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Visita Técnica

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Talvez você pense que esses estágios feitos por técnicos brasileiros em clubes europeus sejam meras ferramentas de imagem. Uma foto publicada em rede social ao lado de um treinador consagrado pode ser o resultado de um encontro de cinco minutos, mas passar a impressão da conclusão de uma semana de conversas profundas e observações relevantes. Provavelmente ambos os cenários são reais, pois tudo depende dos níveis de acesso e das intenções envolvidas. Quem deseja investir num período de absorção de conhecimento toma as providências para tanto. Quem quer apenas viajar e aproveitar para fazer uma visita, também. Ao final, o que importa são os efeitos práticos, compatíveis com a dedicação e a capacidade de cada um.

O que parece evidente é que viagens no sentido oposto seriam mais eficientes. As distâncias de condições e percepções de trabalho entre a Série A (principais ligas europeias) e a Série C (campeonato brasileiro) do futebol mundial dificultam demais a aplicação de qualquer aprendizado que se tenha nesse tipo de imersão. É mais ou menos como alguém que trabalha em uma rodoviária ser enviado à Nasa em busca de novas ideias. Ok, há certo exagero no exemplo, mas você captou. Por outro lado, a visita de um funcionário da agência espacial americana a uma rodoviária pode levar a boas sugestões, dentro do que for possível fazer. O problema, claro, é a inviabilidade de trazer um técnico de ponta ao Brasil para um estágio às avessas. Imagine, por exemplo, Carlo Ancelotti passando uma semana no Palmeiras, entre um trabalho e outro, aconselhando a comissão técnica local.

Mas é provável que Jorge Sampaoli e Jorge Jesus estejam fazendo exatamente isso. Como treinadores sem experiência no ambiente do futebol brasileiro, o sucesso que ambos têm experimentado nesta temporada pode servir como um guia de como operar aqui, um conhecimento útil a quem fizer essa mesma viagem nos próximos anos. Colegas de outros países que duraram pouco tempo em clubes do Brasil foram vítimas de diversas circunstâncias – entre elas os próprios equívocos, evidentemente –, mas é inegável que lhes faltou vivência, no sentido prático, por estarem habituados não só a um modo diferente de fazer as coisas, mas a um contexto distinto em relação ao que é oferecido e exigido no país. Quem estiver interessado – Coudet? – fará bem em entrar em contato com os Jorges para entender melhor do que se trata.

A qualidade do jogador brasileiro e a capacidade de investimento dos clubes administrados com competência devem converter o Brasil num centro atraente para técnicos capazes, independentemente do passaporte que portem. A presença desses profissionais só pode acrescentar ao futebol brasileiro em diferentes áreas do jogo, inclusive no estímulo à categoria de treinadores para evoluir num cenário de maior competição. Sampaoli e Jesus se notabilizam pelo impacto imediato nas equipes que dirigem, missão em que outros falharam. O que eles já alcançaram certamente não é uma ferramenta de imagem.

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Hierárquico

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Em 2015, no intervalo de um programa de televisão, Juan Carlos Osorio revelou sua surpresa pelo fato de o River Plate ter conquistado a Copa Libertadores da América. “Não é o melhor time do continente”, disse o treinador colombiano, à época trabalhando no São Paulo. Quatro anos depois, a trajetória do clube argentino sob o comando de Marcelo Gallardo impõe uma revisão dessa ideia. Não há na América do Sul outra equipe que ilustre tão bem os benefícios da continuidade e que tenha desenvolvido uma personalidade vencedora como o River. A vitória de anteontem sobre o Boca Juniors encurtou o caminho para o que seria a terceira decisão continental com a direção de Gallardo, a caminho de completar seis anos no posto.

Período que adquire contornos de uma era no futebol desta parte do mundo, tão acostumada a trabalhos interrompidos em questão de meses, e que, para além das conquistas, deu ao River Plate algo que só equipes maduras alcançam: hierarquia. O termo é empregado, neste caso, como um grau de autoridade, uma ordem de grandeza na qual a simples presença fala por si, sem que sejam necessárias explicações detalhadas. Um time que tem hierarquia gera uma certa aflição, algo que que excede o respeito, um incômodo que convence os demais de que é prudente evitar o confronto. O River é assim na relação com seu maior adversário e por causa das vitórias que reverberam no território da Conmebol como indícios de sua posição superior.

O Boca Juniors pode alterar esse cenário se der a volta no 0 x 2 no final do mês, quando receberá a segunda partida em sua Bombonera. Claro que pode. Mas a montanha a ser conquistada parece muito alta para o derrotado na “final do mundo”, em 2018, superado também na noite de terça-feira em todos os aspectos do encontro em Nuñez. Como acontece vez por outra, foi um choque de representantes de tempos distintos do mesmo jogo. O River, cosmopolita e próximo do que se faz de melhor; o Boca, atrasado e agarrado ao aborrecimento dos que não conseguem enxergar o futuro. O resultado poderia ter sido muito mais drástico e não deixaria de retratar precisamente a distância atual não só em desempenho, mas em mentalidade, entre os dois grandes rivais. Gallardo é o líder que os diferencia, com um trabalho que será lembrado como uma das grandes transformações de um clube de futebol na América do Sul, tanto por longevidade quanto por características de jogo e registros de conquistas.

O representante brasileiro na final da Copa Libertadores, Grêmio ou Flamengo (esta coluna foi escrita antes da abertura do confronto em Porto Alegre), será superior ao Boca Juniors sob qualquer análise. Se for este o adversário da decisão em jogo único, as chances de título aumentam consideravelmente. Mas se o curso da semifinal entre argentinos for o normal, o River Plate estará aguardando em Santiago por um oponente que não tem sua descrição: campeão vigente, em busca do terceiro troféu nas últimas cinco temporadas, condição que permite olhar para os outros, todos, de cima para baixo.

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Receoso

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Ricardo Spinelli, colega de ESPN que mastiga dados numa dieta balanceada, informa que o São Paulo é o único clube da Série A do Campeonato Brasileiro com aproveitamento menor do que 50% nos jogos em casa. O número correto, para não irritá-lo: 48,3%. São seis vitórias, onze empates e três derrotas no Morumbi em 2019, considerando todas as competições. O calendário já passa da metade de setembro, o que conduz a uma leitura razoável sobre a personalidade do time atualmente dirigido por Cuca, com a ressalva de que ele não é o único treinador relacionado a essa campanha. É na posição de mandante, quando precisa estabelecer seu modo de jogar, que os defeitos de uma equipe ficam visíveis.

Cuca começou a trabalhar na última semana do campeonato estadual, jogadores contratados para ser titulares estrearam no mês passado, uma epidemia de lesões parece instalada no vestiário. A temporada são-paulina é um manual de combate ao desenvolvimento de ideias e à continuidade, um ambiente propício para o que aconteceu após o 1 x 1 com o CSA, no domingo passado: uma entrevista do principal jogador do clube, repleta de pequenos focos de incêndio a serem monitorados com atenção nas próximas semanas. Daniel Alves, o jogador que veio para “mudar a cultura” do São Paulo, não demorou a se revelar incomodado com o que encontrou.

Não. O problema não é “a imprensa”. Esse trecho das declarações de Daniel deve ser atribuído à frustração e deixado de lado. Ele sabe que generalizar é um equívoco. Do ponto de vista jornalístico, o que tem valor nas palavras do maior vencedor de títulos na história do jogo são as observações sobre o comportamento do time. No aspecto coletivo: o São Paulo não tem padrão. No individual: ele quer ser utilizado no meio de campo. A última lembrança de identidade data do período de Diego Aguirre, quando o São Paulo sabia ao que jogava – pode-se não gostar, claro, mas esse não é o ponto – e exibia sinais de ter encontrado um caminho que permitia evolução. A preferência por atuar como meia é uma novidade no debate sobre escalação desde que ele e Juanfran chegaram.

Independentemente de nomenclaturas, Daniel Alves é um atacante pelo lado direito do campo, partindo da posição de lateral. Nisso, é muito provável que ele seja o melhor. Utilizá-lo em outro contexto não soa, a princípio, como uma escolha brilhante, a não ser que 1) ele prefira, e 2) o time não seja capaz de fazer as compensações necessárias – como, por exemplo, se dá na seleção brasileira – para maximizar suas virtudes. O argumento sobre “tocar pouco na bola” ao jogar como lateral só se justifica quando a equipe não o aciona suficientemente, cenário que diz mais sobre o time do que sobre Daniel. De qualquer forma, agora se conhece o que ele pensa sobre o assunto, o que cria uma situação com algum nível de incômodo.

Se escalá-lo no meio de campo, Cuca estará “obedecendo” a um de seus jogadores. Se fizer diferente, estará “contrariando” o craque do time. A leitura rasa sempre procura as fendas onde a discórdia se prolifera, caríssimo Dani, algo que só acontecerá porque um tema interno chegou ao outro lado. A solicitação para que Cuca deixe de mexer na estrutura do time vem de carona na mesma entrevista, confirmando o status do São Paulo como um conjunto com mais dúvidas do que convicções sobre si mesmo. Os números coletados por Spinelli descrevem uma equipe que não consegue se impor na hora em que a maioria dos adversários lhe exige que faça exatamente isso: quando seu torcedor está perto, esperando, e, por ora, reclamando.

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Efeito borboleta

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Poucas vezes se viu Zinedine Zidane tão contrariado. A entrevista coletiva do técnico do Real Madrid foi marcada pelo descontentamento com a CBF e o calendário do futebol brasileiro, que manteve a programação de jogos da Série B durante o período das datas Fifa. Com nove jogadores convocados por seleções nacionais – incluindo o brasileiro Rodrygo, chamado para um amistoso da equipe sub-23 do Brasil –, o treinador francês não sabe como escalará seu time nos jogos contra Figueirense e CRB. “Simplesmente não tenho jogadores suficientes”, disse Zidane, por intermédio do tradutor do clube.

Zidane tem se mostrado crítico com a desorganização do futebol no Brasil. Não bastasse o fato de o campeonato não ser paralisado durante as datas de jogos entre seleções, o planejamento do Real Madrid tem sido prejudicado por problemas como a greve de jogadores do Figueirense, por causa de salários atrasados. O protesto dos atletas causou um W.O. na última rodada do campeonato e a possibilidade de uma repetição no próximo fim de semana preocupa o técnico. “Temos de nos preparar para viajar amanhã para Florianópolis e não sabemos se haverá jogo ou não”, disse. “É inadmissível que isso aconteça no futebol profissional”.

O desempenho do multicampeão da Europa na segunda divisão do campeonato brasileiro evidentemente incomoda. Após dois empates seguidos, contra Brasil de Pelotas e Oeste, um grupo de torcedores organizados fez uma manifestação na porta do hotel onde o diretor José Ángel Sánchez se hospeda quando está no país. Os simpatizantes pedem a demissão do dirigente, querem agendar uma reunião para uma “conversa olho no olho e críticas construtivas” com Zidane, na qual pretendem entregar ao treinador um dossiê com as aventuras noturnas de jogadores renomados do elenco nas cidades brasileiras. Um funcionário do hotel que pediu para não ser identificado revelou que Sánchez não compreendeu direito o significado de uma faixa levada pelos torcedores, em que se lia “Si no es por amor es por terror”.

Vale dizer que relação entre Zidane e os setoristas brasileiros que cobrem o dia a dia do Real Madrid é tensa. Os jornalistas reclamam do regime de treinamentos fechados imposto pelo técnico e gostariam que houvesse ao menos duas entrevistas coletivas por semana. Zidane explica que treinar com privacidade é essencial para seu método de trabalho e não pensa em expandir o contato com os repórteres. Há ainda um descontentamento pelo fato das entrevistas terem apenas trinta minutos, dos quais os primeiros dez não têm tradução, por serem exclusivos dos enviados pelos meios de comunicação espanhóis.

Na sessão de ontem, a temperatura subiu quando Zidane foi informado pelos setoristas que Karim Benzema não poderá jogar nas próximas seis rodadas do campeonato. O atacante francês tinha sido suspenso por uma partida – já cumprida – por causa de um desentendimento com o zagueiro Luiz Otávio, do Botafogo de Ribeirão Preto, em jogo realizado há seis semanas. Mas a procuradoria do STJD recorreu e solicitou que os atletas fossem julgados por agressão física, com penas mais longas. O Pleno do tribunal atendeu o pedido ao julgar o recurso pela manhã, o que gerou uma confissão ressentida de Zidane: “nada que vivi no futebol me preparou para o que encontrei aqui”.

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Quimera

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A narrativa da chegada de Mano Menezes ao Palmeiras aponta um caso de rejeição popular motivada pelo “estilo” do sucessor de Luiz Felipe Scolari. Seria maravilhoso se fosse verdade, um indício de que uma das maiores bases de torcedores do futebol brasileiro contempla a maneira como seu time se apresenta em campo, e não, apenas, o produto final. Não que não haja alguém suficientemente interessado no “como” e incomodado com o tipo de jogo extraído de um dos elencos mais valiosos do país. A questão é a relevância que se dá a esse aspecto, e, principalmente, o fato de a origem do incômodo ser, na verdade, outra: o Palmeiras parou de ganhar.

É preciso cavar muito fundo para encontrar um “projeto de futebol” em andamento num clube brasileiro, em termos de construção de ideia de jogo, prospecção e desenvolvimento de jogadores conforme essa ideia, além, é claro, de identificação das lideranças para sua aplicação. Talvez o Athletico seja o que mais se aproxima desse cenário utópico. Uma broca da magnitude de “O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” seria necessária para encontrar um trabalho com essas características e que tenha recebido suporte ao se deparar com uma fase de resultados desagradáveis, exatamente a linha que separa o que se diz e o que se faz na indústria nacional de futebol.

A melhor história que o jogo tem contado por aqui nos últimos anos se dá no Grêmio, mas não alcança o significado de um projeto. Renato Portaluppi tem provado ser o nome certo no lugar perfeito ao dirigir um time – remontado a cada ano – que agrada e vence, mas relacionar sua contratação a seus trabalhos anteriores como exemplo de “perfil futebolístico” que se encaixava com o que o clube entendia ser correto é, simplesmente, um exercício de ficção. Sampaoli no Santos? Um caso clássico de aproveitamento de oportunidade, pela disponibilidade do treinador argentino e a iniciativa do dirigente do momento. Jesus no Flamengo? A temporada começou com Abel Braga, o que encerra o debate. Seja qual for a proposta, a linha de sobrevivência de treinadores no Brasil só está conectada ao “dar liga” e a resultados rápidos e frequentes.

Voltando ao “estilo” de Mano, a opção do Palmeiras ao menos acerta em investir numa abordagem mais próxima do que vinha sendo feito, ao invés de encomendar uma ruptura em setembro. Os times de Mano são diferentes dos de Scolari em algumas áreas, mas, no grande esquema das coisas, estão na mesma gaveta. A propósito: ao deixar o Cruzeiro e considerar o próximo passo (trabalhar na China, em Portugal ou em São Paulo, e não no Corinthians), Mano decidiu se aprofundar na elaboração de movimentos ofensivos e estava preparado para trabalhar nisso, quando Alexandre Mattos telefonou. Não significa que o Palmeiras, com ele, será radicalmente diferente do que se viu desde agosto do ano passado, mas é possível que a narrativa seja surpreendida. Enquanto isso, é natural que um treinador associado a um rival tenha de superar olhos tortos no início, o que obviamente não se resolve com “estilo”.

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A escolha que não há

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Já está em andamento um processo perverso, mais um, relacionado ao futebol no Brasil. A segunda eliminação seguida na Copa Libertadores deu origem ao julgamento do trabalho de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras sob o prisma da maneira de jogar. Nos corredores do clube, nas mensagens instantâneas e em setores da coletividade palmeirense em que só havia interesse por vitórias até a noite de anteontem, agora borbulham “análises” repentinas sobre aproveitamento do elenco, ideia de jogo e demais temas anteriormente percebidos com desdém por se tratarem de “conversa de poetas”. Adeptos da “bola na casinha” e do “quem quer espetáculo que vá ao teatro” descobriram termos como “repertório” e dissertam a respeito de “futebol coletivo”. Que maravilha.

Se essa comovente transformação estivesse em curso apenas em redes antissociais como o Twitter, onde se dá o equivalente atual ao que sempre se chamou de “o que se diz nas ruas…”, ok. Compreende-se o componente passional e o hábito de repetir o que se ouve/lê em algum lugar e faz cabeças de ovos parecerem articulados. Mas não; a reversão total pode ser acompanhada em espaços da crônica especializada em que o resultado sempre foi apresentado como a solução suprema para tudo, o remédio universal para males que não surgiram no Pacaembu ou na Bombonera. Não fosse um desrespeito ao próprio futebol, o que é mais importante, já seria uma afronta à memória das pessoas bombardeadas diariamente pelo discurso cínico que pretende tratar do jogo sem considerá-lo.

Não é uma questão de preferência, mas de critério. Ao justificar a escolha por um certo tipo de jogo por intermédio dos resultados que ele – supostamente – proporciona, fabrica-se a mentira de que outras opções distanciam times de futebol do que é, por óbvio, o objetivo de todos. Mas essa ainda não é a maior crueldade, porque o conjunto de análises também revela uma decisão tomada no momento da apreciação das diversas formas de jogar que o futebol oferece. Enquanto o jogo mais elaborado e primordialmente ofensivo vive sob uma régua de altíssima exigência, as propostas baseadas em solidez defensiva e punição ao erro do oponente recebem generosas doses de paciência. Até que, um dia, quando se perde algo importante, alguém resolve não mais tolerá-las e subitamente olha para o outro lado, como se estivesse dizendo: “eu escolhi ganhar, mas, agora que perdi, escolho jogar”. Nonsense total.

Se o Palmeiras tivesse conseguido converter seus melhores vinte e cinco minutos pós-Copa América – exatamente o trecho inicial do jogo em que o Grêmio fez dois gols – em um placar favorável, ou se Everton não produzisse uma noite de tamanho desequilíbrio, é possível que o resultado estivesse novamente sob exaltação a esta altura. E não haveria nada de diferente na maneira de jogar ou no contexto geral de virtudes e defeitos do time de Scolari. É preciso decidir o que se pretende e que não seja o oportunismo, pecado imperdoável não só no futebol.

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A escolha que não há

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Já está em andamento um processo perverso, mais um, relacionado ao futebol no Brasil. A segunda eliminação seguida na Copa Libertadores deu origem ao julgamento do trabalho de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras sob o prisma da maneira de jogar. Nos corredores do clube, nas mensagens instantâneas e em setores da coletividade palmeirense em que só havia interesse por vitórias até a noite de anteontem, agora borbulham “análises” repentinas sobre aproveitamento do elenco, ideia de jogo e demais temas anteriormente percebidos com desdém por se tratarem de “conversa de poetas”. Adeptos da “bola na casinha” e do “quem quer espetáculo que vá ao teatro” descobriram termos como “repertório” e dissertam a respeito de “futebol coletivo”. Que maravilha.

Se essa comovente transformação estivesse em curso apenas em redes antissociais como o Twitter, onde se dá o equivalente atual ao que sempre se chamou de “o que se diz nas ruas…”, ok. Compreende-se o componente passional e o hábito de repetir o que se ouve/lê em algum lugar e faz cabeças de ovos parecerem articulados. Mas não; a reversão total pode ser acompanhada em espaços da crônica especializada em que o resultado sempre foi apresentado como a solução suprema para tudo, o remédio universal para males que não surgiram no Pacaembu ou na Bombonera. Não fosse um desrespeito ao próprio futebol, o que é mais importante, já seria uma afronta à memória das pessoas bombardeadas diariamente pelo discurso cínico que pretende tratar do jogo sem considerá-lo.

Não é uma questão de preferência, mas de critério. Ao justificar a escolha por um certo tipo de jogo por intermédio dos resultados que ele – supostamente – proporciona, fabrica-se a mentira de que outras opções distanciam times de futebol do que é, por óbvio, o objetivo de todos. Mas essa ainda não é a maior crueldade, porque o conjunto de análises também revela uma decisão tomada no momento da apreciação das diversas formas de jogar que o futebol oferece. Enquanto o jogo mais elaborado e primordialmente ofensivo vive sob uma régua de altíssima exigência, as propostas baseadas em solidez defensiva e punição ao erro do oponente recebem generosas doses de paciência. Até que, um dia, quando se perde algo importante, alguém resolve não mais tolerá-las e subitamente olha para o outro lado, como se estivesse dizendo: “eu escolhi ganhar, mas, agora que perdi, escolho jogar”. Nonsense total.

Se o Palmeiras tivesse conseguido converter seus melhores vinte e cinco minutos pós-Copa América – exatamente o trecho inicial do jogo em que o Grêmio fez dois gols – em um placar favorável, ou se Everton não produzisse uma noite de tamanho desequilíbrio, é possível que o resultado estivesse novamente sob exaltação a esta altura. E não haveria nada de diferente na maneira de jogar ou no contexto geral de virtudes e defeitos do time de Scolari. É preciso decidir o que se pretende e que não seja o oportunismo, pecado imperdoável não só no futebol.

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Prato feito

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As duas últimas interrupções de trabalhos na Série A do Campeonato Brasileiro – já são nove em quinze rodadas – evidenciaram, se é que já não era escandalosamente claro, como opera o cartola médio no país. A cada técnico contratado e apresentado em entrevistas cerimoniosas, fala-se em “perfil” e até em “ideias”. A cada demissão via nota oficial ou declarações consternadas, o modo “dê-me vitórias e eu lhe darei tempo” prevalece diante de qualquer outro aspecto do processo de montagem de equipes. O que se deu no Cruzeiro e no Fluminense é ilustrativo.

O ponto aqui não são as razões da saída de Mano Menezes do bicampeão da Copa do Brasil. Após três temporadas, um feito quase heroico para os padrões nacionais de rotatividade de técnicos, o Cruzeiro pareceu ter chegado a um nível irremediável de estagnação com Mano. A questão é a escolha do substituto, e não, mil vezes não, isso não significa que o convite a Rogério Ceni tenha sido um equívoco. É que o recurso à noção de que o Cruzeiro desenvolveu nas mãos do treinador gaúcho um jeito de jogar “que leva a títulos”, tantas vezes usado como justificativa de estilo, simplesmente não cola quando o sucessor é um proponente de outra coisa.

O sucesso de Ceni na implantação de sua forma de entender o jogo com o mesmo núcleo que trabalhava com Mano será um indício de que o elenco do clube é capaz de interpretar o futebol com diferentes abordagens. A mudança de proposta será celebrada como um acerto de quem toma decisões, mas não satisfará a pergunta principal: o que quer o clube em relação a como jogar? O torcedor adepto de obviedades como “o que importa é bola na casinha” dirá que a resposta é vencer. É o que faz o cartola, mencionando “a cultura…” e andando em círculos. Porque se o resultado fosse só o que importa, a discussão futebolística se resumiria a placares de jogos, sem tocar nos caminhos pelos quais se chegou a eles.

O “como” é um dos pilares do método de Fernando Diniz, uma vez mais demitido pela caneta nervosa de dirigentes permanentemente vencedores e jamais questionados. Novamente não se trata de discutir os motivos da decisão no Fluminense, mas o inexplicável contorcionismo na solução apresentada. De Diniz se vai a Abel Braga, de Abel a Dorival Júnior, de Dorival a Oswaldo de Oliveira. É como olhar o cardápio e pedir filé mignon com salada verde, experimentar e trocar por um espaguete à bolonhesa, e finalmente decidir por rolinhos primavera (sem qualquer relação de preferência com os nomes citados, que fique claro). No mesmo restaurante.

Considerando como se comportavam os times que dirigiu, Oswaldo ao menos não deve fazer uma reversão total no que Diniz construiu. O mesmo se aplicaria a Dorival Júnior. Ocorre que a primeira ideia foi Abel, e aí, sim, o Fluminense estaria encomendando um novo time no final de agosto, com os mesmos jogadores. Seria o arquivamento, após quinze jogos de uma competição de trinta e oito, de tudo o que se disse quando Diniz chegou, com a ressalva de que os dirigentes que o contrataram não estão mais em seus postos. O compromisso, se é que existe um, é com o aleatório. Escolhe-se um nome disponível e se torce para “dar liga”. O futebol brasileiro permanece pobre nos gabinetes e nos grupos de WhatsApp.

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Uma parte significativa da opinião pública que se ocupa com futebol julga que Neymar está no pior momento de sua carreira. O mesmo se dá em setores da mídia esportiva, no Brasil e fora, ao tratar da entediante procissão sobre o destino do futebolista mais caro da história. Entre manchetes que se desmentem no dia seguinte e tweets que desaparecem repentinamente, observa-se o tradicional espetáculo de especulações que beiram a comédia e, pior, as tentativas de apropriação de assuntos em timelines ávidas por coraçõezinhos. Todo constrangimento é válido para se sentir um membro da conversa, mesmo que o conteúdo informativo – um detalhe automaticamente dispensável nos dias atuais – seja indetectável.

Enquanto treina longe dos atuais companheiros em Paris, em nome do “bem estar do elenco” do clube que pagou o valor de um avião de caça de última geração por seus serviços, Neymar precisa desesperadamente voltar a ser um jogador de futebol. Não há outra maneira de suavizar a sensação de desperdício de talento quando se fala, se ouve, se pensa no atacante sobre o qual os melhores treinadores do mundo têm opinião unânime: top 3 do planeta, um dos raros geradores de desequilíbrio no jogo. Quando está em campo e em condições, claro. Lesões em sequência e problemas pessoais o prejudicam da mesma maneira que fariam com qualquer outro, mas o preço a pagar pela imagem de celebridade pop que não leva a carreira a sério é mais alto. E deve ser mesmo.

Ninguém sabe onde Neymar jogará, mas todos têm direito a preferências, e, na seleção brasileira, haverá comemoração em caso de retorno ao Barcelona. Não só pela possibilidade de reviver um período de extremo sucesso com companheiros conhecidos, mas pela utilização primordialmente pelo lado esquerdo do ataque, região do gramado em que se visualiza sua volta ao time nacional. Sem a obrigação de fechar a segunda linha por ali quando o Brasil se defender, para ser a primeira opção de desequilíbrio após a recuperação. Um “privilégio” de quem estabelece vantagens técnicas, mas, acima de tudo, um benefício coletivo na estrutura ofensiva com Gabriel Jesus e Roberto Firmino. Antes, porém, é preciso estar em campo.

Independentemente dessa visão, não é verdade que a versão 2019 de Neymar, problemática em tantos aspectos, tenha sido futebolisticamente inferior. Quando atuou, ele foi a referência e a influência que o Paris Saint-Germain contratou, embora em várias ocasiões tenha transmitido a impressão de que gostaria de estar em outro lugar. A sensação de que este é seu pior momento só se sustenta num cenário em que o futebol deixou de ter importância, o que, se for verdade, é responsabilidade dele. Se não for, precisa mudar em caráter de urgência.

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Assim será

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Serviço de utilidade pública. Eis as principais regras de utilização do árbitro de vídeo no campeonato inglês, a partir desta sexta-feira, conforme documento da Premier League. Os grifos são da coluna.

PRINCÍPIOS

– O VAR só será utilizado para “erros óbvios e claros”, em apenas quatro situações: gols, decisões sobre pênaltis, incidentes de cartão vermelho direto, erro de identificação de jogadores.

– A decisão final sempre será do árbitro de campo.

O VAR não terá 100% de eficiência, mas influenciará positivamente a tomada de decisões e levará a julgamentos mais corretos e justos.

 – O VAR checará automaticamente as quatro situações mencionadas. Jogadores não precisam pedir ou sinalizar pelo VAR.

– Jogadores devem sempre jogar conforme o som do apito.

Haverá um limite claro para a intervenção do VAR em decisões subjetivas, para manter o ritmo e a intensidade dos jogos da Premier League.

– Decisões factuais (impedimentos, lances dentro ou fora da área) não serão submetidas à análise sobre “erro óbvio e claro”.

– Cartões amarelos serão mostrados a jogadores que agressivamente fizerem o sinal do VAR para árbitros.

Replays em velocidade normal serão inicialmente usados para checar intensidade. Replays em câmera lenta serão usados para identificar pontos de contato.

– Os VARs serão árbitros de jogos e serão anunciados a cada rodada como parte da equipe de arbitragem.

IMPEDIMENTOS

– Quando houver uma oportunidade clara e óbvia de gol e o árbitro assistente não tiver certeza que o atacante envolvido está em posição de impedimento, o assistente deve esperar a conclusão da jogada para indicar a irregularidade.

– Quando houver uma oportunidade clara e óbvia de gol e o árbitro assistente tiver certeza que o atacante envolvido está em posição de impedimento, o assistente deve indicar a irregularidade imediatamente.

Em ambas as situações, o árbitro deve esperar a conclusão da jogada para soprar o apito.

COBRANÇA DE PÊNALTIS

O VAR pode intervir em caso de:

– Erro claro e óbvio do árbitro de campo em relação ao movimento do goleiro.

– Duplo toque na bola pelo cobrador.

– “Paradinha” no momento do chute.

– Invasão com impacto direto na cobrança

FASE DE ATAQUE

O início de uma fase de jogo que leva a um gol ou a um incidente de pênalti será limitado à fase imediata e não necessariamente voltará ao momento em que o time que ataca recuperou a bola.

– Outros fatores considerados serão a habilidade da defesa para se reposicionar e a dinâmica do ataque.

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