Todos os posts de André Kfouri

Soletrando

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Em tempos de ciclos de notícias cada vez mais curtos, a era da imbecilidade é prodigiosa em episódios cuja repercussão se inicia por versões de “mas não é possível…”, desde que a contagem neuronal permita, é claro. Voltemos ao que houve na quarta-feira, pois, apenas pela necessidade de registrar mais uma barbaridade cometida por alguém autorizado a falar publicamente em nome de um clube de futebol, fonte de constrangimento que parece inesgotável. Não deve ser coincidência que o termo sugira, por sonoridade, o esgoto. É de lá que emana certa maneira de ver o mundo, as pessoas, a vida e, lógico, o futebol. E quando chega a hora de exercer a comunicação de uma instituição que faz parte da vida de milhões, é impossível disfarçar a miséria do intelecto. O resultado é uma bomba de esterco de efeitos radioativos.

Sim, é da preciosidade proferida pelo senhor Cacau Cotta do que se trata. Para quem perdeu o momento sublime: o muro da Gávea foi vandalizado com alusões à “Copa Mickey”, e o vice-presidente de relações externas do Flamengo minimizou o protesto afirmando que não era obra da torcida, porque o nome do personagem criado por Walt Disney há noventa anos havia sido grafado corretamente. Para dupla checagem: um dirigente do clube mais popular do Brasil entende que a torcida do Flamengo, de modo geral, não é capaz de soletrar m-i-c-k-e-y. E disso se sabe não apenas porque Cotta pensa dessa forma, mas porque não se incomodou em declarar o raciocínio durante uma entrevista à TV Bandeirantes. Concluir se o responsável pelo relacionamento de um clube deve ou não deve qualificar sua base de torcedores como analfabetos é um debate inacreditável, mas aparentemente é o que se dá. A semana chegou ao sábado e tudo permanece como se nada tivesse acontecido.

Com claro exagero otimista, há um aspecto nesse armagedom retórico que se pode enxergar como positivo: a figura em questão não será mais capaz de enganar ninguém. Digamos que a cota – perdão – terminou. Na eventualidade de haver novas aparições públicas do referido dirigente, a coletividade rubro-negra saberá exatamente quem está falando. Será uma simples questão de boa memória: “Esse aí não é aquele que disse que…”, e lá se vão a condição de comunicar, a credibilidade necessária para tanto, o dever de conectar o Flamengo com quem é Flamengo, a missão de zelar por uma imagem não apenas respeitável, mas admirável como entidade esportiva, o objetivo de levar ao torcedor o sentimento de representação ou, ainda melhor, de pertencimento. Mas a incapacidade é de tal magnitude que nenhuma dessas tarefas tem qualquer chance diante da simples revelação do que uma pessoa processa dentro de si, o que, no caso presente, nada mais é do que a ignorância bruta.

O que é grave aqui é que, por evidente, a pérola sobre a torcida não é um deslize de um dirigente que se viu numa posição muito acima de suas habilidades, mas um reflexo do tipo de conversa que se tem internamente, quando pouca gente está ouvindo. Neste nível de argumentação, perder a noção do que pode chegar ao público é um embate com final conhecido. Cotta pode ser o nome e o rosto associados ao episódio, mas obviamente não é o único que merece o aplauso pela conversão de um evento rotineiro (muro pichado) em um desastre de imagem concebido dentro de casa. A forma como o Flamengo se comunica na atual gestão, da tragédia no Ninho do Urubu à desqualificação de seu maior patrimônio, trafega entre o amadorismo irrecuperável e a pose corporativa, dois equívocos que exibem total desconhecimento de como um clube deve se apresentar ao mundo. Não fosse a nota oficial mais ridícula da história do futebol, não haveria ironia com a “Copa Mickey” no muro da Gávea, e a torcida do Flamengo não teria sido ofendida por quem deveria tratá-la com máximo respeito.

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O que falta

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A presença de quatro clubes ingleses no que costumava ser território do futebol espanhol alimenta o debate sobre novos tempos nos gramados europeus. Liverpool e Tottenham vão decidir a Liga dos Campeões da Uefa, enquanto Arsenal e Chelsea são os finalistas da Liga Europa. Nos últimos quatorze anos, só em duas ocasiões um time espanhol deixou de vencer um dos dois torneios.

Onde as aparições do Real Madrid, do Barcelona, do Atlético de Madrid e do Sevilla se tornaram constantes, nesta temporada, pela primeira vez, quatro camisas do mesmo país disputarão os títulos continentais. A Inglaterra monopolizará o cenário em Madri e em Baku, sedes das finais, sugerindo que, enfim, a pujança econômica da Premier League venceu a corrida. Será?

Não resta dúvida de que o campeonato inglês é o melhor produto de futebol que existe quando se fala em ligas nacionais. No empacotamento, na divulgação e na transmissão pela televisão, a Premier League reina tranquila. No jogo jogado, porém, a Liga Espanhola oferece competição técnica e tática mesmo com as diferenças de distribuição de dinheiro e a evidente distância entre os dois gigantes e os demais.

Já há algum tempo o futebol inglês se estabeleceu como a casa dos principais técnicos do mundo. Os finalistas dos torneios continentais da temporada que está terminando são Klopp (alemão), Pochettino (argentino, com formação espanhola), Sarri (italiano) e Emery (espanhol), e o bicampeão nacional é Guardiola (espanhol). Mas o salto para se converter na liga dos melhores jogadores do planeta, crucial para a nova era que se aguarda, ainda não aconteceu.

Messi está em Barcelona, Ronaldo segue em Turim, Neymar – ou, se preferir, Mbappé – por enquanto continua em Paris. No próximo período de transferências, é provável que Hazard enfraqueça a Premier League ao deixar o Chelsea para jogar no Real Madrid, cuja reforma de elenco sob Zidane exercerá imensa atração no mercado. É o tipo de campo de força que os clubes ingleses ainda não têm, especialmente com relação aos sonhos de jovens projetados como futuras estrelas.

Um trecho de um recente artigo escrito por Simon Kuper para o espn.com é ilustrativo. Ao recrutar Frenkie de Jong, o presidente do Barcelona, Josep Bartomeu, lhe disse o seguinte: “Se você procura um técnico, vá com Pep Guardiola. Mas quando ele sair do City, não sei quem será o próximo técnico. Se procura dinheiro, vá para o PSG. Você será um bilionário. Mas se você quer aproveitar a vida nos próximos doze, quatorze anos, venha para o Barcelona”. Formado no Ajax, de Jong seguiu seu coração.

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Futebol generoso

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“No curto período de tempo em que você e sua equipe têm dirigido o Leeds United, nós assistimos a uma inspiradora reviravolta na qualidade do futebol em Elland Road. Tem sido incrivelmente agradável ver a união no clube e o progresso dentro e fora do campo. Melhoras no centro de treinamento, uma clara visão de futebol e uma equipe técnica verdadeiramente apaixonada conseguiram devolver ao clube sua identidade após anos de má administração”.

“Leeds é uma cidade unida novamente, o futebol retornou. Juntos somos leais, determinados, orgulhosos. A longa história do nosso clube está bem estabelecida, mas como o sucesso consagrado pelo tempo pode desvanecer, ainda há muito a escrever e sentimos que isso é só o começo. Essa temporada renovou nossa esperança no futuro e no início de um novo capítulo de nosso patrimônio. Queremos que você continue sendo uma peça chave nisso”.

“Você tem nosso respeito, nossa admiração e nosso suporte inabalável. Nós acreditamos em sua filosofia e agradecemos por seus esforços. Seu futebol nos faz sonhar de novo e estamos confiantes que você seguirá nos guiando pela jornada em nossa temporada centenária”.

Trechos da carta escrita por um grupo de torcedores do Leeds United para Marcelo Bielsa, após o encerramento da temporada em que o treinador argentino não conseguiu levar o clube de volta à Premier League. O desfecho do campeonato foi extremamente doloroso para o Leeds, derrotado pelo Derby County no confronto que valia a classificação para o jogo que determina o acesso. O time dirigido por Bielsa foi o primeiro na história dos playoffs da segunda divisão inglesa a ser eliminado após vencer o jogo de ida como visitante, o que evidentemente aumenta o sentimento de frustração entre os torcedores, mas não impediu manifestações de apoio e gratidão como as reproduzidas acima. No encerramento da mensagem, o Leeds United Supporters Trust pede que a diretoria do clube dê a Bielsa as condições que ele deseja para que o time evolua.

A figura de Bielsa divide o futebol em áreas que estão muito acima do debate entre desempenho e resultado (mesmo porque o jogo não aceita essa dinâmica como um conflito de ideias, mas essa é uma conversa para outro dia). Marcelo é uma espécie de Yoda dos treinadores, um guru do futebol puro, virtuoso, honrado. Também pode ser um perdedor adorável ou apenas um personagem excêntrico, cultuado pelos ingênuos a quem José Mourinho apelidou de “poetas”. Os diversos rótulos aplicados a sua forma de viver o futebol lhe conferem admiração e desprezo, sentimentos que muito provavelmente refletem a maneira como cada um sente o jogo dentro de si, ou seja, muito mais reveladores a respeito de quem olha.

E como a profissão de técnico de futebol é uma atividade que se supõe de domínio público (na verdade, enxerga-se todo o universo do jogo dessa forma, um evidente equívoco que, também, é um tema para outro momento), prefere-se ignorar as opiniões daqueles que o consideram uma influência determinante em suas carreiras. Pep Guardiola e Maurício Pochettino, apenas para citar dois exemplos. Pior, tende-se a classificar um testemunho como o dos torcedores do Leeds como algo desimportante, circunstancial, como se esse tipo de demonstração não fosse exatamente o que o futebol deve ser. O que é este jogo, se não um motivo para pessoas se reunirem ao redor de um emblema, de modo a que ele se torne uma parte significativa de suas vidas? E quanto vale – especialmente em relação a tantos exemplos no sentido contrário, em todos os lugares – a expressão de agradecimento de quem se sente bem representado, mesmo que o objetivo final tenha ficado a poucos metros?

Ao dar explicações sobre a derrota para o Derby County, Bielsa disse que “quando equipes generosas fracassam ou decepcionam, [as críticas] pedem mesquinhez”. Não é o que se compreende da carta dos torcedores do Leeds, generosa como o futebol do qual fazem parte.

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Manadas

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No dia seguinte à última rodada da Premier League, o New York Times publicou uma reportagem informando que o Manchester City pode ser punido pela Uefa com exclusão da Liga dos Campeões. O bicampeão inglês é acusado de ludibriar os controles financeiros da entidade que supervisiona o futebol na Europa e, ainda que as investigações não estejam concluídas, o tema é indiscutivelmente importante por motivos óbvios. O City não quis falar com o jornal, mas publicou uma nota afirmando-se inocente e mencionando preocupação com o que considera uma campanha de prejuízo de sua imagem.

Em questão de minutos, simpatizantes do time azul de Manchester mobilizaram as redes antissociais com diversas reações à reportagem e à possibilidade de punição. Como é frequente, a disseminação de “teses” sobre os motivos inconfessáveis que estariam escondidos sob a prática de informar ganhou vida. A mais criativa delas, talvez, construía uma teia de interesses sob a qual o Times, que seria acionista do grupo empresarial que controla o Liverpool, estaria apenas agindo para danificar a reputação e os objetivos de um clube rival. Ocorre que nada disso é verdade, embora a verdade não importe a quem evidentemente não deseja ser informado, apenas quer ler/ouvir o que lhe provoca uma sensação de conforto.

O “comportamento de manada”, tão comum nas redes, não precisa de muito esforço para ganhar tração e ao menos gerar baderna suficiente para equilibrar o placar da opinião pública, mesmo que por intermédio de ficção. O problema se agrava quando o motor que impulsiona falsos debates são instituições que deveriam estar empenhadas na vida real. Nesse âmbito, os clubes brasileiros parecem recorrer a um manual de comunicação que só sabe responder a notícias desagradáveis com a carta da “tentativa de desestabilização”, de modo a estabelecer um conflito entre nós (clube e torcida) e eles (o mundo).

O Flamengo – apenas para citar um exemplo, entre tantos, no qual praticamente todos os clubes do país se enxergariam, ok trolls? – tem sido um expoente desse antigo método, com a publicação de notas oficiais em que a desconexão da realidade é flagrante a ponto de sugerir que a autoria dispensa a qualificação para uma função tão relevante. Quando não se peca por argumentação sofrível e/ou claramente disposta a confundir, o equívoco se dá pela ideia de que um clube de futebol deve se comunicar em tom corporativo. Difícil. Mais ainda quando muitos exemplos do futebol de primeiro mundo são ruins.

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Irreal

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“Eu não sei se você é fã de futebol, mas o Liverpool ontem conseguiu uma das maiores vitórias na história [do futebol]. Depois do jogo, o técnico deles, Jurgen Klopp, disse que (…) ‘nossos garotos são uns gigantes do c…’. Foi o que ele disse. E eu sei como ele se sente. Então eu peço desculpas à minha mãe, que provavelmente está assistindo: nossos caras são uns gigantes do c…, porque foi uma vitória inacreditável nesta noite”.

Steve Kerr citou Jurgen Klopp em sua conversa com repórteres após seu time, o Golden State Warriors, vencer o Houston Rockets nos playoffs da NBA, na quarta-feira passada. Pense nisso. Uma coisa é o fato de o futebol ser o esporte mais popular do planeta Terra, uma novidade para ninguém. Outra coisa, inteiramente diferente, é um técnico de basquete, americano, alguém que passou a vida na “liga do espetáculo” mencionar um raciocínio com o qual se identifica, e esse pedaço de declaração vir do futebol. Sim, os jogos da Liga dos Campeões da Uefa geram bastante interesse nos Estados Unidos, e não apenas ao contingente latino da população do país. Mas se Klopp citasse uma frase de Kerr sobre qualquer assunto, seria mais um treinador de outro esporte demonstrando que acompanha a NBA. Algo frequente. O inverso é mais uma prova dos dias insanos que o futebol proporcionou nesta semana.

Na Inglaterra, especialmente, homens crescidos começaram a chorar em público na segunda-feira, quando o belga Vincent Kompany acertou um chute extraordinário, de fora da área, para deixar o Manchester City a uma vitória do bicampeonato da Premier League. Vinte e quatro horas depois, o Liverpool deixou Steve Kerr colado à tela da televisão pela forma como alcançou a final da Champions. E na quarta-feira, outra vantagem de três gols foi apagada na grande noite da vida de Lucas Moura, quando o Tottenham eliminou o jovem e formidável time do Ajax do mesmo torneio. Os apaixonados por futebol que vivem no Brasil ainda poderão dizer que essa onda de viradas começou em Porto Alegre na noite de domingo, com Fluminense indo de 0 x 3 para 5 x 4 na Arena do Grêmio. O jogo tem renovado sua inesgotável capacidade de surpreender, reescrevendo roteiros em pleno andamento, talvez apenas para relembrar que não existe atividade humana dotada de poder semelhante.

A temporada na Liga dos Campeões atingiu níveis insuportáveis de tensão, e a final ainda nem foi disputada. Se a fase de mata-matas do torneio europeu exibiu algo, foi que não existem vantagens seguras ou situações administráveis enquanto houver tempo no relógio, roubando temporariamente do basquete a ideia de que “o jogo não acaba nem quando termina”. No processo, fica a lição de que a entrega de corpo e alma a um objetivo, por mais inverossímil que pareça, pode produzir eventos absolutamente reais e inesquecíveis, noites que as próximas gerações não precisarão atribuir a lendas contadas e aumentadas ao longo dos tempos, pois o YouTube provará como tudo aconteceu.

Imagine os melhores roteiristas reunidos em uma sala, orientados a contribuir com o auge de seu talento para criar uma obra fantástica, com orçamento ilimitado e dirigida pelas mentes mais brilhantes do cinema. O resultado não chegará perto do que o futebol é capaz de fazer com a vida de verdade e com algumas das sensações mais arrebatadoras que existem, mesmo que o próprio jogo seja o objeto da história contada com impressionante nível de realismo. Porque a raridade do que é real não pode ser recriada com o componente da emoção em desenvolvimento, das reviravoltas que alteram frequências cardíacas e do caminho rumo ao desconhecido, em que a bola carrega o mundo de cada um com o que existe de mais valioso e definitivo, até o dia seguinte.

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Equipes

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Um grupo de “torcedores” do Barcelona abordou Lionel Messi no aeroporto de Liverpool, após a maravilhosa – não para os tolos mencionados, obviamente – partida pela Liga dos Campeões. O melhor jogador do mundo foi insultado pelas cavalgaduras, num episódio equivalente aos comentários que discordam de tuítes sobre catolicismo escritos pelo Papa Francisco. É esse o mundo de hoje; todos sabem de tudo e se julgam em posição de discutir com quem, de fato, sabe.

Onde estaria o Barcelona se não fosse Messi? Os gênios que o desrespeitaram no aeroporto não fazem ideia, porque evidentemente não fazem ideia sobre nada, e aí está uma das tristes confusões a respeito do impacto individual no resultado de jogos de futebol. Quando não se é capaz de entender por que se vence, é impossível descobrir por que se perde.

Jurgen Klopp foi duramente criticado após a derrota do Liverpool no Camp Nou, especialmente por declarar que estava orgulhoso do desempenho de seus jogadores na aplicação de um plano arrojado. Os ingleses foram superiores por longos trechos do jogo de ida, a ponto de ficar claro que a distância de três gols não traduziu o que o encontro mostrou. A diferença foi a genialidade de Messi, e isso até os quadrúpedes do aeroporto conseguem enxergar. O que lhes escapa é o absurdo de esperar que atuações alienígenas sejam a norma e permitam a um time defeituoso sobreviver a um assalto dessa máquina impiedosa que é o Liverpool de Klopp em casa.

Klopp sabia por que tinha perdido em Barcelona e enfatizou suas convicções na volta, mesmo na ausência de dois dos seus principais jogadores. Na véspera, o treinador alemão brindou o mundo do futebol com uma das mais significativas expressões de sua maneira de sentir o jogo: “Vamos tentar. Se conseguirmos, será maravilhoso. Se não, falharemos da maneira mais bonita”, disse. A frase tem tanto ou mais valor fora do ambiente do esporte, mas só para quem estiver disposto a compreendê-la. Klopp é um proponente do futebol corajoso, o que ajuda a entender a noite de terça-feira em Anfield, embora não seja a única razão para a desossa do Barcelona. A presença de Messi em campo aumenta a magnitude do feito do Liverpool, com fúria e precisão, fé e inteligência, coração e estratégia.

Há quem não reconheça a existência de equipes, porém. Como se tudo pudesse ser atribuído a um nome, uma jogada, um gol. É o que torna incrivelmente fácil dissertar sobre resultados, ainda que não se passe perto do que aconteceu na realidade. Com certos jogadores é assim: se a vitória se explica por eles, o mesmo se dá com a derrota. Não há sentido algum, mas faz tempo que o sentido deixou de ser importante.

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Engenheiro

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Há uma tese circulando por programas de debate, formulada por quem supõe ter um conhecimento do elenco do Santos superior ao do próprio treinador do time, de que faltam jogadores de qualidade para Jorge Sampaoli aplicar o futebol que prefere. É uma simulação de sabedoria ainda mais ousada do que as análises rasteiras concentradas apenas no resultado de jogos, mas, infelizmente, o tipo de coisa que viaja bem até a arquibancada e dali se propaga como se fosse verdade. Imagine um técnico desse nível, em busca de recuperação de prestígio, cometendo um de dois equívocos – ou talvez ambos – da mais alta gravidade: 1) falhando ao diagnosticar o potencial individual dos jogadores à disposição; ou 2) insistindo em propor um jogo que supera a capacidade técnica de seu time. Seria um incompetente ou um irresponsável, além do maior prejudicado pelo desfecho inevitável que lhe tomaria o emprego e uma chance de retomar a carreira.

Uma das maneiras mais seguras de detectar o trabalho de um técnico de futebol, mesmo sem a possibilidade de vê-lo atuando em treinamentos, é verificar se seu time produz mais do que a soma de suas peças. Quando isso acontece, é possível notar que, além das características individuais em ação, existe uma orientação coletiva que foi apresentada aos jogadores e por eles interpretada – obviamente sem excluir os méritos evidentes de quem entra em campo – em ensaios e em partidas. Essa orientação não é, como nada no futebol de hoje, fruto do acaso. Precisa ser praticada em preparação com métodos eficientes e validada em competição, ainda que não seja garantia de sucesso. A versão 2019 do Santos já ofereceu diversas jornadas em que o time, como produto de uma concepção de futebol, revelou-se um organismo diferente do sugerido pelos nomes envolvidos, indícios de um treinador operando de forma autoral.

Mais correto seria dizer as versões, no plural. Porque o Santos dirigido por Sampaoli já foi ao menos três equipes diferentes, em desenho, no que se viu da temporada até o momento. Para quem aprecia o que Marcelo Bielsa chama de “módulos”: um 4-3-3 mais formal, em que a posição de centroavante (mais sobre isso adiante) ainda impede o melhor desenvolvimento; um 2-3-5 que remonta aos primórdios do jogo, com laterais posicionados por dentro e pressão massiva no oponente; e um 3-5-2 que não deseja ser o dono da posse, mas controla a faixa central para roubar e ser vertiginoso. Tão importante quanto essa variação é o fato dos três sistemas ganharem vida no gramado com diferentes escalações, o que tem possibilitado ao técnico dosar o desgaste de seus jogadores mais importantes sem que essa necessidade – sim, é uma necessidade para manter intensidade, não um fetiche – leve a problemas de desempenho. Um sinal de que, além de qualidade, o elenco do Santos tem quantidade para competir.

Outro exame do ofício de um técnico é o crescimento de jogadores sob seu comando. É fácil identificar Diego Pituca e Carlos Sánchez como exemplos nesse aspecto, embora Jean Mota seja claramente o futebolista que mais evoluiu neste ano. Derlis González e Felipe Aguilar também merecem menção, sempre em um contexto de adaptação ao jogo prescrito por Sampaoli. O que falta para satisfazê-lo – opinião do próprio – em termos de condições para brigar entre os melhores no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil é um camisa 9, de preferência Ricardo Oliveira. Sampaoli tem repetido o nome do ex-santista a cada vez que alguém lhe dá bom dia nas últimas semanas, mais um traço de uma personalidade obsessiva no sentido de comprovar aquilo em que acredita, em meio a vozes desconfiadas que se imaginam mais próximas da obra do que o engenheiro.

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Impedido

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Juan relembra com especial orgulho a decisão da Copa América de 2007, quando o Brasil mandou 3 x 0 na Argentina – com Zanetti, Mascherano, Verón, Riquelme, Messi e Tévez em campo – em Maracaibo, na Venezuela. “Foi meu único jogo como capitão da seleção”, diz o agora aposentado zagueiro que deixará saudades por todas as camisas que vestiu. A declaração faz parte de um “Bola da Vez” que a ESPN Brasil exibirá com personagens do torneio sul-americano de seleções, que terá sua quadragésima-sexta edição em estádios brasileiros entre junho e julho.

Se Juan (uma década, 78 jogos, 7 gols e conduta exemplar) ainda servisse a seleção brasileira, não haveria qualquer dúvida sobre quem levaria a faixa no braço. Ele representava não só a liderança frequentemente associada ao “cargo”, mas também a hierarquia silenciosa que impõe respeito no gramado e no vestiário. É exatamente a ausência de sucessores no time atual uma das razões da escolha por Neymar como capitão do time. Não, isso não faz de Tite seu responsável legal, mesmo porque Neymar, além de ser maior de idade, tem um pai bastante próximo e atuante. Mas, sim, o comportamento do capitão da seleção no âmbito do jogo evidentemente é assunto do treinador da equipe.

A ideia da não convocação de Neymar para a Copa América por causa da agressão – inexplicável, inaceitável e de punição necessária pelo PSG e pela federação francesa, independentemente de ter sido provocado – a um espectador no Parque dos Príncipes é uma tolice. A relação com a geladeira a Douglas Costa, há sete meses, por cuspir em um adversário na Itália, não cabe. Douglas deixou de ser chamado para dois amistosos; Neymar está às portas de um torneio de extrema importância para a seleção, para ele mesmo e para Tite. Não é a convocação de Neymar que levará o técnico a um flerte de incoerência com os próprios critérios, mas a manutenção de seu melhor jogador como capitão é perigosa.

Tite declarou a intenção de “dar maior responsabilidade” a Neymar dentro de campo, uma iniciativa que certamente estava acompanhada pelo desejo de ter o futebolista mais influente do time comprometido com os aspectos coletivos. Ocorre que o episódio do último sábado em Paris impõe o questionamento se essa ideia faz qualquer sentido. O capitão de um time de futebol é um representante de seus companheiros e de seu treinador. Não é possível que no vestiário da seleção brasileira – onde não há funcionários da empresa Neymar Júnior – , haja alguém que compactue com violência.

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Preguiça

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“Para mim o mais importante é a liga [espanhola]. Porque o dia a dia é o mais complicado. Na Champions você tem, se for do começo ao fim, doze, treze jogos. Na liga, não. São trinta e oito jornadas e todos os dias”.

Pense de novo, se seu primeiro impulso foi atribuir o raciocínio acima a um flagrante desdém pela Liga dos Campeões da Uefa. O responsável por ele é Zinedine Zidane, em entrevista antes do jogo do Real Madrid contra o Getafe. E tente outra vez, se por acaso sua segunda conclusão foi algo como “claro, depois de três Champions conquistadas…”. Uma rápida pesquisa sobre aparições públicas do treinador francês levará à comemoração do campeonato espanhol de 2016-2017, conquistado pelo Madrid de Zidane após hiato de cinco temporadas. Ele já era campeão europeu, e assim descreveu a sensação do título: “Como técnico é meu maior êxito: ganhar esta liga é diferente. Para mim, a liga espanhola é a mais complicada”.

A noção de quem trabalha no futebol sobre o que é difícil de alcançar, e por isso gera maior orgulho, com frequência difere dos desejos de torcedores mais ou menos distanciados do jogo. Na Europa, onde o ambiente é mais organizado e o calendário mais racional, a valorização ao que Zidane chama de “dia a dia” é um reflexo da rotina que exige alto nível semana após semana, concentração do início ao fim na perseguição a um objetivo que só se materializa para o melhor, quer dizer, para quem está disposto a pagar todas as taxas para ser o melhor. É o que Pep Guardiola repete há anos quando o assunto é uma atrocidade como “a obrigação de ganhar a Champions”, um devaneio decorrente da falta de interesse em descobrir como o jogo de futebol funciona. Zidane, que deve saber alguma coisa sobre a Liga dos Campeões, pensa da mesma maneira.

O fetiche brasileiro pela Copa Libertadores da América gera distorção semelhante. A Champions desta região do mundo se converte em obsessão dos clubes mais estruturados e desloca o Campeonato Brasileiro para segundo – ou até terceiro – plano. Na largada da edição de 2019 da principal competição de futebol do país, bastará ver como serão as escalações dos times envolvidos no torneio sul-americano. A culpa não é apenas das comissões técnicas, cuja obrigação é escolher quem joga e quem descansa. O calendário que ignora o que seja uma pré-temporada e consome um trimestre com jogos dos estaduais já é, em si mesmo, uma ameaça ao que deveria ser protegido. Até a Copa do Brasil, pelo prêmio gordo ao campeão e por conduzir à Libertadores em menos partidas, é mais atraente num contexto contraditório que desvaloriza a ambição de ser o melhor time do país no campo. Todos os aspectos considerados, as ideias de Zidane não cabem aqui.

Alguém dirá que tem de ser assim mesmo, completando o exercício de conformismo que prefere não olhar para o nível do jogo praticado nos gramados brasileiros e para a situação econômica dos clubes, produtos das incoerências de sempre. Só o Campeonato Brasileiro garante dezenove rodadas como mandante, dezenove oportunidades de ocupar estádios e gerar receitas que potencialmente superam qualquer prêmio por conquista. Sem falar no formato de disputa, que leva à coroação do mais competente ao diluir a influência da falta de sorte e dos erros de arbitragem, especialmente agora, com a utilização do sistema de árbitro de vídeo. “São trinta e oito jornadas e todos os dias”, disse Zidane. No Brasil, também. Mas no lugar de cobiça pelo que tem valor, o que se sente é preguiça por causa de algo que se coloca no caminho de planos mais sedutores.

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Ceni acerta

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Excluindo aspectos pessoais que sempre desempenham um papel importante em qualquer decisão, e também a questão conceitual a respeito de cumprimento de contratos, a permanência de Rogério Ceni como técnico do Fortaleza é um acerto profissional sob qualquer ponto de vista. A recusa a um clube de maior estatura nacional, que obviamente significaria uma valorização financeira, também diferencia o ex-goleiro no panorama geral dos movimentos feitos por treinadores de futebol no Brasil.

Ceni já venceu o título estadual em 2019, significativo no âmbito da rivalidade local. A Copa do Nordeste apresenta a possibilidade de outra conquista, mas é o Campeonato Brasileiro que oferecerá o julgamento sobre seu trabalho no Fortaleza. Sem correr o risco de estabelecer objetivos exageradamente modestos, parece claro que concluir a última rodada acima da décima-sétima posição converterá a temporada em missão cumprida. Não que seja simples, mas a noção equivalente a essa num clube com o Atlético Mineiro – apesar dos anos seguidos escrevendo um manual de como não fazer futebol – seria, como mínimo, uma classificação para a Copa Libertadores de 2020. Com um elenco que Ceni não conhece e a responsabilidade de solucionar problemas que não lhe pertencem. Faça as contas.

Só há um caminho possível para o Atlético: desligar a porta giratória pela qual técnicos passam como se fossem colaboradores temporários. Talvez essa decisão tenha sido tomada agora, com a contratação de um executivo para gerenciar o departamento de futebol, protegido da fogueira de vaidades e do ambiente político. A coletividade precisa compreender que nada acontece sem o respeito ao processo de montagem de equipes, mesmo em uma “cultura” de jogo que insiste em fazer as coisas ao contrário. A escolha do próximo treinador é fundamental para essa reforma de método, o que implica em convencer profissionais a implementá-la. Tiago Nunes e Rogério Ceni preferiram o que já conhecem.

Quanto a Ceni, a aversão a mudanças repentinas só seria superada por uma eventual insatisfação momentânea com o clube ou pela descrença na capacidade do time. Quem o viu comemorando os gols do Fortaleza na decisão estadual teve a impressão de um técnico em total sintonia com o ambiente que o cerca. Há ocasiões em que o melhor a fazer é não fazer nada.

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