Todos os posts de André Kfouri

Efêmero

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Vanderlei Luxemburgo surgiu na sala de entrevistas do Maracanã, na madrugada de quinta-feira, para seu momento sublime em 2019. Nada de que o Vasco possa se orgulhar na temporada tem tamanho para se equiparar ao 4 x 4 com o fenômeno do momento, o rival de sempre. De fato, uma pesquisa retrospectiva terá dificuldade para encontrar algo semelhante nos muitos anos recentes, não para o Vasco, mas para seu técnico. É provável que o próprio Luxemburgo não tenha uma resposta imediata para a pergunta sobre quando, onde e por que esteve nesta situação pela última vez.

Suas impressões digitais eram visíveis no resultado. Sua orientações, notáveis no comportamento do time. Sua capacidade de decifrar o adversário, perceptíveis a ponto de expor o que ainda não se tinha visto. Ali naquela sala, com o microfone à disposição e a atenção de todos assegurada pelo tempo que fosse necessário, ele estava prestes a reivindicar o que lhe pertencia. A audiência esperava, com a certeza do nascer do sol, um discurso em primeira pessoa elaborando, em detalhes, como Luxemburgo reviveu suas grandes noites à beira do campo e presenteou seus jogadores com o caminho para o que eles imaginavam impossível. Seu time, seu plano, seu mérito.

Quando Vanderlei Luxemburgo representava a vanguarda dos treinadores do futebol brasileiro, a sala de entrevistas era a arena em que ele derrotava oponentes – reais e imaginários – após vitórias que exibiam seu brilho indiscutível. Nenhum elogio era suficiente, nenhum defeito era reconhecido, nenhum detalhe escapava a seu olhar visionário. Seus times venciam com requinte técnico e surpresas táticas, com classe e energia, com jogo e resultado. Mais ou menos como o Flamengo tem feito, sob o comando de um treinador nascido em outro país, com quem ele compartilha certos traços de personalidade. Numa noite em que o Maracanã monopolizou o debate futebolístico no Brasil, na qual se esperava que seu time aumentasse o rastro de destroços que o Flamengo tem deixado para trás, Luxemburgo tinha, finalmente, seu “momento Cristiano Ronaldo”. A ocasião para declarar da maneira mais enfática possível: eu estou aqui.

Na medida em que as perguntas se sucederam, porém, um moderado Luxemburgo se dispôs a explicar como preparou seu time para jogar o clássico. Não alterou a voz nem mesmo para pedir respeito pela camisa e pela tradição do Vasco da Gama, em busca da pontuação para se manter na primeira divisão. Não tentou se apropriar do produto coletivo da atuação de seus jogadores. Teria sido a menos característica de suas entrevistas em ocasiões como esta, não fosse uma intrigante menção, repetida, sobre seu lugar na profissão: “Se você pegar a minha história dentro do futebol, o meu currículo dentro do futebol, se botar a nível mundial, acho que poucas pessoas têm o currículo que eu tenho”, disse, textualmente, numa declaração que guarda nível de mistério comparável ao fato de o Flamengo ter sofrido quatro gols.

Exceto o arroubo imodesto, a conversa prosseguiu em tom controlado, quase discreto. Havia algo de estranho, uma cena em que fatos e personagem não se complementavam, como se fossem alheios e não devessem se relacionar. Onde estava a persona superlativa, sempre pronta a gravar seu autógrafo em aulas maestras que seriam relatadas com admiração e dissecadas por novas gerações deste ofício? A resposta, como é frequente, está na realidade das coisas. A equipe que lidera e encanta não era a dele. Os futebolistas formidáveis em campo não estavam sob suas ordens. Em última análise, a noite terminou em empate e um empate jamais será um tesouro para quem venceu tanto.

Ao sair da sala, Luxemburgo não conseguiu explicar por que esta versão de seu time só apareceu numa quarta-feira de clássico no Maracanã, algo efêmero demais para ser reivindicado, até mesmo por ele.

 

 

 

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Melhor pior

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Em um trecho de “Os Números do Jogo”, livro lançado em 2013, os economistas David Sally e Chris Anderson apresentam uma das grandes diferenças entre o futebol e o basquete. Enquanto no basquete – um esporte baseado no “elo forte” de uma equipe – o que mais interessa é o quão bom o seu melhor jogador é, no futebol – um jogo do “elo fraco” – a qualidade do seu pior jogador é um fator determinante. Pense na frequência em que, por exemplo, James Harden tem impacto decisivo no resultado de jogos do Houston Rockets. Agora pense na frequência em que Dudu ganha partidas para o Palmeiras.

O fato de Lionel Messi constantemente ser o motivo pelo qual o Barcelona vence não deve ser utilizado para confrontar a ideia, mas para tentar entender o fenômeno que ele representa. Mesmo porque o raciocínio de Sally e Anderson se verifica sempre que Messi joga muito e seu time não ganha, ocasiões em que o chamado elo fraco aparece para mostrar por que o futebol é o esporte mais coletivo que existe. Um jogo em que a importância dos erros é multiplicada por sua conversão em gols que decidem encontros. E como erros são cometidos, na maioria das vezes, pelos jogadores menos dotados, os futebolistas que destoam de seus companheiros acabam se associando aos resultados finais.

É curioso pois times de futebol são apresentados e se tornam conhecidos por intermédio de suas estrelas, mesmo que o nível de seus jogadores menos cotados esteja mais intimamente relacionado ao sucesso ou fracasso. Se o “pior” jogador de uma equipe é superior a seus equivalentes nos adversários, é possível fazer uma avaliação mais precisa das distâncias técnicas entre os times. O Barcelona de Messi, a Juventus de Cristiano Ronaldo, o Liverpool de… é difícil escolher o melhor jogador do atual campeão europeu, mas eleger o elo fraco do time dirigido por Jurgen Klopp é uma tarefa ainda mais complexa. Num exercício envolvendo outros elencos europeus de destaque, as respostas aparecerão em menos tempo.

Aqui no Brasil, situação semelhante se dá com o Flamengo. Quem é a estrela do campeão brasileiro a ser coroado em breve? Gabriel Gol? Bruno Henrique? Everton Ribeiro (chamado de “o nosso Messi” por Filipe Luís)? Gerson? Ocorre que o raciocínio inverso também não é simples. Considerando o time titular – que representa a maior diferença entre o Flamengo e a concorrência –, qual jogador poderia ser apontado como “mais fraco”? E essa, ainda, não é a pergunta relevante.

O que importa é a comparação entre o “pior titular” do Flamengo e os jogadores que ocupam essa posição nos demais times. É provável que essa relação seja mais realista a respeito da supremacia técnica do time de Jorge Jesus do que a qualidade de Gabriel (se é que ele foi a sua escolha). Está evidente que o Flamengo é uma reunião de futebolistas tecnicamente privilegiados, na qual os que brilham mais recebem aplausos correspondentes. De acordo com Sally e Anderson, também é necessário aplaudir quem brilha menos.

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Luxo

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O ano mal tinha começado e Jorge Sampaoli já sabia como terminaria. Ao menos em relação a seu time. A diferença de capacidade de investimento entre o Santos, o Flamengo e o Palmeiras seria determinante, e, embora um trabalho bem feito pudesse gerar elogios por superar expectativas, apenas amenizaria a distância técnica entre os times. O desenrolar da temporada lhe dá razão, mesmo que o líder do Campeonato Brasileiro exiba um desempenho acima de todos os registros, e a pontuação do vice-líder esteja no patamar de títulos anteriores. O que Sampaoli desejava ao chegar ao Santos é a mesma coisa que provavelmente o impedirá de seguir: condições que lhe permitam fazer mais do que perseguir os clubes financeiramente mais potentes do país.

O modismo do “treinador estrangeiro” – expressão que os reúne, todos, independentemente do passaporte, da formação e das ideias, sob um mesmo rótulo – é genitor de outra generalização ignorante; as referências ao “treinador brasileiro”. Em parte, o antagonismo é alimentado por declarações infelizes de técnicos acostumados a um ambiente de competição em que todos, mais ou menos, são colegas conhecidos. Como não há relação prévia com Sampaoli e Jorge Jesus, fica mais fácil estocar, mesmo que soe como despeito. E soa, muito. Por vezes, soa como algo mais profundo. De “o Flamengo joga como o Brasil de setenta”, de Argel Fucks, a “Jesus dirige uma seleção”, de Renato Portaluppi, passando por “não sei que termo é esse (“caça ao homem”, a propósito da violência dos jogadores do Botafogo) que ele veio usar aqui no Brasil”, de Alberto Valentim, há um pouco de tudo. Até dificuldade de relacionamento com a língua portuguesa.

A questão não é diretamente com a pessoa, mesmo porque não haveria razões plausíveis. É com a posição. Note que Sampaoli – trabalho altamente elogiável, mas em terceiro lugar na classificação – não tem sido alvo frequente. Os dardos vão na direção de Jesus, que lidera com muita folga e muito jogo, separando-se do que é normal e, portanto, palatável. E como o treinador português, fazendo jus ao perfil de personalidade que já era conhecido antes de sua chegada, não tira o pé do acelerador também nas entrevistas, os duelos prosseguem mesmo quando os jogos terminam. As diferentes posturas, quase sempre com versões de “com esse time, até eu”, perdem-se entre a depressão e o desconhecido, pois não há como verificá-las. Somente Jesus dirige o Flamengo na rota do título brasileiro e da Copa Libertadores, sem deixar passar qualquer ocasião para que este fato fique bem claro.

E é aí que está. Os demais seguem em outros lugares, em cenários muito distintos, certamente imaginando como seria operar com os luxos que o Flamengo disponibiliza a um treinador recém-chegado de longe. Talvez haja até quem considere inadequado que tanta fartura seja oferecida a um técnico que não tem trajetória no futebol brasileiro, como se houvesse algum pré-requisito além da capacidade. Ainda não se ouviu algo no sentido de “Jesus precisa dirigir um time da Série B para provar que é bom”, mas é conveniente não apostar contra essa possibilidade. Enquanto o ambiente se dividir entre o treinador brasileiro e o estrangeiro, o futebol no país não dará o salto necessário.

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Maletas

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“O modelo de jogo reflete a personalidade da equipe, e, portanto, o caráter do treinador”, escreve Martí Perarnau na abertura de um dos capítulos de “Pep Guardiola – A Evolução”, seu segundo livro sobre o treinador catalão. “Como sabem, um encanador não leva em sua maleta os mesmos instrumentos de um cirurgião, e um carpinteiro não leva um colete salva-vidas. O treinador é quem oferece esse modelo à equipe, baseado em seus fundamentos de jogo”, explica.

Mais adiante, Perarnau apresenta as diferenças entre modelo, plano e sistema de jogo:  o modelo é a “caixa de ferramentas que o treinador oferece ao time”; o plano é o “conjunto de elementos específicos e a dinâmica de jogo com que se enfrenta uma partida”; o sistema é “a distribuição espacial dos jogadores em campo em cada momento específico de uma partida”. Pode-se elaborar planos distintos, utilizando sistemas diversos, dentro de um mesmo modelo. Pode-se ter modelos semelhantes, baseados em fundamentos diferentes, pois nenhum treinador é igual ao outro.

É um equívoco afirmar que o fracasso do Corinthians em 2019, sob direção de Fábio Carille, representa o fim do “modelo” utilizado nos últimos dez anos, período mais glorioso na história do clube. Se tanto, a saída de Carille significa a derrota da maneira como ele aplicou o modelo nesta temporada, um modelo que não é “do Corinthians”, mas sim de seu ex-treinador. Pois há distâncias bem evidentes entre times dirigidos por Mano Menezes (2009) e Tite (2015) e esta última versão comandada por um profissional moldado por ambos. Além da miopia que acompanha as generalizações, a redução de dez anos a um “mesmo tipo de futebol” é especialmente injusta com o conjunto que conquistou o penúltimo título brasileiro do Corinthians, provavelmente o melhor trabalho da carreira de Tite.

Entre todos os debates sugeridos pela forma como joga o Flamengo atual, há uma lamentável confusão em andamento que se origina na caracterização definitiva de equipes de futebol, como se o jogo fosse separado entre “times que jogam no ataque” e “times que jogam na defesa”. Trata-se de uma impossibilidade, já que não há quem só ataque ou só se defenda. A conservação da bola, uma das marcas do modelo de Guardiola, tem um claro aspecto defensivo. O desarme no campo do adversário, característica do modelo de Jurgen Klopp, também é uma ferramenta ofensiva.

A chegada de Tiago Nunes ao Corinthians pode soar como uma “ruptura” em relação ao que o time foi em 2019 – e certamente, também, no final de 2018, com Jair Ventura –, mas nem tanto quanto a 2017, principalmente no primeiro turno do Campeonato Brasileiro. Se a conversa retornar a 2015, o uso do termo perde qualquer sentido. Num panorama nacional que pode ser descrito por poucos times que agem e muitos que reagem, o “modelo” de Tiago situa-se, sozinho, com um pé em cada grupo. É capaz de controlar com posse e de ferir com transições, de acordo com o adversário e o desenrolar da partida. Mas, importante frisar, é um modelo que só foi visto no Athletico, com os jogadores que ali estavam.

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Sarrafo

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A coluna se atreve, mesmo sem ter sido convidada, a dar sequência ao debate sugerido por Carlos Eduardo Mansur em seu espaço no jornal O Globo: “O equívoco é concluirmos que, agora, todos os treinadores do país deverão ser compelidos a implantar o sistema do Flamengo, o modelo de Jorge Jesus”, escreveu Mansur, excelente como de costume, na última segunda-feira. O assunto é a diversidade de ideias e o respeito à maneira como cada técnico enxerga o jogo, pois o idioma futebolístico é composto por vários dialetos. Sob pena de parecer cabotino, mas com satisfação pela companhia, esta mesma página apresentou argumentos semelhantes no sábado passado, em meio a elogios indiscutíveis a Jesus e seu time pela virada na direção do “como” e das sensações que o futebol proporciona.

Nada, obviamente, é tão persuasivo quanto o próprio jogo, e a noite de quarta-feira foi ilustrativa para a conversa. No confronto de dialetos apresentado pelo clássico entre Palmeiras e São Paulo, o vencedor, como é frequente, foi o time mais fluente na forma que escolheu para se expressar. Se houvesse um verbete para a expressão “jogar bem”, um dos significados certamente seria “utilizar as ferramentas de jogo que aproximam uma equipe da vitória”. As ferramentas variam de técnico para técnico, de time para time, e, claro, de jogadores para jogadores. Também variam de uma partida a outra, conforme as características do adversário e as circunstâncias do encontro. Neste aspecto, mais uma vez, o jogo no Allianz Parque foi didático. Após anunciar uma reforma na organização ofensiva do Palmeiras e falar em “ataque posicional” ao comentar a vitória sobre o Avaí, Mano Menezes retornou ao que o time fazia antes mesmo de sua chegada para vencer o São Paulo.

Era o que o clássico pedia, considerando a abordagem que o São Paulo usaria e as virtudes dos jogadores à disposição de Mano. Diante de um oponente que naturalmente teria mais posse e tentaria levar o jogo a ser disputado no campo de ataque, o manual de estratégias indicava um plano de aproveitamento dos espaços, não necessariamente de criação destes. Em resumo, ao invés de estar na metade são-paulina do gramado (condição para o ataque posicional), o Palmeiras deveria chegar a ela. No lugar de atacantes posicionados em áreas delimitadas e circulação da bola com paciência, liberdade de movimentação e transições rápidas. O primeiro gol, que tornou o jogo desconfortável para a equipe dirigida por Fernando Diniz, resultou de um lançamento longo para Dudu e da aparição de Bruno Henrique onde não havia marcação. O terceiro foi um contra-ataque de um escanteio cobrado por Daniel Alves, em que Zé Rafael cruzou o campo até fazer a assistência para Gustavo Scarpa.

A escolha por um jogo mais elaborado, com outros futebolistas escalados e funções alteradas (Dudu atuando como ponta próximo à linha lateral, por exemplo, para esticar o campo e aguardar a bola) também poderia ter conduzido o Palmeiras à vitória, mas certamente não parece a melhor opção de acordo com as qualidades e fraquezas do adversário. O que não quer dizer que o Palmeiras deva jogar assim sempre, pois, quando enfrentar times que se defendem recuados, a tarefa será criar o espaço por intermédio da desorganização do rival. É este tipo de situação, muito mais frequente no futebol brasileiro, que Mano menciona ao falar da exigência de uma “outra maneira de atacar”, como disse em entrevista na semana passada.

O Flamengo é a única equipe brasileira capaz de ser dominante a seu próprio modo, independentemente de oponente, local e condições. Os demais devem se adaptar a contextos de competição na busca da abordagem mais vantajosa, mesmo que seja algo ocasional. Até o mais dogmático dos treinadores atuais, Pep Guardiola, pensa o jogo assim. Para o futebol no Brasil, o legado da forma como Jorge Jesus utiliza as condições que o Flamengo lhe oferece é o dilema sobre ser melhor. O sarrafo foi erguido a uma altura em que, por ora, só há um competidor saltando.

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Uma festa?

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A situação de convulsão social no Chile deu à Conmebol a chance de corrigir o erro da final da Copa Libertadores em jogo único. Era a oportunidade de restaurar a decisão em ida e volta e devolver ao torneio o encerramento ao qual o continente está culturalmente habituado. As garantias oferecidas pelo governo chileno, porém, mantiveram os planos originais, que levarão River Plate e Flamengo à “festa do futebol sul-americano” – inserir emoji de pessoa tapando o rosto com a mão – em Santiago para que todos se sintam numa versão paralela da final da Liga dos Campeões.

Conta-se que, mesmo em caso de impossibilidade de realizar o evento na capital do Chile, o troféu ainda seria disputado numa partida única, por causa de acordos comerciais já firmados. Só que em outro país. De modo que privar as torcidas envolvidas de uma final metade em Buenos Aires, metade no Rio de Janeiro, era uma decisão irrevogável. Tivessem os cartolas da casa de leilões de Luque um pouco de apreço pelo jogo, desistiriam da ideia e produziriam festas de verdade em Nuñez e no Maracanã. Seria uma boa notícia para o Flamengo.

No papel, é cristalina a superioridade técnica do time dirigido por Jorge Jesus. Plano teórico, é óbvio, baseado em qualidade individual e coletiva. Do mesmo modo, um argumento indiscutível a favor do conjunto de Marcelo Gallardo é a experiência recente em decisões continentais. Confrontos em dois jogos costumam expor qual é o melhor time, justamente por equilibrar os componentes de futebol jogado e de fatores aleatórios que podem ter influência decisiva. É difícil estabelecer um favorito destacado para um encontro único em Santiago. Em duas partidas, esse favorito seria o time brasileiro.

Alguém poderá lembrar da forma como o River Plate alcançou a final da edição do ano passado, eliminando o Grêmio em Porto Alegre após ser derrotado em casa. A diferença para o cenário atual é que não só havia equilíbrio técnico entre as equipes, como é perfeitamente razoável apresentar o argumento de que o segundo tempo na Arena gremista provou que o eventual campeão sul-americano era superior. O time que estará diante do River no próximo dia 23 é uma séria ameaça ao plano do terceiro título nas últimas cinco temporadas, com máximo respeito à trajetória de glórias do clube argentino neste período.

O River tem o que os outros desejam; a taça, e obviamente conhece o caminho. Até a semana passada, a diferença de experiência no jogo sul-americano era um dos temas prévios à partida de volta do confronto entre Flamengo e Grêmio. Uma noite no Maracanã e cinco gols mais tarde, o fim da conversa ficou bem evidente. O assunto volta ao debate antes da finalíssima, com a diferença de que desta vez não haverá Maracanã. A Conmebol quer um jogo que vale tudo e assim será, mesmo que pareça um contrassenso realizar uma festa num lugar em que não há ambiente para comemorações.

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Miragem

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Se alguém que não soubesse nada do Brasil e do ambiente de futebol no país fosse levado ao Maracanã na noite de quarta-feira, sairia maravilhado com o que viu, ouviu, sentiu. O Flamengo e seus torcedores proporcionaram a grande noite do futebol brasileiro nos últimos anos, com tudo o que se pede de um espetáculo dessa natureza: estádio simbólico, grande público, renda milionária, ótimos jogadores em campo, futebol de ataque e muitos gols. O exemplo anterior a esse foi a goleada sobre o Goiás, em julho, no mesmo local. Mas o tamanho do adversário precisa ser levado em conta. No fechamento do confronto que valia uma vaga na decisão da Copa Libertadores, o oponente era o Grêmio, semifinalista pelo terceiro ano seguido. O fetiche da Conmebol pela Liga dos Campeões da Uefa assegura que outra ocasião como essa não acontecerá nesta edição do torneio, o que, se por um lado impede que dezenas de milhares de torcedores vejam de perto o Flamengo jogar pelo troféu, por outro, ao menos, torna os 5 x 0 ainda mais especiais.

Fosse, de fato, um retrato do que é o futebol nacional, haveria muito a aplaudir. Mas é mais uma miragem do que o jogo pode chegar a ser por aqui, cortesia de um de seus clubes. Como ideal a alcançar, porém, serve como um quadro pendurado nos gabinetes, um estímulo para que se trabalhe melhor. Considerando que a obrigação de dirigentes é administrar clubes com competência (no sentido mais amplo), oferecendo ao torcedor o melhor “produto” possível e facilitando a ocupação de estádios, o Flamengo, como instituição, aponta o caminho certo. Levando a conversa para dentro do campo, o time atual se distingue por apresentar um futebol que agrada e vence, o tipo de jogo que desnuda a escolha mentirosa sobre jogar bem ou ganhar. Ainda não tem a conquista que o valide, parece mera questão de tempo, mas já provou o que acontece quando se elege um perfil ofensivo e se tem coragem para persegui-lo.

Não, não é para todos e muito nesse processo está relacionado a condições distintas. Seria um equívoco tentar replicar o modelo de futebol do Flamengo sem respeitar características e circunstâncias que operam em todos os clubes brasileiros. O ponto é o que se busca, e, especialmente, como. Menotti já disse que jogava “para vencer, não para derrotar”, pois assim “somos mais felizes quando ganhamos e menos tristes quando perdemos”. O Grêmio e sua história recente com Renato Portaluppi ilustram o debate; o time de 2017 costuma ser mencionado como o melhor que o clube já teve, justamente pelas sensações proporcionadas a quem o viu, não apenas por ter sucesso. Não é preciso esperar o Flamengo vencer o Campeonato Brasileiro, ou a Libertadores, ou ambos, para saber onde esse time está no território do que o jogo de futebol provoca nas pessoas.

É o mesmo território que evoca as menções sobre “o Flamengo de Zico”, um patrimônio de honra futebolística utilizado para medir o nível de tudo o que veio depois. Por muito tempo, citá-lo, no Flamengo, foi um devaneio profano, um recurso de tresloucados que ignoram o que não sabem. Não mais. Embora o time dirigido por Jesus não tenha um ícone como ele, seu jogo completa a viagem no tempo e conduz o clube por um caminho semelhante, digno da ilustre companhia. Campeões há todos os anos, sem exceção. As exceções, por óbvio, é que são raras como a noite de quarta-feira, quando tudo conspirou para que o Flamengo do futuro fosse exibido em todas as suas virtudes. No futebol não existem garantias e, especialmente no Brasil, o aleatório ainda é uma força a ser respeitada. Mas o aviso para a concorrência parece claro, e provavelmente já é tarde para a maioria.

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Viveza

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Na viagem de oito anos entre a segunda divisão do campeonato argentino e a sétima final continental de sua história, o River Plate ostenta um ressurgimento poucas vezes observado neste patamar de futebol. É uma trajetória de recuperação da camisa e do orgulho que ela representa, construída pelas ideias de um treinador e pelas convicções transmitidas a diferentes grupos de jogadores, pois, nesta região do mundo, times bons duram pouco tempo e precisam ser refeitos praticamente a cada temporada.

As equipes do River Plate dirigidas por Marcelo Gallardo desde 2014 se distinguem por saber quem são, até onde podem ir e pela compostura que as impede de se descaracterizar nas situações de maior exigência. São traços comuns aos times argentinos que alcançam o sucesso, em alguns casos até quando se encontram diante de adversários mais dotados no aspecto técnico. O River que estará na decisão em Santiago evidentemente é distinto, em figuras, dos que o antecederam, mas é composto pela mesma confiança que pavimentou a aparição em três finais de Libertadores nos últimos cinco anos. É difícil superar equipes que exibem esse estágio de amadurecimento.

Pois elas são capazes de exercer papéis não necessariamente elogiáveis sob o ponto de vista do jogo, mas úteis – na falta de um termo mais apropriado – sob o da competição. Foi o que o time de Gallardo conseguiu anteontem na Bombonera, efetivamente comprometendo uma noite de futebol em mais uma edição do superclássico de Buenos Aires, mas garantindo a passagem à decisão e a supremacia recente em encontros com o Boca Juniors, rival supremo. Num encontro decepcionante aos olhos neutros, o Boca fez o que pôde e o River, que pode bem mais, fez menos. Mas o suficiente.

Não é exagero dizer que o atual campeão do torneio sabotou o jogo, justamente por saber que seu adversário tinha pouco a oferecer. Talvez tenha corrido riscos exagerados ao cometer muitas faltas (com colaboração de uma arbitragem brasileira, satisfeita em parar o jogo) próximas à própria área, efeito colateral do plano de retalhar a dinâmica e converter o clássico numa série de ações incompletas. O fato do total de passes da noite não chegar a quatrocentos ilustra uma conversa interrompida frequentemente, por incapacidade do Boca e, com boa vontade, vivacidade do River.

Vivacidade? Sim, no sentido de esperteza utilizada para ludibriar. É a tradução mais precisa para a palavra “viveza”, um componente da vida cotidiana em diversos países sul-americanos onde se fala espanhol. Aplicada ao jogo de futebol – tal qual o lateral cobrado direto na área – não pode ser a virtude primordial de uma equipe, mas é conveniente como recurso para ocasiões específicas, quando um time se faz passar pelo que não é, para seguir sendo o que os demais não conseguem ser.

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Enquanto isso, na NFL…

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Bob Quinn, gerente geral do Detroit Lions da NFL, estava lívido na porta do vestiário de seu time na segunda-feira passada, após a derrota para o Green Bay Packers exibida em rede nacional de televisão. Quatro decisões da arbitragem foram desfavoráveis aos Lions durante o jogo, entre elas duas faltas de “mãos no rosto” que os replays de vídeo mostraram que não houve. “O vídeo não pode olhar a cor do capacete”, disse Quinn. “O Detroit Lions está revoltado porque algumas situações envolvendo o vídeo são pontuais. Para alguns clubes o vídeo trabalha, e para outros ele não trabalha”, acrescentou, e foi além: “Nós temos essas faltas chamadas em todos os jogos, e ontem um jogador do New England Patriots fez a mesma coisa e o vídeo, me parece, estava desligado”, completou.

As suspeitas sobre o uso da tecnologia como ferramenta de manipulação da arbitragem estão disseminadas na NFL, liga esportiva mais valiosa do mundo. Técnicos e executivos não se entendem em relação ao papel do vídeo como auxílio aos árbitros em campo, a ponto de fazerem acusações diretas de favorecimento. No início da semana, o dono do Miami Dolphins, Stephen Ross, fez coro com as sugestões de que o campeonato deste ano está corrompido. “Se depender do vídeo, os Patriots serão campeões”, disse. Em meio aos disparos, o comissário Roger Goodell mergulhou em profundo silêncio, receoso de que qualquer manifestação poderia inflamar ainda mais as relações entre clubes, com evidentes reflexos nas bases de torcedores.

Mas é tarde. A conectividade se encarregou de alimentar as teses de conspiração entre os torcedores de New England, reunidos em redes sociais e já agindo para defender o clube do que consideram ser uma perseguição declarada. No Twitter, perfis associados aos Patriots divulgaram informações sobre parentes dos árbitros escalados para atuar na próxima rodada. Membros da família de um desses árbitros seriam torcedores do Indianapolis Colts, e por isso, desejam os fãs, ele não deveria trabalhar no jogo na função designada de auxiliar do replay de vídeo. A associação dos árbitros da NFL também não se pronunciou sobre o assunto, embora ameaças virtuais e por mensagens de texto tenham sido registradas em um boletim de ocorrência. Há a informação, não confirmada por canais oficiais, de que o FBI teria aberto uma investigação para apurar responsabilidades.

Mencionado nominalmente por adversários, o New England Patriots não se manifestou enquanto esteve envolvido em jogos importantes. Na tarde de ontem, porém, o clube divulgou uma nota oficial com seu posicionamento, citando equívocos do apito no jogo contra o New York Giants: “O New England Patriots lamenta ter que se posicionar a respeito da arbitragem da NFL. Acreditamos que reclamações por parte de qualquer diretoria mancham a imagem do campeonato e, por isso, vínhamos adotando como postura não nos manifestarmos depois de cada jogo, apesar de já termos presenciado várias situações que, ao nosso ver, prejudicaram claramente nossa equipe. Esperamos que episódios como esses não voltem a ocorrer, especialmente quando o árbitro de hoje estiver envolvido novamente em uma partida importantíssima”.

A nota não respondeu diretamente as acusações dos dirigentes rivais, mas o técnico – e gerente geral de fato – dos Patriots, Bill Belichick, ironizou o proprietário dos Dolphins. “A gente não aguenta mais não reclamar e eles ficam igual a um gatinho miando. Só que eles vão bebendo leite e miando, aí ninguém aguenta. Vão comendo e bebendo leite, e arrebentando com os Patriots. Tem que ver com o dono dos Dolphins se ele viu o vídeo hoje. Vou deixar ele chegar em casa, ver na televisão a ver o que ele fala também”, declarou.

Procurado para comentar a crise, Alberto Riveron, vice-presidente de arbitragem da NFL, minimizou os episódios e se limitou a dizer que “alguns árbitros são meio cabeçudos”.

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Visita Técnica

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Talvez você pense que esses estágios feitos por técnicos brasileiros em clubes europeus sejam meras ferramentas de imagem. Uma foto publicada em rede social ao lado de um treinador consagrado pode ser o resultado de um encontro de cinco minutos, mas passar a impressão da conclusão de uma semana de conversas profundas e observações relevantes. Provavelmente ambos os cenários são reais, pois tudo depende dos níveis de acesso e das intenções envolvidas. Quem deseja investir num período de absorção de conhecimento toma as providências para tanto. Quem quer apenas viajar e aproveitar para fazer uma visita, também. Ao final, o que importa são os efeitos práticos, compatíveis com a dedicação e a capacidade de cada um.

O que parece evidente é que viagens no sentido oposto seriam mais eficientes. As distâncias de condições e percepções de trabalho entre a Série A (principais ligas europeias) e a Série C (campeonato brasileiro) do futebol mundial dificultam demais a aplicação de qualquer aprendizado que se tenha nesse tipo de imersão. É mais ou menos como alguém que trabalha em uma rodoviária ser enviado à Nasa em busca de novas ideias. Ok, há certo exagero no exemplo, mas você captou. Por outro lado, a visita de um funcionário da agência espacial americana a uma rodoviária pode levar a boas sugestões, dentro do que for possível fazer. O problema, claro, é a inviabilidade de trazer um técnico de ponta ao Brasil para um estágio às avessas. Imagine, por exemplo, Carlo Ancelotti passando uma semana no Palmeiras, entre um trabalho e outro, aconselhando a comissão técnica local.

Mas é provável que Jorge Sampaoli e Jorge Jesus estejam fazendo exatamente isso. Como treinadores sem experiência no ambiente do futebol brasileiro, o sucesso que ambos têm experimentado nesta temporada pode servir como um guia de como operar aqui, um conhecimento útil a quem fizer essa mesma viagem nos próximos anos. Colegas de outros países que duraram pouco tempo em clubes do Brasil foram vítimas de diversas circunstâncias – entre elas os próprios equívocos, evidentemente –, mas é inegável que lhes faltou vivência, no sentido prático, por estarem habituados não só a um modo diferente de fazer as coisas, mas a um contexto distinto em relação ao que é oferecido e exigido no país. Quem estiver interessado – Coudet? – fará bem em entrar em contato com os Jorges para entender melhor do que se trata.

A qualidade do jogador brasileiro e a capacidade de investimento dos clubes administrados com competência devem converter o Brasil num centro atraente para técnicos capazes, independentemente do passaporte que portem. A presença desses profissionais só pode acrescentar ao futebol brasileiro em diferentes áreas do jogo, inclusive no estímulo à categoria de treinadores para evoluir num cenário de maior competição. Sampaoli e Jesus se notabilizam pelo impacto imediato nas equipes que dirigem, missão em que outros falharam. O que eles já alcançaram certamente não é uma ferramenta de imagem.

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