimento. Mesmo que suas habilidades ainda não se apresentem com a exuberância necessária para um trabalho tão exigente. Mesmo praticamente desconsiderando o processo de adaptação. Ele não apenas se entendeu rapidamente com os companheiros, como recebeu elogios em tom de agradecimento pelo desempenho. Mas os especialistas de twitter brasileiros “pensam” diferente.

A parte verdadeiramente triste dessa história é a lesão no tornozelo. Não há momento apropriado para um jogador se machucar, mas há ocasiões em que o preço cobrado parece pesado demais: no caso de Vinicius, o chamado da seleção brasileira e a perspectiva de disputar a Copa América. O tempo pode demorar a passar, mas Vinicius voltará inteiro, saudável. Quem o chamou de pipoqueiro, por outro lado, não tem cura.

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Jovem

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Imagine um técnico de vinte e nove anos chegando a um clube brasileiro e solicitando a construção de uma torre de observação na linha lateral do campo de treinamentos, ao lado de um telão de 6x3m conectado a quatro câmeras para serem usadas durante os trabalhos. Imagine este técnico no andar mais alto da torre, controlando a exibição das imagens por meio de um iPad e as utilizando para corrigir posicionamentos dos jogadores enquanto treinam, como se estivesse em um palanque, discursando para observadores atentos. Apenas pense em uma cena como essa no Brasil, e tente calcular quantas vezes a pergunta “mas o que esse cara ganhou?” seria repetida do gramado aos corredores do clube, das mesas de debate às mesas de bar. Sem falar na potência da torcida por seu fracasso, para que os entusiastas da mediocridade se sintam confortáveis diante do que ignoram.

As sessões de treinamentos são exatamente assim no Hoffenheim, clube da Bundesliga, desde 2017. A ideia foi de Julian Nagelsmann, que assumiu o time quando tinha vinte e oito anos e o conduziu do pavor do rebaixamento à fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa. Os benefícios dos treinos filmados e analisados de uma posição mais alta são evidentes: o técnico enxerga o campo todo por um ângulo que favorece a leitura de posições, orientando os jogadores imediatamente, com auxílio do telão, sem que seja necessário levá-los para uma sala de vídeo após o trabalho. Os futebolistas dirigidos por Nagelsmann dizem que seus treinos os obrigam a pensar, o que obviamente não é uma referência sarcástica ao currículo do treinador, com quem ele chupou laranjas ou quantos troféus exibe em seu escritório.

A propósito, Nagelsmann jogou como zagueiro, mas não alcançou o futebol profissional. Lesões de joelho precipitaram o fim de sua carreira ainda na categoria sub-19, momento em que optou pela formação acadêmica em administração de empresas e ciência do esporte. A trajetória como técnico se iniciou no Augsburg, à época sob direção de Thomas Tuchel. O Hoffenheim lhe ofereceu um contrato de três temporadas em 2015, tornando-o, aos vinte e oito anos, o treinador mais jovem da história a comandar um clube da primeira divisão do campeonato alemão. Nagelsmann não fala alto, não tem “perfil motivador”, é viciado em tática e obcecado pelos mínimos detalhes. Trabalhar em um clube cujo dono é um empresário do ramo de tecnologia certamente colaborou para a aceitação de seus métodos, que, a partir da próxima temporada, estarão a serviço do RB Leipzig.

No Brasil, treinadores jovens têm sofrido duplamente com a “cultura do resultado”, impiedosa e permanente. A exigência não observa a data de nascimento ou o tamanho do portfólio, mas, especialmente para os que não foram jogadores profissionais, a desconfiança tende a se converter em abandono aos primeiros sinais de problemas. Falta suporte dos gabinetes para lidar com jogadores habituados a um modelo de autoridade baseado na estatura dos técnicos, embora, em certos casos, também falte tato para se posicionar nos momentos de dificuldade. Num ambiente que rotula treinadores em três categorias universais – o medalhão, o estudioso e o estrangeiro – a necessidade de vencer rápido e sempre, seja como for, penaliza quem ainda precisa construir seu caminho.

É o que Nagelsmann está fazendo, do alto de sua torre de observação e com um tablet na mão. Antes do acerto por quatro anos com o Leipzig, clubes de primeira grandeza dentro e fora da Alemanha se interessaram por sua forma de trabalhar. Em vez de fazer um movimento glamoroso, que poderia ser precipitado, ele optou por seguir em evolução gradual. Na Europa, fala-se sobre um técnico com rota para o topo desenhada e inevitável. No Brasil, a oitava posição do Hoffenheim na classificação da Bundesliga é a senha para a ironia despeitada. Afinal, com torre, iPad e telão… “esse Nagelsmann ganhou o quê?”.

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Perfil baixo

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Os diários esportivos de cada cidade seguem cobrindo os encontros entre Barcelona e Real Madrid como reality shows futebolísticos, mas o drama já esteve em níveis muito mais altos. Obviamente a tensão entre técnicos jamais voltará aos tempos de Mourinho x Guardiola, mas até mesmo em relação ao que importa, o jogo, o grande clássico espanhol vive dias de baixa estação. Cristiano Ronaldo não está mais por perto e o Real Madrid sofre para reencontrar o elã que costumava acompanhá-lo. Lionel Messi permanece do lado oposto, mais importante e mais solitário do que nunca.

A tradição de esquentar a prévia do encontro na Copa do Rey gerou uma declaração de Vinicius Júnior, estampado nas primeiras páginas dos tabloides de Madri com a frequência de um ator consagrado em revistas de celebridades, recebida com má compreensão. Instado a falar sobre Messi, o jovem brasileiro que colaborou para resgatar a temporada do Madrid disse que “[Messi] É incrível, mas não assusta ninguém”. A resposta padrão de um jogador do rival sobre a figura que personifica o Barcelona foi entendida, especialmente no Brasil, como uma demonstração de arrogância. Tolice. Ninguém que o conhece tem dele essa impressão.

Vinicius esteve envolvido nas principais ocasiões do primeiro tempo no Bernabéu: um passe – se fosse rasteiro, o trabalho do francês seria facilitado – para deixar Benzema em condições de superar Ter Stegen; e uma finalização de pé esquerdo, bem próxima ao gol, que ele certamente lamentará por alguns dias. Além de exibir os defeitos coletivos que o caracterizam neste momento, o Barcelona foi incapaz de acionar a solução individual que tem sido sua salvação durante toda a temporada. A bola não chegou a Messi entre as linhas de marcação brancas, problema que a ausência de Arthur provavelmente agrava. O primeiro tempo foi tímido até para os tempos atuais, mas condizente com duas equipes que não conseguem se aproximar de suas melhores versões.

Três gols na segunda parte, dois marcados por Suárez e um que ele obrigou Varane a anotar contra, deixaram o Barcelona em posição confortabilíssima para vencer mais uma vez em Madri com uma atuação opaca e sem Messi em noite de desequilíbrio. O que diz muito a respeito de uma partida estranha e talvez diga ainda mais sobre o estado de forma do Real Madrid. As manchetes não serão agradáveis. Uma derrota eliminatória em casa num clássico é sempre pesada, mesmo que o encontro não tenha o conteúdo de outrora.

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Simulação

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Nenhum pacote de modernização do futebol no Brasil terá efeito prático se não considerar alterações na programação de competições. Enquanto os clubes do país perderem jogadores convocados nas datas-Fifa e passarem quatro meses disputando os torneios menos relevantes do ano, certas ideias que, em si, fazem sentido, serão como esparadrapos sobre fraturas expostas. A CBF atua como benfeitora ao sugerir os “avanços”, ciente de que algumas propostas jamais serão aprovadas por aqueles que simplesmente deveriam determinar como as coisas funcionam: os clubes. A Supercopa, por exemplo, faz total sentido. Mas se trata de mais um jogo num ambiente de futebol em que não se treina, além de uma abertura oficial de temporada com disputa de um troféu simbólico entre equipes impedidas de se preparar adequadamente.

No Brasil, joga-se mal também porque se joga demais, e porque se começa a jogar muito cedo, para atender os interesses dos cartórios estaduais do futebol. É fácil notar a diferença de intensidade ao comparar jogos no Brasil com partidas realizadas na elite da elite; deveria ser igualmente fácil – até para a turma do “futebol é quarta e domingo” – calcular a diferença no número de atuações entre os times de lá e daqui. A pré-temporada é uma simulação, os clássicos nos estaduais geram pressão irracional no segundo mês do ano, os times se desfiguram a cada janela de transferências, e tudo explode no colo das comissões técnicas, obrigadas a adaptar o que a ciência ensina à realidade que desrespeita tudo, principalmente o jogo.

A propósito: o que mudou na questão do VAR desde aquela reunião em que a CBF apresentou um atestado de pobreza? Teria a tecnologia progredido tanto a ponto de baratear o custo do equipamento em um período de um ano? Ou será que a confederação subitamente se tornou uma entidade magnânima, quase filantrópica? De qualquer modo, a utilização do árbitro de vídeo em todos os jogos – não fosse assim, seria um contrassenso – do Campeonato Brasileiro de 2019 significará uma competição em que equívocos graves de arbitragem terão muito menos impacto nos resultados do que sempre tiveram, um passo mais do que suficiente para abrandar a impaciência dos que se incomodam com as revisões e/ou a paixão pelo erro do apito como fator de encantamento. O futebol é muito importante para ficar acorrentado ao atraso.

Mas se jogadores deixarem de atuar por seus clubes em partidas importantes porque estão servindo seleções em datas conhecidas com longa antecedência, o jogo seguirá estacionado no Brasil. E a cada crítica ao técnico da seleção brasileira como “o principal responsável” por tal aberração, um cartola de clube/federação reclinará a cadeira, abrirá o whatsapp e enviará emojis de gargalhadas para sua lista de contatos. Alguns celulares tremerão em um prédio imponente na Barra da Tijuca, celebrando o triunfo da estrutura de poder e influência que se sustenta com o passar do tempo, trocando nomes e mantendo métodos, enquanto o futebol sofre em silêncio.

DOCUMENTO

Após algum suspense com alta dose de ridículo, Jorge Sampaoli está apto a trabalhar como treinador no Brasil. A CBF aceitou a licença da Associação de Futebol da Argentina, cuja certificação para treinadores é uma das mais respeitadas no mundo. O curso argentino é aprovado nas ligas europeias, mas Sampaoli, por motivos curiosos, vinha comandando o Santos com uma licença provisória. Como se sabe, o técnico já dirigiu dois países na Copa do Mundo, trabalhou no Sevilla no futebol espanhol e na Liga dos Campeões da Uefa. É melhor para todos que a questão tenha sido encerrada. O objetivo da CBF deve ser a aceitação da sua certificação em outros países, para que técnicos brasileiros tenham mercado internacional e cresçam com a troca de conhecimento.

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#loucura

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A era da imbecilidade orgulhosa é farta em espetáculos do absurdo. Enquanto Fluminense e Vasco decidiam a Taça Guanabara, no domingo, num Maracanã usado com irresponsabilidade quase criminosa, o perfil oficial da Ferj no twitter atualizava o andamento do jogo com hashtags como #omaisvisto e #omaischarmoso. Tente conciliar essas expressões com os maus tratos ao público e o risco de acontecimentos trágicos fora do estádio, e a conclusão será um nível doentio de desconexão da realidade, algo comparável com uma briga por um lugar na areia enquanto o tsunami se aproxima.

É difícil crer que não foi uma trama arquitetada por mentes maquiavélicas, tal o patamar de insanidade. Um autêntico manual de como esculachar um jogo de futebol, com fabricação do descontrole popular para produzir cadáveres nas ruas. O que se viu no Rio de Janeiro, com envolvimento dos clubes, da federação e até da Justiça, foi um atentado ao torcedor de futebol. O plano não teve sucesso por falta de sorte, mas mesmo que houvesse mortes ou feridos graves, o twitter da Ferj seguiria falando em #futebolraiz.

O que é isso, porém, diante da abordagem corporativa do Flamengo no trato da catástrofe ocorrida em seu próprio centro de treinamentos? Alguém foi capaz de escrever – e outros foram capazes de aprovar – uma nota oficial em que o clube mencionou o caso da Boate Kiss para se auto-elogiar no que diz respeito ao pagamento de indenizações às famílias das vítimas. O clube também informa que, considerando a tabela de precificação de vidas humanas perdidas, fez ofertas mais generosas do que as habitualmente praticadas. O nível de equívoco da comunicação do Flamengo neste episódio é simplesmente intolerável.

Isto não é uma negociação que requer o emprego de habilidades e estratégias para alcançar um objetivo estabelecido e comemorado ao final. É um processo de extrema sensibilidade, em que um clube de futebol precisa entender o tamanho de sua representatividade e transmitir seu senso de honradez. Não é uma questão de números, mas de dignidade. A importante diferença entre preço e valor deveria ser evidente quando se trata da imaterialidade. O que pode ser mais valioso para o Flamengo do que a pureza de um sonho compartilhado?

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Complexo

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A estranha vocação do São Paulo para fabricar enigmas prosseguiu anteontem, com a nomeação de um técnico que não queria ser técnico, para ocupar a cadeira de um técnico que não pode ser técnico (imediatamente), substituindo um técnico que não foi demitido. O cenário parece algo desconectado da realidade, embora tenha se desenrolado diante de câmeras e microfones, apresentado por Leco e Raí como se fosse uma decisão trivial neste mundo dinâmico do futebol. Um mundo em que o que foi feito se desfaz em pouco tempo, e o que foi dito se desdiz com naturalidade. Num período de estiagem que se alonga, é intrigante que um clube que sempre se orgulhou da própria governança envie tantos sinais de desorientação, especialmente pela presença de alguém com a história, o nome e o preparo de Raí no comando.

De acordo com os planos, Vagner Mancini dirigirá a equipe por dois meses, enquanto Cuca termina um tratamento cardiológico. Pouco importa que, quando foi contratado, no início de janeiro, o agora ex-coordenador técnico tenha dito que não havia “a menor possibilidade de assumir [o time] em qualquer hipótese”. Àquela altura, o São Paulo acreditava na efetivação de um treinador formado na base e em um tipo de futebol mais elaborado e ofensivo. Deu tudo errado, porque André Jardine não teve suporte para se impor na transição para o time profissional, não teve jogadores para ao menos tentar aplicar o que se supõe ser sua ideia de jogo, e não teve sucesso em praticamente nada do que fez. Após o Talleres limpar o vestiário em que comemorou a classificação na Copa Libertadores, a diretoria são-paulina apertou o botão da reversão e encomendou um técnico que não precisa de crachá.

A medida pode fazer sentido considerando os jogadores que comandam o ambiente na Barra Funda, mas a ponte entre o treinador temporário e o definitivo é um convite para mais problemas. Mancini trabalhará conforme as próprias ideias ou atuará como um mero executor do que Cuca entende ser o melhor caminho? Se as coisas andarem mal, quem será o responsável? Se andarem bem, a quem caberá o mérito? Suponha, por um instante, que Mancini seja campeão paulista e Cuca sofra três derrotas seguidas no Campeonato Brasileiro. Se há um aspecto positivo é o da “estabilidade” de Mancini, que não poderá ser demitido por um prazo de sessenta dias. Cuca desfruta de proteção semelhante, já que não corre o risco de cair antes de assumir. Em uma gestão que terá seu décimo treinador quando abril chegar, dois meses garantidos precisam ser valorizados.

O último clube brasileiro a escolher essa rota se arrependeu. Por causa da saída de Reinaldo Rueda, o Flamengo entregou o time em janeiro do ano passado a Paulo César Carpegiani, que seria contratado para trabalhar como gerente de futebol. Carpegiani assumiu mencionando que o clube já procurava outro treinador, provavelmente alguém da “nova geração”. Menos de três meses depois, uma derrota para o Botafogo nas semifinais do campeonato estadual o derrubou, junto com o executivo Rodrigo Caetano. O futebol é complexo e nem sempre as decisões que parecem corretas conduzem a soluções. Alimentar as complexidades, porém, é um movimento arriscado que clubes em crise não deveriam fazer.

CORAGEM E SOLIDARIEDADE

A vitória no Fla-Flu não deu ao Fluminense um título e não é, em si, uma garantia de êxitos futuros. Mas seu valor para o entendimento de uma forma de jogar – ou, até mais do que isso, de se comportar em campo – é compatível à explosão de alegria gerada pelo gol de Luciano. O futebol proposto por Fernando Diniz é baseado em coragem e solidariedade, composição difícil de produzir e sempre propensa a causar momentos de frustração. A noite de quinta-feira no Maracanã representa outras sensações: recompensa, confiança, esperança.

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O fator Brasil

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Levir Culpi foi o primeiro a avisar, ainda na última sexta-feira, que haveria uma onda de inspeções a centros de treinamentos dos principais clubes do país. Foi como se o técnico do Atlético tivesse informação privilegiada, pois, desde então, o noticiário tem exibido a repetição de manchetes a respeito de irregularidades verificadas em visitas das autoridades a esses locais. Nota-se, claro, especial atenção a alojamentos das categorias de base e a avaliação dos riscos de incêndio, o equivalente ao aparecimento repentino de viaturas policiais onde não havia nenhuma quando um crime de alta repercussão aconteceu.

Seria um contrassenso criticar medidas cujo objetivo é evitar tragédias, e este não é o ponto. O ponto é o que se pode chamar de “fator Brasil”: o talento nacional para a complacência com irregularidades – de todos os níveis – até que uma barbaridade como a do Ninho do Urubu literalmente obriga as cadeiras a se mexer. É vasta a lista dos clubes que tiveram de tomar providências nos últimos dias, para se adequar ao que é correto ou evitar perigos. Tudo estava perfeitamente em ordem na semana passada. E não é que não haja legislação ou alguém possa explicar que não conhece a diferença entre certo e errado. As burocracias apresentam dificuldades e oferecem vias paralelas sem que ninguém se preocupe.

O pós-tragédia expõe a realidade inaceitável, mas não sem antes revelar reações imediatas quase sempre no sentido de negar responsabilidades ou minimizar danos. É como se ninguém tivesse culpa e se tratasse de um evento espontâneo, que não se compreende e não se explica. A relutância do Flamengo a discutir abertamente o ocorrido e lidar com os questionamentos indica uma conduta corporativa que não se concilia com o papel de clubes de futebol dessa magnitude. A preferência por enviar jogadores – Diego e Willian Arão, por enquanto, merecem aplausos pela dignidade – ao contato público não deixa de ser uma estratégia de comunicação, quando a ocasião pede transparência.

A verdade inescapável é que dez meninos perderam a vida dentro das instalações do Flamengo. Não há gabinete de crise que seja capaz de suavizar algo tão devastador. Mas isso é o que aparece na vitrine. No escritório que fica nos fundos, sentado à mesa e colado ao telefone, está o “fator Brasil”.

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