Todos os posts de André Kfouri

Roteador

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A Conmebol descobriu a internet sem fio. A partir de 2021 – exatamente, ano de dois mil e vinte e um – todos os estádios que receberem jogos da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana deverão oferecer redes de Wi-Fi. A determinação é um dos novos itens do regulamento de segurança da entidade, que, além dessa espantosa inovação tecnológica, apresenta uma série de restrições ao comportamento do público. Pretende-se, por exemplo, que todos os lugares nos estádios sejam assentos e que não se possa ficar em pé durante as partidas. A casa de leilões de Luque parece preocupada com o futuro de seus torneios diante do que se deu no ano passado, embora não tenha demonstrado, ainda, de que forma tratará dos próprios vícios.

A final da Libertadores de 2018 foi a colheita do que a Conmebol semeou durante décadas, organizando a seu modo característico um torneio corrompido por relações inconfessáveis, privilégios, regras aplicadas ou não conforme os envolvidos e o desenvolvimento de uma cultura selvagem que jamais se preocupou com o futebol. A investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos – o chamado “escândalo da Fifa” – revelou tal nível de cafajestagem que poderia tranquilamente inspirar mais uma temporada de “Narcos”. Por todos esses anos, o jogo foi apenas um pretexto para a manutenção de poder, enriquecimento sem esforço e gargalhadas a cada reunião bem-sucedida para traficar influência. A bomba explodiu em Buenos Aires e, assim como a solução espanhola, um novo empacotamento não resolverá os problemas que importam.

Várias das novas regras fazem sentido, mesmo que com evidente atraso. Ingressos vendidos apenas online, protocolo de proteção da delegação visitante em parceria com autoridades policiais, proibição de acesso de pessoas que aparecem em listas de infratores aos estádios, para citar algumas. Mas a questão com a Conmebol sempre foi a mesma: de que maneira o que está escrito será aplicado? Mais importante, talvez: de que maneira as irregularidades serão penalizadas? Não é exagero dizer que o histórico de contorcionismos e punições seletivas concebeu o ambiente sem lei que terminou por impedir que Boca e River disputassem o título em um estádio argentino, desfecho em que os gabinetes têm responsabilidade direta. Que diferença a proibição de bandeiras e faixas – outra medida do regulamento – faria neste cenário?

Como se sabe, a sede da Conmebol fica no Paraguai, mas talvez seus cartolas julguem que trabalham em Mônaco. A mudança para a decisão da Libertadores em jogo único e estádio pré-estabelecido já foi um passo contracultural em relação ao que é o futebol na América do Sul, desconectando a final do torneio de tudo que a precede. Agora se anuncia a conversão dos estádios do continente em locais incompatíveis com as sensações que as preenchem. É perfeitamente possível investir em segurança, conforto e modernidade sem alterar a maneira como o futebol é sentido nesta região, seguindo o exemplo da casa do Borussia Dortmund, onde camarotes exclusivos convivem com a Muralha Amarela.

Se a Conmebol quer mesmo transformar seus torneios, deveria começar pela forma como se conduz nos aspectos ligados ao jogo de futebol. Os gramados, os vestiários, as arbitragens, as condições de treinamento das equipes visitantes e os temas disciplinares. Enquanto isso, o WhatsApp pode seguir funcionando no 4G (onde estiver disponível) sem dramas. Mesmo porque não adianta nada o roteador cair toda hora ou não funcionar durante o jogo.

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Gabriel Gol, 22

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A contratação que terá mais repercussão é a de De Arrascaeta, pelo processo tumultuado que gerou e, principalmente, pelo valor recorde em uma transação entre dois clubes do futebol brasileiro. Mas, sem absolutamente nenhuma crítica à qualidade do jogador uruguaio, o principal movimento feito pelo Flamengo é a chegada de Gabriel Barbosa, o Gabriel Gol. São raros os jogadores que oferecem nível técnico internacional – ou seja, capacidade para atuar nos principais centros – à disposição de equipes brasileiras, e é mais comum vê-los por aqui antes de serem exportados: Gabriel Jesus, Vinícius Júnior, Rodrygo, Arthur, para ficar em exemplos recentes. O novo atacante do Flamengo é um caso distinto.

O motivo: Gabriel já recebeu sua(s) oportunidade(s), e não teve sucesso por algo que se pode chamar de defeito de mentalidade. Mesmo considerando os contextos de adaptação, principalmente no aspecto tático, ao futebol italiano, cabe ressaltar que ele teria feito mais por si mesmo se tivesse se comportado como um jogador em formação e com um vasto aprendizado por diante. A essa altura, talvez ainda estivesse na Europa reformando opiniões e retomando o caminho que sonhou quando a Internazionale o contratou em 2016, aos vinte anos. O retorno ao Santos pode não ter sido a melhor decisão em relação ao próprio desenvolvimento, mas evidenciou – uma vez mais – o que acontece quando um jogador com esse potencial atua no país. E permitiu ao Flamengo utilizar seu poder de investimento.

A questão agora passa a ser o ajuste da mentalidade, no sentido de entender o significado de 2019 em sua carreira e as exigências que acompanham a chance de jogar no Flamengo. A presença de Abel Braga indica que Gabriel terá suporte, compreensão e cobrança nas medidas certas para vencer, mas a carga mais influente do trabalho obviamente corresponde a ele. Ao que tudo indica, o Flamengo será um time diferente do Santos, que jogava para ativar Gabriel com espaço. O papel que se pedirá a ele como rubro-negro demandará um jogador capaz de ser decisivo em um plano essencialmente de proposição (o que não significa, é claro, que esse será o padrão de atuação durante todo o tempo de todos os jogos da temporada). Todo desafio é uma porta para o crescimento.

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Moeda no ar

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A depender do tipo preferido de interesse, o jogo de anteontem em Manchester deixou inúmeras e preciosas lições. Os contextos táticos das alterações nas maneiras de cada time atuar, motivadas pelas virtudes do adversário. As adaptações de escalação para buscar vantagens a partir de cenários diferentes. O reflexo evidente, em ambas as equipes, das vertentes de futebol que pulsam no coração de seus treinadores. O balanço de acertos e erros individuais que condiciona o plano cronológico de um encontro. Basta escolher, e haverá textos como este e conversas mais interessantes para tratar de um evento que transborda o resultado de 2 x 1 que cortou a distância do Liverpool para quatro pontos na liderança da classificação.

O meio de campo defensivo desenhado por Jurgen Klopp para desligar a circulação do Manchester City no centro do gramado foi bem sucedido, ao custo lógico de menos criação no setor. A saída do time de Pep Guardiola pelos lados, primordialmente pela direita, mostrou que os campeões estavam preparados para as exigências. Daí em diante, a partida foi uma exibição de imprevisibilidade que evidenciou o caráter indomável do futebol, acompanhada pelo requinte técnico que se espera da reunião de alguns dos principais jogadores da atualidade. A eleição dos destaques é meramente uma questão de preferência, alimentada, talvez, pelo que agrada aos olhos, não necessariamente por um julgamento de importância de papéis, embora todos os aspectos devam ser considerados. Um jogo como esse tem tantos atributos que, sem exagero, pode ser um discurso sobre o “estado geral das coisas” neste esporte.

Quando dois times deste pedigree oferecem o que possuem de mais valioso com a intenção de superar o oponente, o desfecho também fica a escolher. Esse é provavelmente o ensinamento urgente para um ambiente – com mais ou menos defeitos aqui ou ali, mas essencialmente caracterizado por um relacionamento neurótico com o jogo – que precisa de definições indiscutíveis a cada fim de semana, em vez de compreender que o futebol tem seus próprios desejos e aqueles que não sorriem ao final não são inúteis, dispensáveis, incompetentes que não merecem os lugares que ocupam e a atenção que recebem. A diferença entre sucesso e fracasso pode ser uma infelicidade instantânea, um equívoco da arbitragem ou uma bola que se agarra à linha do gol e não a cruza por algo indetectável pelos olhos humanos.

O gol do Liverpool que não foi para o placar por onze milímetros (!!) é a ilustração deste pêndulo inevitável. A começar pela magnífica jogada de Salah e Firmino para ativar Mane em condições de vencer Ederson e deixar o líder da Premier League em posição privilegiada no jogo e no campeonato. A bola na trave gerou o trecho mais incrível do lance: não o chute de Stones que bateu no goleiro brasileiro e tomou o caminho da rede, mas sua ação sobre a linha, fazendo com que a bola passasse entre as pernas de Salah, quando qualquer desvio seria suficiente para o 0 x 1. O alívio pela utilização da tecnologia enfatiza a aleatoriedade dos eventos que conduzem a um resultado, embora as narrativas optem por ignorá-la ao expressar sentimentos e opiniões.

Os milímetros que mantiveram o zero a zero não diminuem o que se deu depois, muito menos podem ser usados para questionar a vitória merecida do Manchester City. Mas devem ser recordados para prevenir a fabricação das etiquetas que frequentemente são aplicadas nas costas de quem perde, como se isto não fosse um jogo e uma fração de medida na trajetória da bola significasse algo além do acaso. Há ocasiões em que destinos são escritos por uma moeda girando no ar: você pode escolher a coroa, mas terá de torcer para ser escolhido.

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Avalanche

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A intensa programação de jogos do campeonato inglês na virada do calendário costuma ser a salvação dos dependentes de futebol. Neste início de ano, a ajuda oferecerá mais do que partidas interessantes com os melhores times ingleses envolvidos em encontros que entretém, mas não necessariamente sequestram atenções: a visita do Liverpool ao estádio do Manchester City tem um peso determinante na corrida pelo título, além de ser o choque entre equipes dirigidas por técnicos frequentemente mencionados quando o tema é o que se chama de “futebol atraente”.

Pep Guardiola e Jurgen Klopp trocaram cordialidades na prévia do jogo de logo mais. Ambos usaram a expressão “melhor time do mundo” para se referir ao adversário, com sutilezas que diferenciam cada lado. Guardiola adicionou “no momento”, em clara menção ao primeiro turno histórico que posicionou o Liverpool com sete pontos de folga na liderança da Premier League. Klopp usou “ainda” para reforçar que as derrotas recentes do City não alteram a forma como ele enxerga o oponente, atual campeão inglês e terceiro colocado na classificação.

Adicione que o técnico alemão é quem ostenta o melhor retrospecto de enfrentamentos com o catalão, lembre que o histórico de partidas decisivas entre eles remonta aos dias em que trabalhavam na Bundesliga, e o que você terá é um jogo de futebol obrigatório nesta quinta-feira, três de janeiro, época em que a comida das festas ainda não foi totalmente processada e o tempo passa com a preguiça de quem não dormiu direito. Não na Premier League e definitivamente não para os times de Fernandinho e Firmino, De Bruyne (presença não confirmada) e Salah.

Entre o “no momento” e o “ainda”, Guardiola está mais próximo da razão. Não há time no mundo que queira enfrentar o Liverpool na fase atual, em que a fábrica de caos de Klopp opera em modo full. A diferença de pontuação obviamente injeta pressão sobre o City, pois uma derrota levaria a questão para intransponíveis dez pontos. Para os campeões, é uma final com todas as letras, especialmente se o resultado for ruim, o que aumenta a curiosidade sobre como Guardiola desenhará seu time em uma situação limítrofe.

No primeiro turno, o City foi capaz de conter a máquina de Klopp com uma versão futebolística de controle de avalanches: posse defensiva, paciência no nível budista e negação de campo para o Liverpool correr. Um pênalti (mal marcado) desperdiçado por Mahrez manteve o empate a zero. Guardiola assinaria outro jogo assim num piscar de olhos.

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Pálido

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O ano futebolístico brasileiro termina com um mistério, entre aspas, que vem de Porto Alegre. O nome do melhor jogador da Copa Libertadores de 2017 está na mesa de negociações, com etiqueta de saída do Grêmio. E não é com destino a um clube europeu, mesmo fora do que se chama de “elite da elite; Luan esteve perto de ser trocado por um futebolista oito anos mais velho. A transação com o Cruzeiro, por Thiago Neves, não foi em frente porque o astro gremista não aceitou, mas a notícia não é essa, certo? Não deixa de ser espantoso que o clube que melhor conhece Luan estivesse disposto a substitui-lo numa operação em que claramente sairia em desvantagem. Algo assim só se justifica quando um dos cônjuges desiste do matrimônio.

Não consta que seja Luan, que insiste no discurso de só deixar o clube que o revelou para atuar fora do Brasil. Resta um único cenário: após uma temporada prejudicada por lesões e desempenho irregular (fatos evidentemente relacionados), Luan teve seu status alterado pelo Grêmio. Passou de craque a figura negociável, de potencial protagonista de uma transferência lucrativa a permuta em um pacote inimaginável há dois anos. Clubes não dispensam jogadores desse nível – que são ativos no negócio do futebol – apenas por causa de um ano decepcionante, especialmente quando a trajetória registra que o potencial foi indiscutivelmente atingido. Se o Grêmio não crê mais em Luan aos vinte e cinco anos, antes do que se considera o auge de maturidade de um jogador em todos os aspectos, o problema deve ser dele.

Logo depois da conquista da Libertadores, a projeção de carreira de Luan já era distinta da de Arthur, o outro jogador do time que concluiu o torneio muito bem avaliado. No caso do meio-campista, a juventude e o interesse do Barcelona indicavam um salto direto para a primeira prateleira do futebol mundial. Mas a questão também passa pelas características de atuação: é automático enxergar Arthur no plano coletivo das melhores equipes europeias, enquanto o jogo de Luan tem especificidades que dificultam seu encaixe nesses contextos. Não é por outro motivo que a seleção brasileira não lhe reservou um lugar até hoje, o que também explica por que apenas clubes médios ou integrantes de ligas periféricas tenham pensado em contratá-lo.

O que não significa que Luan não seja excelente para o ambiente sul-americano, pela combinação de refinamento técnico e inteligência na tomada de decisões. Sua capacidade de desequilíbrio individual está comprovada e jamais deveria ser minimizada como diferencial, desde que esteja inserida em uma forma de jogar e seja alimentada pela sua própria ilusão de ser o melhor. Este parece ser o centro do problema: a glória doméstica talvez não seja mais suficiente para encantá-lo, e a cada sinal de que o sonho de se tornar uma figura no futebol mais valioso não se concretizará, o brilho nos olhos empalidece. Os relatos de comportamentos exagerados fora de campo completam o retrato.

É natural que a sedução da Europa e a ideia da repetição dos caminhos de grandes estrelas exerçam um apelo poderoso. Mas há jogadores que representam fielmente as virtudes do futebol brasileiro e, por um motivo ou outro, não são convidados à mesa dos melhores do mundo. O sucesso caseiro não mais os preenche, e uma carreira de oportunidades inacessíveis para a gigantesca maioria deixa de receber a valorização que merece. Luan é um desses jogadores. Diferente, especial, superior, está diante de um futuro de felicidades nos gramados do país que talvez ele não consiga enxergar.

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Diferentes

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Jorge Valdano talvez seja quem melhor escreve no mundo sobre futebol. Seus artigos apresentam o ponto de vista do ex-futebolista que segue vivendo o jogo como paixão, sem argumentos de autoridade ou qualquer traço de ressentimento; o manejo do idioma é magistral, ferramenta para a maneira sensível com que aborda questões que parecem simples apenas para quem opta pela superficialidade. Lê-lo é mergulhar no “jogo infinito”, título apropriado para o espaço no diário El País que apresenta seus pensamentos. Mais do que recomendável, necessário.

Em sua peça mais recente publicada no jornal espanhol, Valdano ofereceu o seguinte: “… os futebolistas técnicos e imaginativos são os únicos capazes de romper o jogo rotineiro que pode converter uma grande equipe em uma equipe qualquer. Só necessitam que não os crucifiquem por ser valentes”. O raciocínio é sobre o que se passa com Isco no Real Madrid, mas se aplica a todos os jogadores criticados por “atrapalhar” a ordem coletiva que, paradoxalmente, depende deles para se impor. É um debate conceitual, provavelmente até mais oportuno para o futebol brasileiro.

Figuras como Dudu e Luan, para ficar em exemplos de maior destaque. Ou Neymar, especialmente na seleção. É para eles que os dedos apontam sempre que suas equipes não atuam bem, como se as tentativas infrutíferas que partem de seus pés fossem as razões que explicam o mau desempenho. Ou como se, ao desativar o “modo desequilíbrio”, essa classe de jogadores pudesse colaborar de alguma forma para o objetivo de todos. Além dos goleiros, eles são os únicos que dependem de um índice de aproveitamento quase impecável para não se converterem em um problema, o que contraria a dinâmica do que sabem fazer e o motivo pelo qual estão em campo.

Um dos objetivos do futebol é desorganizar o adversário, algo que pode ser feito de diferentes formas. São raras as equipes – nenhuma delas está no Brasil – em que as qualidades dos jogadores estão a serviço de uma organização posicional soberana, que determina menor influência individual até que a bola chegue a certas regiões. Mais raros ainda são os jogadores dos quais se pode exigir o que há de mais próximo da perfeição. Sobre um deles, Messi, Valdano definiu no mesmo texto: “em efeito, só se encarrega de ganhar as partidas. Cumpre com a parte do contrato que compromete a um gênio: ser o melhor”.

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Alternativo

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O Fluminense firmou um contrato de uma temporada com Fernando Diniz, em uma decisão que navega entre a ousadia e a obviedade, dependendo da forma como se pensa o futebol e, neste caso específico, como se lê o conjunto de necessidades de um clube que se encontra em posição problemática. O buraco orçamentário é uma questão de administração que só será solucionada com a sequência de gestões competentes, num quadro complexo que afeta e ao mesmo tempo depende do time de futebol. Enquanto é muito mais difícil escolher um técnico e montar uma equipe neste cenário, a opção pelo mais do mesmo apenas prolonga a dinâmica que levou o clube a essa situação. A escolha por Diniz é inteligente no aspecto estratégico, desde que, é claro, não seja tratada com os vícios de sempre. É um dilema.

Aquele torcedor que prefere não perceber a que ponto o Fluminense chegou e cobra do time o desempenho de quem trabalha com as coisas em ordem está descrente. Entende que o clube se equivocou ao contratar um inventor ao invés de um treinador. É um caso de vista cansada, que não enxerga a impossibilidade de construir um time “convencional”, dirigido por um técnico que opera como os demais. Murro em ponta de faca. O Fluminense não tem recursos para esse modelo e, se tivesse, ainda assim dificilmente seria capaz de competir com os principais clubes do país. A única opção que apresenta uma chance de sobrevivência esportiva é ser criativo, inventivo, incomum. Fernando Diniz é isso.

A cada vez que Diniz assume um clube mais relevante, uma parte do ambiente futebolístico brasileiro passa a torcer contra, como se o sucesso de quem se propõe a fugir do tradicional representasse uma ameaça. Assim foi no Atlhetico Paranaense, que terminou o ano campeão da Copa Sul-Americana com os ajustes de Tiago Nunes ao time que Diniz visualizou. O trabalho de Tiago, frise-se, foi o melhor entre todos os técnicos brasileiros em 2018, mas seu mérito está, também, em não apagar o que estava feito. Como todas as pessoas inteligentes, Diniz segue aprendendo com os próprios erros e acumulando experiências para refinar seus métodos. O período no Audax é a matriz para uma ideia que já funcionou com jogadores que ali viveram seus melhores momentos.

Quem precisa assinar um contrato com Diniz é a torcida do Fluminense, e também por um ano. Ele não terá a mínima chance se for tratado com impaciência e incompreensão, pacote danoso a qualquer trabalho que se inicia, mas ainda mais prejudicial à implantação do tipo de futebol em que acredita. A postura do torcedor deve partir da noção de que essa rota “alternativa” pode conduzir a um time que seja competitivo exibindo um jogo atraente, uma vez que as vias “normais” já se mostraram insuficientes. Mas não será rápido e certamente haverá problemas no caminho que exigirão perseverança e, por que não?, sabedoria. Não é razoável aplicar o “se não ganhar, não fica” em um clube cuja última conquista se deu em 2012.

O Fluminense não tem perspectiva de ganhar títulos relevantes em 2019. Com o modelo básico de equipes que normalmente são montadas por clubes com pequena capacidade de investimento e problemas a perder de vista, os riscos de jogar para não ser rebaixado no Campeonato Brasileiro seriam altos como têm sido. Com Diniz, não há nenhuma garantia (garantias não existem no futebol), mas ao menos há uma esperança de bom jogo e do estabelecimento de um Davi e Golias que pode unir time e arquibancada numa época difícil. Com sorte, também será divertido, um aspecto quase abandonado no futebol de sobrevivência praticado pela maioria, algo que Fernando Diniz não tolera. Essa é a boa notícia.

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Apoio

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Jorge Sampaoli tinha propostas do futebol chinês e da Major League Soccer, obviamente para ser remunerado com múltiplos dos valores que o Santos lhe ofereceu para o que ele qualifica como seu “maior desafio” profissional. O fato de assinar um contrato de duas temporadas para trabalhar no futebol brasileiro representa o desejo de retomar a carreira num centro em que, apesar de tantos defeitos, o jogo é mais importante do que a imagem ou o dinheiro. Não apenas o Santos deveria estar esperançoso por causa da escolha, o tipo de novidade agradável para o ambiente futebolístico do país.

Sampaoli surpreendeu seus interlocutores com o nível de informação a respeito do elenco santista e também pelas opiniões formadas sobre determinados jogadores, reflexo de uma forma não convencional – para os padrões locais – de enxergar a montagem de grupo e equipe. O Santos o contratou imaginando um produto final e provavelmente seguirá se surpreendendo com seus métodos de trabalho até que todos se conheçam, um processo que não tem prazo determinado e exigirá não apenas compreensão mútua, mas a vontade de alcançá-la. Haverá?

Com o risco de algum exagero, só existem dois caminhos possíveis: ou Sampaoli mostrará resultados imediatos e empolgará aqueles cujo interesse não vai além dos prazeres efêmeros, ou a comunidade do futebol santista tomará a decisão de se comportar de forma diferente. A primeira opção, improvável, poderia satisfazer os apressados, mas teria o único benefício de comprar tempo. A segunda, quase utópica, permitiria que a comissão técnica recém-contratada se adaptasse às particularidades do futebol no Brasil e fizesse um trabalho autoral que não gera frutos da noite para o dia.

Das escolhas de escalação às substituições, passando pelo posicionamento de jogadores e por experiências que podem não ser bem-sucedidas, o santista terá de se acostumar a um futebol diferente. Mais: terá de apostar nele, apesar das vozes descrentes nas ruas, nas arquibancadas e aos microfones, sempre propagando a ideia de que “o berço de Pelé e Neymar” tem de golear todos os adversários. A aceitação a Sampaoli é um sinal promissor, mas é nos empates com times pequenos na Vila com meia ocupação que o verdadeiro apoio se revela.

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Amanhã

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Jorge Sampaoli e um componente de sua comissão técnica desembarcarão em São Paulo no final da tarde deste domingo. A primeira conversa presencial com o presidente do Santos, José Carlos Peres, deve acontecer à noite, na capital, onde mora o dirigente. O plano é que o técnico argentino permaneça no Brasil por cerca de três dias, período em que será levado a Santos para conhecer a estrutura do clube e a Vila Belmiro. E assinará o contrato para dirigir o time a partir de 2019, claro, se as coisas andarem bem. O futebol está repleto de histórias sobre acordos que estavam 99% sacramentados, mas não se realizaram. Embora questões sempre possam surgir até que as assinaturas estejam nos papeis, não há qualquer antecipação de problemas de última hora.

O Santos enviou a Sampaoli uma proposta de trabalho em que constam os salários da comissão técnica (ele deve ter três ajudantes) e os detalhes das premiações por objetivo, pedindo que o técnico devolvesse o documento assinado, se estivesse de acordo. Assim se deu, por isso o tweet no perfil oficial do clube mencionava um “aceite” entre as partes na quinta-feira. Agora a questão é basicamente de linguagem, com a conversão da proposta em um contrato formal de dois anos e as devidas assinaturas. Peres trabalhou sozinho nos contatos iniciais com o treinador, mantendo o sigilo solicitado por Sampaoli como condição para que a negociação tivesse sucesso. A vinda do técnico ao Brasil é o óbvio sinal de um compromisso prestes a ser firmado.

Os clubes do futebol brasileiro são organismos essencialmente políticos, cada um com suas particularidades internas de poder e vaidade. Em quase todos, as forças que agem no dia a dia exigem decisões tomadas levando em consideração os desejos dos variados grupos que convivem nas sedes sociais, nos conselhos e até nos centros de treinamento. A contratação de treinadores é sempre um movimento sensível que, especificamente no Santos, sofre a influência da saudade deixada por Vanderlei Luxemburgo. É constante o fomento pelo retorno do técnico que conquistou seu último título de expressão em 2004, pelo clube santista. O que determina a escolha por nomes que tenham sustentação. Peres entende que Sampaoli cumpre essa necessidade, pelo currículo internacional e pela visão de futebol associada ao bom jogo e à ofensividade.

O momento remete ao ano de 2013, quando o Santos se aproximou de Marcelo Bielsa a ponto de quase contratá-lo. À época, o técnico que atualmente dirige o Leeds na segunda divisão do campeonato inglês chegou a preparar um dossiê a respeito dos jogadores santistas que impressionou, pelo nível de detalhe, os dirigentes que trataram com ele. Quem tem conversado com José Carlos Peres sobre a familiaridade de Sampaoli com o clube ouve algo como “ele conhece mais o Santos do que muita gente que vive lá”. Sampaoli é um aluno de Bielsa em vários aspectos do trabalho de treinadores, entre eles a obsessão pela informação.

A ideia do Santos é criativa, oportuna e deve ser aplaudida pelos benefícios que pode representar não só para o clube, mas para o futebol no Brasil, pelo intercâmbio de conhecimento, ideias, métodos. Sim, o mesmo se disse sobre as passagens de técnicos que também vieram de outros países, como os colombianos Juan Carlos Osorio e Reinaldo Rueda, e infelizmente não tiveram tempo suficiente para se acostumar a certas características do ambiente brasileiro. Que com Sampaoli o enredo seja diferente, mas essa é uma conversa para outro dia. Primeiro, o Santos precisa concluir a contratação. Amanhã será um domingo sem jogo, mas com torcida.

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Novo

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Esta coluna foi escrita antes da final da Copa Sul-Americana, de modo que não deve ser lida à luz da primeira conquista internacional do Club Athletico Paranaense ou de uma grande decepção que possa ter ocorrido na Arena na noite de ontem. E a página é fechada por volta de 20h, excluindo a possibilidade de fazer duas versões e publicar a certa (ou a errada, como já se deu tantas vezes na história dos jornais…). De qualquer forma, o tema é o time que nasceu na terça-feira, e não o time que jogou na quarta.

“Nasceu” pode soar exagero, mas, com um novo escudo, novos uniformes e um nome reformado, é razoável dizer que se trata da apresentação de uma entidade que pretende se diferenciar e não mais olhar para trás. Distinguir-se até de si mesma. Além de um passo arrojado e corajoso, é uma forma inovadora, no Brasil, de lidar com as tradições que alimentam o futebol e situar o clube para um futuro que valoriza outros aspectos. A criação de uma marca talvez seja o mais importante deles.

Um distintivo, algo comum a todos os clubes, é um símbolo, não necessariamente uma marca. A marca vai bem mais longe. Enquanto um restaurante com o distintivo antigo do Atlético Paranaense sempre remeteria ao refeitório dos atletas, um bar com a nova marca (as quatro faixas abaixo das letras CAP) teria – terá? – um apelo distinto. O mesmo vale para peças de roupa, joias, acessórios… qualquer coisa que se queira vender para um público que adora o clube mas não a ponto de se sentir confortável ostentando as três letras entrelaçadas usadas até o início da semana.

Foi o que a Juventus fez ao repaginar seu brasão e lançar uma imagem que pode ser reconhecida até mesmo fora do ambiente do futebol, como um logotipo. O choque provocado pela ruptura com o que sempre se associou com a identidade do clube é natural, assim como o debate sobre a “propriedade da paixão”, mesmo em lugares, como a Itália, em que clubes de futebol têm donos. No Brasil, o Athletico começa a trilhar esse caminho para modificar a percepção pública do que é e do que pretende ser, embora esteja claro que o que acontecer no campo será determinante.

Neste âmbito, o Athletico já estava muito bem posicionado em termos estruturais e humanos para crescer no ecossistema do futebol brasileiro e da América do Sul, repetindo campanhas como a desta Copa Sul-Americana. O tratamento de imagem, diga-se, menos complexo do que seria em diversos outros clubes do país, permite planejar outro tipo de conquistas.

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