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Eu acredito em Papai Noel

Leia o post original por Mauro Beting

Eu acredito em Papai Noel.

Há 29 anos escrevo algo natalino depois de um ano de trabalho como jornalista esportivo. Desde 2016 aqui no UOL. Desde 2017 como Mestre de Imprensa Escrita e hors-concours no Prêmio Comunique-se. Como sou desde 2014 fora de votação em qualquer categoria no Prêmio Aceesp. Como sou o segundo jornalista esportivo mais premiado da história segundo o Portal dos Jornalistas.

Desculpe o cabotinismo. Mas sabe como é. Sou jornalista esportivo. Faz parte do ofício. Como ser clubista, bairrista, parcial, polêmico, caça-clique, intolerante, intolerável, partidário, sectário, patrulheiro, raso, bloqueador, bloqueado, ombudsman, corporativista ou contra tudo e contra todos.

Mas eu ainda acredito em Papai Noel. Ele me deu no ofício mais amigos do que colegas. Mais pessoas para bater bola na mídia do que gente abaixo da média. Me dá mais prazer e trabalho em várias áreas. Dirijo filmes e séries de cinema e televisão, escrevo livros, prefácios e posfácios, faço curadoria de museus e exposições, comento o videogame PES. O futebol e a sua cobertura me fizeram embaixador do centenário do Palmeiras. Apresentador de festas do clube e da inauguração do Allianz Parque. Do mesmo modo que tenho textos em publicações oficiais de todos os outros grandes clubes. Mais do que todos, do maior rival do meu clube.

Passador de pano? Não. Lustro fatos em busca da luz e das sombras. Fazedor de média? Não. Faço muitas mídias como jornalista que tenta buscar a melhor versão possível dos fatos, não se achando o senhor deles. Não desço a marreta, subo na mureta para tentar buscar a versão mais ampla e plural dos fatos. Falo e escrevo como tento ouvir e ver – sem bloqueios.

Torço sem distorcer. Clubista não é quem assume a paixão como faço há 29 anos. Clubista é quem distorce contra o time que não gosta.

Acredito em Papai Noel. Como quero crer na mídia mais independente dos interesses inconfessáveis. E dos cliques que não contam a qualidade. Apenas descontam a quantidade de gente que segue ou persegue a polêmica. O BARULHO. O CAPS LOCK que nos leva à bundalização da análise, o humor sem graça, a grana sem amor, à notícia que gera clique, mas apaga a luz.

Acredito em Papai Noel. Ainda que o último apague as luzinhas de Natal.

As minhas seguem acesas. Na esperança não de dias melhores. Mas de gente que pense melhor. Ou ao menos pense.

Como o Flamengo fez lindo em 2019 ao se planejar. Como o Santos se superou com menos. Como o Palmeiras fez mais pontos do que parece. Como o Athletico deu aula. O Grêmio deu o de sempre. Outros deram duro como estão duros.

Mesmo quem não foi aquilo que é ainda pode juntar os cacos e saber que são casos assim que nos levam adiante. Acreditando que o jogo vira. Desde que se jogue certo. Dentro da regra do jogo.

Acredito em Papai Noel e num ótimo 2020.

Como? De que jeito? Quando? Onde? Por quê?

Não sou jornalista para saber as respostas. No máximo para fazer as perguntas.

Ótimo 2020 a todos.

Um prazer de ofício bater bola com vocês.

Perdeu, mas jogando. Liverpool 1 x 0 Flamengo.

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Firmino foi o Brasil em Doha – para a gigantesca torcida do arco-íris que não foi e não será Flamengo. Mas que adoraria torcer por esse time, ou melhor, esse futebol que encarou o hexacampeão europeu por 120 minutos. Não foi o melhor porque não é mesmo melhor que o Liverpool – o melhor time de 2019 no mundo.

O timaço histórico de Jorge Jesus fez sua melhor partida em tempos. Por isso suportou os 90 minutos iniciais e só caiu no golaço do melhor contragolpe do mundo. O melhor dos Reds é isso: ataca como poucos, contra-ataca como só ele, e perde-pressiona como ele fez escola.

O gol que Firmino fez aos 8 minutos da prorrogação ele poderia ter feito com menos de um minuto no Qatar, quando isolou a primeira bola que a ótima zaga carioca vacilou. Ele poderia ter feito no primeiro ataque perigoso na segunda etapa, quando deu lindo chapéu na área pra bater de canhota na trave de Diego Alves. Goleiraço que seria o melhor rubro-negro também pela defesaça no ângulo em jogada de Henderson, aos 40 do segundo tempo.

Naquele instante, parecia o duelo Gerrard x Rogério Ceni em 2005. Dava a impressão que a história de Gabriel Barbosa em Lima se repetiria como festa em Doha. Por mais que martelasse e mandasse no jogo o Liverpool, daria Flamengo. Time que jogou melhor que o próprio São Paulo contra um Liverpool que não era tão bom quanto este.

Mas não deu. No final, Lincoln teve a bola do empate e não foi feliz. Como Gabriel Barbosa teve três boas chances nos primeiros 15 minutos da segunda etapa e parou em Alisson. Como Jorge Jesus não foi feliz nas mexidas. Arrascaeta estava apagado, mas não era o caso de o trocar por Vitinho, aos 31. Diego não entrou tão bem no lugar de Everton Ribeiro que também não estava sendo o de sempre, aos 36. Lincoln por Gerson, 4 minutos depois do gol, se entende. Berrio por Arão faltando um minuto para o apito final, não.

Ainda assim foi uma boa partida rubro-negra contra um Liverpool que jogou a vera. Quis jogo. Quis mais o título que o próprio Flamengo. Em 7 minutos chegou três vezes até o campeão da América equilibrar a partir dos 20, trocando bola e segurando o facho inglês. Mas lance bom mesmo brasileiro na primeira etapa foi só uma arrancada do imparável Bruno Henrique travado por Joe Gómez. Ficou com a bola. Mas não criou muito.

Na segunda etapa, as duas ótimas chances do Liverpool foram respondidas por Gabigol, com duas oportunidades no mesmo minuto. O jogo voltava a ser igual. Também porque Wijnaldum (mais) e Fabinho (menos) faziam falta à equipe inglesa. Keita mantinha o pique de chegar à frente. Ox-Chamberlain, nem tanto.

Jogo que pedia o empate até Mané escapar livre e cair depois de finalizar na saída de Diego Alves. Lance que não parecia nada até parecer pênalti marcado pelo árbitro, aos 46 finais. Falta que acabou bem desmarcada pelo VAR. Não foi falta. E, se fosse, seria fora da área. Foi apenas um monstruoso desarme de Rafinha, um garoto tão bom e promissor quanto este Flamengo.

Time que foi longe. E irá ainda mais se mantido. Perdeu jogando bola para um time ainda melhor e mais rico. Mas caiu jogando bem. Jogando futebol.

Vai ter jogo no sábado. Muito jogo

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De tanto jogar tanta bola com a corda esticada, ela está afrouxando no Flamengo. Os sinais são claros antes de Lima, por 88 minutos no Peru, por 90 na Vila Belmiro, pelos 45 iniciais no Qatar.

E ainda assim tem muito jogo em Doha no sábado. O Flamengo segue vivíssimo mesmo quase morto de tão corrido e cansado. Mas tão bem jogado.

E é mais impressionante ainda que mesmo esgarçado o time luta até o fim e consegue o que conquistou nos minutos finais da Libertadores e na segunda etapa da semifinal do Mundial. Tá pregado. Mas vai buscar forças para virar o jogo e a história como se fosse pregada por Jesus e seus discípulos na comissão muito técnica.

Para encarar o campeão europeu de desempenho brilhante na Premier League é preciso jogar o mesmo grande jogo rubro-negro. Mesmo contra uma ideia de futebol que aposta em ainda mais intensidade para jogar e perder-pressionar como nenhum time nestes campos.

O pavor do sufoco sofrido e a pressão descomunal de eliminação precoce já passaram no Flamengo. Agora a bola é do Liverpool. Ele é o time a ser batido. O “obrigado” a vencer.

O que vier é lucro. E que lucro! E pode vir para a Gávea.

A única real adaptação a ser feita por Jorge Jesus é a linha de marcação mais baixa. Filipe Luís não tem sido o que é. Pablo Mari também não mantém o desempenho impressionante do BR-19. Mesmo Rafinha tem sofrido também porque não é a de Everton Ribeiro recompor até atrás como faz a franquia Bruno Henrique – que faz tudo em campo.

Arão e Gerson perderam aquela densidade atrás e a intensidade em todo o gramado . O Flamengo há quase um mês não é o mesmo. Mas há anos não tem time tão bom e tão forte no Brasil. Para não dizer na América.

Desde 2012 o futebol sul-americano não tem tantas chances de voltar a ser campeão. Ainda que no bi mundial o Corinthians fosse o que foi no Japão: mais time do que o Chelsea.

A adaptação às qualidades rivais é necessária em qualquer tempo. Ainda mais com o natural desgaste rubro-negro em final de temporada histórica. Por mais que o Liverpool venha jogando direto, ele está no meio dela. Isso pesa tanto quanto o poderio financeiro, técnico e tático do time de Klopp.

Em dezembro de 2019… Liverpool 2 x 1 Monterrey

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O Liverpool entrou apenas com Alisson na meta (e sorte dos Reds que ele foi pro jogo), Robertson na lateral-esquerda, Henderson improvisado na zaga pela esquerda, Milner quebrando o galho na lateral-direita, e Salah na dele.

Só.

Só quatro titulares absolutos. Um deles fora de posição.

Descanso? Descaso? Mais a primeira opção. Mais lógica.

Matip e Lovren estavam lesionados. Van Dijk era melhor mesmo que não jogasse por ter se sentido mal antes do jogo. Fabinho só volta em 2020. Wijnaldum ainda se recupera.

O Monterrey é bom time. Tem bons jogadores (9 deles atuam em selecoes sul-americanas). Jogou bem. Mas com 11 minutos já dava a lógica. Keita recebeu lindo passe de Salah e fez 1 a 0. O time mexicano respondeu explorando bolas às costas da adiantada linha inglesa. E empatou aos 13, com Funes Mori, em bobeada do sistema defensivo.

Alisson evitou pelo menos outros dois, até o Liverpool começar a se achar. E cansar o Monterrey.

Keita começou a pisar mais na área com o espaço cedido por Origi que abriu bastante. Na segunda etapa, o time mexicano aguentou o tranco. Chegou algumas vezes bem defendidas por Alisson. Até que aos 22 Klopp passou a chamar a cavalaria. Mané veio a campo no lugar do improdutivo Shaqiri. Mas o meio sentia a ausência de Wyinaldum e a presença de Ox-Chamberlain que ficou muito tempo fora de jogo.

Quando ele encontrou Milner, Origi perdeu um daqueles gols que ele achou na fase decisiva da Champions. Na sequência veio Alexander-Arnold para mostrar que o Liverpool não estava para brincadeira. Pode não ser a prioridade. E não é mesmo. Mas quer o mundo que ainda não conquistou nas três vezes que tentou (fora mais duas que desistiu de disputar).

Aos 39 veio Firmino. Outro que deveria ter chegado antes para evitar a prorrogação que ajudaria demais o Flamengo pelo evidente desgaste físico menor no torneio com 30 minutos a mais de bola rolando, e um dia a menos de descanso para o campeão europeu.

Bastou. Aos 45, Salah fez o salseiro pela direita e rolou para o excelente Alexander-Arnold passar com categoria para Firmino ser o que é na Europa e não no Brasil de Tite.

Aquilo que o Liverpool não foi na semifinal. Mas que pode ser na grande decisão que promete ser a mais equilibrada dos últimos anos.

Treinadores para o Brasil importar e se importar

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ESCREVE JOZA NOVALIS

Não estamos na arquibancada torcendo contra técnicos brasileiros, mas na torcida por algo bem mais relevante que isso: que a qualidade do comando no banco de reservas dos clubes evolua definitivamente. Em nenhum outro lugar da América do Sul técnico de futebol de equipe grande ou média ganha tanto dinheiro como no Brasil. E atualmente em nenhum outro lugar do mesmo continente o técnico entrega tão pouco como no nosso país. “Ah, mas Joel Santana já ganhou títulos brasileiros, Abel Braga, Cuca e Geninho também; tantos outros…” Pois é, lista é grande. Ocorre que no passado não havia como um deles não ganhar; afinal, eles sempre disputavam uns com os outros.  

Mas o problema não são as pessoas, tampouco suas idades, mas suas ideias. Até em virtude de que os nomes sempre eram os mesmos elas, as ideias, foram caducando com o tempo. E se não bastasse tal cenário, os poucos novos técnicos que surgem já nascem com as ideias envelhecidas. Futebol brasileiro não aguenta mais, está saturado. 

De forma que técnicos estrangeiros começam a desembarcar por aqui. Bastou uma condição mínima de trabalho e Jorge Jesus e Jorge Sampaoli terminaram o Brasileirão no topo da tabela. Efeito positivo foi o choque de realidade em relação ao trabalho dos nossos treinadores. E simbólico, no caso, foi a goleada do Peixe sobre o campeão brasileiro na última rodada. O resultado não foi por acaso. Quando perdeu para o Flamengo, no primeiro turno, a equipe da Vila tinha chances reais de conquistar o Brasileirão. Perdeu de 1×0 e poderia ter perdido de bem mais. Bem provável que a partir de então, Sampaoli não parara de pensar no Rubro-Negro, de estudá-lo e de desenhar formas que levassem sua equipe a devolver a derrota. E o fez com sobras.

Estudar constantemente é o que caracteriza treinadores nos demais países sul-americanos, notadamente na Argentina, onde este processo não encontra paradeiro no hemisferio ocidental. Pois bem, estudar é precisamente o que os nossos técnicos não fazem; e isto, por certo, é uma das causas da baixa qualidade de seus trabalhos. Pensemos então em alguns nomes que podem aparecer no banco de reservas do seu clube do coração já para a próxima temporada do futebol brasileiro.

Sebastián Beccacece (38). Um dos melhores montadores de equipes da América Latina. Altamente capaz de desenvolver até mesmo atletas mais limitados. Exemplos ao longo de sua ainda curta carreira não faltam. Levou o modesto Defensa y Justicia ao vice-campeonato na Argentina com uma campanha soberba. Não tivesse o Racing feito uma campanha tão magistral, e o título ficaria com o modesto conjunto de Varela. O Defensa não seria sequer um América Mineiro ou um Atlético Goianiense sendo vice campeão e apresentando o mais belo futebol do país. Não seriam porque estas equipes são muito maiores do que o Defensa y Justicia. 

Beccacece é um dos técnicos mais irrequietos do futebol mundial; no banco, nunca para. E o mais importante: exige que este comportamento seja o de seus jogadores. Não negocia com a mediocridade, com modorra e com jogadores que cavam buracos no campo para se esconder. Herda de Bielsa o pensamento conectado com o futebol durante todos os segundos em que está acordado. De equipes rivais às lacunas técnicas de seus jogadores, nada escapa de sua atenção. Felicidade parece cenário impossível para ele se não tiver na cabeça o panorama completo do que sua equipe apresenta centro de campo. Ao detectar um problema não sossega enquanto não percebe em algum jogador a capacidade de saná-lo. De início, tenta desenvolver em algum atleta a condição de resolvê-lo; quando isto não é possível, busca na base. Apenas depois disso é que solicita algum reforço. 

Sua rápida passagem pelo Independiente não foi das mais favoráveis em virtude de que se deparou com um contexto de terra arrasada: problemas na preparação física, falta de jogadores compatíveis com o seu modelo, surgimento de reforços que ele não solicitara, negação do acesso de suas ideias ao trabalho na base, rejeição ao pedido de certos reforços específicos, barra brava presente e dando ordens internas no clube, inclusive a jogadores etc. Pelo pouco tempo que ficou, até que não foi mal, e se por um lado não foi o mesmo técnico do Defensa y Justicia, por outro, os problemas relatados acima depõem efetivamente em prol de sua inocência. 

Beccacece está pronto para o futebol brasileiro. Mas seria ainda melhor se chegasse para um clube ou que pudesse oferecer reforços ou um bom elenco ou que o deixasse trabalhar minimamente até que ele calibrasse a máquina até o ponto em que seu modelo protagonista necessita. 

Ricardo Gareca (61). Um técnico que já protagonizou dois grandes milagres: ser o maior vencedor da história do Vélez Sarsfield e ser o responsável por devolver a alegria ao povo e ao futebol peruano. Daqueles que tiram leite de pedra. A consistência de seus últimos trabalhos depõe em seu favor. Sua rápida passagem pelo Palmeiras não foi das melhores, mas seu trabalho não recebeu apoio. Solicitações mínimas não eram atendidas, o que passou a acontecer no clube com o seu sucessor. 

Mesmo o Palmeiras ganharia muito com Gareca, sobretudo as categorias de base, pois o treinador costuma se apresentar nas arquibancadas para ver a molecada jogar; uma de suas grandes qualidades é a de apostar nos garotos certos, postura que levou o Vélez não apenas a títulos, mas também ao melhor momento financeiro de sua história em virtude da venda de inúmeros jogadores, revelados na base, para o futebol europeu.

A relação de Gareca com a seleção peruana lembra um tanto aquela situação em que vemos nas ruas de uma mulher de rara beleza de mãos dadas com um baixinho careca e feio. O técnico argentino é demais para a seleção de Paolo Guerrero e já passou da hora de ele voltar a assumir um clube. Que seja no Brasil.

Matías Almeyda. Muito mais do que um treinador, alguém com olhar panorâmico para o clube que defende – agora, o San José Earthquakes, da MLS. Suporta toda a pressão que recebe e se transforma num escudo para seus atletas, deixando-os prontos para jogar com ofensividade e coragem. É técnico para clubes grandes, com problemas e que flertam constantemente com a crise. Almeyda não pede muitos reforços, mas não lida bem com contexto de meses com 45 ou 60 dias, como ocorre em vários clubes do Brasil. Suas cobranças aos seus comandados são constantes e em contrapartida espera que eles não tenham motivos para reclamar de problemas como salários etc. 

O ex-ídolo do River é um grupos e capaz de desenvolver bom trabalho mesmo com elencos limitados. Suas equipes têm o DNA ofensivo, mas também o equilíbrio necessário para suportar pressão e até compactar todas as linhas, na defesa, em busca do bom resultado. Do tipo que jogador não contesta; que dirigente pensa duas vezes em aparecer no treino para dar palpites e que convida jornalistas a refletirem bem antes de fazerem perguntas. Em pouco tempo no Brasil, seria capaz de ter um amplo entendimento sobre o nosso contexto futebolístico. Quando algum dia comandar na Europa, possível que se transforme em técnico-top do futebol mundial.

Rafael Dudamel (46). Outro caso de quem deixaria uma seleção para assumir um clube. Trata-se um dos maiores arquitetos do processo de vitalização do futebol venezuelano, que nos últimos anos alcançou resultados (especialmente nas categorias de base) nunca antes vistos. Nos últimos dois anos tem se revelado como um gestor que não apenas suporta pressão, mas que também não a deixa chegar ao elenco. Assim como fez na Venezuela, também pode elevar o patamar de um clube, desde que permaneça por algum tempo no cargo. 

Dudamel é perito em armar esquemas diferentes para cada situação. Gosta de meio-campo combativo, que não deixa passar nada, enquanto a construção do resultado ocorre sobretudo por transições rápidas e preferencialmente pelos lados do campo. Seus jogadores compram suas ideias porque ele as consegue vender bem; torna fácil para qualquer um o entendimento dos processos que levam a equipe aos bons resultados. Recentemente, Josef Martínez tentou boicotar seu trabalho junto aos demais jogadores, na Vinotinto. Todo o elenco ficou ao lado do técnico, o que levou o próprio Martínez a pedir que não fosse mais convocado. 

Daniel Garnero (50) entra para o rol das grandes técnicos sul-americanos em função de seu amadurecimento, dos resultados impressionantes do seu Olímpia, atual campeão paraguaio,   da personalidade que marca seu comando e pela habilidade de modificar partidas com substituições ou mudanças táticas, durante os 90 minutos. De 2016 até o final de 2019, conquistou seis títulos no Paraguai com duas equipes diferentes, o Guarany e o Olímpia. Garnero cresceu tanto que não cabe mais no futebol paraguaio. 

Os números de Garnero são assustadores. Impressiona o número de finalizações a gol, os gols marcados e mesmo a capacidade de reverter resultados negativos dentro de uma partida. Foi campeão invicto do Apertura com 16 vitórias e seis empates; além disso, teve a melhor defesa da competição. Foi campeão do Clausura com 17 vitórias, um empate e duas derrotas; foi a segunda melhor defesa, atrás somente do vice campeão, o Libertad. Juntando as duas competições, teve 33 vitórias em 44 jogos, 9 empates e duas derrotas e com a melhor defesa e o melhor ataque disparado da temporada. 

A eliminação do seu Olímpia da Libertadores pela LDU beira o inacreditável pelo que produziram as duas equipes. Em Assunção, o Decano finalizou 26 vezes ao arco, teve quase 80% de posse de bola, trocou 596 passes, com precisão de 82%. Nos minutos 10 minutos finais, a Liga de Quito ficou menos de 60 segundos com a posse da redonda; enfim, foi uma noite em que tudo deu certo para os equatorianos. Ao final da partida, torcedores aplaudiram Garnero na ida aos vestiários, enquanto vaiaram alguns de seus jogadores.

Posse de bola e troca de passes são marcas privilegiadas da proposta de Garnero. Porém, três outros pontos chamam ainda mais a atenção de todos. O equilíbrio entre as linhas, o comprometimento de todos com a marcação e a distância entre o alto número de gols anotados e sofridos por suas equipes. A posse de bola é incentivada, mas a velocidade nas transições e a intensidade estão ainda mais presentes no modelo. Com Garnero, o atleta tem o direito a não entender a proposta, Nesse caso, receberá atenção especial para resolver o problema; porém, após entendê-la ou se compromete ou vai para o banco. 

Pedro Caixinha (49) é a prova de que nossos dirigentes não entendem mesmo nada de futebol; três ou quatro clubes brigam atualmente por um técnico estrangeiro, enquanto nenhum deles vai atrás do português, que curte umas férias, desde que deixou o Cruz Azul. Suas equipes propõem o jogo sem reconhecer mando de campo, com posse de bola e alta verticalidade. A ideia é pressionar no campo rival e buscar a vitória a qualquer custo. Intensidade do time é uma obrigação; ausência dela em algum jogador, imperdoável.

Para o técnico português, posse de bola é objetivo primário, mas o jogo da equipe é vertical, com pontas abertos e forte pressão sobre o portador da redonda. Linhas ordenadas e alto aproveitamento nas finalizações. Perdeu a bola, jogadores têm poucos segundos para recuperá-la.

Na sua proposta, preparador físico é quase um auxiliar, e muitas vezes se faz decisivo para a escalação de um ou outro jogador. Desta forma, Pedro Caixinha empodera toda a sua comissão técnica; o que também o fortalece diante da indisciplina de jogadores desavisados.

Elenco trabalha no mínimo 8 horas por dia e quem reclama perde a vez. Ao menos no clube, alimentação de cada atleta está diretamente atrelada ao desenvolvimento de sua melhor forma física; até isto, com ajuda de tecnologia e de assessores, Caixinha costuma acompanhar. Repertório absurdo de treinos, e todos voltados ao fortalecimento da ideia de jogo. É muito raro a repetição de um exercício e todos eles, desde o 1º dia de pré-temporada, são feitos utilizando a bola, trabalhando o passe e a busca do melhor posicionamento de cada jogador em campo. Caixinha tem o potencial para ser uma novidade tão agradável no futebol brasileiro, como tem sido Jorge Jesus.

Frank Kudelka (67). Técnico que valoriza o ataque. Joga com dois pontas abertos para gerar profundidade e permitir infiltrações pelo centro. Seus meias precisam de habilidade e boa leitura de jogo; seu camisa 5 tende a ser o termômetro. Contundência e intensidade são as suas marcas.

Kudelka é um apreciador do jogo propositivo. E para materializá-lo varia pouco seus esquemas de maneira que seus jogadores os compreendam com maior profundidade. Técnico antenado com o que há de mais moderno no futebol. No Brasil, seria recomendável para equipes de porte médio ou grande.

Pablo Repetto (45). O técnico uruguaio que levou o Del Valle ao vice da Libertadores/2016 configura suas equipes para jogarem conforme o adversário. Se o rival gosta da bola, ele pode ficar com ela o tempo que desejar; se não gosta, basta cedê-la à equipe de Repetto que estará preparada para lidar com a tarefa. Esta é a ideia primária de sua proposta futebolística: desconcertar o adversário; expô-lo ferozmente às contradições de suas limitações. 

Na maior parte do tempo, sua LDU é especulativa até porque a sua proposta costuma ser subestimada pelos rivais. Este é o sonho de Repetto: que os rivais não deem nada para a sua equipe; quando isto acontece, elas tendem a cair nas armadilhas do treinador uruguaio. Alguns diriam que a forma como Repetto comanda é semelhante a de alguns técnicos no Brasil. Porém, o uruguaio possivelmente se defenderia de quem o chamasse de retranqueiro ou de técnico de equipe ofensiva. Um estilo pode se consagrar a partir da adequação de uma equipe à forma como jogam vários de seus diferentes adversários. Ela pode ser muito bem preparada para isso; pode ter jogadas ensaiadas etc. 

Em geral, todas as equipes de Repetto costumam fazer bem mais gols do que levam, mas o número de gols sofridos mostra que no fundo a preocupação com a defesa é secundária. Basta isso para distanciar o técnico da LDU de inúmeros treinadores consagrados no futebol brasileiro atual. Um clube com muitos recursos poderia recrurtar os serviços do técnico da LDU, mas também clubes com baixo orçamento ou dificuldades financeiras possivelmente teriam em Pablo Repetto um bom comandante no banco de reservas.

Diego Dabove (46). Pera lá, minha gente: ninguém vai falar no nome de Diego Dabove? O técnico levou o Godoy Cruz ao vice-campeonato argentino de 2018 com um elenco modestíssimo, tirando leite de pedras e nunca deixando de lado a ideia de que quem manda nos seus domínios é a sua equipe, e não a visitante. Além disso, Dabove é o técnico atual do Argentinos Juniors, líder da Superliga Argentina. 

Dabove é mais um testemunho de que técnicos da linha bielsista aprimoram o trabalho defensivo, chegando em inúmeros casos a terem as melhores defesas das competições que disputam. É o caso do próprio Bielsa, cujo Leeds sofreu quase a metade dos gols do Bromwich, líder da Championship com dois pontos à frente dos comandados de Bielsa. Defensores da proposta sempre alegaram que a posse da bola é a melhor maneira de não levar gols. 

Mas o ajuste da proposta, que prima antes de quaisquer coisas pela busca do protagonismo, nem sempre foi fácil. Por causa disso, muitos técnicos bielsistas surgiram, mas ficaram pelo meio do caminho. Muitos não conseguiam superar aquele conhecido paradoxo que se instaurava em algumas partidas: suas equipes dominavam completamente aos seus rivais, com números incríveis, mas em apenas um contragolpe levavam um gol e perdiam jogos decisivos. Este não parece ser o caso de Dadove. Suas equipes são ofensivas, mas levam pouquíssimos gols. Na atual Superliga, o Argentinos mostra limitações no setor ofensivo e marca em média de apenas um gol por partida. Todavia, tem a liderança sustentada em um sistema defensivo sólido, pautado na posse de bola e não em caminhões estacionados próximos à área defendida pelo seu próprio goleiro. Sistema preferido é o 4-3-3, com laterais que aprofundam o campo para três atacantes que buscam a ocupação da área ao mesmo tempo. 

Miguél Ángel Ramirez (35), técnico do Independiente de Valle, ficou seis anos na Aspire Academy de Qatar, local onde realizou o milagre de formar jovens árabes para o futebol. Efeito disso já é visível no país e será ainda mais nas próximas competições internacionais da seleção do Qatar. Ramírez justifica o interesse de Palmeiras e outros grandes do futebol brasileiro? De certa forma sim; ao menos pela qualidade do futebol que sua equipe pratica. Tudo indica que estamos diante de um grande talento mundial no comando do banco de reservas. Mas ao menos os seus números reais denunciam algumas coisas. A primeira delas é a de que mesmo com o título da Sul-Americana o seu Del Valle ainda não é uma equipe pronta. No cenário local, os números são tímidos, pouco mais de 50% de aproveitamento, além da eliminação para o Delfín nas quartas-de-final do Equatoriano. A segunda passa pela quantidade de gols que a equipe costuma levar pelos lados do campo. Nada assombroso, por certo, porém, trata-se de um problema que persiste e que pede solução. 

Ramírez gosta da posse de bola e entende que sua equipe precisa jogar da mesma forma tanto dentro quanto fora dos seus domínios. Esta percepção sobre futebol o credencia para equipes grandes do futebol brasileiro; sobretudo para aquelas que disponibilizam recursos para contratações ou que dispõem de bons valores na base. A palavra “professor” se aplica a Ramírez como a poucos outros. No Independiente del Valle vemos jovens talentos que evoluem sob suas orientações, mas também é visível o caso de evolução de atletas que surgiram como grandes apostas, mas que não se encontraram na carreira; no Del Valle, é o caso de Cristián Dájome, dispensado do Atlético Nacional por frustrar expectativas generalizadas sobre o seu potencial de “craque”. O ideal seria que Ramírez chegasse a um clube brasileiro para fazer parte da comissão técnica. Porém, até em  função da disputa instaurada pelo seus serviços parece impossível que isto possa acontecer. 

Gabriel Heinze (41). Inacreditável que o nome de Heinze ainda seja pouco especulado nos clubes do Brasil. Na Argentina, onde o trabalho do técnico muitas vezes recebe reconhecimento independete de resultados, o de Heinze é aplaudido até pelos adversários do Vélez. A maneira como atua o conjunto fortinero encanta pela eficiência e pela beleza; é como se uma coiosa não pudesse viver sem a outra. Porém, com Heinze a conversa precisa ser séria; proposta não recebe sequer atenção caso ela não envolva um projeto sério para o clube. Ele não assina por uma temporada, recusa-se a aceitar que suas ideias não influenciem o trabalho na base e até dispensa diretor de futebol, caso este não entenda a necessidade de proteção ao elenco na sua luta para se construir e evoluir como equipe. Estamos diante de alguém que entende absolutamente tudo de futebol e com quem a conversa é outra. É comum que jornalistas escutem algumas “verdades” do técnico, quando se mostram despreparados nas entrevistas coletivas e soltam bobagens.  

As ideias na cabeça do “Gringo” são tantas que chocariam a muitos por aqui. No futebolístico, os atletas aprendem a jogar sem a bola, gerar e ocupar espaços. A movimentação é inteligente e muito rápida, quando necessário. Pressão alta é sufocante e está ligada ao extermínio da linha de passes da defesa rival. Alternativa de chutão não alivia, pois se depara com uma recomposição defensiva dinâmica, constantemente orientada pelo técnico nos treinamentos.

Com Heinze, a bola é como se fosse a grande amada da vida de um homem (ou de uma mulher): ela merece cuidado, carinho e trato refinado. Saída do fundo é limpa, com zagueiros construtores, que após atraírem a marcação soltam-na ao trio de meias à frente, gerando superioridade. Um luxo.

Na fase ofensiva, apoio é constante e ocorre às costas do centroavante, que precisa de inteligência para gerar movimentos que distraiam os marcadores e gerem espaços sobretudo para um dos meias. O apoio se qualifica com um dos pontas centralizando e abrindo espaço para um lateral ou meia.

Extrair o melhor de seus jogadores, buscar jovens na base, lançá-los, respeitar e ajudá-los na superação de suas deficiências: poucos nas Américas, hoje, são tão bons nesses quesitos quanto o “Gringo”. Por isso, Heinze é um tipo de técnico que também pode e deve ser chamado de “professor”. Ademais, mostra-se como uma das melhores alternativas para o comando do banco de reservas de uma grande equipe do futebol brasileiro.

ESCREVEU JOZA NOVALIS

Em dezembro de 2019… Flamengo 3 x 1 Al-Hilal

Leia o post original por Mauro Beting

Quando a bola chegava na entrada da área para Zico, circa 1981-82, mais fácil era o árbitro apontar o meio-campo. Seria gol daquele Flamengo. O melhor time que vi no Brasil desde 1972.

Aos 17, quando o Al-Hilal chegou pela quarta vez com perigo em Doha e marcou o primeiro e merecido gol saudita (logo depois de defesa espetacular de Diego Alves e rebote desperdiçado por Gomiz de modo incrível), a sensação foi parecida. Por mais que jogasse o campeão asiático (e não lembro nenhum outro underdog jogando tão bem e tão bonito, mesmo entre os que chegaram à decisão do Mundial), o que parecia ao final do jogo duríssimo daquele assustado Flamengo é que tudo daria certo ao time de melhor futebol neste século entre os brasileiros.

Mesmo com Filipe Luís e Pablo Mari batendo cabeça, mesmo com Arão e Gerson não aportando densidade e intensidade na meiuca, mesmo com os quatro cavaleiros da frente apeados e apagados do que sabem e podem fazer.

A impressão que passava é que daria Flamengo de novo. Como foi no Peru depois de 88 minutos preocupantes e nervosos. Como não foi preciso sofrer tanto no Qatar. Aos 3 já estava tudo igual entre os desiguais. E como este Flamengo: Gabriel na posição de Arrascaeta, que estava na de Bruno Henrique para receber de Arrascaeta na função de Gabriel. Belo gol.

Confuso? Só para os rivais deste time histórico. Daqueles difíceis de torcer contra pela qualidade de seu jogo. E por tudo que dá certo como joga certíssimo.

Aos 12 o ótimo Giovinco do desgastado time saudita merecia o segundo amarelo. Não recebeu. O castigo veio com os cavaleiros da bola redonda do rei Arthur Antunes Coimbra: Rafinha em mais uma grande jornada passando a bola na testa de Bruno Henrique. Virada aos 32. Quatro minutos depois de Diego substituir Gerson.

A ousadia de Jesus premiada em jogo então equilibrado. E com mais um gol na sequência em lance criado por Bruno Henrique para o gol contra saudita.

3 a 1 foi muito pelo que jogou o Al-Hilal e pelo que não conseguiu jogar o Flamengo que concedeu generosos espaços pelos lados e à frente da área.

Mas times históricos são assim. Quando jogam muito dão aula. Quando não jogam, ganham assim mesmo.

A final é outra história. Possível pelo que esse time tem tido cabeça para botar os pés no chão. Coração para os tirar do chão.

Ninguém do elenco do Flamengo falava em Liverpool antes da semifinal. Só os antis.

Agora todos só falam. E têm mesmo de falar muito bem deste Flamengo. E desse bravo Al-Hilal.

Luxemburgo no Palmeiras – parte 5

Eu não teria contratado Felipão em 2018. E teria quebrado a cara. Eu não teria trazido Mano em 2019 (preferia Coudet). E mal deu tempo de saber se iria rolar o que não deu.

Eu não sei quem eu contrataria para o Palmeiras em 2020. Jorge Sampaoli eu tinha dúvidas. E quase que a certeza que teria feito o mesmo que nem foi feito.

Pensei em Garnero do Olimpia. Quem sabe Ramirez do Independiente del Valle. Osorio, talvez.

Luxemburgo eu pensaria em contratar. Para a função de Alexandre Mattos. Não para suceder Mano Menezes.

Foi o plano B de Galiotte. Seria o A de muitos palmeirenses. O B de outros tanto. O C de não poucos. O Z também de muitos. E o “nem pagando” de considerável porção da torcida.

Wanderley era o B quando chegou em abril de 1993 ao Palmeiras. Nelsinho Rosa foi descartado por priorizar o conserto do telhado da casa dele no Rio… Sorte verde: cinco títulos em 20 meses depois de 16 anos de fila.

Foi pro Flamengo em janeiro de 1995 e ainda bem que voltaria rápido em novembro daquele ano para montar time excepcional no primeiro semestre de 1996, campeão paulista com a melhor campanha do profissionalismo.

Em 2002 saiu antes da hora do time que seria rebaixado no BR-02. Em 2008 conquistou com brilho o último Paulista do clube, sendo demitido no BR-09 quando encaminhava boa campanha.

De fato, o último grande trabalho do melhor treinador que vi no Brasil ao lado de Telê Santana.

Técnico, estrategista e manager que merece o respeito que perdeu também ao se perder em algumas declarações e polêmicas tão desnecessárias quanto o desrespeito de seus detratores, tão frágeis quanto seus trabalhos recentes para alguém do nível dele.

Tem gente demais que mais torce contra e distorce o imenso trabalho que fez desde o Bragantino 1989. Culpa não só do nosso desrespeito nosso de cada ano. Também dele que não consegue virar esse jogo.

Um cara que trabalhou um ano no Real Madrid não é um treinador qualquer. Pode não ser o mesmo desde 2009. Mas manter aquele nível é para alguém como… ele. Ainda melhor no que faz do que muitos que não gostam dele porque… Não gostam dele.

Não seria o meu treinador como palmeirense e jornalista para 2020. Mas, desde 1914, só Felipão e Brandão foram tão técnicos no clube.

Merece tudo que ganhou. Não merece tudo que estão querendo tirar dele.

Não sei, e quem tem que saber também não sabe

Leia o post original por Mauro Beting

Assim como a direção palmeirense, eu não sei. Não sei se Sampaoli era o treinador ideal. Não sei se pensaria em novo nome. Se apostaria em algum velho nome vencedor.

Não sei. E tenho inveja de quem sabe.

Sem Mattos, eu queria Thiago Scuro. Ou Gustavo Grossi. Ou Rodrigo Caetano. Ou Diego Cerri.

Sem nenhum deles, eu gostaria de subir João Paulo Sampaio, coordenador da base. Mas será que não a deixaria órfã sem acrescentar tanto ao profissional?

Alex? Evair? Leão? Luxemburgo para essa função? Edu Dracena? Zé Roberto? Paulo Autuori?

Não sei. E tenho admiração por quem sabe o que vai acontecer até o final deste texto.

Anderson Barros é respeitado entre os executivos do futebol. Bom trânsito ente atletas. Perfil baixo, joga em outro time em relação a Mattos. Não sei se é o caso para o Palmeiras.

Porque eu não sei qual é a do Palmeiras. Não sei quanto tem para investir. O que pensa realmente a direção para agora – a não ser a mais do que necessário ascensão da ótima base que vai subir, com todos os cuidados necessários.

Só sei que está atrasado o 2020. Algumas receitas também já não são aquelas. As pressões são aquelas de sempre sobre o clube que de fora para dentro se chama Real Madrid das Américas e de dentro pra fora se expõe como Osasuna de Perdizes.

Não é nem uma grande coisa nem um pequeno caso. É o Palmeiras. Enorme como sua história e seus problemas. Reais ou não. Madrid ou não.

Sampaoli põe em campo um jogo que o palmeirense gosta. Mas o combo é caro. Não só pelo que pedia. Mas pelo que ele se perde em relações intestinas. Ainda mais convulsionadas nas pressões próprias palestinas. Essa parceria PP quase sempre intensa como ele. Nem sempre tão vencedora. Ou mais do que o profe.

Daniel Garnero, argentino do Olimpia? Miguel Angel Ramires, o espanhol do Independiente del Valle? Osorio do Atlético Nacional de Medellín? Beccacece que está encaminhado com o Racing?

A troca de chip é necessária. De “mindset” para ser mais moderno. De elenco, seria ainda mais necessária independente dos títulos que não vieram em 2019. E nem mesmo os vices.

Mas urgente mesmo é agilizar as trocas para que o Palmeiras volte a ser o mesmo.

Em 13 de dezembro de 1981… Flamengo 3 x 0 Liverpool

Leia o post original por Mauro Beting

O texto do livro 1981, escrito por mim e André Rocha

A maior conquista internacional do Flamengo quase não aconteceu por mera questão burocrática: o clube pensou em desistir de jogar em Tóquio. Reclamava à imprensa o vice-presidente Adoniran Araújo: “O empresário inglês que organiza o jogo insiste em fornecer um tipo de passagem que nos obriga a chegar em Tóquio na véspera da partida. Além disso, não nos permite desdobrá-la. Muitos jogadores estão comprando passagens para levar suas mulheres e depois, já de férias, passarem pela Europa ou qualquer outro lugar.”

Mas tudo foi ajeitado. O planejamento para a decisão do torneio intercontinental teve o cuidado condizente com a importância da disputa: viagem na segunda-feira até Los Angeles, permanência nos Estados Unidos até quinta-feira com fuso horário de cinco horas para diminuir o efeito das doze horas de diferença no Japão.

A delegação não contou com Adílio, que casou naquela segunda-feira e só partiu na quarta. Na quinta-feira se juntou ao grupo e rumou para Tóquio. A pedido dos jogadores, Anselmo seguiu com a equipe mesmo suspenso. Assim como as esposas e familiares dos atletas.

A ideia era relaxar um grupo desgastado com tantas decisões. Para o time que se acostumou a entrar em campo praticamente de três em três dias, a preparação de uma semana podia ser mais tranquila. Na quarta-feira, o grupo passeou pela Disneylandia.

Era impossível não pensar no Liverpool, campeão da Liga dos Campeões. Como de praxe, a equipe sul-americana deu maior importância ao confronto. Os Reds foram estudados, ainda que com informações desencontradas: Adílio disse que só temia no Liverpool o Ardiles, jogador do Tottenham…

Carpegiani viu jogos contra Real Madrid e Nottingham Forest e teve o auxílio do observador Jairo dos Santos, que entregou vasto material ao treinador rubro-negro. Ele destacou Clemence, Thompson, Watson, Neil e Dalglish. Mas no detalhamento tático se confundiu:

– Eles jogam num 4-4-2 com falsos pontas. O Souness, que atua pelo lado esquerdo, é o cérebro do time. Atacaremos sempre em duplas e, no meio-campo, vamos revezar-nos para tentar confundir o tipo de marcação deles, que é individual.

O escocês Souness, no Liverpool e na seleção, era um típico meia central britânico, combatendo e atacando. E o “four four two” nunca se baseou na marcação homem a homem, que só persistia na Itália.

Zico garante que os relatórios de Jairo dos Santos deram maior segurança ao time. “Sabíamos muita coisa deles. E eles, pelo visto, não tinham a menor ideia de como jogávamos. Melhor para nós”. Júnior lembrava a vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra em Wembley, gol de Zico, em maio: “São jogadores experientes e com vários jogos pela seleção inglesa. Tanto o goleiro Ray Clemence quanto o lateral Neil e o zagueiro Watson mostraram qualidades naquela partida.”

Carpegiani também estudara bastante: “Quando não sei como joga o adversário, fico angustiado. Não troco meu time em função do rival, mas, algumas vezes, faço minha equipe jogar para explorar as deficiências deles. Foi o que fizemos no Japão”. Júnior sentia a equipe mais segura para o desafio:

– O importante é a experiência que adquirimos nos jogos da Libertadores. O Flamengo se limitara apenas a jogos no Brasil e, agora, estamos mais tarimbados para uma decisão da importância de um título mundial.

Raul pedia atenção de Leandro e Júnior para evitar os cruzamentos sobre a área, os famosos “chuveirinhos”, típicos do futebol britânico da época. O goleiro sofria com dores no nervo ciático e Andrade sentia a virilha. O estado atlético de Adílio também preocupava. Sem contar a previsão de dez graus na capital japonesa no domingo.

No Brasil, a expectativa era gigantesca. Vários bares do Rio de Janeiro se organizaram para receber os torcedores que assistiriam à partida que se iniciaria à meia-noite, horário de Brasília. O domingo começaria atípico na Cidade Maravilhosa. E se tornaria histórico e inesquecível em pouco tempo.

Flamengo 3 x 0 liverpool – Estádio Nacional de Tóquio, 13 de dezembro

Como previsto, Tóquio a dez graus. Um sol de inverno maravilhoso no estádio Nacional para a decisão do Mundial Interclubes. A segunda Copa Toyota, bancada pela montadora japonesa dede 1980, acabando com as rusgas, brigas, baixarias e desistências nas disputas entre sul-americanos e europeus.

Dez. A camisa do craque do Mundial, da Libertadores, do Estadual do Rio, da Gávea, de Quintino. O rei Arthur arrancou da pedra as armas para vencer os ingleses do Liverpool do outro lado do mundo que ficou rubro-negro e verde-amarelo no Japão. Como o estádio também rápido se bandeou para os acordes da charanga do Flamengo, mais animada. E com 11 motivos para tanto.

Raul na meta dando os toques e defesas de experiência. Pelas laterais, quase pontas, Leandro e Júnior, o fino da bola rubro-negra. Para Pelé, o lateral-esquerdo era o melhor jogador no Brasil em 1981. “Ofensivamente se equivale a Nilton Santos, embora seja menos eficiente na marcação”. Mas o Capacete chegava baleado a Tóquio. Ele conta:

– Cheguei com o joelho esquerdo bem prejudicado por uma tendinite. Levei uma pancada do Amauri, do Vasco, mas já vinha com problemas. Na época começava a se falar de acupuntura. Um amigo nosso arrumou um cara, mas que só podia à meia-noite. Ele fez o trabalho, enfiou uma agulha grande no meu joelho e melhorou bastante. Disse que eu podia jogar, deixando claro que no final eu sentiria o desgaste. Comecei o jogo sem aquela sensação incômoda de antes e, como ele disse, fui bem até os 25 do segundo tempo. Com o jogo decidido, ficou mais fácil administrar.

Na zaga, a velocidade de Marinho e a categoria de veterano do jovem Mozer. Na cabeça da área, protegendo mais à esquerda o avanço de Júnior, o volante Andrade, desarmando, e armando com o meia Adílio, que se mexia por todo o campo, ainda que com funções mais defensivas dentro da dinâmica natural da equipe. À frente, o toque de classe e de felicidade tática: Tita começando o jogo pela meia direita, Lico aberto pela esquerda, Zico fazendo tudo mais centralizado, e, do meio para a esquerda, mais à frente, Nunes. O João Danado das decisões.

Os cavaleiros da bola redondíssima do rei Arthur entraram em campo com as mangas compridas pelo frio menor que o esperado. O Liverpool, mais acostumado à temperatura, menos desgastado por estar no meio da temporada. Desde maio preparado para enfrentar o campeão sul-americano, chegou ao Japão um dia antes que a delegação rubro-negra, já exausta pela maratona de decisões. Desde outubro, quando vencera no dia dois o Deportivo, em Cali, o Flamengo atuara 20 vezes. Zico estivera em 19 jogos, e mais um pela Seleção. Era o exemplo e líder dos que atravessaram o planeta para conquistá-lo.

Para o 21o. jogo em 79 dias (a partida 78 em 1981), o Flamengo precisava manter o pique dos últimos sete jogos (seis deles valendo título, seis decisões vencidas na bola e no braço, apesar do bagaço). Era preciso psicologicamente esquecer o estresse e o desgaste. Era proibido falar “cansaço”. A não ser a fadiga de dar uma volta olímpica no Uruguai, em 23 de novembro, e mais uma no Maracanã, em seis de dezembro. Aquecendo as turbinas para a terceira festa em 21 dias. “Um time que está ganhando tudo consegue jogar até mais que 90 minutos”, admitia o preparador físico José Roberto Francalacci, fundamental para a conquista. Andrade vai além:

– A gente tinha prazer em jogar futebol. E como era só descansar e jogar, nós adorávamos [risos]. O Francallaci dava o famoso pijama training, a gente entrava em campo e rendia porque ficava com a bola o tempo todo e cansava menos. E também tínhamos a motivação das vitórias e dos títulos.

Completa Júnior: “Não tinha cansaço. Quando você joga e ganha, quer jogar todo dia. Tomar porrada todo dia é que cansa para caramba! [risos] Esse pique ganhava jogos”. Quase todo o time vermelho do Liverpool estava de mangas curtas. E as calças, pelo visto em 45 minutos, ainda mais. O rosto certamente rubro pelo chocolate tomado na primeira etapa, desde o primeiro toque na bola, autorizado pelo árbitro mexicano Rubio Vásquez, ao meio-dia de Tóquio, dia 13. Zero hora daquele domingo no Rio e no Brasil sem horário de verão. Sem hora para ver pela TV Globo o artilheiro das decisões Nunes dar a saída para o gol à direita das cabines de TV como se o mundo estivesse acabando, e não apenas começando. Zico recebeu e partiu direto para o gol. A tabelinha entre ambos era lance programado pelo time de Carpegiani.

Era preciso marcar terreno e apresentar a carta de intenções, não apenas no primeiro lance. No primeiro minuto, de costas para o ídolo do Liverpool, o meia-atacante escocês Kenny Dalglish, Zico deu um balãozinho no camisa sete dos Reds. A senha estava dada. A sanha pelo gol e pelo espetáculo começava. Mais um minuto e Zico limpava três adversários no meio-campo e iniciava um contragolpe. Procurava o jogo com Tita aberto pela direita. Tita muito mais aquele ponta do Brasileirão de 1980 que o meia do 4-2-3-1 que se ajustara nos últimos jogos. O melhor modo de explorar a fragilidade e a lentidão do lateral-esquerdo irlandês Lawrenson. Hoje um consagrado comentarista na TV inglesa. Então, o desastrado substituto do predestinado lateral Alan Kennedy.

A banda vermelha no Japão

Lawrence chegara em agosto ao Liverpool e era aposta do mítico treinador e manager Bob Paisley. Ex-zagueiro e preparador físico do clube, de 1974 a 1983 dirigiu os Reds. Ganhou seis títulos nacionais, três Copas da Liga inglesa, uma Copa da Uefa, uma Supercopa europeia, e três Ligas dos Campeões (o bicampeonato de 1977 e 1978, e o título de 1981).

Fazia o futebol simples. Direto como seu humor. Definia que o Liverpool era um time compacto. Que não se perdia e, por tabela, ganhava. “Quando as coisas não vão bem, quando parecemos perdidos na neblina, o melhor a fazer é manter o grupo unido, próximo um do outro. Desse modo a gente não fica perdido. É o nosso segredo”.

Mas o sol do Japão e a luz do Flamengo devastaram rapidamente as brumas e deixaram os Paisley Boys órfãos. A começar pelo ausente lateral Kennedy, que estava na reserva. O gol que definiu o título europeu, em 27 de maio, no Parque dos Príncipes, em Paris, foi todo dele. Aos 37, Kennedy bateu um lateral, o zagueiro madridista Sabido se atrapalhou com a bola, Kennedy avançou pela área e bateu forte. Como bateram e apanharam jogadores e a bola nos 90 minutos daquela modorrenta decisão entre Liverpool e Real Madrid. Um jogo amarrado, chato, de pouca técnica, decidido na infelicidade madridista. E num raro ataque de Alan Kennedy.

A festa que se seguiu no estádio de Paris, ao som da já clássica “You’ll Never Walk Alone”, levou o Liverpool a mais uma decisão intercontinental. Ou, no caso, à primeira de fato disputada. Em 1977, o clube se recusou a cruzar o Atlântico para enfrentar o Boca Juniors. Desde o final dos anos 60, incidentes lamentáveis (principalmente em jogos contra clubes argentinos) desmotivaram os nem sempre muito animados europeus na disputa do que para eles era um torneio intercontinental, inferior à Liga dos Campeões. Para os sul-americanos, sempre foi um autêntico Mundial.

O Boca, campeão da Libertadores de 1977, conquistou o mundo vencendo o vice europeu (Borussia Mönchengladbach). Em 1978, a briga foi ainda maior, e o Liverpool, mesmo bi europeu, não participou. Nem o vice do continente. Em 1978, não houve disputa intercontinental de clubes. Retomada apenas em 1979 – e novamente sem o campeão da Europa, o inglês Nottingham Forrest, substituído pelo vice, o sueco Malmö. Só quando a Toyota e os japoneses resolveram bancar a disputa em jogo único, no Japão, em 1980, as pazes foram feitas. Enfim o Liverpool foi disputar um Mundial.

Oito titulares da final da Liga da Europa se repetiram no Japão. Fora Alan Kennedy, mais duas trocas: na meta o titular em Tóquio foi o sul-africano Grobbelaar (que atuava pelo Zimbábue), bom goleiro que obrigara o ídolo Ray Clemence a trocar 11 anos de Liverpool pelo Tottenham. No ataque, David Johnson, o atacante mais à esquerda em Paris, no 4-3-3 montado para vencer o Real Madrid, foi substituído no Japão por Craig Johnston, mais um meia-atacante que um homem de frente. Australiano nascido na África do Sul, ele teve como maior contribuição ao futebol o design e o desenvolvimento da chuteira Predator da Adidas, depois de ele ter pendurado as próprias.

O 4-3-3 que variava para um 4-4-2 armado por Paisley no Japão deixava clara a intenção do manager Paisley: esperar o Flamengo e especular no contragolpe. Confiando na boa fase de Grobbellar, no apoio do bom lateral-direito da Seleção Inglesa Neal, na solidez pelo alto dos entrosados zagueiros Thompson e Hansen, e, vá lá, na capacidade de marcação de Lawrenson.

No meio-campo, o melhor do Liverpool. “Eles tinham um ótimo time. Principalmente no meio”, diz Zico. McDermott, Souness (escocês) e Ray Kennedy faziam de tudo um pouco. E muito bem. Marcavam como se fossem volantes, e sabiam organizar como meio-campistas de área a área. Difícil precisar a posição real deles. Movimentavam-se e finalizavam com qualidade. Dando suporte ao ótimo Dalglish, e aos esforçados homens de frente Lee e Johnston. A movimentação da turma de frente fazia o 4-3-3 de Paris virar um 4-4-2 em Tóquio. Lee fechava à esquerda, com Mc Dermott mais aberto à direita para travar Júnior. Eventualmente, Lee caía pela direita, com Dalglish ou Johnson abrindo pela esquerda.

Na Inglaterra, o Liverpool, de 1975 (quando foi vice do Derby County) até 1984, só não foi campeão em 1978 e 1981. E só nesse ano não foi vice. Era um time competitivo. Muito bom. Dele falava Pelé: “O Liverpool está em ótima fase, marca muito bem, tem condicionamento físico melhor que o do Cobreloa e sempre dificulta os adversários.” Um time objetivo como a máxima de Bob Paisley: “Se você está na grande área rival e não sabe o que fazer com a bola, coloque-a na rede e, depois, a gente discute as opções”.

Mas não havia como argumentar contra o Flamengo daqueles anos.

Saída pela direita

O jogo era com Tita. Pela direita. Bem aberto para cima e às costas de Lawrenson. Aproveitando-se da defesa adiantada, em linha, e pesada demais para a velocidade e talento rubro-negro. Não era só a zaga que tinha dificuldade para marcar. O meio-campo também se arrastava e chegava à meta carioca apenas de longe. O bigodudo Souness arriscou de canhota, ainda mais longe da meta de Raul (aquecido pela calça comprida preta). O escocês aproveitou para testar a arbitragem no minuto seguinte, aos 4, quando levantou Lico com uma falta para cartão que passou batido.

Nunes não queria passar em branco. A partir do comando de ataque, abrindo mais à esquerda, começava a fazer seu jogo. Até pela direita, para cima de Lawrenson, armou belo lance. Adílio chegava mais pelo setor, e tentou o seu gol, de canhota, aos cinco. O Flamengo jogava mais. Procurava mais o gol. Mexia-se mais. E voltava todo sem a bola. Compactava e não deixava espaço para o lento Liverpool. “Sabíamos jogar agrupados”, explica Andrade:

– Com a bola, nossos gols saíam naturalmente. O problema é que quando atuávamos mais fechados, o Nunes, às vezes, não conseguia manter a bola na frente e o resto do time demorava a se aproximar. Mas, no Japão, estávamos muito bem posicionados e resolvemos tudo no contra-ataque, com bolas longas para o Nunes.

Carpegiani comenta a compactação defensiva:

– Eu era um treinador jovem, ainda garoto, sem experiência. Mas desde então treinava muito duas situações. Uma era simples: o overlapping. Tínhamos muitas jogadas pelos flancos. Desde quando Chiquinho e Baroninho eram os pontas. Sempre gostei de ponteiros. Mas, naquele Flamengo, era melhor atuar com Tita e Lico. Eles faziam múltiplas funções. A outra situação que eu trabalhava muito era a compactação. É muito difícil você acertar isso numa equipe. Sem a bola, todos atrás dela. Não é fácil recompor rapidamente. Trabalhamos muito nisso. Não admito que os zagueiros rivais tenham liberdade para sair jogando. Insistia muito com o Nunes. Até que acertamos e dávamos pouco espaço para os adversários saírem jogando. O Nunes forçava os zagueiros deles a lateralizarem o jogo. Desse modo, fazíamos o pressing, a pressão na saída deles. Deu muito certo.

O Flamengo marcava atentamente com todos os dez de linha. Uma vez recuperada a bola, era a equipe que sabia o que fazer com ela. Time mais veloz, com mais opções, mais vivo em campo. Ainda que a bola começasse a não chegar a Nunes, ainda que Zico não aproveitasse o espaço criado pelo goleador. Aos 11 minutos, parecia que Nunes teria de recuar um pouco mais. Os passes começavam a sair errados. Até Zico receber no grande círculo e girar rápido para o camisa nove. O zagueiro Thompson interceptou o lance, além da intermediária. Desta vez, não teve jogo. Mas, um minuto e 50 segundos depois, a história seria outra. Antológica. Relembrando aquele lance. E, por que não, o início da epopeia, no primeiro gol de Nunes contra o Atlético Mineiro, na decisão de 1980, no Rio.

12min25s. Nunes. 1 a 0

Quantos gols os geraldinos do Maracanã mais sentiram que viram, mais ouviram que enxergaram, mais vibraram que entenderam no fosso com fundo do maior do mundo? Quantos gols do Flamengo teve gente pelo Brasil que só ouviu pelo rádio, só soube depois pela TV, só sacou quando viu gente que não se conta berrando pelas ruas, pelas casas, pelos bares?

Os geraldinos que não estiveram entre os muitos que foram ao Japão ou que eram Flamengo no Japão, em dezembro de 1981, puderam ver ao vivo via satélite o que quase nunca conseguiam ver no maior estádio do mundo. Um belo gol em cores. O Flamengo como o maior do mundo do outro lado do planeta. Começando com o passe que, desta vez, Zico dominou e lançou às costas descobertas de Thompson. O Brasil ligado como nunca numa madrugada de domingo pela TV recebeu a bola junto com Nunes, pela esquerda. Ele tocou de calcanhar para Mozer achar Zico, e o craque encontrar o camisa nove. Thompson subiu e não achou a bola limpa para Nunes avançar e, na saída de Grobbelaar, dar um toque de pé direito, cruzado, para morrer na meta da trave branca com a sombra preta retangular projetada no gramado. O uniforme todo vermelho do Liverpool completava a aquarela rubro-negra.

“Decisão é comigo”, dizia Nunes, ainda no intervalo. Já havia dito para sempre o rubro-negro, na final do primeiro título nacional, em 1980. Voltaria a dizer meses depois, em Porto Alegre, vencendo o Grêmio e o Brasileirão de 1982. Tanto eram com Nunes os lances de gol que, sem olhar, aquele time entrosado sempre buscava o artilheiro e desafogo.

Não era só o Flamengo e as bolas nas decisões que procuravam o João Danado do Nunes. Aos 17, ele buscou um lindo lance pela direita. Levando dois do Liverpool e, de vez, a torcida japonesa que ainda estivesse neutra. O jogo ainda não estava ganho. Mas o estádio, sim. Até as placas de publicidade, com anúncios da companhia aérea Varig e dos violões Di Giorgio, eram mais brasileiras que ingleses. Diz Júnior: “Ainda em Los Angeles nos reunimos para planejar o melhor jeito de ganhar a torcida japonesa. Chegamos à conclusão rapidamente: era só jogar bem como fazíamos”.

O Liverpool resolvera atacar, explorando as costas de Júnior, encostando Dalglish (quase um centroavante) no atacante pela direita Lee. Mas além da muralha visível de Andrade, também o garoto Mozer limpava a área com notável velocidade, qualidade e tarimba para tão pouca idade. Ao lado do eficiente Marinho, em boa fase, faziam uma zaga muito rápida.

Mas o time abusava. Aos 20, Leandro desarmou um ataque dentro da pequena área e saiu jogando, sem o chutão que 101% dos zagueiros dariam naquela situação. A bola chegou a Júnior, que também abusou, e saiu driblando com a bola na entrada da área, logo perdida, porém desperdiçada pelo time inglês. Soberba? Arrogância?

Talvez autosuficiência além do recomendado. Mas se havia um time que sabia e podia sair jogando em qualquer lugar era esse Flamengo que entrava jogando em qualquer área. No lance seguinte, tabelinha entre Adílio e Zico provava a tese. Mostrando que só as equipes de exceção conseguem reunir uma seleção que pode tramar lances pelo meio, sem embolar o jogo. O caminho não é só pelas extremas. Tem como encantar sem encanar o time. Tem como se livrar dos rivais abrindo boqueirões no meio-campo e torcedores boquiabertos nas arquibancadas.

Mas era preciso fechar o lado esquerdo. Júnior estava no sacrifício. O joelho esquerdo doía desde a trilogia contra o Vasco. Uma pancada feia de McDermott, aos 23, piorou o quadro. Logo depois, Neal avançou pelo setor e cruzou para Johnston dominar entre Leandro, Marinho, Lico e Mozer e mandar à direita de Raul. Era o primeiro lance perigoso dos vermelhos ingleses. Sinal amarelo no Flamengo, que recuara demais, e aceitava a pressão inglesa. Os quatro do Liverpool (não aqueles dos anos 60…) adiantavam a linha de zaga quase no meio-campo – deixaram Zico impedido quase no grande círculo. Havia como explorar o contra-ataque. Mas até o Galinho prendia demais a bola.

O Liverpool começava a mandar em campo. Não era time inglês de anedota, daqueles que faziam os gramados britânicos perfeitos porque a bola por eles não passavam. Não era um time de quermesse, de só jogar com balões. Botava a bola no chão. Só explorava os lançamentos às costas de Leandro e Júnior. Para levantar a bola na área rubro-negra, um dos poucos problemas daquela equipe. Explica Andrade: “O Carpegiani escalou o Marinho, e não o Figueiredo, porque ele era mais alto. Melhor no jogo aéreo”.

A consciência tática rubro-negra era louvável. Nunes, aos 29, fez a cobertura de Júnior e salvou um perigoso contragolpe inglês. Lico, como sempre, corria por todos. Zico e Adílio tentavam tocar a bola e tirar a velocidade da partida. Especulavam na forte bola parada rubro-negra. Também nos escanteios. Aos 31, Tita bateu da direita uma bola no bico da grande área, na esquerda, para Júnior emendar um sem-pulo espetacular de direita, que passou perto da trave inglesa. O estádio aplaudiu. O Flamengo voltara ao ataque e ao jogo. Júnior retornou para a sua posição mancando, no sacrifício. Na raça.

Dois minutos depois, Zico lançou Tita que entrou em diagonal e ganhou de presente uma porrada de McDermott no tornozelo. Falta para cartão amarelo não mostrado. Falta desnecessária, até porque Tita já havia devolvido a bola a Zico. Não havia justificativa. Os ingleses sabiam que brasileiros batiam faltas como raros. McDermott, mais ainda. Ele e Neal fizeram parte do English Team vencido pelo Brasil de Telê, em maio daquele ano, em Wembley. A primeira derrota da Inglaterra em casa para um sul-americano. Um golaço de Zico.

A falta era distante para o Galinho. Mas o mundo estava cada vez mais próximo da Gávea.

33min51s. Adílio. 2 a 0.

Zico ajeitou a bola na meia direita. O árbitro mexicano pediu para não bater antes do apito. Apenas quatro faziam a barreira inglesa. Grobbelaar deixava a visão livre. Mas o ângulo, também. Nunes fazia o quinto homem da barreira, na frente do goleiro. Era a mira do Galinho. Zico bateu forte. Para fazer o gol. Ou para a bola quicar na frente de Grobbelaar. O goleiro não conseguiu segurar o chute que explodiu no peito. A bola sobrou na esquerda do ataque. Lico e Adílio acreditaram no rebote. Thompson e Hansen formaram a tropa de choque inglesa. Lico chegou antes e bateu pro gol. Grobbelaar, desta vez, foi bem. Mas, no novo rebote, no bico da pequena área, Adílio esticou o pé direito. A bola bateu no corpo de Thompson e na rede lateral da meta do Liverpool. Lance confuso. Mas legal. Dois a zero.

Daqueles gols em que se pula antes da cobrança de falta. Afinal, era Zico em final. Mesmo que longe, algo ele poderia fazer. Pouco fez o Liverpool, porque na raça chegaram Lico e Adílio. Naquele lance que, na hora, quase ninguém consegue ver direito pela emoção e pela confusão, o gol foi validado. A bola nem precisou chegar ao fundo da rede. Adílio saiu para o abraço, e para os beijos mandados para a mulher Rose, presente no estádio.

O Liverpool sentiu o golpe. Aos 35, Zico e Tita fizeram lindo lance pela direita até o camisa sete isolar a bola. No estádio, o grito de “Meeeengooooo, Meeeengoooo” tomava a arquibancada. Nem o bom lance de McDermott pela direita, que exigiu boa defesa de Raul perturbou. O goleiro nem sujou o uniforme. Bem colocado, apenas jogou para escanteio uma bola que muitos companheiros de posição adorariam pular como pipoca só para aparecer bem na foto.

Raul não precisava. Só o Flamengo poderia evitar se expor tanto. A jogada nascera de uma tirada de calcanhar de Andrade. Não era o caso, como não seria, logo depois, um lençol de Mozer dentro da área, que daria num passe errado e num lance perigoso. Era apenas firula. Diferente de Zico, que aos 38 chapelou Neal, na intermediária. Mas como recurso para iniciar um contragolpe. Mais um que, logo depois, fecharia o placar.

40min47s. Nunes. 3 a 0

Adílio carregou pela direita e achou Zico, na intermediária, cercado por cinco rivais. Mas nenhum colado nele. Craque é assim. Desmarca-se. Mas o Liverpool também deu mole. Zico recebeu atrás dos volantes e já lançou às costas do lateral Lawrenson, que vinha se mandando mais ao ataque. Não era Tita quem estava por ali. Mas, como sempre, o danado do Nunes.

Ele passou como quis por Lawrenson e pelo zagueiro-esquerdo Hansen e bateu cruzado na saída de Grobbelaar. Na celebração, parou em cima da linha lateral direita com os braços erguidos. Parecia ser o limite entre aquele time e a nação do lado de fora do campo. Uma linha tênue que já celebrava com mais de 45 minutos de antecipação a maior vitória da história da Toyota Cup em apenas um tempo de jogo. Primeira etapa que tinha de terminar com a bola aos pés de Nunes, no momento em que o árbitro mexicano apitou.

Seria muito difícil o Liverpool virar. Por mais que, em 2005, na final da Liga dos Campeões, contra o Milan, em Istambul, os Reds conseguissem tal proeza, em Tóquio a história parecia escrita. E devidamente fotografada até pelos atletas. O atacante Anselmo foi flagrado com máquina fotográfica na segunda etapa. Não havia como dar errado. Nos 45 minutos iniciais, o Flamengo tivera cinco chances de gol contra o campeão europeu. Fizera três. Bastaria manter o desempenho para festejar mais uma vez. Para Andrade, “o jogo ficou fácil porque fizemos os gols nos momentos exatos, quando o Liverpool esboçava uma reação. Eles entraram de terno, com toda aquela pose e nós de agasalho e tocando samba. Para nós era tudo festa, até as turistas fazendo topless na piscina do hotel [risos]”.

A última etapa

Enquanto Nunes corria atrás do goleiro inglês e não o deixava repor a bola, como costumava fazer sem ser importunado pela arbitragem, o atacante Johnston tentava passá-la e batia de canela para lateral, aos 4 minutos. No lance seguinte, Adílio desarmou um rival tirando a bola de dentro da área com a parte externa do pé.

Não era só um chocolate brasileiro. Era um show. Até Zico exagerava. Perdeu uma bola depois de dar um chapéu para trás em Ray Kennedy que Johnston aproveitou e só não diminuiu porque Raul defendeu sem dar rebote. Zico e Tita faziam solos de futebol. Driblando rivais e fazendo o tempo passar rápido como a bola que jogavam. Bob Paisley tentou jogar o time ao ataque. Aos 7, sacou o nervoso McDermott e escalou mais um homem de área (Johnson, de pouca técnica), e recuou um pouco Johnston.

Mas era o Flamengo quem fazia bonito. Aos 9, Júnior escapou pela esquerda como se fosse um ponta, passou por dois e recuou para o volante Andrade chegar como se fosse um meia e emendar com a parte externa do pé direito, cheia de efeito, para Grobbelaar fazer difícil defesa para escanteio.

O Liverpool até jogava um pouco mais. Mas como vencer um time que tem o artilheiro ajudando Leandro a marcar pela lateral direita? Nunes dava combate atrás e fazia um bloco compacto e bem articulado, com admirável preparo físico. “Em condições físicas ideais, o Flamengo não perde para time algum do mundo”, previra João Saldanha, dias antes, no “Jornal do Brasil”. Quando passava algo, Raul não deixava o mal acontecer.

Aos 15, Johnson só não fez o gol de honra porque o veterano goleiro não deixou. Um minuto depois, uma obra de arte rubro-negra. Tão especial que, involuntariamente, foi captada por uma câmera num helicóptero pela TV japonesa. Daquelas raras felicidades de um time que deixava quem gosta de futebol feliz: Raul bateu um tiro de meta de canhota buscando Tita na intermediária, rente à lateral direita. Ele tocou de taquito para Zico arrancar por dentro e rolar para Lico, no comando de ataque. O camisa 11 serviu de calcanhar para Adílio lançar de primeira Júnior, chegando pela ponta esquerda. O camisa cinco cortou por dentro um adversário e, rolou para Adílio para bater cruzado, de canhota. Em 15 segundos, desde o tiro de meta de Raul, um lance que valeu pelos regulamentares 45 minutos finais. Jogados apenas para o estádio aplaudir essa jogada que melhor define o Flamengo. Um time de troca de bolas e de funções com a naturalidade dos gigantes que se sabem grandes.

Contagem regressiva

Aos 17, Mozer tentou animar o jogo, entrando num carrinho violento e perigoso com os dois pés em Souness. O juizinho, como praxe naquela época, fingiu que não era com ele. Nem amarelo mostrou quando o vermelho seria pouco. O Flamengo começava a jogar duro e até feio, o que parecia heresia para aquele time. Aos 20, Leandro deu um bicão na bola que deve ter estranhado ser tratada daquele jeito por um dos maiores laterais de nossa história. Mas era o cansaço começando a aparecer.

O talento compensava tudo. Aos 26, de calcanhar, Zico iniciou sensacional ataque de Adílio com Nunes, que só não ampliou pela bela defesa do goleiro rival. O jogo era mais aberto. Mesmo com Mozer fechando tudo atrás, de um jeito ou mesmo sem muito jeito. Aos 36, por exemplo, saiu jogando dentro da área depois de desarmar um rival matando a bola no peito. No contragolpe, Grobbellar salvou gol certo de Tita, completando lançamento de Adílio. Carpegiani não precisava mudar. O Flamengo mandava em campo e sobrava, ainda que ameaçado.

Tanto que o grito de “é campeão” só tomou conta do estádio de Tóquio a partir dos 42 minutos, quando a equipe assumiu de vez o espetáculo e começou a fazer (ainda mais) lances de efeito. Efeito especialíssimo. Pena que a arbitragem enxergou impedimento numa arrancada de Zico, lançado por Tita. O Galinho não gostou. Para ele, o jogo parecia estar sem gols. E, pela TV, a impressão era que a posição era boa. E, mesmo se não fosse, os deuses da bola torciam por um gol de Zico. Coroando uma das mais espetaculares atuações de um jogador numa decisão de Mundial.

Ele não fez gol. E não precisou. No mais, fez tudo. Dos passes para os gols de Nunes, da falta que originou o gol de Adílio, dos grandes e tantos momentos do Flamengo em Tóquio, Zico esteve em quase todos, como pareceu estar desde a fundação do clube, em 1895. Chapelou, driblou, fintou, cobrou, correu, marcou, bateu, apanhou, comandou. Flamengou.

Aos 46min23s, Ray Kenneddy foi obrigado pelo árbitro mexicano a jogar a bola nas mãos dele para terminar o espetáculo. Braços erguidos do mexicano, rubro-negros alçados pelo Brasil e pelo mundo que agora, definitivamente, era Flamengo.

Não há rubro-negro que não lembre. E havia um flamenguista que parecia saber que aquilo era tão natural quanto aquele time vencer um jogo. Ou, nos últimos 21 dias, ganhar o terceiro título seguido. Zico saiu andando e sorrindo tranquilo pelo gramado que se transformara num campinho de quintal em Quintino.

Adílio era outro que parecia sair de um treino. Não do momento em que entrava para a história do futebol. Júnior, porém, pulava sobre os companheiros. Parecia o mais feliz. Parecia o único que sabia o tamanho daquilo tudo e daqueles todos em Tóquio. Parecia também porque, na clássica definição, aquela era a segunda pele dele e de tantos que estavam aos prantos. Aquele era o Leovegildo que mais jogou pelo clube mais querido do Brasil. E, agora, do mundo.

Os jogadores correram para o lado esquerdo do campo onde marcaram os três gols. Lá estavam muitas bandeiras rubro-negras e duas brasileiras. Rapidamente tiveram de voltar para o centro do gramado, para a solenidade protocolar. No centro do gramado, o capitão Zico recebeu a Taça Intercontinental, olhou para cima, sorriu e a ergueu. Deu a Raul que a beijou. Mozer e Leandro fizeram o mesmo. Enquanto os demais jogadores e integrantes da delegação a abraçavam e beijavam, Zico levantou a Copa Toyota. Humilde e companheiro, rapidamente a passou para Raul. O goleiro a entregou a Leandro que, distraído, não a segurou com firmeza. O suficiente para que ela pendesse e acertasse a testa de Mozer, que levou um susto, além da dor que passou rápido, como as duas taças correram pelas mãos de todos, que tremiam de emoção e do frio que apertava com o vento que fazia tremular logo atrás uma bandeira do Flamengo. Quase um sinônimo para Zico.

Os campeões recebiam as medalhas dos organizadores não muito organizados. Em vez de as colocarem em volta do pescoço dos flamenguistas, os japoneses se limitavam a dar os objetos dourados nas mãos dos atletas, que então as colocavam sobre o peito. Por fim, a entrega dos prêmios para os melhores jogadores em campo. Um Toyota Celica vermelho e um Toyota Carina branco. Os jogadores tinham decidido que, se algum deles ganhasse os carros, pediria o valor correspondente e o dinheiro seria dividido entre todos. Como o interesse da montadora era ter os carros no Rio – foram entregues com todas as despesas de frete e taxas alfandegárias pagas pela Toyota -, Zico e Nunes se dispuseram a ficar com eles, doando o dinheiro para a caixinha dos jogadores. O de Zico valia quase um milhão de cruzeiros. Ele recebeu o chavão simbólico e cumprimentou todos os que o ajudaram a ser o maior em campo. Até hoje guarda o veículo em casa.

A volta olímpica foi ao som da charanga do Flamengo e do samba brasileiro. Ainda no gramado, para a TV Globo, os campeões foram objetivos. Para Zico, “nada paga esta alegria. Tudo isso nos gratifica na profissão que escolhemos. Procuramos a vitória desde o início e o Flamengo jogou muito bem.

Também pelo respeito ao rival. “Sempre soubemos que o outro time era muito bom. Sempre o respeitamos”, disse Nunes. “Mas eu acreditava demais no nosso time e também no meu futebol. No dia em que me mandaram embora do Flamengo, quando eu ainda era um menino, saí certo de que um dia voltaria. Mas não imaginava que ganharia tudo isso”.

O zagueiro vencido Thompson só tinnha elogios: “O Flamengo deu o ritmo do jogo. Eles jogaram muito bem. Mas o campo nos prejudicou um pouco”. Menos que o Flamengo, claro. Jogou muito, e pouco deixou o rival jogar. “Só precisei bater tiro de meta. Os nossos zagueiros jogaram demais”, exagerou Raul.

Bob Paisley definiu melhor o que aconteceu em campo: “Enquanto um jogador nosso precisava tocar na bola três vezes para iniciar uma jogada, eles tocaram de primeira. Assim fica muito difícil a marcação. Meu time parecia morto, física e psicologicamente. Não tenho desculpa nenhuma para apresentar”

Antonio Dunshee de Abranches, presidente do clube, prosseguiu com o discurso jactante de seu antecessor, Márcio Braga. “O Flamengo é muito melhor que esse Liverpool”. Arrogante, sim. Mas também realista. No dia seguinte, o Flamengo embarcou para o Brasil. Nas palavras de Júnior, “trazendo um presente de Natal especial para o torcedor rubro-negro”. “Foi o título mais importante do Flamengo, mas não o jogo da minha vida, porque não teve a emoção da torcida”, disse Zico.

João Saldanha:

– Imaginei que o Flamengo estava no bagaço. Mas o entendimento e conjunto do time, a solidariedade dos jogadores entre si, e a calma da direção fizeram o Flamengo superar tudo isto e conquistar este título inédito, de campeão em três frentes simultâneas. É uma honra do futebol brasileiro que os clubismos e regionalismos mesquinhos não podem empanar o brilho.

Júnior, anos depois:

– Aquele primeiro tempo contra o Liverpool foi acima da média. Eles não conheciam a gente. Na hora achei que eles tinham nos menosprezado antes da partida, mas depois que eu fui para a Europa entendi que aquela era a postura deles mesmo. Imagine na cabeça deles ver o adversário de agasalho tocando samba antes de um jogo importante! Eles passaram rindo. E na hora serviu como um gancho para a gente crescer. A gente sabia como eles jogavam. O Zico ficou às costas da linha de quatro no meio só lançando bolas para o Nunes nas diagonais.

Para Carpegiani, campeão do Rio, da América e do mundo com menos de seis meses como treinador, o “mérito foi todo dos atletas”. E como ele foi atleta do Flamengo até setembro, nada mais justo. Mas ele era o menos feliz entre os multicampeões. Trinta anos depois ele explica o motivo:

– Nosso primeiro tempo em Tóquio foi de guardar e mostrar em academia de futebol. Mas o segundo tempo foi outra história, eles criaram mais chances. Terminou o jogo, a festa, estava entrando no vestiário de cabeça baixa, meio que irritado. Gurizão, eu só queria a perfeição no meu time. O Raul vinha atrás e percebeu que eu não estava satisfeito. Ele perguntou o que tinha acontecido e respondi ao meu goleiro: “Velho, jogamos um mau segundo tempo, não gostei”. Daí ele me parou e falou algo que não esqueço: “Paulo, o que a gente conseguiu hoje pode ser uma vez na vida. Pode ser que você nunca mais volte a disputar um Mundial! Valoriza isso, rapaz!” Hoje, trinta anos depois, vejo que o Raul tinha razão. A dificuldade para ser campeão mundial é enorme. Mas admito meu grande defeito: sou perfeccionista. Quero tudo. Sou exigente ao extremo. Crio problemas para mim e, às vezes, também para o meu time por conta disso. Mas eu quero ter sempre esse defeito.

No Rio de Janeiro, fogos, carreatas, clima de réveillon. A melhor equipe do clube mais popular do estado e do país se tornava também a maior, a mais vencedora. Histórica.

Mas ainda com sede de conquistas. Perfeccionista. Praticamente perfeita.

Salomé é celeste na semana infernal do Cruzeiro

Leia o post original por Mauro Beting

“Se o Cruzeiro cair, meu coração não aguenta”. Palavras da Dona Salomé à amiga Loly, que a acompanhava aos jogos e treinos e tudo mais do Cruzeiro, como contou Talyta Vespa, do UOL.

Ela passou mal no domingo, no Mineirão. Foi ao hospital. Na madrugada de terça partiu. Passou a segunda inteira firme. Lutando com a mesma força de sempre. A alegria que não se podia ver e ela sempre mostrava como funcionária do clube por 45 anos.

Aos 86 anos ela ainda limpava o Cruzeiro do coração que a levou, de vassoura na mão e sorriso no rosto. Tentando faxinar quem não merece nem o balde marrom do lixo orgânico. Tentando deixar organizado o que badernaram nas finanças e o que macularam não história.

Salomé não gostava só do time. Torcia mesmo pelo clube. Vôlei. O que tivesse Cruzeiro, ela estava lá. Como estará na Segundona em alma. Com a mesma que muitos remunerados não tiveram no BR-19. Deixaram cair. Ruíram juntos.

Salomé não merecia cair. Não podia partir na segunda. Bravamente resistiu até o dia seguinte para virar ainda mais celestial. Exemplo do que será o 2020 azul. Resistência. Resiliência. Para voltar a ser o que é. E que poucos foram mais do que ela.

Esse amor não se apaga. Essa gente que pague o muito que deve e deixou devendo.

Salomé não é só símbolo da torcida. É dessa gente de valor dos clubes que são pagas mas que pagariam para ser o que são. Dessa gente que precisa se multiplicar como ela. Para varrer a sujeira que levou a esse ponto.