Todos os posts de André Kfouri

Obrigado

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Permissão para escrever em primeira pessoa, por força da ocasião. No primeiro espaço que ocupei na internet, um blog no portal IG, fiz durante alguns meses um exercício chamado “coluna dominical”. Era um texto semanal que servia como anúncio ao mercado editorial, uma tentativa de convencer alguém que eu poderia escrever colunas de opinião em jornais. Em algum momento de 2007, o telefone tocou. Era Luiz Fernando Gomes, com um convite para ocupar a contracapa deste LANCE! uma vez por semana, ou, se eu preferisse, duas vezes. Eu preferia, mas por suspeita da minha própria incapacidade, achei melhor começar devagar. A ideia de uma página vazia por minha causa era suficientemente assustadora, embora logo ficasse claro – e não foi por falta de aviso de quem domina este ofício – que escrever duas colunas semanais é mais fácil do que escrever uma.

Uma virou duas, que por um período viraram três, que mais recentemente voltaram a ser duas. Escrever no jornal que o futebol brasileiro lê sempre foi uma responsabilidade extremamente prazerosa, geradora do tipo mais recompensador de repercussão que jamais existirá. Alguém pode se deparar com sua imagem na tela da televisão ou sua voz nas ondas do rádio, sem necessariamente ter procurado. Para ler o que você escreve, é preciso ter a intenção, reservar o tempo e fazer a escolha. Este diário me deu a oportunidade de experimentar essa sensação e me converteu em um profissional que escreve “colunas mentais” mesmo quando não está, de fato, teclando. Ao longo dos últimos treze anos, um total de nenhuma página vazia, ainda que algumas tenham chegado ao jornal aos quarenta e nove do segundo tempo, motivo pelo qual me desculpo.

Tenho muito a agradecer. Escrever com periodicidade não é simples, pois há dias em que os temas não colaboram, a inspiração não chega e a transpiração é fútil. Mas o espaço é nobre demais para ser negligenciado ou tratado como algo que sempre estará ali. Sabemos que não é assim, que o país está em crise, que o mercado está em transformação, que a profissão está sob ataque, que páginas como esta precisam ser ocupadas e defendidas até a última linha do último dia, sempre torcendo e trabalhando para que este dia não chegue. Ao mesmo tempo, é preciso saber identificar sinais de reaquecimento que propiciam que as coisas se movimentem, que chances se apresentem e se reproduzam. Este raro texto em primeira pessoa – felizmente raro, porque a “doença do eu” precisa ser combatida e jornalistas não devem ser o assunto – tem o propósito de informar que estou deixando o LANCE! por minha decisão, algo que não imaginei que aconteceria.

O que também é raro é a total ausência de queixas ou problemas durante uma relação tão longa, mas é a pura verdade. Mais do que meus agradecimentos, o LANCE! tem e terá a minha gratidão pela confiança, pelo investimento, pela coragem e pela liberdade. Eu me despeço cumprimentando o Walter, o Luiz Fernando e todas as pessoas com quem convivi com maior ou menor proximidade, pessoalmente, por telefone ou email, desde que este diário enxergou em mim um colunista. Muito obrigado. Levo comigo as melhores memórias possíveis, e apenas um arrependimento: o fato de não termos conseguido cobrir a Copa do Mundo da Rússia como queríamos, por minha culpa. Longa vida ao LANCE! e até um dia.

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Bedel

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O árbitro francês que censurou Neymar por tentar um drible de efeito deveria ser disciplinado. E não interessa que o jogador em questão é o astro brasileiro cujos dribles são divididos em “válidos, com objetivo” e “desnecessários, para humilhar”. Nenhum futebolista deveria ser advertido por driblar, ao menos até o dia em que os psiquiatras do drible convençam o International Board a incluir na regra do jogo o que é permitido e o que não é. Enquanto isso, não é atribuição da arbitragem de futebol moderar o comportamento de quem tem habilidade para superar marcadores, seja qual for a – aparente – intenção.

O problema se agrava quando é acionada a demagogia da “proteção à integridade física” do driblador, nada mais do que uma desculpa para que árbitros extrapolem suas funções e atuem como bedéis em campo. Beira o ridículo. “Veja, Neymar, se você continuar com isso, alguém pode se irritar e te quebrar…”. Como se Neymar não conhecesse intimamente os riscos e já não tivesse sofrido as consequências por jogar futebol desse jeito. Não significa que esteja certo ou que deva ser estimulado. Não significa que não seja o caso de conversar com ele. Mas essa tarefa é para companheiros, técnicos, amigos… não para árbitros, que estão ali para punir o uso de violência, não para prever se alguém perderá o controle e se arriscará a ser expulso.

Neymar mereceu o cartão amarelo pela forma agressiva como reagiu. Este comportamento, sim, está em desacordo com a regra. Mas é necessário questionar a atuação do árbitro, que provocou a reação ao sair de seu caminho. É curioso que alguém que alega agir para administrar a temperatura da partida faça exatamente o contrário ao irritar um jogador que tentou… driblar. A linha do tempo do futebol está repleta de figuras que driblavam para trás, para o lado, que driblavam para a frente e esperavam o adversário se recuperar para fintá-lo de novo. Tentativas de identificar o “drible de bem” e apresentá-lo como exemplo do que é correto são futilidades que jamais serão aceitas pelo jogo, em especial quando se trata de virtuosos que se expressam em campo por intermédio de suas habilidades individuais.

Talvez valha a pena perguntar se a criminalização do drible não é um sinal de aversão ao futebol, ou ao menos de ignorância a respeito dos mecanismos de profilaxia que o próprio jogo criou. Dribladores abusados sempre tiveram de lidar com zagueiros impacientes, numa relação de sobrevivência em campo que, parafraseado Vanderlei Luxemburgo, pertence ao futebol. A obrigação de árbitros não é prevenir esse encontro, mas garantir que ele se dará conforme o que as regras determinam. Ao cercear Neymar por uma tentativa de carretilha no fim de semana, o árbitro impôs limites ao jeito de jogar de um futebolista como se a partida lhe pertencesse. Se são os efeitos da era da vaidade doentia, convém lembrar que ninguém vai ao estádio ou liga a televisão para ver árbitros em ação. De fato, a maior prova de uma atuação impecável se dá quando não são notados.

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Que perda

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Desde domingo passado, o compartilhamento de histórias sobre Kobe Bryant tem contribuído para que seus fãs iniciem o processo de conciliação com um desaparecimento tão precoce e estúpido. Na maioria, são relatos de pessoas próximas, companheiros, adversários, em que a natureza competitiva de um dos principais esportistas de nossos tempos assume o protagonismo, revelando um caráter obsessivo que só sabia se alimentar de vitórias, mesmo quando perdia. Bryant jogava basquete com a obstinação de quem precisava conquistar tudo em apenas uma noite, e como se a noite anterior tivesse deixado de existir quando o cronômetro zerou. A mitologia a seu respeito tende a aumentar após sua morte, um fenômeno comum quando se trata de ícones que passam a viver no imaginário das pessoas, cuja decisão espontânea é acreditar no que lhes parece apropriado.

Uma dessas histórias remonta ao último jogo da carreira profissional de Bryant, a célebre noite dos sessenta pontos contra o Utah Jazz, quando Kobe foi capaz de transplantar seus melhores momentos para um corpo em declínio físico e oferecer uma atuação inacreditável. Conta a lenda que, ao converter seus últimos dois pontos da linha do lance livre, Bryant teria recebido uma colaboração de Gordon Hayward. O ala do Jazz teria pisado propositalmente dentro do garrafão no momento do segundo arremesso, de modo a dar a Kobe uma nova oportunidade de totalizar sessenta pontos em caso de erro. Não foi necessário, mas o vídeo mostra a invasão claramente. Embora o relato sugira um notável gesto de admiração por parte de Hayward, algo soa incompatível com a imagem que Bryant sempre cultivou: ele jamais, sob nenhuma hipótese e em nenhuma circunstância, faria qualquer tipo de caridade para qualquer adversário. E evidentemente ficaria enfurecido se soubesse que ganhou um presente, em especial em sua última noite na quadra.

Há ocasiões em que o que parece suspeito realmente é. Durante a semana, Hayward abordou a história em seu perfil no Twitter: “O fato é que não é verdade”, esclareceu. “Meu objetivo naquela noite era competir o máximo possível contra Kobe, porque era isso que ele representava e eu queria oferecer a ele o meu melhor”, continuou. “Ele fez sessenta [pontos] em mim e eu não dei a ele nada de graça. O que aconteceu no lance livre não foi intencional. Kobe perderia o respeito por mim se eu fizesse isso”, concluiu. Não só perderia o respeito como viveria com sensações conflitantes sobre seu último jogo, em que a pontuação astronômica poderia ter sido produto não apenas de sua capacidade ofensiva, mas também de uma atitude benevolente por parte de um adversário. O esclarecimento de Hayward restaura o assombro gerado pela atuação final de Bryant, sem permitir uma vírgula relacionada a seu legado como jogador.

Aqueles que o conhecem, sabem. De acordo com Dave McMenamin, repórter da ESPN nos Estados Unidos, a primeira reunião dos jogadores do Los Angeles Lakers após a morte de Bryant foi marcada por uma longa conversa coletiva, em que cada pessoa presente relatou de que forma lembraria de Kobe. LeBron James voltou ao jogo da medalha de ouro em Pequim 2008, entre Estados Unidos e Espanha, quando Bryant jogou Pau Gasol no chão com um golpe violento durante uma tentativa de bloqueio do espanhol. A reação de James foi “uau, você terá de jogar com ele na próxima temporada”, lembrando que Kobe e Gasol eram companheiros nos Lakers. Foi tudo premeditado. Los Angeles tinha perdido a final da NBA na temporada anterior para o Boston Celtics, numa série em que Gasol foi criticado por ter sido “suave” no jogo físico. O encontrão foi uma lembrança para que ele mudasse seu comportamento. No primeiro dia da pré-temporada seguinte, a medalha de ouro que Kobe ganhou naquela noite estava pendurada no armário de Gasol. Que jogador. Que perda.

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Época

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Se ver o campeonato estadual do Rio de Janeiro em pleno andamento enquanto os titulares do Flamengo estavam em férias já passava a impressão de algo fora do lugar, observar os jogos do clube serem tratados como pré-temporada dará a medida do despropósito praticado há anos para agradar os cartórios do futebol brasileiro. Nem é necessário mencionar, por enquanto, as questões comerciais que impedem as transmissões dos jogos do campeão brasileiro e sul-americano pelo torneio da FERJ. A subversão do estadual por intermédio de um tipo de participação que leva em conta apenas os interesses do Flamengo é uma ilustração suficiente.

A decisão de converter o torneio em “pré-época”, nos dizeres de Jorgesus, obviamente está relacionada ao dia em que a temporada de 2019 terminou para o Flamengo e ao respeito a trinta dias de férias dos jogadores. Mas não fosse a exigência do treinador português por mais um mês de preparação, é bastante provável que as cordas se esticassem e o time iniciasse o ano com meia dúzia de treinos, se tanto, como se dá frequentemente com tantos clubes brasileiros. O cartaz de Jesus, que seria o destinatário de críticas e cobranças caso o mesmo acontecesse com o Flamengo, impede qualquer negociação nesse sentido, e agora o que se verá é a transformação do campeonato em treinamentos com uniforme.

Por linhas ligeiramente tortas, é o que faz mais sentido a um clube que atualmente se mede pelo próprio desempenho em competições que têm valor. Opiniões certamente variam, mas não há muitos caminhos para que o Flamengo supere o ano de 2019. Um deles poderia ser o título do Mundial de Clubes, como frisou Jesus, o que logicamente supõe o bi da Copa Libertadores. Não ganhar o Campeonato Brasileiro, porém, deixaria sensações estranhas. Zerar o calendário brasileiro com a tríplice coroa, aí sim, significaria que não sobrou nada para a concorrência – algo que jamais aconteceu, assim como a dobradinha do ano passado. Preferências à parte, nenhum cenário contempla, ou deveria contemplar, o troféu da FERJ. Talvez o Flamengo o conquiste em ritmo de “pré-época”, o que seria até constrangedor.

Enquanto o estadual se desenrola, jogadores do elenco principal do Flamengo aparecerão em partidas utilizadas como ensaios, como os dois jogos imediatamente antes da Super Copa do Brasil, no dia 16 de fevereiro. Mais do que a ausência dos titulares por causa das férias, este é o principal sinal da atualização do status do torneio: para o Flamengo, deixou de ser uma competição. Eis a reflexão que precisa ser feita por mais clubes, e em outros lugares, embora a estrutura de poder do futebol no Brasil insista em ignorar o assunto. O risco de não fazê-la é ver o Flamengo se distanciar ainda mais no aspecto técnico, como fruto de uma pré-temporada mais inteligente e produtiva. Não se pode reclamar de orçamento eternamente.

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Imagem

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É triste a confusão que se faz em torno do aparecimento do zagueiro são-paulino Robert Arboleda, fotografado trajando uma camisa do Palmeiras durante férias no Equador, seu país natal. A dicotomia da condenação sumária de um ato inadmissível e a defesa das “liberdades” de um futebolista profissional revela um debate raso, que não observa camadas importantes de um episódio que deveria ser didático. Não, enquanto for jogador do São Paulo, Arboleda não pode vestir a camisa de qualquer outro clube, em qualquer situação. E não, o fato de ter se permitido flagrar com o uniforme de um rival não deve ser penalizado com expulsão do clube como se ele fosse um pária, ou justifica vaias eternas da arquibancada sempre que tocar na bola.

A razão pela qual um jogador sob contrato com um clube não pode aparecer com outra camisa não é esportiva, ética ou moral. Nem está associada à rivalidade sem a qual o jogo perde essência. E não tem absolutamente nada a ver com fanatismo. É pura e simplesmente uma questão profissional, comercial, traduzida pela figura dos direitos de imagem, cada vez mais importante na remuneração de atletas. Ao licenciar o exercício da exploração de sua imagem a uma entidade esportiva, um jogador permite a utilização de seu alcance popular por ações conjuntas que beneficiem a ambos, evidentemente mediante uma compensação financeira. Essa utilização pode ser a divulgação do programa de sócio-torcedor do clube, uma campanha de um patrocinador, um evento social. É uma relação paralela ao compromisso estritamente esportivo que não pode restringir a liberdade ou prejudicar a personalidade do atleta.

A partir do momento em que uma fotografia de Arboleda com a camisa de outro clube surge nas mídias antissociais, o uso da imagem que ele mesmo autorizou ao São Paulo sofre um sério e claro dano, uma vez que, por um período impossível de calcular com exatidão, a reação automática das pessoas será lembrar do caso. Para fazer um teste, basta imaginar o zagueiro como garoto-propaganda de uma ação do clube para vender ingressos de um setor do Morumbi. Se o São Paulo fica impossibilitado, ainda que temporariamente, de explorar a imagem de um jogador que tomou uma decisão equivocada, o objeto desta relação deixa de fazer sentido. E neste âmbito, não importa se Arboleda estava em férias, fora do Brasil, etc. A própria existência do direito de imagem se alimenta da velocidade de propagação de uma foto nos tempos atuais. Não existem fronteiras geográficas ou distâncias no ambiente virtual, fundamental para a difusão de ideias, boas ou ruins.

O São Paulo multou Arboleda, que se desculpou publicamente e já se expôs ao julgamento do torcedor na estreia do clube pelo campeonato estadual, no Morumbi. Houve vaias do setor mais radical da torcida e compreensão em outras áreas do estádio, o que mostra que agir como vítima de uma ofensa, muitas vezes, é uma opção. Ninguém é proprietário do sentimento de torcer por um clube, nem existe um regulamento que rege a conduta de quem escolhe essa relação. Independentemente da capacidade de acreditar que Arboleda não sabia que usava uma camisa do Palmeiras – versão oferecida pelo superintendente de relações institucionais do São Paulo, Diego Lugano – na fatídica foto, o erro que ele cometeu está muito distante de uma afronta ao “espírito são-paulino”, aos “valores do clube” ou “à paixão do torcedor”. Nem mesmo pode ser descrito como desrespeito. É apenas um deslize do qual o São Paulo deveria lembrá-lo, como reprimenda, a cada vez que depositar seus vencimentos.

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Preço

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Nota-se algo como um sentimento de indignação pelo fato de Alexandre Pato não ter resolvido o dilema financeiro que o São Paulo criou ao contratá-lo. Como se fosse atribuição dele aliviar as contas do clube, uma vez que, em campo, sua contribuição é ansiosamente aguardada até agora. Ou melhor, talvez a espera já tenha se encerrado, e a esperança de uma solução se resuma ao fim do relacionamento que o São Paulo iniciou por espontânea vontade. Seria mais ou menos assim: se não joga, que ao menos ajude o clube a se livrar do custo. Absurdo.

O futebol de Pato não corresponde há muito tempo à projeção que se fez. Em 2013, quando chegou a um Corinthians multicampeão com traje de astro internacional, as primeiras impressões de companheiros quando o viram treinar foram de assombro. “Vamos ganhar tudo de novo”, pensaram. Sabe-se, a história foi diferente, e o início da oitava temporada desde então apresenta a perspectiva oposta, embora o pedigree técnico de Pato ainda permaneça intacto e seja objeto de elogios de quem divide os gramados com ele. No aspecto do desempenho, hoje parece completa a conversão de um candidato à realeza do jogo em um atacante fleumático, desaparelhado da emoção necessária à existência do futebol. A sensação é de desperdício.

Daí a entender que recusar uma proposta de um ambiente de futebol que não existe seria uma forma de se redimir é um despropósito. Pato não tem a idade avançada ou experimenta o declínio que leva jogadores outrora valorizados a considerar um convite para atuar num lugar como Dubai. Exatamente por qual motivo ele deveria pensar melhor antes de dizer não, obrigado? Um acréscimo em remuneração? Não olhe agora, mas o contrato que o São Paulo celebrou com ele prevê um colossal aumento de salário a partir de 2020. E não consta que o aspecto financeiro seja o principal motivo de suas decisões profissionais já há muito tempo. Se tanto, talvez seja uma das explicações para a perda de ambição, de ilusão, seja qual for o nome da carência que caracteriza seu jogo.

O São Paulo certamente adoraria receber os doze milhões e quinhentos mil reais que equilibrariam a planilha do que já investiu em Pato, sem falar no desaparecimento do restante do contrato de seus livros, mas, como se diz, cada um com os seus problemas. Os representantes de Pato não obrigaram o clube a assinar o papel que até agora não encontrou contrapartida esportiva, entrando no ano em que a relação custo-benefício promete se tornar ainda mais dramática. Se cobrar Pato por sua parte em campo já não estimula quem se importa com o São Paulo, censurá-lo por não abrir mão do que foi combinado revela a que ponto chegou a tendência a criticar jogadores ao invés de exigir desempenho de quem toma decisões. É um equívoco quase tão grande quanto a ideia de que basta um título estadual para que o São Paulo desperte da letargia que o consome.

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Olhos

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Uma das marcas dos melhores trabalhos de Vanderlei Luxemburgo era a capacidade de identificar virtudes desconhecidas em seus jogadores. Por vezes, desconhecidas até para os próprios. Além de perceber características que possibilitavam a utilização de futebolistas em papéis diferentes do que seria convencional em ocasiões específicas, Luxemburgo orientou o que se poderia chamar de “novas carreiras” para vários comandados. Essas passagens não pertencem a qualquer tipo de folclore motivacional que possa acompanhar a trajetória do atual técnico do Palmeiras, ou mesmo certas cartas potencialmente geniais – mas que nem sempre surtiram efeito – lançadas para confundir adversários em jogos decisivos. São exemplos da inquietação de um treinador que por metade de sua carreira se distanciou da concorrência porque pensava melhor.

Muller, no histórico, porém efêmero Palmeiras de 1996, talvez seja o principal exemplo de jogador redesenhado por Luxemburgo, ao se revelar um passador dotado da leitura e do refinamento necessários para brilhar servindo companheiros. Como viabilizador de um ataque que marcou mais de cem gols num campeonato estadual, Muller criava jogadas para Luizão, Djalminha e Rivaldo (se você não viu, deve ser capaz de ao menos calcular o que eram capazes juntos) como propostas para que eles se divertissem. Não eram passes, mas convites. Mais tarde, no Corinthians, Luxemburgo recuou Freddy Rincón para funções defensivas de meio de campo, com influência direta no início da viagem da bola ao ataque. O colombiano – explicou o técnico à época – não tinha problemas para receber de costas para a maior porção do gramado e, usando o corpo com maestria, saía para os dois lados com a mesma desenvoltura. Viu-se outro jogador, talvez superior ao anterior.

No Cruzeiro que conquistou três troféus em 2003, a visão de Luxemburgo proporcionou a Alex uma das melhores temporadas de sua vida, graças a uma sutil alteração de posicionamento – e, consequentemente, de função – que até hoje passa despercebida aos menos atentos. Sob Scolari, Alex era o quarto jogador do meio de campo, com contornos de armador clássico. Luxemburgo o converteu de arco em flecha, de 10 em 9,5, e o fez se adiantar da região entre o volante e o meia para a faixa entre o meia e o atacante. O interessante é que, mesmo mais próximo do gol adversário, Alex passou a ter maior participação na construção (o time de Scolari se organizava primordialmente com os laterais) do jogo em jornadas que ilustram o termo “craque” com todas as letras.

A versão de Felipe Melo como zagueiro parece um indício do resgate de uma forma de pensar o futebol que não caracterizou o Luxemburgo pós-2004, talvez um dos diagnósticos mais evidentes da segunda metade de sua carreira, opaca não só em conquistas, mas no jogo apresentado pelas equipes que dirigiu. O futebol não admite garantias, mas, mesmo que o experimento não tenha o sucesso desejado, a procura por soluções criativas pode representar uma mudança no modo de se relacionar com a rotina de preparação de equipes, um aspecto da profissão de técnico que não permite a suposição de que tudo já está feito e congelado. É curioso o paradoxo que pede um “novo” Vanderlei Luxemburgo, um profissional que tem insistido em negar a existência da novidade, quando está claro que o “velho” – um treinador claramente à frente de seu tempo – reinaria com suas próprias ideias.

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Cachaça

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Vittorio Medioli, prefeito de Betim e ex-CEO do grupo que hoje comanda o Cruzeiro, gerou manchetes anteontem por causa de um vídeo divulgado em sua página no Facebook, especialmente por chamar jogadores de bêbados antiprofissionais. Para que não reste dúvida ou haja terreno para má compreensão: “tem que ter todo um sistema para levar os atletas ao máximo desempenho. Eles tomam cachaça, ficam na gandaia e fica por isso mesmo, ninguém toma providência”, disse.

Talvez seja natural que declarações desse tipo tenham mais repercussão, mesmo que a generalização, sempre um sinal de equívoco, impeça qualquer leitura além do sensacionalismo. Medioli se refere a todos os jogadores do Cruzeiro? À maioria? Apenas a um? Sem falar no perigo de expor um grupo de pessoas que já teve de lidar com ameaça de morte e invasão de eventos familiares, como se deu na festa da mulher do zagueiro Dedé. Atribuir o rebaixamento do Cruzeiro ao comportamento dos futebolistas fora do campo é o recurso mais prático para apontar a discussão na direção de quem está sempre mais exposto.

Neste âmbito, é curioso que o trecho mais sério da manifestação de Medioli não tenha sido recebido com a devida preocupação. É este: “hoje as pessoas ficam tão distraídas em ganhar dinheiro com trambique lá dentro, que não cuida [sic]do atleta, não cuida do clube”. Veja, ganhar dinheiro com trambique. O caos organizacional do Cruzeiro poderia ser descrito de forma mais clara? O pouco tempo de contato entre Medioli e as entranhas do clube – retirar-se foi uma decisão acertada, uma vez que as posições de prefeito de Betim e executivo-chefe de uma entidade desse tamanho exigem dedicação integral – foi suficiente para que ele dissesse publicamente que o Cruzeiro foi assaltado por dentro.

O que não é exatamente uma novidade. As reportagens dos jornalistas Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo, do grupo Globo, e a investigação da polícia de Belo Horizonte indicaram o tamanho do problema e os nomes dos atores. Foram eles que levaram um clube irresponsavelmente endividado ao dilema de sobreviver sem um orçamento de Série A. Já seria criminoso se fosse apenas resultado de incompetência. A desonestidade e o interesse pessoal jogam sal sobre a ferida, transferindo a história do desastre esportivo para o escândalo policial.

Enquanto isso, não se sabe com qual time o Cruzeiro iniciará uma temporada crucial em sua história quase centenária, e as aparições de Adilson Batista são as únicas ocasiões – além do gesto de Léo e, ao que tudo indica, de Fábio – em que o torcedor consciente se sente representado por uma preocupação genuína com a situação do clube e as dificuldades que estão adiante. A falência do Cruzeiro (falar em situação pré-falimentar é um eufemismo, por se tratar de um clube de futebol no Brasil) é causa e efeito do enriquecimento de muita gente beneficiada por gestões predatórias que, como se pôde verificar em outros clubes, terminaram por encaminhá-lo à segunda divisão. Seria bem menos complexo se a culpada fosse a cachaça.

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Livre trânsito

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Está em aquecimento uma temporada caracterizada por um conflito entre duas forças que não existem. E as tentativas de tratar do ano futebolístico com um mínimo de racionalidade serão fúteis, porque as redes antissociais – onde a racionalidade foi banida há muito tempo – já decidiram quem enfrentará quem a cada rodada de futebol, especialmente durante o Campeonato Brasileiro. Não serão clubes, nem mesmo técnicos, mas passaportes. A generalização que pariu o rótulo “treinadores estrangeiros” e, consequentemente, o subproduto “treinadores brasileiros” se encarregará de fomentar um confronto de nacionalidades, no qual o Brasil disputará com o “resto do mundo” o troféu de “melhores ideias sobre futebol”.

A preparação para a batalha se deu durante 2019, quando os Jorges Jesus e Sampaoli fizeram uma dobradinha no Campeonato Brasileiro ao som de uma onda – absolutamente merecida – de elogios que incomodou demais dois tipos de figuras: os técnicos que por algum motivo tenham se sentido preteridos pelos holofotes ao longo do ano; e os torcedores que os enxergam como forasteiros que pretendem ensinar futebol ao país pentacampeão. Por vezes, houve casos de antipatia indireta: o sujeito não tem nada contra um determinado treinador, mesmo porque não há motivo para isso, mas se irrita com o tratamento que “a mídia” lhe dispensa. É quando a incapacidade de formar a própria opinião se abraça à arrogância de querer supervisionar o trabalho alheio, uma combinação explosiva. No ano passado, Jesus e o Flamengo não permitiram que houvesse concorrência, mas o futebol sempre traz um recomeço.

As chegadas de Eduardo Coudet, Rafael Dudamel e Jesualdo Ferreira evidenciam a definitiva ampliação do mercado brasileiro de técnicos. É um movimento lógico: a restrição a profissionais formados em outros países sugere a ideia de que a capacidade para a função só se encontra aqui, um completo absurdo. Furtar-se a buscar competência onde ela estiver é agir declaradamente contra os interesses dos clubes, um contrassenso impensável em qualquer centro onde o futebol é importante. Como disse o novo técnico do Santos, a onda não vai parar. A questão é como ela será percebida enquanto ainda for uma novidade. Por ora, o ambiente do futebol no Brasil tem tido de conviver com coisas como “o que ele ganhou?”, “é bom só porque é português?” ou – essa, a melhor, infelizmente foi repetida durante a semana por um técnico em início de carreira, no momento sem clube – “quero ver ele ganhar com um time ruim”. Mais ou menos como pedir a Michael Phelps para nadar de calça jeans.

Quanto a Jesualdo e os outros treinadores portugueses que têm sido cogitados, ao menos houve um avanço em relação ao que se viu quando Jorge Jesus foi contratado. O desconhecimento da importância da escola portuguesa de formação de técnicos – para a qual Jesualdo Ferreira é uma referência – não levou a gracinhas nos programas de debates, o que não significa uma lição de casa mais caprichada, apenas o receio de passar ridículo. Mas aguarde uma sequência ruim do Atlético Mineiro com Dudamel, algo natural e até esperado, e dissertações sobre o futebol venezuelano serão feitas sem nenhum constrangimento. Enquanto se perder tempo com aparências e pré-conceitos, os benefícios da presença desses profissionais no Brasil, para eles e para quem os observa, serão desperdiçados.

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Cipa

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Tal qual essas campanhas de prevenção de acidentes no local de trabalho, os corredores das sedes do Flamengo deveriam estar repletos de placas celebrando o bom relacionamento com Jorge Jesus: “Estamos há (  ) dias sem irritar nosso treinador”. O humor do técnico português e sua opinião sobre o ambiente interno do departamento de futebol são assuntos sensíveis, que exigem cuidados diários no campeão brasileiro e sul-americano, especialmente por causa da questão contratual que mantém a dúvida sobre a permanência de Jesus a partir de maio. Em posição privilegiadíssima para fazer escolhas profissionais e pessoais, o arquiteto das conquistas de 2019 ganhou, também, o direito de ser tratado como uma espécie de alteza. Pode não ser sempre agradável, mas é necessário e assim funcionam as coisas.

Mas eis que Rodolfo Landim decidiu interferir no horóscopo rubro-negro ao demitir Paulo Pelaipe, um raro funcionário do clube com quem Jesus estabeleceu amizade fraterna. A pergunta, evidentemente, é por quê? A explicação política é só uma parte da verdade, uma vez que a eleição no Flamengo acontecerá no final de 2021. É cedo para que alvos sejam identificados e eliminados em nome da sustentação ou da tomada do poder, mesmo porque o campo de futebol tem muito a dizer sobre o panorama eleitoral até o ano que vem. Sim, a dinâmica Bap versus Braz é conhecida e a saída de Pelaipe pode ter sido uma armadilha para que o vice de futebol, sentindo-se desrespeitado, decidisse se retirar. Em qualquer caso, o motivo pelo qual Landim se arriscou a alienar Jesus, o que logicamente leva o episódio ao território do time de futebol, é a grande questão.

E o grande problema. Beira a insanidade imaginar que qualquer torcedor do Flamengo seja favorável a um movimento que prejudique a trajetória da equipe que encantou o país. A sequência do trabalho de Jorge Jesus não é uma garantia de que o time será bom como foi no ano passado, mas é preciso considerar a hipótese de que, com continuidade de ideias e contratações pontuais, o Flamengo seja ainda melhor em 2020. Com outro técnico, porém, as dúvidas aumentam por razões óbvias. O que leva a uma ponderação que precisa ser feita, no campo das possibilidades sugeridas pelo silêncio – e pela certeza de que a história não será devidamente contada por qualquer pronunciamento oficial – de Landim: é possível que o Flamengo já saiba que Jesus não renovará seu contrato. Essa é a única situação que justifica a demissão de Pelaipe e o desenho de um departamento que operará com outro treinador.

Em qualquer outro cenário, o risco que o presidente do Flamengo decidiu correr é alto demais, independentemente de sua proximidade com Bap, das vaidades que ascendem do sucesso num clube como o Flamengo ou de estratégias de poder que alimentam as telenovelas diárias do futebol brasileiro. O time de futebol deveria ser protegido pelos – e dos – gabinetes, algo que talvez seja complexo demais até para gestões competentes. O incômodo a Jorge Jesus parece uma demonstração de que, embora o time do Flamengo tenha se distanciado da concorrência no país, o clube preserva as mesmas características que se encontram em todos os demais.

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