Todos os posts de André Kfouri

Irmãos

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Nada é exatamente como parece. Em primeiro lugar, a relação que existe entre os dois maiores times da Argentina, e talvez os de maior transcendência do continente, é, antes de tudo, uma relação de irmandade antes de um vínculo de inimizade. Nascidos no seio da mesma sociedade, cresceram juntos e unidos deram forma à hegemonia futebolística do país. Por outro lado, a contraposição de classes oligarcas e populares deixou de existir com a profissionalização do futebol, a expansão social e a obtenção de títulos. Por último, o clamor com tintas de Menottismo versus Bilardismo é mais uma invenção coletiva do que uma realidade recalcitrante. Ao final, ambas as equipes buscam o mesmo no jogo e possuem o mesmo paladar futebolístico (La Nuestra). No melhor dos casos, Boca e River representam a clássica figura de dois irmãos opostos, Caim e Abel ou Ying e Yang, mas o caráter amoral do futebol impede essa comparação. River e Boca são dois iguais, um é o espelho do outro. Se necessitam um ao outro, e o êxito de um repercute positivamente no rival”.

O parágrafo acima é parte de um artigo escrito por Eduardo José Ustaritz no site espanhol Ecos del Balón, em janeiro de 2013, sob o título “Argentinidade”. O texto foi republicado há dois dias por ocasião da “final eterna”, ou, mais propriamente, da “final do mundo”, expressões utilizadas para descrever o que significa o encontro dos sanguíneos rivais argentinos pelo troféu da Copa Libertadores. Está aqui, e é uma aula sobre como surgiram próximos e se distanciaram, como representam ideias opostas na mesma narrativa, como confeccionaram não apenas a identidade do futebol argentino, mas uma porção significativa da própria identidade argentina. “River e Boca é a construção mais estruturada que o movimento cultural argentino conseguiu criar”, escreve Ustaritz.

É curioso que essa obra esteja próxima do precipício justamente no instante que deveria celebrar tudo o que alcançou. Nunca houve uma final como essa, não apenas na América do Sul. La Bombonera e o Monumental de Nuñez compartilham o verbete que, mais do que explicar os contornos do futebol de uma nação, traduz de que forma essa nação entende o futebol como reflexão de si mesma. Ao se encontrar em dois jogos de magnitude incalculável, eles finalmente estarão separados pelo resultado que definirá como se relacionarão para sempre. Ou até que algo dessa natureza volte a acontecer e obrigue um povo a revisitar uma verdadeira experiência de autoconhecimento em cento e oitenta minutos (ou apenas noventa, se a ideia da decisão em jogo único se instalar).

A relação entre iguais chegou ao ponto insustentável. Custa imaginar, retornando às palavras de Ustaritz, que o êxito de um repercutirá positivamente no rival. Não desta vez. Esses desdobramentos se dão quando os sentimentos não estão diretamente relacionados, quando a dor não é imposta por quem se agiganta em triunfo. Os dois próximos sábados constituirão uma quebra na linha do tempo que une River Plate e Boca Juniors, impedindo os irmãos opostos de se identificarum no outro. O espelho terá sido estilhaçado. De fato, é mesmo a “final do mundo” como se conhece, uma redefinição da argentinidade pela Copa que liberta, mas também aprisiona.

ÚLTIMA VEZ

A propósito, a última decisão de Libertadores em dois jogos deixará saudades. Imagine um River Plate x Boca Juniors no Maracanã, ou no Centenário, ou em qualquer outro estádio do continente. Interessante para o público local, problemático para as duas torcidas envolvidas, terrível para a história construída por essa rivalidade. Se a ideia de organizar uma festa descaracterizada significar que o torneio jamais voltará a ser concluído como merece, a edição de 2018 ao menos mostrará exatamente o tamanho do equívoco.

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Na mesa

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Além da vaga para o Fortaleza na Série A do ano que vem e do probabilíssimo troféu de campeão, a temporada de Rogério Ceni na segunda divisão do Campeonato Brasileiro gerou um nome para o chamado mercado de fim de ano. Dirigentes pelo país afora devem se sentir mais seguros ao mencioná-lo, agora que uma amostra de trabalho está disponível, com a possibilidade de cruzar o que Ceni dizia ao assumir o time de sua vida com o que fez ao longo de 2018 no clube cearense. E ele certamente está mais confiante, de posse do certificado de conclusão do “estágio” que lhe cobraram quando o São Paulo cometeu a atrocidade de lhe cortar as asas depois de seis meses.

Não que fosse necessário, mas Ceni optou por ir para bem longe do Morumbi e “recomeçar por baixo”, como diria quem entende que o problema foi sua inexperiência e não a impaciência dos que deveriam apoiá-lo. Como estaria o São Paulo ao final do segundo ano sob direção dele? Ninguém pode afirmar, mas Diego Aguirre – cuja permanência para 2019 é debatida – é o quarto treinador a ocupar o cargo desde que o clube mostrou a porta a um de seus ídolos históricos. No Fortaleza, Ceni construiu um time que sabe ao que joga e como pretende vencer, características que destoam em um ambiente de futebol aleatório, marcado pela sobrevivência, seja como for.

Sim, é a Série B, onde a concorrência é distinta. Mas o ponto não é a comparação com a primeira divisão ou o nível de dificuldade de uma conquista que chegará cedo ou tarde. É a quantidade de obstáculos que se apresentam para a montagem de equipe num campeonato em que também há diferenças de orçamento; o trabalho necessário para a implantação e o desenvolvimento de uma forma de jogar. São notáveis nas atuações do Fortaleza as influências relatadas por Ceni ao anunciar a carreira de treinador, notícia agradável reforçada por uma campanha bem-sucedida em resultados.

Há dois anos, Ceni dizia que os clubes rivais do São Paulo não o considerariam por causa de sua identificação, cenário que lhe parecia natural. É possível que o que se deu desde então tenha alterado esse modo de pensar, especialmente pelo trauma do primeiro semestre de 2017. Se decidir por não prosseguir no Fortaleza, as questões que estarão diante de Ceni não diferirão das que se colocam para qualquer técnico: ponderar os prós e contras das ofertas que chegarem, avaliando cada oportunidade sem portas fechadas de antemão. Seu nome está na mesa, com todos os méritos.

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Mudanças

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Pedido de licença para uma coluna com sugestões ao futebol: duas alterações nas regras do jogo (situações geradoras de confusão e critérios mal compreendidos) e uma no regulamento de torneios (algo que não faz mais nenhum sentido), sempre com a melhor das intenções. O email está acima e a coluna já está disponível em blogs.lance.com.br/andrekfouri. Se tiver interesse, fique à vontade para participar da discussão por esses canais ou pelo Twitter.

1 – Uma solução para os casos de mão na bola: se tocou, é falta/pênalti. Convenhamos, ninguém está preocupado com os toques de mão fora da área, que são apitados de forma diferente, embora não devessem. Quando a questão é pênalti/não pênalti, o caos se instala por causa das diversas circunstâncias que devem ser levadas em conta pelo árbitro. Houve intenção? O defensor correu o risco? O braço estava em “posição natural”?… E demais subjetividades que nem o árbitro de vídeo é capaz de dirimir. Está na hora de acabar com elas e tornar a situação rigorosamente objetiva. Exceto nos casos em que o braço estiver colado ao corpo – lembre-se, todos os possíveis pênaltis são analisados pelo VAR, que verá – , o pênalti deve ser marcado se houver toque. Sim, o ônus é lidar com jogadores tentando “cavar” pênaltis dessa forma, um expediente que empobreceria o jogo, mas que talvez seja menos pior do que as eternas revisões de interpretação dessa regra e as dúvidas que se renovam.

2 – Uma ajuda aos casos de impedimento: vale qualquer parte do corpo. A regra do impedimento sempre constituiu uma impossibilidade para a arbitragem analógica. Exige-se que os assistentes congelem uma imagem em movimento, fixando o olhar em dois pontos distintos. Como se não bastasse, é necessário determinar, à distância, onde estão as partes do corpo do atacante com as quais ele pode tocar na bola, eliminando os braços e as mãos da equação. Em resumo, a regra foi feita para não ser viável conforme está escrita. E o que se pode fazer para colaborar com a arbitragem é descomplicá-la (um pouco): seja qual for a parte do corpo adiantada em relação ao defensor, o impedimento deve ser marcado. Fica mais fácil também para o árbitro de vídeo julgar as jogadas de gol.

3 – Um ajuste no regulamento dos torneios em mata-mata: a desqualificação do gol. A utilização do gol marcado fora de casa para desempatar confrontos é um resquício de uma época em que atuar como visitante era um suplício. Em tese, um estímulo para que times não adotassem posturas exageradamente defensivas em ambientes hostis. Na prática, com a evolução do futebol, a regra se converteu em uma espécie de convite à morte súbita de confrontos no instante em que um gol do visitante é marcado. Sem falar na bizarrice que faz de um gol contra em casa um evento decisivo, que premia o visitante por um acidente de jogo. Gols são gols, não devem ter mais peso conforme o local em que acontecem, assim como um 2 x 2 não deve valer mais do que um 1 x 1.

QUE FINAL

Boca Juniors x River Plate, a mãe de todas as finais da Copa Libertadores, já provoca debates na Argentina em torno da segurança dos torcedores. Um evento único como esse, que talvez não se repita, deveria ser um motivo para que as pessoas se reunissem pelo futebol, ao invés de ser separadas por ele. Faz tempo que não há clássicos com torcida visitante na Argentina, em clara vitória da violência sobre a capacidade de organização de acontecimentos esportivos. Foi necessária a intervenção do presidente do país, Mauricio Macri, para que as duas partidas decisivas que mobilizarão a cidade de Buenos Aires sejam realizadas com a presença de torcedores de ambos os clubes. Que as providências sejam tomadas e que o futebol prevaleça. Em uma final como essa, a única coisa a lamentar deve ser a dor da derrota eterna para um rival. Nada se pode fazer quanto a isso.

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Correção ou vigilância?

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O primeiro gol do River Plate foi legal. Mesmo que tenha sido toque de mão de Borré, houve uma carga de Jael por trás do argentino que empurrou seu braço na direção da bola. Supõe-se que a revisão – obrigatória, como em todos os gols – do lance pelo árbitro de vídeo tenha levado esses detalhes em consideração ao validar a jogada, pois o replay com o ângulo por trás da meta defendida por Marcelo Grohe é elucidativo. Entender que o 1 x 1 não pode ser usado como “moeda de troca” em relação à intervenção do VAR no segundo gol é fundamental.

A questão, claro, vai além de um lance, ou dois. Se você pensa que o VAR é um instrumento de manipulação de resultados, o problema não é o VAR, mas sua forma de pensar. Pois essa maneira de enxergar a evolução da arbitragem independe da presença da tecnologia, de assistentes ao lado dos gols e até da aplicação correta das regras do jogo em uma situação específica. Refutar a marcação do pênalti cometido por Bressan em nome de contextos como a ausência de reclamação dos jogadores do River Plate é, pior do que não compreender o papel do vídeo, crer que o recurso deve ser utilizado conforme a vontade de cada um.

Parece claro que o pênalti não seria marcado no futebol pré-VAR, mas esse argumento alcança o feito de negar duas realidades ao mesmo tempo: 1) o futebol pré-VAR não existe mais, 2) o pênalti aconteceu. Não há discussão quanto a isso, certo? Diante de tamanhas obviedades, é necessário concluir que a interferência do árbitro de vídeo, crucial para a determinação de um classificado à decisão da Copa Libertadores, foi correta. O que não significa que o protocolo do sistema não deva ser discutido com o objetivo de aperfeiçoá-lo, para que seja melhor compreendido por todos.

Por exemplo: em relação à conduta dos árbitros que operam o vídeo, a postura primordial deve ser de correção ou de vigilância? Há uma diferença sutil, porém importante, entre dizer “há um lance aqui que achamos que você deve rever” e “há um lance aqui em que sua decisão foi errada” ao árbitro de campo. Esse nível de ajuste depende do que a regra determina, mas também do que as experiências ensinam. O aprendizado, suficientemente sofrido para quem se encontra do lado triste de um jogo com uso do VAR, tem sido marcado pela esquizofrenia que exige perfeição desde o primeiro minuto.

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Digestão

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É amplamente conhecido nos bastidores do futebol de São Paulo o episódio, há alguns anos, em que um jogador renomado cometeu a mesma falha duas vezes em uma semana: apresentou-se para treinar em condições inapropriadas. Na primeira, o técnico percebeu logo na chegada e o desviou para a academia. Na segunda, foi mais grave. Só quando o aquecimento já estava em andamento, com a presença de câmeras, é que o treinador notou que a situação havia se repetido. Ele esperou alguns minutos e, discretamente, providenciou a retirada do jogador do campo. Mas o estrago estava feito, porque os companheiros evidentemente perceberam a reincidência. Naquele dia, o técnico teve certeza de que a preparação para um jogo do campeonato estadual tinha sido comprometida, e que não poderia fazer nada para solucionar o problema.

No fim de semana, em uma atuação tenebrosa, o time foi derrotado por um adversário muito inferior. Um pedido de desculpas do treinador na reapresentação, por ter permitido duas faltas disciplinares do mesmo jogador, abriu uma conversa em grupo na qual o futebolista em questão também reconheceu seus erros. Antes de encerrar o caso e retomar o trabalho, um titular menos famoso pediu a palavra. Em tom amigável, porém firme, disse que todos ali compreendiam e aceitavam as diferenças em relação à carga de treinamento e aos papeis em campo, pois o objetivo era o benefício coletivo. Mas ressaltou que certos excessos na vida pessoal nada tinham a ver com talento ou currículo; direito de um, direito de todos. A mensagem não poderia ser mais clara.

Administração de grupo, especialmente neste nível, é uma tarefa para equilibristas. Além de identificar as diferentes formas de tratar pessoas distintas, sem que nenhuma delas se sinta injustiçada, é preciso conter os efeitos dos problemas que acontecem com frequência muito mais alta do que se imagina. O caso de Diego Alves, no Flamengo, é um desses episódios que exigem perícia na tomada de decisões para evitar danos colaterais. Como se não bastasse, a questão se apresenta num momento crucial, em que o time pode se inserir definitivamente na disputa do troféu do Campeonato Brasileiro se vencer o Palmeiras neste sábado. Nada é mais importante do que a sequência do desempenho recente, que depende da manutenção do ambiente interno que parece transformado desde que a atual comissão técnica assumiu.

A declaração de Dorival Júnior, em entrevista na quinta-feira, não deixa dúvidas quanto à seriedade da situação: “É claro que existem arranhões em uma tomada de posição, porém essa ferida tem que ser a menor possível e cicatrizar rapidamente”, disse. “Se tivéssemos algo mais sério, uma deslealdade muito grande, já teríamos reflexos no domingo (no jogo contra o Paraná)”. Embora a questão esteja no âmbito da diretoria a partir do momento em que Diego Alves disse que não jogaria mais, a missão de Dorival é garantir que a abordagem ao problema não desagrade os companheiros do goleiro. Parece simples, pois o equívoco do jogador é indiscutível, mas a insatisfação em vestiários é como os vazamentos em obras: se estiver presente, a água encontrará seu caminho.

Impedir que o impasse com o ex-titular do gol afete um encontro decisivo já não é mais possível. Como se não fossem suficientes o estádio lotado e a necessidade de vitória, César evidentemente entrará no Maracanã logo mais carregando alguns quilos adicionais em pressão. Mas não é apenas a atuação dele que estará sob análise mais criteriosa. O desempenho coletivo do Flamengo, vistoso nas últimas vitórias, responderá como os jogadores digeriram as decisões do clube a respeito de um companheiro que lhes virou as costas. Diferentemente do treinador do episódio mencionado nos primeiros parágrafos, Dorival Júnior não está preocupado. Não será ele a se desculpar na reapresentação.

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Respeito

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As cenas dos bate-bocas envolvendo o árbitro Ricardo Marques Ribeiro após Internacional x Santos – nos corredores do Beira-Rio e no aeroporto Salgado Filho – compõem o retrato de um futebol descontrolado, que por sua vez é o espelho de uma sociedade perturbada. Não importa se houve prejuízo ao time gaúcho no triste episódio de segunda-feira, quando a demora da equipe de arbitragem para decidir sobre um lance impossível aos olhos humanos foi mais um depoimento a favor do VAR. Ninguém tem o direito de se dirigir a um árbitro, ou um técnico, ou um jogador, como se fez com Ribeiro, que reagiu com coragem em ambas as situações.

Em um ambiente de futebol respeitável, a atitude de funcionários do Inter no túnel dos vestiários não passaria impune. Entre tantas razões óbvias está o estímulo a comportamentos semelhantes em locais públicos, como aconteceu no dia seguinte no aeroporto, quando o árbitro foi hostilizado por “torcedores” em um episódio que felizmente não foi mais sério. Novamente, a questão não passa por competência, acerto ou erro, mas pelo tipo de convivência que se deseja estabelecer entre todos os envolvidos no jogo. A violência latente no cotidiano não deve ser alimentada, especialmente por quem trabalha no futebol e tem o dever de agir no sentido contrário.

Parece claro que a equipe de arbitragem que atuou no Beira-Rio fez o tempo passar para que uma informação baseada nas imagens da televisão chegasse ao gramado. É assim que árbitros e assistentes aprenderam a se defender do ridículo a que são expostos, ou seja, o fato de ser os últimos a saber o que aconteceu em um lance sobre o qual devem decidir. A arbitragem analógica foi superada há muito tempo pela dinâmica do jogo de futebol, mas descobriu um jeito de se salvar de grandes escândalos: algo que se pode chamar de “VAR pirata”. Como a televisão acertadamente não mostrou o replay, Ribeiro e seus colegas tiveram de jogar a moedinha para o alto.

A responsabilidade precisa ser dividida. É da CBF, que organiza, mas não zela pelo campeonato; dos clubes, incapazes de se unir em torno de tema algum; da comissão de arbitragem, que age como se os problemas não existissem; e dos próprios árbitros, que não buscam a profissionalização e a independência necessárias para exigir melhores condições de trabalho. Mas nem mesmo a implantação da arbitragem eletrônica trará a evolução se o ambiente do jogo não se caracterizar por educação e respeito.

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Cognição

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Esta não é mais uma coluna sobre o VAR. Não no sentido de discutir sua necessidade, sua eficiência, as áreas em que sua utilização pode melhorar. Isso, felizmente, e até por uma questão de limite de paciência, está no passado. O árbitro de vídeo faz parte da regra do futebol de hoje e assim deve ser compreendido, especialmente por quem não gosta, ou, pior, por quem acha que se trata de uma ferramenta não para tornar o jogo mais justo, mas para modernizar as maneiras de corrompê-lo. O sistema está em uso em diversos países, com impressões majoritariamente positivas, e com um nível de aceitação proporcional à evolução que acompanha a prática de quem o aplica e o hábito de quem assiste. Não há nenhum motivo para que o futebol brasileiro não trilhe o mesmo caminho, embora nossos defeitos sejam mais numerosos.

Esta é uma coluna sobre um desses defeitos; a infantilidade que impera em toda e qualquer discussão relacionada ao futebol, seja porque posições são usadas como ataques que pretendem devastar o “inimigo”, seja pela absoluta falta de interesse em entender, ponderar, às vezes até mesmo ouvir aquilo com que se discorda. Na noite de quarta-feira, enquanto Corinthians e Cruzeiro decidiam a Copa do Brasil e o árbitro de vídeo parecia ser um adversário de ambos, a forma como os acontecimentos eram abordados no Twitter – por torcedores diretamente envolvidos com o jogo, por quem queria ver o circo se consumir em chamas e também por jornalistas – ajudava a explicar por que o futebol, entre tantos outros setores de maior ou menor relevância, tem tanta dificuldade para avançar no país.

O julgamento a respeito das decisões discutíveis tomadas pelo árbitro Wagner do Nascimento Magalhães foi taxativo como se o VAR estivesse em ação há anos por aqui, quando a Copa do Brasil de 2018 é o primeiro torneio do calendário nacional a lançar mão do recurso. Além da costumeira confusão que culpa um sistema eletrônico pelos erros de pessoas, como se o sistema pudesse se defender do mau uso, notou-se uma espécie de análise antropológica do tema. A conclusão foi que o VAR não serve para o futebol brasileiro. Ou, mais grave, que o futebol brasileiro não serve para o VAR. A amostra é mínima, alguns poucos jogos e os problemas que obviamente se impõem até que inovações façam seu papel como se espera, mas, ao que parece, o salto para o veredito já foi feito.

Por equivalência, a coisa vai além da “satisfação” por criticar as cirurgias cardíacas robóticas pois, afinal, pacientes seguem morrendo por problemas no coração. É como se o brasileiro não merecesse o acesso à técnica, ou como se nossos médicos fossem irremediavelmente incompetentes. A arbitragem brasileira é ruim? Sim, muito. Mas não é pior do que na Espanha, na Itália, na França, e até mesmo na Inglaterra, onde existe, de fato, um espírito elogiável no sentido de “deixar jogar” (com consequências diretas em lesões, mas esse é outro assunto), mas se falha em lances capitais como em outros centros. As polêmicas em torno do vídeo na final da Copa do Brasil não se deram porque os árbitros nacionais são capazes até de desacreditar o VAR, mas porque ninguém consegue alterar a maneira de apitar jogos de futebol da noite para o dia.

Os equívocos prosseguiram no dia seguinte, quando Manuel Serapião Filho, coordenador do VAR no Brasil, declarou que Wagner do Nascimento Magalhães não errou em suas decisões. É uma reação tão imatura quanto a cachoeira de detritos nas redes antissociais, principalmente por vir de quem tem tanta responsabilidade. Se a escolha for pela abordagem pública do tema, que a mensagem transmita um caráter didático e, acima de tudo, de um processo em andamento para que o sistema de árbitro de vídeo seja o que pode e deve ser: um passo para um futebol em que as imperfeições da arbitragem tenham menos impacto no resultado de jogos e campeonatos. Qualquer pré-adolescente tem capacidade cognitiva para compreender isso.

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Sete dias

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O período entre 24 e 31 deste mês já estava assinalado no calendário palmeirense como dias decisivos. São as datas do confronto com o Boca Juniors, pelas semifinais da Copa Libertadores, com o jogo de ida em Buenos Aires. Por caprichos do futebol, o sábado que se encontra entre essas duas quartas-feiras adiciona tensão ao pequeno trecho do calendário: é o dia da visita do líder do Campeonato Brasileiro ao Maracanã para enfrentar o Flamengo, quatro pontos abaixo. Se tal diferença não aumentar no próximo fim de semana(Palmeiras x Ceará, Paraná x Flamengo), uma vitória rubro-negra injetará emoção na disputa do título.

É a oportunidade de se ver envolvido em um grande jogo que o Flamengo talvez não imaginasse que ainda teria em 2018, embora, por pontuação, a possibilidade nunca tenha deixado de existir. A chance de frear a arrancada do líder – invicto no segundo turno – e se sentar definitivamente à mesa dos candidatos ao troféu se apresentará em um jogo em casa e ao lado da torcida. Se nada der errado contra o Paraná, claro. A esta altura, após duas vitórias por 3 x 0, boa parte das conversas de Dorival Júnior com sua equipe de trabalho insiste na necessidade de evitar a desconcentração. É hora de ativar o antigo clichê sobre o “próximo jogo”.

O mesmo vale para o Palmeiras, que não só não pode desperdiçar pontos contra o Ceará, como jogará pela Libertadores antes de contemplar o Flamengo. A formação de dois times estabelecida por Scolari já não tem mais contornos tão claros, com o surgimento de uma terceira equipe – eficiente como as outras – na vitória sobre o Grêmio. O planejamento para os encontros com o Boca obviamente prevê a escalação mais forte possível, o que reserva para o Maracanã uma adaptação de quem estiver disponível, estratégia que vem sendo aplicada com sucesso.

Em tese, um empate na Argentina será bem visto, assim como contra o Flamengo. Não se pode esquecer, porém, que esse é exatamente o resultado que interessa ao Internacional (que recebe o Santos e visita o Vasco nas duas próximas rodadas). Tudo está entrelaçado. O que o Palmeiras tem feito sob Scolari não é apenas notável pela decolagem no Campeonato Brasileiro, mas por dividir suas forças em duas campanhas sem queda de desempenho. Durante sete dias no final do mês, este protocolo será testado com nível máximo de exigência e permitirá uma visão mais clara sobre o que pode ser uma temporada histórica.

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Em voo

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1 – A dez rodadas para a linha de chegada, o campeonato do primeiro colocado é contra a quantidade de pontos disponíveis. Quando o adversário está próximo, como era o caso deste domingo no Pacaembu, o jogo oferece um prêmio adicional pela vitória. Assim se apresentava o encontro, pelo Campeonato Brasileiro, de dois semifinalistas da Copa Libertadores.

2 – Paradoxalmente, o jogo era mais decisivo para o Grêmio, quinto colocado, do que para o líder. Por uma questão matemática. O Palmeiras não seria removido de sua posição privilegiada mesmo se perdesse. Já o time gaúcho não poderia permitir se encontrar a oito pontos do primeiro lugar, com vinte e sete em disputa, em caso de derrota.

3 – Um gol cedo, logo aos oito minutos, fez a tarde ficar sob medida para o Palmeiras. Após o cruzamento de Dudu, Deyverson dividiu a jogada com Marcelo Oliveira na primeira trave. O atacante palmeirense venceu a disputa, que enviou a bola para a rede do gol defendido por Paulo Victor, com escala no travessão.

4 – A vantagem foi a senha para o time de Scolari reduzir um percentual do ímpeto defensivo e se reposicionar para explorar Dudu em campo aberto. Elétrico e praticamente incontrolável no um contra um, ele seria o principal fator de desequilíbrio no primeiro tempo.

5 – O conflito de intenções era evidente. Enquanto o Grêmio fazia o que podia – e se trata de um time que pode muito, com qualquer escalação – para diminuir o ritmo do encontro e construir um gol que não dava a impressão de estar próximo, o Palmeiras se colocava à espera de uma oportunidade que certamente surgiria.

6 – Poderia ser o pênalti reclamado – e não marcado – de Bressan em Dudu, no começo da segunda parte. O árbitro Ricardo Marques Ribeiro considerou normal o contato dentro da área, embora a repetição pela televisão indicasse falta do zagueiro gremista ao impedir Dudu de disputar a bola.

7 – Também poderia ser o contragolpe com Willian e Dudu (que seria substituído sob aplausos merecidos na marca da meia hora), entrando na área e batendo forte, para a defesa de Paulo Victor com o pé direito. O Palmeiras dominava o jogo praticamente sem correr riscos, cenário que já se tornou comum nas partidas do líder.

8 – Aos trinta e três minutos, Deyverson colocou em prática o mandamento que obriga os centroavantes a acreditar que todo e qualquer lance pode ser uma chance. A bola despachada pela defesa do Palmeiras era favorável a Bressan, mas a pressão do atacante do Palmeiras certamente colaborou para uma decisão errada, seguida de um escorregão. Aí Deyverson teve clareza para criar o próprio chute e marcar o segundogol, materializando a superioridade do Palmeiras no Pacaembu e encerrando a questão em relação ao vencedor.

9 – Não satisfeito com os dois gols, Deyverson ainda foi visto na área defensiva colaborando em duas cobranças de escanteio.

ENCONTROS

Há algumas rodadas, quando o São Paulo se equilibrava na primeira posição mesmo perdendo pontos, apontava-se o encontro com o Internacional como um momento decisivo. Então, o Palmeiras estava em terceiro lugar. Eis que o jogo no Beira-Rio chegou, o Inter venceu e o São Paulo saiu do estádio a sete pontos de distância da colocação que um dia ocupou. Exceto por manter o Inter próximo do topo, a partida em Porto Alegre teve muito menos influência do que se projetava, por causa, principalmente, da evolução do Palmeiras. A ver, agora, como o time gaúcho se comporta em relação à exigência rodada a rodada. O Flamengo decolou? O Palmeiras manterá seu nível atual? Eles se encontrarão daqui a dois sábados, no Maracanã (no meio do confronto entre Palmeiras xBoca Juniors, por uma vaga na final da Libertadores).

ESCOLHA

A entrevista de Renato Gaúcho no Pacaembu sugere que o Grêmio não competirá mais pelo Campeonato Brasileiro. Oito pontos abaixo do líder, parece que a Libertadores será o alvo de todas as forças.

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Não estamos prontos

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As pessoas favoráveis à utilização do árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro receberam uma notícia assustadora nesta semana: na CBF, há quem esteja pensando em implantar o sistema nos jogos da “reta final” da competição deste ano. Foi o coordenador do VAR no futebol do país, Manoel Serapião Filho, quem mencionou a possibilidade, dizendo ao globoesporte.com que iria a São Paulo “treinar mais uma equipe de árbitros para quando a CBF quiser colocar em todos os jogos da Série A, ainda nesse ano se assim desejar, estarmos prontos”. É o tipo de coisa que alimenta a esperança de que seja fake news, como tantas “informações” que circulam nesses tempos difíceis. Mas obviamente, e infelizmente, é real. E basta que seja ainda apenas uma cogitação para congelar a espinha.

Aliás, cabe perguntar: o que poderia ser chamado de “reta final” do Campeonato Brasileiro? As dez últimas rodadas? Cinco? Duas? Qual sentido há em que estabelecer um momento, num campeonato em que não existe distinção entre fases, para modificar a atuação da arbitragem? Seria igualmente insensato, mas não tão sem sentido, determinar que o árbitro de vídeo entrasse em ação num torneio em que houvesse algo como um playoff, com outra forma de competição. Mas num sistema em que os pontos que levam ao título e ao rebaixamento são disputados da mesma maneira, não há explicação para o VAR simplesmente surgir. A CBF não deveria pensar nisso e certamente não deve fazê-lo.

Além de uma interferência que fere o espírito da disputa, e do risco de bagunçar um trecho de um campeonato elogiável até aqui, há o perigo de impedi-lo de chegar ao fim. Calcule o que acontecerá se o título for decidido por um gol validado, ou invalidado, pelo vídeo. Pense no que um rebaixamento pode precipitar caso haja envolvimento do VAR em um determinado encontro. Estará aberto o portão para o pandemônio jurídico-esportivo que conhecemos de outras oportunidades, e que por isso mesmo deve ser evitado com todas as providências imagináveis. Entre tantos problemas que o Campeonato Brasileiro ainda tem, nada seria tão grave quanto um questionamento ao STJD por causa de resultados alcançados com a intervenção de recursos não disponíveis em todas as rodadas. Mesmo em caso de acerto. É uma insanidade.

Em setembro de 2017, um gol de Jô feito com o braço no jogo entre Corinthians e Vasco gerou um flerte com tamanha inconsequência. Então presidente da CBF, o Marco Polo que não viaja – e que agora só articula nos bastidores do futebol – determinou a introdução do árbitro de vídeo num campeonato que acabara de realizar a vigésima-quarta rodada. Se se tratasse de alguém relacionado ao jogo de forma séria, se poderia imaginar que era uma cortina de fumaça para desviar a atenção da opinião pública. No caso de Del Nero, foi apenas um devaneio. Aspectos técnicos e de treinamento de árbitros imediatamente enterraram a loucura, e o campeonato terminou com o incômodo de um gol irregular validado pela arbitragem analógica. Que não foi o único e não passaria pelo exame do VAR, mas que em nenhuma hipótese deveria acionar um gato do apito eletrônico.

O Campeonato Brasileiro necessita urgentemente do árbitro de vídeo. É assombrosa a frequência de ocasiões em que erros seriam corrigidos com a utilização do recurso. Mas enquanto não houver condições de equipamento e preparo humano para utilizar o sistema em todos os jogos de todas as rodadas, que a disputa possa terminar com os mesmos defeitos de quando começou. A não ser que “a nova CBF”, a “CBF do compliance”, esteja trabalhando em algo tão danoso quanto as notícias falsas; uma campanha estratégica cujo único propósito é desacreditar o VAR.

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