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Impossível

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Garry Kasparov, provavelmente o maior enxadrista de todos os tempos, certa vez foi questionado se seria capaz de vencer o melhor jogador da atualidade, o campeão mundial Magnus Carlsen. A resposta foi enigmática – o diálogo, durante um jantar em Nova York, está no primeiro capítulo do livro “Guardiola Confidencial” – como são as questões complexas do esporte e da vida: “Eu seria capaz. Mas é impossível”. A explicação está na quantidade de energia cerebral que uma partida de cinco, seis horas, exigiria de Kasparov para derrotar um oponente 28 anos mais novo.

É possível que Roger Federer saiba exatamente do que Kasparov fala, após ser derrotado na final mais longa da história de Wimbledon por Novak Djokovic. Após vencer mais games, mais pontos no total, mais pontos na rede, mais pontos sacando, mais pontos retornando saque, mais break-points, fazer mais winners. E perder. Após quebrar o saque de Djokovic tarde no quinto set, abrir 40/15 e ter dois pontos para o troféu. E perder. Após, mais uma vez, se estabelecer como o favorito absoluto na vontade do público na quadra, na televisão, daqueles que gostam de tênis, dos que jamais viram um jogo, dos que acompanharam as quatro horas e cinquenta e sete minutos de tensão e dos que não a suportaram.

E perder.

A admiração por Federer se converteu em um fenômeno cultural mundial. Faz muito tempo que não se trata apenas de tênis ou mesmo de esporte. É tema obrigatório de conversação, no aspecto social. Nesta segunda-feira, na hora do almoço, pessoas que não viram um segundo do jogo dirão que ficaram grudadas à tela da TV, suando por boa parte do dia, torcendo por Federer. E como a derrota deixou o domingo mais triste. Ser contemporâneo de Federer é como poder ver um mestre de seu ofício, um gênio em ação, um ícone de nossa espécie. Seu rosto deveria estar ao lado do verbete “tênis” nos dicionários de todos os idiomas.

Novak Djokovic não apenas quebrou o mundo tenístico neste domingo. Ele mostrou que seu cérebro é composto de algo diferente, pois só isso explica a capacidade de processar a noção de que praticamente todas as pessoas desejavam seu fracasso, e retirar dessa noção a energia necessária para sorrir sozinho diante de milhões de sorrisos amarelos. Esse nível de fortaleza mental está próximo da crueldade, um recurso próprio de alguém que se convenceu de que ser um estraga-prazeres planetário é seu caminho para a grandeza, sua garantia de respeito absoluto numa era em que é automático amar Federer e/ou Rafael Nadal. Com Djokovic, ou se tem uma relação de simpatia instantânea ou se aprende a aceitá-lo por ser tão bom. É assim.

Há quem diga que ele se ressente. Nick Kyrgios afirmou que Novak “se esforça demais para ser Roger”, como alguém que daria tudo o que tem para ser digno do amor universalmente endereçado ao suíço. Talvez. Mas é preciso considerar a hipótese de ser exatamente o contrário: Djokovic encontra satisfação em tardes como a deste domingo, quando enganou a todos naqueles dois pontos em que tweets estavam prontos e manchetes já eram escritas. Ele não dedica a mínima importância para uma batalha impossível, a que se dá fora da quadra e dentro dos corações. Porque ali, onde a vontade alheia não importa, ele pode vencer.

Como venceu.

Você torceu para Federer porque, aos 37 anos, ele ainda joga com classe incomparável e personifica um patamar de excelência tão raro que deveria ser eterno. E como nada o é, você quer que ele olhe para o pôr do sol com um último troféu nas mãos, tendo derrotado os dois maiores rivais, num quadro perfeito como seu jogo. Você deseja essa felicidade a ele porque é seu desejo de felicidade, e, ao final, o sabor é ruim. Mas a tênue linha entre vitória e derrota embaralha as coisas num jogo como esse. Federer sacou para o campeonato. Duas vezes. Se lhe oferecessem esse cenário antes de tudo começar, ele assinaria em uma fração de segundo.

Se não aconteceu, como disse Kasparov, é porque é impossível.

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Internas

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É interessante que dois elogios ao técnico da seleção brasileira não tenham passado de meros registros, especialmente no ambiente de absoluta neurose em que se converteu o debate futebolístico nos meios de comunicação. Até mesmo a irresistível força do negativismo e da predileção pela crítica pessoal poderia abrir exceções ocasionais, porque há manifestações que merecem o devido destaque. No caso em questão, as palavras dedicadas a Tite por dois de seus jogadores mais experientes precisam ser grifadas tanto no aspecto do teor quanto no da autoria, pois a desvalorização daquilo que vem diretamente de dentro do futebol é um exercício de desconhecimento e arrogância, talvez a combinação mais danosa que se possa encontrar.

Daniel Alves mencionou um aspecto do trabalho de treinadores que, embora seja considerado crucial, mantém-se relativamente distante da opinião pública. A administração de pessoas não pode ser verificada em detalhes quando um time de futebol se apresenta, e geralmente só se ouve falar de “vestiário” quando as coisas andam mal. O que disse o futebolista mais vitorioso da história do jogo, em entrevista ao SporTV, após a conquista da Copa América: “Ele é um dos melhores do mundo em gestão de equipe. Nem o Guardiola é igual ao Tite como gestor de equipe”. Filipe Luís já tinha feito uma observação neste sentido antes do torneio, em entrevista coletiva, ao revelar que pretende seguir uma segunda carreira como técnico: “… outra coisa que também preciso é aprender a gerenciar um grupo, como Tite faz. Ele é maravilhoso nisso”.

Ok, você pode ter reservas quanto à personalidade e às opiniões de Daniel Alves sobre temas que extrapolam o futebol. Mas o assunto aqui é sua experiência no dia a dia com treinadores, em quase duas décadas de convivência com nomes e métodos diferentes em clubes e na seleção brasileira. Filipe Luís é menos vocal, mas não menos vivido. É difícil encontrar um profissional do futebol com melhor reputação. Combinando as trajetórias de ambos, estamos tratando de Guardiola, Mourinho, Simeone, Scolari, Tuchel, Allegri, Dunga… ideias, estilos e métodos distintos. O fato de Daniel e Filipe fazerem questão de salientar a habilidade de Tite no funcionamento interno da seleção é uma oferta generosa de informações para quem imagina como é a relação de jogadores internacionais, habituados ao trabalho com treinadores renomados na primeira divisão do futebol mundial, com o técnico brasileiro.

A propósito, é preciso recordar outro trecho do encontro de Filipe Luís com os repórteres, no final de maio, ao responder sobre as características do trabalho de Tite na preparação do time: “ele seria o meu espelho se, no futuro, eu fosse técnico. Temos as mesmas ideias de jogo. Porque não é fácil. Tive muitos técnicos na Europa que a gente não compartilha as ideias dentro do campo, nem táticas e nem de treinamentos… esse seria o sistema que eu mais gostaria de aprender se eu fosse técnico”. Aqui, uma observação mais direta, e não menos elogiosa, sobre o modo de fazer as coisas no campo de treinamentos, importante para a avaliação das abordagens no aspecto técnico.

Como todos os treinadores, Tite está à mercê dos resultados, das escolhas que faz e das diferentes leituras sobre a maneira como seu time atua. No contexto mais amplo a respeito de sua imagem e de seu desempenho, opiniões, distanciadas ou não, devem considerar os depoimentos de quem conhece um lado de seu trabalho restrito a poucas pessoas, exatamente aquelas mais afetadas por suas decisões. É uma simples questão de justiça.

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Retorno

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Mais do que vencer sem Neymar, jogar sem Neymar foi o crédito valioso para a seleção brasileira na Copa América. O troféu – obrigatório para muitas opiniões, embora o futebol não reconheça esse termo – legitima a campanha para a sequência do trabalho até a Copa do Mundo, mas, com a permanência de Tite praticamente assegurada, o que importa de verdade é o funcionamento do time a partir do momento em que seu principal jogador retornar. Onde Neymar jogará no ambiente clubístico é um tema nauseante que ocupará o noticiário incessantemente até uma decisão ser tomada. Sua volta à seleção brasileira, porém, é uma simples questão de tempo.

A formação do trio ofensivo com Gabriel Jesus, Roberto Firmino e Everton, no jogo contra o Peru em São Paulo, pode ser identificada como o clique que viabilizou a maneira de atuar que Tite enxergava. E enquanto as preocupações mais urgentes eram com o ataque, o olhar da comissão técnica se concentrava em uma etapa anterior: a recuperação da bola. Nenhum time de elite do futebol de hoje trabalha sem alguma forma de pressão no campo do adversário, o que exige o compromisso de todos os jogadores. A sequência do 2 x 1 no Maracanã ilustra como a seleção aplica essa necessidade. Carrinho de Firmino, condução de Arthur, diagonal e gol de Gabriel Jesus. Considerando o bônus por ter Phillipe Coutinho mais centralizado e menos preocupado com o embate defensivo, esse desenho impõe uma questão sobre o encaixe de Neymar.

O assunto, por óbvio, não é Neymar ou Everton. Embora a contribuição do atacante gremista tenha sido enorme, essa comparação sobrevive apenas na mente de quem não consegue distanciar Neymar Júnior, fonte inesgotável de decisões equivocadas e removidas da realidade, do futebolista que ele é capaz de ser. Erra, também, quem entende que sua ausência no título da Copa América o força a rever sua postura e entender que “é mais um”. O efeito da conquista está do outro lado: o cacife da comissão técnica para mostrar a Neymar que se trata de uma questão de jogo, não de egos ou tratamento. Ao que parece, o retorno ao Barcelona depende de uma redução salarial suficiente para ser compreendida como a admissão de um erro. O retorno ao Brasil depende de condições físicas e de disposição para exercer um papel em campo.

Esse papel pode não ser o que foi ocupado por Everton, porque a capacidade de Neymar oferece outras leituras. Ao mesmo tempo, também não pode representar um obstáculo, ou até um impedimento, para que a equipe atue em seu melhor nível.

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Brasil 3 x 1 Peru

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1 – As intenções peruanas logo ficaram evidentes no Maracanã: incomodar o Brasil em seu campo e vigiar os corredores laterais. Como a comissão técnica da seleção esperava, imaginando um jogo de paciência e controle.

2 – Por curtos trechos no início, o jogo passou a impressão de domínio territorial do Peru, pois a postura efetivamente conteve o jogo brasileiro.

3 – Até Gabriel Jesus aplicar uma finta de corpo em Trauco, criando a separação para receber o lançamento de Dani Alves. A segunda finta no lateral do Flamengo foi bonita, mas nada aconteceria se a bola não chegasse. Cruzamento para a área e gol de Everton, o terceiro dele na Copa.

4 – Era tudo o que o Brasil precisava e o que o Peru não podia permitir. Um gol para modificar os planos e os objetivos em campo. À seleção peruana, a pressão do relógio como inimigo e a obrigação de correr riscos; à brasileira, espaço para jogar e ocasiões para aproveitar.

5 – Depois do que se viu em Itaquera, Everton/Advíncula se apresentava como um dos caminhos até o gol defendido por Gallese. A falha defensiva do peruano, que abandonou o atacante do Grêmio na área, o perseguiria por toda a tarde.

6 – Pênalti marcado para o Peru, aos 40 minutos de um primeiro tempo em que Alisson foi um observador a mais. A bola bateu no braço de Thiago Silva, ao se apoiar no gramado num carrinho. A regra diz que não é pênalti, e a única coisa que o justifica é o VAR notar que a mão do zagueiro brasileiro ainda não estava no solo no momento do toque. Guerreiro: 1 x 1.

7 – O placar não era condizente com o jogo, mas o futebol não considera esse tipo de análise. Ainda no final da primeira parte, Firmino se esforçou para fazer um desarme no campo peruano. Do avanço de Arthur para o movimento de Gabriel Jesus da direita para o centro, e para a rede. Brasil novamente na frente.

8 – Dúvida zero sobre a dinâmica da segunda parte: Peru em busca do empate, oferecendo ao Brasil o necessário para um terceiro gol. A questão era como a seleção se posicionaria, com posse e agressividade ou dando um passo atrás, convidando o adversário a seu campo.

9 – Na metade da etapa final, a iniciativa e o momento eram peruanos em pleno Maracanã. Não faltava ao Brasil apenas a ameaça do contragolpe, mas a clareza para impor ao jogo o próprio desejo.

10 – E entre todos os jogadores brasileiros em campo, Philippe Coutinho era quem parecia não identificar as oportunidades para uma jogada decisiva.

11 – Gabriel Jesus expulso pelo segundo cartão amarelo, aos 24 minutos. Erro grave da arbitragem, que julgou ter visto agressão num lance duro, mas não desleal. Ocasião apropriada para lembrar que a Copa América estava “armada para o Brasil” ganhar.

12 – Assistência, gol e expulsão. A noite de Gabriel Jesus.

13- Em desvantagem numérica, o jogo era obviamente outro para o Brasil. Após trocar Firmino por Richarlison, Tite colocou Militão na lateral, trazendo Dani Alves para o meio, de modo a conter a insistência peruana pelo lado direito da defesa do Brasil.

14 – E Gareca mexeu para a frente, óbvio. Todos os atacantes em campo na procura do empate e de uma hipotética prorrogação com um homem a mais.

15 – Pênalti para o Brasil. Zambrano em Everton. Pela televisão, disputa normal de ombro com ombro, mas o árbitro foi ao monitor e confirmou a marcação. Richarlison, curado de caxumba: gol.

16 – A final que se iniciou em silêncio, como homenagem ao gênio João Gilberto, terminou ao som de “o campeão voltou”.

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Dividido

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Espera-se que Tite aborde o assunto de sua permanência na seleção brasileira no fim da tarde, quando sentar-se ao lado de Daniel Alves para a entrevista coletiva prévia à final da Copa América. Ele certamente será questionado sobre o tema, mas pode optar por responder sem, de fato, fazê-lo. É seu direito, assim como deixar a CBF no momento em que considerar conveniente, pelas razões que lhe forem importantes, profissionais ou pessoais. Tite é criticado até hoje por ter recebido um beijo do Marco Polo que não viaja quando poderia deixá-lo no vácuo, e, assim, “salvar o futebol brasileiro” sacrificando a própria carreira. Como se o caboclo, qualquer um, que herdasse a cadeira – ei-lo, mantendo tudo como sempre foi, mas arrotando “compliance” – estivesse interessado em algum tipo de avanço.

Seja qual for a decisão de Tite, especialmente no caso de um desastre no Maracanã, haverá quem não o compreenda e o acuse. Serão aqueles que enxergam, por exemplo, o fato pouco usual de alguém poder escolher seu superior como um sinal de conluio, não como uma medida de proteção. Aqueles que optam por não perceber, embora não seja necessário grande esforço neuronal, que se um treinador de futebol no Brasil tem a oportunidade de blindar sua equipe de trabalho de interferências de dirigentes, não pode deixar de aproveitá-la. É disso que se trata, ao final, com sensibilidade ainda maior quando se fala de uma entidade cujos dois presidentes anteriores foram banidos do futebol por corrupção (um está preso nos Estados Unidos) e o que reinou antes deles renunciou para evitar o constrangimento.

Se Tite está em dúvida e só definirá sua posição a partir de segunda-feira, qual seria o efeito de um título amanhã no Maracanã? Mais cacife para negociar a substituição das pessoas de sua confiança ou a ocasião perfeita para sair? O segundo cenário significa abdicar de mais uma Copa do Mundo e da chance de melhorar as memórias de Kazan. O primeiro, garantir que o caminho até o Qatar será percorrido nas condições que ele entende como corretas. Retornando ao que é direito, a CBF pode perfeitamente desejar mudanças na comissão técnica da seleção brasileira, mas deve compreender a hipótese de os envolvidos não aceitarem. Aí reside uma das perguntas mais importantes dessa história: a confederação pretende solucionar as insatisfações de Tite para mantê-lo até 2022 ou é exatamente quem as alimenta? Se for, o desfecho está claro.

A nota divulgada na quinta-feira não diz nada que seja novidade, apenas repete o suporte dado ao técnico depois do Mundial da Rússia. Pode ser lida como “queremos que Tite permaneça” e também como “se ele sair, será porque quis”, o que é completamente diferente. A CBF que divulga a intenção de seguir com o técnico até a próxima Copa do Mundo é a mesma que garantiu que não haveria conflito entre as datas Fifa e o calendário brasileiro em 2020, conversa que enganou pouca gente por pouco tempo e mostrou, como se ainda fosse necessário, que as coisas nos gabinetes da Barra da Tijuca são feitas como sempre foram.

As pessoas mais próximas a Tite dizem que, há tempos, a Copa América domina seus pensamentos e conversas. Agora falta o jogo que pode lhe dar o troféu, e, talvez, algo mais valioso, como ele mesmo declarou depois de vencer a Argentina: a sensação, após três anos de trabalho, de finalmente ser técnico da seleção brasileira, por dirigir o time em uma partida realizada no Maracanã. É paradoxal, para dizer o mínimo, que essa sensação possa durar tão pouco.

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Saudades

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Embutido nas – justas – reclamações da seleção argentina sobre os lances de possíveis pênaltis no jogo contra o Brasil, certamente há um pensamento complementar que ocorre àqueles que acompanham o futebol sul-americano há mais tempo: “na época de Don Julio isso jamais aconteceria”. De fato, se Julio Humberto Grondona ainda desse as cartas na Associação de Futebol da Argentina, é difícil imaginar a seleção de seu país ocupando quase que inteiramente um pós-jogo contra o Brasil com queixas relacionadas à arbitragem. Especialmente porque o homem que mandou no futebol argentino entre 1979 e o dia em que morreu, em julho de 2014, operava em um esporte sem VAR.

Mas é justamente o árbitro de vídeo que está no centro da discussão do momento, por causa de duas situações de pênalti/não pênalti que não foram objeto de revisão – ao menos não com paralisação do jogo – durante o segundo tempo do clássico no Mineirão. Replays de televisão e imagens de ângulos diferentes sugerem que ambos os lances mereciam a atenção do VAR, em especial o choque entre Daniel Alves e Sergio Aguero, na origem da jogada que terminou com o segundo gol do Brasil. Ali há dúvida sobre quem é o autor da ação faltosa. No caso de Arthur e Otamendi, o pênalti é cristalino. Num arcaico futebol sem arbitragem de vídeo, as duas ocorrências seriam apresentadas como desculpas de quem perdeu, sempre com a ressalva de que poderiam ter escapado ao olho do árbitro; no jogo como é hoje, capaz de eliminar essas dúvidas, convertem-se em suspeita de manipulação.

A Conmebol, que já não ficava bem antes, continua mal na foto. Porque ninguém em sã consciência se julga capaz de crer que a entidade esportiva mais corrupta da história dos esportes passou a se comportar exemplarmente após a adoção do VAR. Por outro lado, a reclamação de Lionel Messi de que “o Brasil controla tudo” [na Conmebol] é uma proposta ainda mais ousada, uma vez que a Conmebol e a CBF não são exatamente melhores amigas desde que o coronel Nunes violou o acordo para votar nos EUA, no Canadá e no México como sedes da Copa do Mundo de 2026. A edição de 2019 da Copa América, que já seria lembrada por gramados em condições inaceitáveis e a lambança que atrasou a chegada do Chile à Arena Corinthians, agora tem uma semifinal em que o VAR não checou duas ocasiões de pênaltis.

De resto, o árbitro equatoriano Roddy Zambrano claramente não estava à altura do jogo que dirigia, perdeu-se em um ambiente mais quente do que podia controlar e tomou decisões questionáveis. Por ironia, algo semelhante aconteceu diversas vezes “na época de Don Julio”.

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Brasil 2 x 0 Argentina

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1 – O Brasil marcava na frente e mostrava mais clareza em um jogo ríspido até o chute de Paredes, de longe, que assustou Alisson e o Mineirão.

2 – A temperatura do encontro era claramente superior ao controle do árbitro equatoriano Roddy Zambrano, o que gerava um clima de valentia exagerada em campo.

3 – Um desarme na intermediária deu a Gabriel Jesus a chance de mexer no placar. Mas ele não dominou como deveria o ótimo passe de Firmino, e não se pôs em condição de finalizar.

4 – Mas Gabriel não perderia a ocasião seguinte, iniciada com um fantástico lance individual de Daniel Alves. Chapéu em Acuña, finta seca em Paredes, abertura na direita para Firmino. O passe rasteiro encontrou Jesus, livre, de frente para o gol: 1 x 0.

5 – Eram 18 minutos. O gol relativamente cedo teria efeito tranquilizador para a seleção, além de convidar a Argentina a dar um passo à frente. O que a segunda metade do primeiro tempo mostrou foram minutos de superioridade dos visitantes, com Messi à altura da importância da noite.

6 – Aguero cabeceou uma bola no travessão e teve um chute bloqueado por Marquinhos, na área. A Argentina era mais frequente no ataque, saía de seu campo com mais facilidade porque não sofria a pressão do início.

7 –  O Brasil não aproveitava os espaços no meio oferecidos pelos argentinos – um time essencialmente dividido em dois – em todos o jogos desta Copa América. Nada poderia ser mais convidativo ao aparecimento de Philippe Coutinho.

8 – Quarenta e cinco minutos tímidos de Everton, até então o jogador mais destacado do Brasil no torneio. Ficou no vestiário, dando lugar a Willian.

9 – Duas finalizações, de Martínez e De Paul, anunciaram que o intervalo não mudou o panorama do jogo. Mesmo com os atacantes tendo que retroceder para colaborar na marcação, a Argentina chegava com gente e ímpeto à área de Alisson.

10 – Chance para Coutinho, após lance pessoal de Gabriel Jesus: por cima.

11 – Chance para Messi, a primeira: na trave.

12 – Mesmo que a ideia fosse oferecer campo a um time que tem claros problemas para gerar jogo,  era necessário considerar o nível de ameaça representado por Messi, Martínez e Aguero. Durante todo o segundo tempo, a seleção brasileira se posicionou à espera de um contra-ataque e confiou em seu ótimo desempenho defensivo. Pode-se não gostar, claro.

13 – Que veio aos vinte e cinco minutos, em grande momento de Gabriel Jesus. Na arrancada da intermediária, ele levou sorte, teve persistência e força para se manter em pé e servir Firmino em retribuição ao primeiro gol. Vantagem dobrada, classificação próxima, jogo quente.

14 – O Brasil jogará a final da Copa América no Maracanã, onde não aparece desde 2013, quando conquistou a Copa das Confederações.

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Erro de sistema

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No capítulo de “A Pirâmide Invertida” – obra que conta a história da tática no futebol – que trata da seleção brasileira de 1982, o autor Jonathan Wilson reflete sobre os efeitos da tarde em que a Itália eliminou o Brasil da Copa do Mundo: “De fato, aquele foi o dia em que uma certa ingenuidade no futebol morreu; depois dele, deixou de ser possível simplesmente escolher os melhores jogadores e permitir que eles atuassem como quisessem; foi o dia em que o sistema venceu. Ainda havia lugar para grandes talentos ofensivos individuais, mas eles deveriam estar incorporados a uma organização que os protegesse e os compensasse”.

Desde então, exatamente como se deu nas décadas anteriores, o jogo de futebol passou por distintas eras e movimentos quase que cíclicos nos quais ideias e estilos entraram e saíram de moda. O que permaneceu foi o sistema, nada mais do que uma definição organizada sobre como se pretende jogar. Os treinadores mais bem sucedidos, cada um a seu modo mesmo nos casos em que compartilham conceitos e intenções, sempre foram identificados pelas visões representadas por suas equipes, como dialetos que compõem versões particulares de um mesmo idioma. Na elite da elite, o sistema é o passaporte biológico de um time, e, por lógica, de seu técnico.

O que está acontecendo com a seleção brasileira, hoje, é um problema de sistema. Um problema de funcionamento e, provavelmente, de escolha. Diante da impossibilidade de recuperar a maneira de jogar que caracterizou o time entre setembro de 2016 e a última rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia, Tite decidiu substituir os mecanismos ofensivos da seleção – desde a saída da defesa, passando pela construção e a definição de movimentos – por um modelo baseado em posições no campo. Para não entrar em um debate conceitual que não cabe aqui, a principal diferença é que, antes, os jogadores tinham liberdade para se associar independentemente das regiões do gramado (ver: o terceiro gol contra o Paraguai, marcado por Marcelo, na última rodada das Eliminatórias). Agora, obedecem a uma estrutura rígida que respeita localizações fixas, algo perfeitamente visualizável quando o Brasil se estabelece no campo do adversário.

Isso não significa que a seleção brasileira pratique “jogo de posição” (que o autor espanhol Martí Perarnau prefere chamar, em seu livro “Pep Guardiola – A Evolução”, de “jogo de localização”), um tipo de organização criado pela escola holandesa/catalã. O que o Brasil de Tite tenta fazer, como o próprio treinador já declarou em entrevistas mais detalhadas em aspectos táticos, é o que se chama de “ataque posicional”. Em teoria, é apenas uma opção entre tantas. Na prática, simplesmente não está funcionando. Talvez pelas dificuldades que o trabalho em seleções apresenta, talvez por ser uma proposta que necessita de mais tempo para amadurecer, talvez porque os jogadores convocados não se sentem à vontade.

A crítica sobre falta de ordem é míope. O problema é o contrário. Tite está tentando vencer pelo sistema, o que resulta em um time excessivamente organizado no ataque, sem ímpeto, sem transgressão, sem rebeldia. O único trecho do jogo de anteontem em que se percebeu o envolvimento do público foi a parte final, na qual, com um jogador a mais, a seleção acionou o modo pressão total e promoveu um cerco à área do Paraguai. No restante, que também vale para os outros encontros, exceto o do Peru, o Brasil foi uma equipe que gerou muito volume e poucas ocasiões, balanço certamente insuficiente para ganhar a Copa América. Não é possível resgatar a ideia das Eliminatórias como passaporte da equipe atual, mas oferecer aos jogadores mais autonomia na elaboração ofensiva pode ser um caminho. Ao final, o triunfo seguirá sendo do sistema.

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Brasil 0 (4) x (3) Paraguai

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1 – No primeiro momento do Brasil, com três minutos, Everton, Daniel Alves e Firmino mostraram o que seria necessário para vencer um Paraguai determinado a esperar. Movimento e velocidade na articulação. A finalização do jogador do Liverpool não foi tão boa quanto ele gostaria.

2 – Não é verdade que “o gramado ruim é ruim para os dois”. É pior, por óbvio, para quem tem a bola por mais tempo e a obrigação de construir o caminho até o gol. E é um aliado para quem trabalha no sentido oposto, destruindo.

3 – E apesar dos esforços nos últimos dias, o gramado da Arena do Grêmio não está à altura. Não apenas da Copa América, mas do futebol brasileiro. O problema é crônico.

4 – Outra chance para Firmino, após desarme brasileiro próximo à área. Ao ser acionado por Coutinho e dominar, ele foi bloqueado por Gustavo Gómez antes de bater.

5 – O Brasil tinha a bola e o controle, mas não teve nada que se aproximasse da oportunidade de Derlis González. Arzamendia o encontrou na área, livre de marcação. O gol não saiu porque Alisson fez seu trabalho.

6 – Tite inverteu Gabriel Jesus e Everton de lado. A seleção tem uma tendência natural a ser ofensiva pela direita, pela presença de Daniel Alves. A questão é se Everton, o atacante brasileiro em melhor momento, se sente à vontade para causar danos por ali.

7 – Encontro difícil. O Paraguai marcava individualmente com abnegação e o árbitro parecia admirar o jogo faltoso. Além dos problemas para atacar, o Brasil era travado nos eventuais contragolpes. As coisas iam bem ao gosto paraguaio quando a partida chegou ao intervalo.

8 – A saída de Filipe Luís, substituído por Alex Sandro, piorou o quadro. Filipe atuava como articulador por dentro, acertando passes no gramado problemático do estádio gremista.

9 – Pênalti marcado, Balbuena em Firmino. Dentro ou fora da área? O VAR mostrou que foi fora, e por isso o zagueiro paraguaio foi expulso por impedir uma jogada clara de gol. Fosse pênalti, não haveria cartão vermelho. Brasil em vantagem numérica aos 14 minutos.

10 – Teste duplo: da capacidade de sacrifício dos paraguaios e do poder ofensivo da seleção brasileira. Jogo convertido em um exercício de ataque contra defesa durante algo mais do que meia hora.

11 – Willian em campo, no lugar de Allan. Tite ordenou um assalto à área paraguaia com Willian e Everton abertos, Gabriel Jesus e Firmino quase dentro do gol. O público pedia pressa na Arena, enquanto o relógio trazia a ameaça dos pênaltis.

12 – Gol perdido por Jesus, após lance individual de Everton pela esquerda. Notável como o gremista desequilibra no um contra um.

13 – Aos 39 minutos, Lucas Paquetá estreou na Copa América, no lugar de Daniel Alves. Brasil em modo de ataque total.

14 – Drama. Bola na trave em chute de Willian, segundos antes de subir a placa anunciando 7 minutos de acréscimo em Porto Alegre.

15 – Fim. O Paraguai comemora: PÊNALTIS. Hora de Alisson e Gatito.

16 – Gustavo Gómez (grande atuação): ALISSON.

Willian: gol.

Almirón: gol.

Marquinhos: gol (Gatito tocou na bola).

Valdez: gol.

Coutinho: gol.

Rojas: gol.

Firmino: FORA.

Derlis: FORA.

Jesus: GOL. Brasil nas semifinais.

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Sensações

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“Em 1994, nós jogávamos ao meio-dia com trinta e cinco graus. E o Brasil tinha a bola. Dez anos mais tarde, jogando com dez graus a menos, o Barcelona era um espetáculo porque tinha a bola. A mesma coisa, só que um jogava a vinte e cinco graus e o outro a trinta e cinco”. As aspas são de Dunga, em entrevista ao diário espanhol El País.

A seleção brasileira campeã do mundo nos Estados Unidos deveria ser lembrada, especialmente em seu próprio país, de maneira mais calorosa. Era um time formado por jogadores de altíssimo nível, tinha identidade coletiva e brilho individual. É possível que a última imagem, a de um título conquistado nos pênaltis – após um jogo que mereceu vencer – tenha gerado a impressão discreta que caracteriza muitas opiniões. Ou a maneira como o time atuava – defesa sólida, controle pela posse e altas doses de paciência para acionar a dupla de atacantes – provoque lembranças preguiçosas a quem cobra encantamento permanente.

As temperaturas e os horários dos jogos daquele Mundial seguramente têm relação com o futebol apresentado, e, nesse contexto, o time dirigido por Carlos Alberto Parreira também merece o elogio por saber se adaptar às circunstâncias. O técnico do tetra costuma declarar que “não seria possível ganhar a Copa de outra maneira” (referindo-se principalmente à pressão por um troféu que iludia o Brasil havia vinte e quatro anos, o que exigia um time sóbrio), um argumento mais do que respeitável, embora a escolha sobre como jogar evidentemente tenha levado em conta, sobretudo, as características dos futebolistas escolhidos. Contudo, Dunga se equivoca com preocupante gravidade no raciocínio em que menciona o Barcelona.

Supõe-se que ele tenha se referido, por falar em “ter a bola”, ao time construído por Pep Guardiola em 2008/09, quatorze anos, e não dez, após a Copa de 1994. Um lapso de memória quase insignificante diante da última frase, que se inicia com “a mesma coisa” e termina por sugerir que as condições climáticas tornam a comparação favorável àquela seleção brasileira. Não. Em jogo, está muito longe de ser a mesma coisa. E faz pouco sentido relacionar sete partidas a ao menos três temporadas inteiras. Mesmo porque a diferença entre essas equipes está nas sensações que deixaram para o mundo do futebol. Fosse apenas uma questão de graus celsius, o Brasil do tetra seria considerado universalmente um dos grandes times da história.

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