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10 anos da Batalha dos Aflitos

Leia o post original por Mauro Beting

ESCREVE DANIEL BARUD — @BarudDaniel

Sábado, 26 de Novembro de 2005. 16 horas. Estádio Eládio de Barros Carvalho, mais conhecido como Aflitos.

Ali se decidiria uma das vagas para a Série A de 2006. O Náutico enfrentava o Grêmio. Relembrando: O regulamento da Série B daquele ano, a última antes do atual sistema de pontos corridos, tinha três fases: A primeira, com 22 equipes, onde as oito primeiras classificariam para a segunda fase e os últimos seriam rebaixados. Na segunda fase, os oito melhores se agrupariam em dois grupos com quatro equipes em cada e os dois melhores iriam a terceira e última fase.

A fase final reuniu Grêmio, Santa Cruz, Náutico e Portuguesa. Antes da derradeira rodada, o Grêmio liderava com 9 pontos, seguido de Santa Cruz (7 pontos), Náutico (6 pontos) e Portuguesa (5 pontos). Portanto, para o Grêmio, bastava um empate em Pernambuco para conseguir o acesso. Só a vitória dava o acesso para o Náutico. No outro jogo, ali perto, no estádio do Arruda, o Santa Cruz enfrentava a Portuguesa.

Antes mesmo da partida começar, o clima não era dos melhores. Dirigentes, torcedores e jogadores da equipe gremista tiveram dificuldades para entrar no estádio. Os atletas da equipe gaúcha tiveram que entrar em um pequeno vestiário, com porta fechada, impedido acesso ao gramado para o aquecimento. Já a torcida foi forçada a entrar no estádio passando pela torcida pernambucana. O clima não era bom!

Abarrotado de torcedores do Timbu, os Aflitos virou um verdadeiro caldeirão!

O primeiro tempo foi de muita disputa, nervosismo, entradas ríspidas e reclamações constantes ao árbitro Djalma Beltrame. Como já era previsto, o Náutico começou a partida indo para cima, atacando bastante, sufocando e tentando encurralar o Grêmio, pois precisava da vitória. Entretanto, a equipe pernambucana esbarrava na defessa gaúcha, que, bem posicionada, não deixou os pernambucanos criarem grandes oportunidades nos minutos iniciais. Enquanto isso, o Grêmio ocupava os espaços, fechando os setores e buscava o contra-ataque, com as jogadas em velocidade, principalmente com Ricardinho, além das jogadas aéreas, com os zagueiros Pereira e Domingos e com o atacante uruguaio Lipatin.

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Escalação e disposição tática das equipes para a etapa inicial!

Roberto Cavalo escalou o Náutico no 4-3-1-2, apostando na pressão do acanhado estádio e nas duplas Bruno Carvalho/David, pelo flanco direito e Ademar e Cleisson pelo flanco esquerdo. Na armação, Danilo ditava o ritmo das jogadas ofensivas pernambucanas. Paulo Matos e Kuki se movimentavam na frente, tentando abrir espaços para infiltração.

Mano Menezes levou a campo sua equipe no tradicional 4-4-2, com Sandro Goiano e Nunes fixados a frente da defesa, dando proteção ao sistema defensivo gaúcho. Marcelo Costa e Marcel também recompunham na marcação, para ocupar o campo defensivo, negando os espaços para os pernambucanos. Ricardinho era a opção da saída rápida em velocidade e o uruguaio Lipatin era a referência no ataque.

Ainda na primeira etapa, deu tempo de aos 31’min, sair a primeira confusão. Paulo Matos recebeu cruzamento da direita de Kuki, dominou, ajeitou e foi empurrado por Domingos. Pênalti infantil que o árbitro carioca Djalma Beltrame marcou. A equipe gremista reclamou, mas o juiz não mudou de ideia. Entretanto, Bruno Carvalho cobrou e acertou a trave! Gallatto ainda salvou o Grêmio em jogadas de Kuki, Paulo Matos e David no primeiro tempo.

O primeiro tempo terminou, mas a tensão continuava.

O segundo tempo não começou diferente. Com o Náutico sufocando, pressionando o Grêmio, criando chances com Kuki e Paulo Matos, em bolas aéreas, com boas defesas de Gallatto. Lucas Levai entrou no lugar de Ricardinho, que saiu lesionado, no intervalo. Anderson, meia que estava vendido para o Porto e faria sua ultima partida como atleta do Grêmio, foi a aposta de Mano Menezes para definir a partida e entrou no lugar de Marcel.

Roberto Cavalo também mexeu. Precisando da vitória, o técnico da equipe pernambucana colocou Miltinho no lugar de Bruno Carvalho, fazendo com que David se deslocasse para a ala direita e Tozo virar terceiro zagueiro.

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Disposição das equipes para a etapa final! Decisão e muita confusão!!

O jogo era pegado. Com o Náutico insistindo na pressão, no abafa e o Grêmio se salvando como podia e atacando pouco, não como deveria.

Até que, aos 26’min, bate rebate na entrada da grande área gaúcha e a bola sobra para Kuki, que, bate firme, mas por cima do gol de Gallatto e perde a chance de abrir o placar nos Alfitos para o Timbu. A tensão aumentou quando, Escalona tocou com o braço esquerdo na bola, aos 30’min do segundo tempo, ocasionando a primeira expulsão do jogo, após levar o segundo amarelo. Dois minutos depois, Miltinho levou amarelo por simular um possível pênalti, após Gallatto derrubar o jogador da equipe mandante.

A confusão começou aos 35 da etapa final. Djalma Beltrame assinalou pênalti para o Timbu, após a bola tocar no cotovelo de Nunes. Os gremistas se revoltaram e foram para cima do árbitro. Confusão generalizada. Tumulto total. Juiz sendo empurrado, expulsões e até a polícia precisou entrar no gramado para acalmar os ânimos. Patrício e Nunes foram expulsos.

A confusão começou..

Dirigentes gaúchos ameaçaram tirar o time de campo em várias oportunidades e, tentar anular a partida no tribunal. Depois de mais de 25 minutos, Paulo Odone, então presidente do clube, pediu que Gallatto e sua equipe voltassem para o jogo e com os ânimos mais calmos, se acalmaram e os sete gremistas voltaram as suas posições. Equanto isso, o Santa Cruz já comemorava o acesso no Arruda e só não sabia se seria campeão ou vice da Série B daquele ano.

Ademar foi o encarregado de cobrar o penal decisivo. Gallatto estava no centro do gol. Kuki, que deveria ser o cobrador, não vivia boa fase em cobranças na marca da cal, por isso não cobrou.

Gallatto reza. Ora. Era a hora! Era o futuro do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense que estava em jogo!

E, aos 59 minutos, Djalma Beltrame autorizou Ademar para a cobrança. O lateral esquerdo foi para a cobrança com a perna esquerda e chutou. Gallato caiu para o canto esquerdo e salvou com a perna direita, tirando a bola para a linha de fundo. Kuki desabou no gramado.

Ademar cobrou! E Gallatto salvou!!! Épico!!! Histórico!!!

Na sequencia do lance, na cobrança de escanteio pernambucana, Pereira tirou de cabeça e a bola caiu no pé de Anderson. O jovem meia, vendido para o Porto, arrancou pelo flanco esquerdo e sofreu falta de Batata, que acabou expulso. Mano Menezes pediu para Anderson ficar caído, gastando e ganhando tempo. Mas o jovem meia queria jogo. Marcelo Costa cobrou rápido a falta para Anderson, que foi em velocidade, entrou na grande área e tocou na saída de Rodolpho! Gol do Grêmio. 1 a 0. Incrível!

Daí em diante, foram só irritação e nervosismo pelo lado da torcida do Timbu, objetos jogados no gramado. E alegria e muita festa pelo lado gaúcho.  O Imortal Tricolor era CAMPEÃO da Série B de 2005. Mais que isso, voltava ao lugar que lhe pertencia: a Série A.

Súmula oficial do jogo: AQUI

FICHA TÉCNICA DO CONFRONTO

Náutico 0 x 1 Grêmio

Árbitro: Djalma Beltrami (RJ).
Local: Estádio dos Aflitos – Recife/PE
Data e horário: 26.11.2005 – 16h
Gols: 63min – 2º tempo – Ânderson

Cartões Amarelos: Náutico: Bruno Carvalho, Tozo, Paulo Matos e Miltinho. Grêmio: Pereira e Lipatin

Cartões vermelhos: Náutico: Batata. Grêmio: Escalona, Nunes, Patrício e Domingos.

Náutico: Rodolpho; Bruno Carvalho (Miltinho), Tuca, Batata e Ademar; Tozo (Betinho), Cleisson, Davi (Romualdo) e Danilo; Kuki e Paulo Matos. Técnico: Roberto Cavalo.

Grêmio: Galatto; Patrício, Domingos, Pereira e Escalona; Nunes, Sandro, Marcelo Costa e Marcel (Anderson); Lipatin (Marcelo Oliveira) e Ricardinho (Lucas). Técnico: Mano Menezes.

ESCREVEU DANIEL BARUD — @BarudDaniel

Enterro dos Aflitos

Leia o post original por Ju Brito

Neste sábado, 26 de novembro, completam-se seis anos de um jogo marcante na história do Grêmio. O inacreditável e insólito fim de tarde daquele dia ecoa como um exemplo de superação e garra. Será? Como efeito negativo, a Batalha virou sinônimo de discurso falacioso e enganador. Tornou-se um símbolo invertido do Grêmio que queremos.

É evidente que esta data poderá ser lembrada por muito tempo e recontada a todas as gerações. Afinal, é um embate mundialmente conhecido e admirado, nunca antes visto na história. No entanto, passa longe de ser um exemplo para planejamento e títulos ou para motivar a torcida em uma década de fracassos.

Em um ano de erros desde a pré-temporada até o fim do Brasileirão, na direção e no futebol, o discurso enfraqueceu mais ainda a Batalha dos Aflitos – e nos enfraqueceu. Faz-nos repensar: o que realmente queremos para o Grêmio? Desejamos um clube vencedor e com objetivos grandiosos, com o seu tamanho, novamente. Não queremos que o modelo de motivação seja um jogo da série B, que, na verdade, deveria ter sido vencido dentro de sua normalidade por um time que era tecnicamente superior ao Náutico.

2012 se aproxima não muito promissor, mas com muitas lições para os cartolas que tanto se orgulham de um passado recente que não queremos sequer repetir. Esses mesmos “governantes” precisam saber que a Arena, sozinha, não trará títulos para o Grêmio. O futebol é nosso propósito principal. E só cresceremos se o grande passo para a Arena for dado em simultaneidade com o enterro de discursos repetidos e desgastadas guerras.