Todos os posts de André Kfouri

Benjamin

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O montenegrino Nikola Vucevic, pivô do Orlando Magic da NBA, não resistiu ao elogio máximo possível ao ver a Argentina derrotar a França e se classificar para a final do Campeonato Mundial de basquete. Vucevic sacou o telefone do bolso e escreveu para o mundo em seu perfil no Twitter: “Quando eu crescer, quero ser Luis Scola”. Embora já esteja maduro aos vinte e oito anos, Vucevic é uma década mais novo do que o jogador que enxerga como o homem que gostaria de ser. Esse é o nível de admiração gerado por um atleta capaz de, quase aos quarenta, levar sua seleção nacional a uma decisão mundial com números melhores do que quando vivia seu auge físico e técnico.

No Campeonato Mundial de 2006, realizado no Japão, Scola jogou menos tempo, fez menos pontos, pegou menos rebotes e deu menos assistências do que no torneio que termina amanhã em Pequim, na China. Ele tinha vinte e seis anos, dentro da faixa etária apontada como a maturidade de um esportista. Tal e qual Benjamin Button, a criação de David Fincher que rejuvenesce à medida que o tempo passa, Scola descobriu um jeito de inverter os efeitos do tempo e tem produzido atuações individuais espantosas no torneio chinês, liderando uma seleção argentina que provoca afeição quase obsessiva em quem aprecia esportes coletivos. A coesão, o senso de pertencimento, a entrega inegociável… qualidades que por um momento dispensam o requinte técnico – que também se nota, evidentemente – e exibem o que deveria ser o ideal de todos os times.

Ver essa Argentina jogar, mesmo pela manhã, causa vontade de comer ojo de bife e tomar uma taça de malbec. A narrativa da rivalidade entre vizinhos insiste em vender um ambiente de competição acirrada em toda e qualquer modalidade, mas, no basquete, é preciso aceitar uma unilateralidade semelhante ao que se dá entre alemães e ingleses no futebol. É intrigante imaginar o que dirigentes do basquete brasileiro, de hoje e de ontem, pensam ao acompanhar a seleção argentina vencendo quinze anos depois do ápice da chamada “geração de ouro”. Scola é o último remanescente do time campeão olímpico em Atenas, e mesmo assim as lições continuam, o espírito permanece, o exemplo constrange. Um sujeito de trinta e nove anos joga como se pertencesse à geração anterior, e seus companheiros dessa geração jogam como se estar ao lado dele fosse mais importante do que vencer. E eles vencem, claro, mesmo que sejam derrotados pela Espanha na final.

Porque é o que Scola faz desde garoto, quando seu nome começou a circular como promessa de jogador de época. Há quase vinte anos, ele veio ao interior de São Paulo com a seleção sub-21 de seu país para disputar um torneio classificatório para o mundial da categoria. Foi Scola quem levantou o troféu após a final contra os Estados Unidos (com meia dúzia de futuros jogadores da NBA no time) no antigo ginásio do COC, em Ribeirão Preto, com a naturalidade de quem sabia que a vida seria repleta de ocasiões como aquela. Se alguém que nasceu em Montenegro quer ser como ele, imagine o que acontece na Argentina, orgulhosa de um time de basquete encantador, liderado por um gigante que se recusa a envelhecer.

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Efeito borboleta

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Poucas vezes se viu Zinedine Zidane tão contrariado. A entrevista coletiva do técnico do Real Madrid foi marcada pelo descontentamento com a CBF e o calendário do futebol brasileiro, que manteve a programação de jogos da Série B durante o período das datas Fifa. Com nove jogadores convocados por seleções nacionais – incluindo o brasileiro Rodrygo, chamado para um amistoso da equipe sub-23 do Brasil –, o treinador francês não sabe como escalará seu time nos jogos contra Figueirense e CRB. “Simplesmente não tenho jogadores suficientes”, disse Zidane, por intermédio do tradutor do clube.

Zidane tem se mostrado crítico com a desorganização do futebol no Brasil. Não bastasse o fato de o campeonato não ser paralisado durante as datas de jogos entre seleções, o planejamento do Real Madrid tem sido prejudicado por problemas como a greve de jogadores do Figueirense, por causa de salários atrasados. O protesto dos atletas causou um W.O. na última rodada do campeonato e a possibilidade de uma repetição no próximo fim de semana preocupa o técnico. “Temos de nos preparar para viajar amanhã para Florianópolis e não sabemos se haverá jogo ou não”, disse. “É inadmissível que isso aconteça no futebol profissional”.

O desempenho do multicampeão da Europa na segunda divisão do campeonato brasileiro evidentemente incomoda. Após dois empates seguidos, contra Brasil de Pelotas e Oeste, um grupo de torcedores organizados fez uma manifestação na porta do hotel onde o diretor José Ángel Sánchez se hospeda quando está no país. Os simpatizantes pedem a demissão do dirigente, querem agendar uma reunião para uma “conversa olho no olho e críticas construtivas” com Zidane, na qual pretendem entregar ao treinador um dossiê com as aventuras noturnas de jogadores renomados do elenco nas cidades brasileiras. Um funcionário do hotel que pediu para não ser identificado revelou que Sánchez não compreendeu direito o significado de uma faixa levada pelos torcedores, em que se lia “Si no es por amor es por terror”.

Vale dizer que relação entre Zidane e os setoristas brasileiros que cobrem o dia a dia do Real Madrid é tensa. Os jornalistas reclamam do regime de treinamentos fechados imposto pelo técnico e gostariam que houvesse ao menos duas entrevistas coletivas por semana. Zidane explica que treinar com privacidade é essencial para seu método de trabalho e não pensa em expandir o contato com os repórteres. Há ainda um descontentamento pelo fato das entrevistas terem apenas trinta minutos, dos quais os primeiros dez não têm tradução, por serem exclusivos dos enviados pelos meios de comunicação espanhóis.

Na sessão de ontem, a temperatura subiu quando Zidane foi informado pelos setoristas que Karim Benzema não poderá jogar nas próximas seis rodadas do campeonato. O atacante francês tinha sido suspenso por uma partida – já cumprida – por causa de um desentendimento com o zagueiro Luiz Otávio, do Botafogo de Ribeirão Preto, em jogo realizado há seis semanas. Mas a procuradoria do STJD recorreu e solicitou que os atletas fossem julgados por agressão física, com penas mais longas. O Pleno do tribunal atendeu o pedido ao julgar o recurso pela manhã, o que gerou uma confissão ressentida de Zidane: “nada que vivi no futebol me preparou para o que encontrei aqui”.

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Próprio

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O encanto do futebol apresentado pelo Flamengo nas últimas semanas tem um componente perceptível a torcedores de todos os times. Basta ser capaz de tratar o que se conhece como rivalidade pelo significado respeitoso do termo, ou seja, a alimentação de um desejo de ser melhor, e não um motivo para destruir. Sem ingressar no território das minúcias táticas – não por serem desimportantes, mas por não serem o ponto central dessa conversa –, quando o Flamengo atual extrai atuações complementares de seus jogadores ofensivos mais capazes, o resultado é uma imagem que remete a momentos saudosos do que se pode chamar de “jogo brasileiro”, sem correr o risco de exagerar.

O futebol é manifestação cultural como tantas outras, e as características de sua evolução como esporte em cada lugar onde é considerado importante traduzem um modo de fazer as coisas que é próprio, no sentido antropológico. O amor pela bola, a necessidade do contato com ela, a reunião de jogadores no entorno dela, a sobrevivência no espaço curto, a movimentação que parece desordenada, a perícia técnica, o drible, o sorriso… traços de uma personalidade futebolística tipicamente brasileira e reconhecível quando jogadores se expressam individual e coletivamente da forma que lhes é natural. O observador casual, de um ponto distante, tem a impressão de que esses futebolistas foram entregues às próprias decisões, totalmente responsáveis por um entendimento espontâneo, regidos por “normas” que aprenderam sem que jamais tenham sido ensinados.

Sabe-se que não é assim, pois, se fosse, bastaria agrupar três ou quatro jogadores privilegiados e tudo aconteceria como mágica. Não deixa de ser interessante que este Flamengo seja a visão de um treinador europeu que ainda está na fase inicial de seu trabalho, e que as mesmas peças que agora se encaixam como se fossem íntimas por toda a vida não transmitissem essa sensação antes de sua chegada. As comparações com times memoráveis e o potencial para marcar época em um clube como o Flamengo são méritos de Jorge Jesus, que soa empolgado com o que vê não apenas como treinador, mas como admirador do bom jogo e dos ambientes que equipes com essas virtudes costumam proporcionar. Ele tem razões para estar orgulhoso do que faz com o time mais talentoso que já dirigiu, mesmo que a caminhada seja longa e o julgamento, de maneira geral, dependa do que houver para mostrar ao final.

O Flamengo não é o único conjunto brasileiro que pratica esse futebol essencialmente “local” e identificado por suas peculiaridades mais admiráveis. O Grêmio tem trilhado esse caminho ao longo dos últimos anos, com menos fartura e indiscutível sucesso (a seleção brasileira foi intérprete desse jogo entre setembro de 2016 e o final das Eliminatórias, e seria na Copa do Mundo se as lesões não impedissem, mas aqui se trata de clubes). O que distingue o time dirigido por Jesus é a quantidade de futebolistas top de linha juntos, algo provavelmente visto no país pela última vez no elenco do Corinthians entre 1998 e 2000. Embora o futebol seja indomável, o que se percebeu nas semanas recentes permite imaginar que o melhor está adiante, e para tanto não é necessário torcer. Apenas gostar.

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Quimera

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A narrativa da chegada de Mano Menezes ao Palmeiras aponta um caso de rejeição popular motivada pelo “estilo” do sucessor de Luiz Felipe Scolari. Seria maravilhoso se fosse verdade, um indício de que uma das maiores bases de torcedores do futebol brasileiro contempla a maneira como seu time se apresenta em campo, e não, apenas, o produto final. Não que não haja alguém suficientemente interessado no “como” e incomodado com o tipo de jogo extraído de um dos elencos mais valiosos do país. A questão é a relevância que se dá a esse aspecto, e, principalmente, o fato de a origem do incômodo ser, na verdade, outra: o Palmeiras parou de ganhar.

É preciso cavar muito fundo para encontrar um “projeto de futebol” em andamento num clube brasileiro, em termos de construção de ideia de jogo, prospecção e desenvolvimento de jogadores conforme essa ideia, além, é claro, de identificação das lideranças para sua aplicação. Talvez o Athletico seja o que mais se aproxima desse cenário utópico. Uma broca da magnitude de “O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” seria necessária para encontrar um trabalho com essas características e que tenha recebido suporte ao se deparar com uma fase de resultados desagradáveis, exatamente a linha que separa o que se diz e o que se faz na indústria nacional de futebol.

A melhor história que o jogo tem contado por aqui nos últimos anos se dá no Grêmio, mas não alcança o significado de um projeto. Renato Portaluppi tem provado ser o nome certo no lugar perfeito ao dirigir um time – remontado a cada ano – que agrada e vence, mas relacionar sua contratação a seus trabalhos anteriores como exemplo de “perfil futebolístico” que se encaixava com o que o clube entendia ser correto é, simplesmente, um exercício de ficção. Sampaoli no Santos? Um caso clássico de aproveitamento de oportunidade, pela disponibilidade do treinador argentino e a iniciativa do dirigente do momento. Jesus no Flamengo? A temporada começou com Abel Braga, o que encerra o debate. Seja qual for a proposta, a linha de sobrevivência de treinadores no Brasil só está conectada ao “dar liga” e a resultados rápidos e frequentes.

Voltando ao “estilo” de Mano, a opção do Palmeiras ao menos acerta em investir numa abordagem mais próxima do que vinha sendo feito, ao invés de encomendar uma ruptura em setembro. Os times de Mano são diferentes dos de Scolari em algumas áreas, mas, no grande esquema das coisas, estão na mesma gaveta. A propósito: ao deixar o Cruzeiro e considerar o próximo passo (trabalhar na China, em Portugal ou em São Paulo, e não no Corinthians), Mano decidiu se aprofundar na elaboração de movimentos ofensivos e estava preparado para trabalhar nisso, quando Alexandre Mattos telefonou. Não significa que o Palmeiras, com ele, será radicalmente diferente do que se viu desde agosto do ano passado, mas é possível que a narrativa seja surpreendida. Enquanto isso, é natural que um treinador associado a um rival tenha de superar olhos tortos no início, o que obviamente não se resolve com “estilo”.

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Excelência

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O encontro entre Grêmio e Flamengo, nas semifinais da Copa Libertadores, promete oferecer os jogos mais interessantes da temporada no Brasil. Mais ainda do que a finalíssima, entre um deles e o sobrevivente do superclássico argentino, porque o fetiche da Conmebol com a Liga dos Campeões conseguirá a proeza de cassar uma partida do que será, sem dúvida, um confronto colossal. As semifinais ao menos preservarão – mãos para os céus, porque os eventos da decisão do ano passado ensinam que nunca, nunca se sabe – as características dos choques de ida e volta, com cada time em sua casa e ao lado de seus torcedores, em datas (2 e 23/10 no caso de Grêmio e Flamengo, um dia antes para Boca Juniors e River Plate) que devem ser circuladas com caneta marca texto no calendário de quem se interessa por futebol.

Nenhum clube brasileiro tem tantos jogadores tecnicamente privilegiados quanto o Flamengo. A reunião desses futebolistas em um contexto coletivo capaz de acionar tamanha coleção de virtudes tem produzido, desde o clássico com o Vasco, trechos cada vez mais duradouros de completa submissão do adversário. Ao olho neutro, por consequência mais objetivo, não resta outra conclusão a não ser a ideia de que, com continuidade, será cada vez mais complexo conter uma equipe que causa danos quando cria e não perdoa quando o oponente falha. Os jogos contra o Internacional ilustram as qualidades do rubro-negro, transmitindo a sensação de que, assim como a água acaba por encontrar seu caminho cedo ou tarde, o time dirigido por Jorge Jesus prevalecerá de um jeito ou de outro. É muito talento junto.

Nenhum time brasileiro joga bem há tanto tempo quanto o Grêmio, campeão continental em 2017 e remontado nas temporadas seguintes com as mesmas ideias. Considerando que as equipes bem-sucedidas no Brasil normalmente duram pouco, o trabalho de Renato Gaúcho merece elogios ainda mais efusivos por manter, com breves hiatos, um nível de jogo difícil de alcançar e uma clara personalidade de equipe. E além do bom trato da bola, o Grêmio tem uma característica rara: a intenção e a capacidade de se estabelecer em campo mesmo quando atua como visitante, o que o separa de todos – sim, todos, até mesmo o Santos – os concorrentes no país. Na eliminatória contra o Palmeiras, após ser controlado em seu próprio estádio, o time gaúcho ainda mostrou que equipes desse nível não se descaracterizam por dois jogos seguidos.

Com o primeiro encontro marcado para daqui a cerca de um mês, qualquer prognóstico é fútil. Enquanto é óbvio que para ambos será fundamental chegar nas melhores condições possíveis em termos de disponibilidade de jogadores, o intervalo de tempo não permite que se pense nesses jogos agora. E nem mesmo a ordem, pensando na ideia costumeiramente aceita de que o mandante da partida de volta – Flamengo – tem um bônus teórico, serve como fator de desequilíbrio. A Arena do Grêmio e o Maracanã proporcionam atmosferas amplamente favoráveis aos times locais sem que haja influência direta na forma como o jogo é jogado, o que depende unicamente da coragem e dos atributos de cada time. No caso desses dois gigantes, bem dotados e bem treinados como são, a vaga na final da Libertadores será uma questão de futebol de ataque em alto nível. É isso que ambos fazem com excelência.

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A escolha que não há

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Já está em andamento um processo perverso, mais um, relacionado ao futebol no Brasil. A segunda eliminação seguida na Copa Libertadores deu origem ao julgamento do trabalho de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras sob o prisma da maneira de jogar. Nos corredores do clube, nas mensagens instantâneas e em setores da coletividade palmeirense em que só havia interesse por vitórias até a noite de anteontem, agora borbulham “análises” repentinas sobre aproveitamento do elenco, ideia de jogo e demais temas anteriormente percebidos com desdém por se tratarem de “conversa de poetas”. Adeptos da “bola na casinha” e do “quem quer espetáculo que vá ao teatro” descobriram termos como “repertório” e dissertam a respeito de “futebol coletivo”. Que maravilha.

Se essa comovente transformação estivesse em curso apenas em redes antissociais como o Twitter, onde se dá o equivalente atual ao que sempre se chamou de “o que se diz nas ruas…”, ok. Compreende-se o componente passional e o hábito de repetir o que se ouve/lê em algum lugar e faz cabeças de ovos parecerem articulados. Mas não; a reversão total pode ser acompanhada em espaços da crônica especializada em que o resultado sempre foi apresentado como a solução suprema para tudo, o remédio universal para males que não surgiram no Pacaembu ou na Bombonera. Não fosse um desrespeito ao próprio futebol, o que é mais importante, já seria uma afronta à memória das pessoas bombardeadas diariamente pelo discurso cínico que pretende tratar do jogo sem considerá-lo.

Não é uma questão de preferência, mas de critério. Ao justificar a escolha por um certo tipo de jogo por intermédio dos resultados que ele – supostamente – proporciona, fabrica-se a mentira de que outras opções distanciam times de futebol do que é, por óbvio, o objetivo de todos. Mas essa ainda não é a maior crueldade, porque o conjunto de análises também revela uma decisão tomada no momento da apreciação das diversas formas de jogar que o futebol oferece. Enquanto o jogo mais elaborado e primordialmente ofensivo vive sob uma régua de altíssima exigência, as propostas baseadas em solidez defensiva e punição ao erro do oponente recebem generosas doses de paciência. Até que, um dia, quando se perde algo importante, alguém resolve não mais tolerá-las e subitamente olha para o outro lado, como se estivesse dizendo: “eu escolhi ganhar, mas, agora que perdi, escolho jogar”. Nonsense total.

Se o Palmeiras tivesse conseguido converter seus melhores vinte e cinco minutos pós-Copa América – exatamente o trecho inicial do jogo em que o Grêmio fez dois gols – em um placar favorável, ou se Everton não produzisse uma noite de tamanho desequilíbrio, é possível que o resultado estivesse novamente sob exaltação a esta altura. E não haveria nada de diferente na maneira de jogar ou no contexto geral de virtudes e defeitos do time de Scolari. É preciso decidir o que se pretende e que não seja o oportunismo, pecado imperdoável não só no futebol.

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A escolha que não há

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Já está em andamento um processo perverso, mais um, relacionado ao futebol no Brasil. A segunda eliminação seguida na Copa Libertadores deu origem ao julgamento do trabalho de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras sob o prisma da maneira de jogar. Nos corredores do clube, nas mensagens instantâneas e em setores da coletividade palmeirense em que só havia interesse por vitórias até a noite de anteontem, agora borbulham “análises” repentinas sobre aproveitamento do elenco, ideia de jogo e demais temas anteriormente percebidos com desdém por se tratarem de “conversa de poetas”. Adeptos da “bola na casinha” e do “quem quer espetáculo que vá ao teatro” descobriram termos como “repertório” e dissertam a respeito de “futebol coletivo”. Que maravilha.

Se essa comovente transformação estivesse em curso apenas em redes antissociais como o Twitter, onde se dá o equivalente atual ao que sempre se chamou de “o que se diz nas ruas…”, ok. Compreende-se o componente passional e o hábito de repetir o que se ouve/lê em algum lugar e faz cabeças de ovos parecerem articulados. Mas não; a reversão total pode ser acompanhada em espaços da crônica especializada em que o resultado sempre foi apresentado como a solução suprema para tudo, o remédio universal para males que não surgiram no Pacaembu ou na Bombonera. Não fosse um desrespeito ao próprio futebol, o que é mais importante, já seria uma afronta à memória das pessoas bombardeadas diariamente pelo discurso cínico que pretende tratar do jogo sem considerá-lo.

Não é uma questão de preferência, mas de critério. Ao justificar a escolha por um certo tipo de jogo por intermédio dos resultados que ele – supostamente – proporciona, fabrica-se a mentira de que outras opções distanciam times de futebol do que é, por óbvio, o objetivo de todos. Mas essa ainda não é a maior crueldade, porque o conjunto de análises também revela uma decisão tomada no momento da apreciação das diversas formas de jogar que o futebol oferece. Enquanto o jogo mais elaborado e primordialmente ofensivo vive sob uma régua de altíssima exigência, as propostas baseadas em solidez defensiva e punição ao erro do oponente recebem generosas doses de paciência. Até que, um dia, quando se perde algo importante, alguém resolve não mais tolerá-las e subitamente olha para o outro lado, como se estivesse dizendo: “eu escolhi ganhar, mas, agora que perdi, escolho jogar”. Nonsense total.

Se o Palmeiras tivesse conseguido converter seus melhores vinte e cinco minutos pós-Copa América – exatamente o trecho inicial do jogo em que o Grêmio fez dois gols – em um placar favorável, ou se Everton não produzisse uma noite de tamanho desequilíbrio, é possível que o resultado estivesse novamente sob exaltação a esta altura. E não haveria nada de diferente na maneira de jogar ou no contexto geral de virtudes e defeitos do time de Scolari. É preciso decidir o que se pretende e que não seja o oportunismo, pecado imperdoável não só no futebol.

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Valioso

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Você conversa com Juanfran e percebe um jogador de futebol que enxerga sua profissão como uma forma de se expressar como pessoa e transmitir seus valores. “Aprendi com Raúl [González], quando estava nas categorias de base do Real Madrid, que você deve pensar em futebol vinte e quatro horas por dia”, diz o são-paulino recém-contratado, durante a gravação do programa Bola da Vez, da Espn. Que a mensagem não seja confundida com uma vida monotemática. É seu conceito particular do que é ser um futebolista que está em questão. “Jogadores são figuras importantes na sociedade, e devem ser bons exemplos para os mais jovens”, explica. “Eu quero que meu filho saiba que seu pai é a pessoa mais trabalhadora que existe, alguém que pensa em seu clube e em sua família mais do que em si mesmo”.

A importância ao valor do trabalho permeia respostas e impressões sobre os mais diversos temas. Postura que se espera de alguém que desenvolveu com Diego Simeone uma relação de filho e pai, da qual se origina uma forma peculiar de lidar com os sentimentos gerados pelo jogo. “Para mim é mais importante ser visto como uma boa pessoa e um jogador humilde e dedicado. Pode-se jogar melhor ou pior, mas eu aprendi que a torcida precisa perceber que seu coração está ali e que você ajuda seus companheiros”. O técnico argentino, com quem Juanfran compartilhou vários troféus e algumas decepções no Atlético de Madrid, é a pessoa que lhe ensinou tudo e mostrou o caminho para o sucesso em equipes de futebol. “Os jogadores podem gostar mais ou menos de seu técnico, mas precisam crer em tudo o que ele fala”, opina. “Com Simeone era assim: se ele nos mandasse pular da ponte porque assim venceríamos, nós pulávamos da ponte”.

Assim como o São Paulo buscou muitas referências – Filipe Luís e Miranda, companheiros de vida em Madri, são corresponsáveis pela contratação – sobre o lateral que estreou pelo clube na semana passada, Juanfran também fez sua tarefa preparatória com capricho. “Eu acredito que quanto mais você se identifica com o clube, com a cidade e com as pessoas, aumenta a chance disso se refletir dentro de campo”, explica, ao mencionar a intenção de aprender a falar português o quanto antes, para se comunicar melhor dentro e fora do clube. “Existem jogadores que são mais reservados, que não querem esse contato. Eu não sou melhor ou pior do que eles por isso, é só uma diferença de personalidade”, conta. Aqui cabe outra lição de Simeone: “um jogador se comporta em campo como se comporta na vida, e se comporta na vida como se comporta em campo”, diz. O senso de pertencimento pode parecer um tanto antiquado no futebol de hoje, mas é tão crucial para Juanfran quanto sua coluna vertebral.

Do futebol brasileiro, mesmo em pouco tempo, ele já tem opiniões marcadas. “Os treinos são mais longos e os jogos são mais dinâmicos, tenho que fazer minha parte e me adaptar a isso”, revela. Mas está claro que essa adaptação não é um fim, e sim um pré-requisito para o que ele veio buscar no Brasil, quando tinha escolhas que representavam uma rotina mais tranquila a partir do momento em que decidiu deixar o Atlético. “Eu não vim ao Brasil e ao São Paulo a passeio. Vim para aprender, jogar e ganhar”. Além do futebol que possibilita diferentes contribuições ao time dirigido por Cuca, Juanfran tem um papel a desempenhar na transformação da cultura interna de um clube que precisa voltar a conquistar. Ouvi-lo falar leva à conclusão de que a escolha foi feita a dedo.

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Prato feito

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As duas últimas interrupções de trabalhos na Série A do Campeonato Brasileiro – já são nove em quinze rodadas – evidenciaram, se é que já não era escandalosamente claro, como opera o cartola médio no país. A cada técnico contratado e apresentado em entrevistas cerimoniosas, fala-se em “perfil” e até em “ideias”. A cada demissão via nota oficial ou declarações consternadas, o modo “dê-me vitórias e eu lhe darei tempo” prevalece diante de qualquer outro aspecto do processo de montagem de equipes. O que se deu no Cruzeiro e no Fluminense é ilustrativo.

O ponto aqui não são as razões da saída de Mano Menezes do bicampeão da Copa do Brasil. Após três temporadas, um feito quase heroico para os padrões nacionais de rotatividade de técnicos, o Cruzeiro pareceu ter chegado a um nível irremediável de estagnação com Mano. A questão é a escolha do substituto, e não, mil vezes não, isso não significa que o convite a Rogério Ceni tenha sido um equívoco. É que o recurso à noção de que o Cruzeiro desenvolveu nas mãos do treinador gaúcho um jeito de jogar “que leva a títulos”, tantas vezes usado como justificativa de estilo, simplesmente não cola quando o sucessor é um proponente de outra coisa.

O sucesso de Ceni na implantação de sua forma de entender o jogo com o mesmo núcleo que trabalhava com Mano será um indício de que o elenco do clube é capaz de interpretar o futebol com diferentes abordagens. A mudança de proposta será celebrada como um acerto de quem toma decisões, mas não satisfará a pergunta principal: o que quer o clube em relação a como jogar? O torcedor adepto de obviedades como “o que importa é bola na casinha” dirá que a resposta é vencer. É o que faz o cartola, mencionando “a cultura…” e andando em círculos. Porque se o resultado fosse só o que importa, a discussão futebolística se resumiria a placares de jogos, sem tocar nos caminhos pelos quais se chegou a eles.

O “como” é um dos pilares do método de Fernando Diniz, uma vez mais demitido pela caneta nervosa de dirigentes permanentemente vencedores e jamais questionados. Novamente não se trata de discutir os motivos da decisão no Fluminense, mas o inexplicável contorcionismo na solução apresentada. De Diniz se vai a Abel Braga, de Abel a Dorival Júnior, de Dorival a Oswaldo de Oliveira. É como olhar o cardápio e pedir filé mignon com salada verde, experimentar e trocar por um espaguete à bolonhesa, e finalmente decidir por rolinhos primavera (sem qualquer relação de preferência com os nomes citados, que fique claro). No mesmo restaurante.

Considerando como se comportavam os times que dirigiu, Oswaldo ao menos não deve fazer uma reversão total no que Diniz construiu. O mesmo se aplicaria a Dorival Júnior. Ocorre que a primeira ideia foi Abel, e aí, sim, o Fluminense estaria encomendando um novo time no final de agosto, com os mesmos jogadores. Seria o arquivamento, após quinze jogos de uma competição de trinta e oito, de tudo o que se disse quando Diniz chegou, com a ressalva de que os dirigentes que o contrataram não estão mais em seus postos. O compromisso, se é que existe um, é com o aleatório. Escolhe-se um nome disponível e se torce para “dar liga”. O futebol brasileiro permanece pobre nos gabinetes e nos grupos de WhatsApp.

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Interessante

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Na semana passada, quando a conversa sobre Balotelli no Flamengo ficou publicamente quente, um áudio de WhatsApp ganhou contornos virais. A mensagem, em um carioquês típico em forma e conteúdo, solicitava à diretoria do clube que apressasse o acerto com o controverso atacante italiano. Reprodução literal: “Balotelli é a cara do Flamengo, porra, a cara da torcida Jovem… jogador maluco, problemático, olho parado, porra. Usa bigodinho da favela do Mandela, pinta o cabelo de louro-pivete, porra. É a cara da Jovem, porra. Tá maluco? Estreia do Balotelli no Maracanã: 2 x 0 Flamengo, dois do Balotelli, porra… ele já vai pra noite, já vai ligar pro Adriano Imperador, já vai pra Vila Cruzeiro, já vai tirar foto de fuzil na favela, porra… Coisa linda… Balotelli batendo com o carro na Linha Amarela, porra, quebrando a mureta… vai aparecer em Madureira jogando ronda, vai pra Vila Mimosa visitar as ‘primas’… porra! Manchete em tudo o que é jornal no domingo de manhã, tu vai comprar o jornal, tá lá: ‘Balotelli estreia, faz dois, bate com o carro, tira foto de fuzil na favela, vai no puteiro..’.

O realismo é fantástico, mas se tratava de uma peça artística, feita por um canal de YouTube especializado em sátiras. É possível estabelecer, no entanto, uma conexão entre o humor escrachado e o impacto da chegada de um jogador como Mario Balotelli ao futebol brasileiro, especialmente ao Rio de Janeiro e a um clube como o Flamengo. A introdução de um personagem do futebol internacional num ambiente inusitado – considerando a trajetória “normal” de um jogador como ele – seria pródiga no aspecto da novidade e um verdadeiro acontecimento, uma história a ser contada semanalmente, por causa da empatia automática com a torcida rubro-negra. Basta pensar na recepção no aeroporto, na apresentação oficial, em cada comemoração de um gol no Maracanã, e, claro, nas aparições de Balotelli como pessoa física, fora do campo de jogo.

Poderia dar errado, mas a história seria relatada da mesma forma, apenas em outro tom. Em caso de sucesso, o que dependeria fundamentalmente do próprio, Balotelli de vermelho e preto seria, de fato, uma série digna de altos níveis de interesse. A propósito, se é verdade que a chance de voltar à seleção italiana era/é um dos fatores determinantes da escolha do atacante e seu superagente, é complexo avaliar o peso da repercussão de um período elogiável no Brasil. Não é o tamanho dos clubes envolvidos que está em debate, mas a percepção do desempenho de um jogador italiano atuando no Campeonato Brasileiro. Do ponto de vista estritamente técnico, não há dúvida de que Balotelli, aos vinte e nove anos, teria todas as condições de brilhar. Não se deve dispensar, porém, a opinião de quem vive o futebol na Itália e tem mais elementos para fazer todos os cálculos.

Ao final, o Flamengo considerou a operação proibitiva, agradeceu e se levantou da mesa. O tom da curta nota oficial para informar o encerramento da negociação foi equivocado, mas coerente com o que tem sido produzido pelo departamento de comunicação do clube. Uma entidade como o Flamengo, em especial nessa era de alta capacidade de investimento, não precisa se preocupar com um possível dano de imagem por não fechar uma contratação desse patamar. Constrangedor é não ter como estabelecer esse tipo de conversa, ou não ser levado a sério. A nota soou mais preocupada em revelar que as partes concordaram em discordar do que em comunicar que Balotelli não vem. O Flamengo pode ter perdido uma oportunidade ou se livrado de um problema. Em ambos os casos, se entendeu que Balotelli era caro, fim de papo. Mas que não reste dúvida de que seria interessante.

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