Arquivo da categoria: camisa 12

Na mesa

Leia o post original por André Kfouri

Além da vaga para o Fortaleza na Série A do ano que vem e do probabilíssimo troféu de campeão, a temporada de Rogério Ceni na segunda divisão do Campeonato Brasileiro gerou um nome para o chamado mercado de fim de ano. Dirigentes pelo país afora devem se sentir mais seguros ao mencioná-lo, agora que uma amostra de trabalho está disponível, com a possibilidade de cruzar o que Ceni dizia ao assumir o time de sua vida com o que fez ao longo de 2018 no clube cearense. E ele certamente está mais confiante, de posse do certificado de conclusão do “estágio” que lhe cobraram quando o São Paulo cometeu a atrocidade de lhe cortar as asas depois de seis meses.

Não que fosse necessário, mas Ceni optou por ir para bem longe do Morumbi e “recomeçar por baixo”, como diria quem entende que o problema foi sua inexperiência e não a impaciência dos que deveriam apoiá-lo. Como estaria o São Paulo ao final do segundo ano sob direção dele? Ninguém pode afirmar, mas Diego Aguirre – cuja permanência para 2019 é debatida – é o quarto treinador a ocupar o cargo desde que o clube mostrou a porta a um de seus ídolos históricos. No Fortaleza, Ceni construiu um time que sabe ao que joga e como pretende vencer, características que destoam em um ambiente de futebol aleatório, marcado pela sobrevivência, seja como for.

Sim, é a Série B, onde a concorrência é distinta. Mas o ponto não é a comparação com a primeira divisão ou o nível de dificuldade de uma conquista que chegará cedo ou tarde. É a quantidade de obstáculos que se apresentam para a montagem de equipe num campeonato em que também há diferenças de orçamento; o trabalho necessário para a implantação e o desenvolvimento de uma forma de jogar. São notáveis nas atuações do Fortaleza as influências relatadas por Ceni ao anunciar a carreira de treinador, notícia agradável reforçada por uma campanha bem-sucedida em resultados.

Há dois anos, Ceni dizia que os clubes rivais do São Paulo não o considerariam por causa de sua identificação, cenário que lhe parecia natural. É possível que o que se deu desde então tenha alterado esse modo de pensar, especialmente pelo trauma do primeiro semestre de 2017. Se decidir por não prosseguir no Fortaleza, as questões que estarão diante de Ceni não diferirão das que se colocam para qualquer técnico: ponderar os prós e contras das ofertas que chegarem, avaliando cada oportunidade sem portas fechadas de antemão. Seu nome está na mesa, com todos os méritos.

O post Na mesa apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Correção ou vigilância?

Leia o post original por André Kfouri

O primeiro gol do River Plate foi legal. Mesmo que tenha sido toque de mão de Borré, houve uma carga de Jael por trás do argentino que empurrou seu braço na direção da bola. Supõe-se que a revisão – obrigatória, como em todos os gols – do lance pelo árbitro de vídeo tenha levado esses detalhes em consideração ao validar a jogada, pois o replay com o ângulo por trás da meta defendida por Marcelo Grohe é elucidativo. Entender que o 1 x 1 não pode ser usado como “moeda de troca” em relação à intervenção do VAR no segundo gol é fundamental.

A questão, claro, vai além de um lance, ou dois. Se você pensa que o VAR é um instrumento de manipulação de resultados, o problema não é o VAR, mas sua forma de pensar. Pois essa maneira de enxergar a evolução da arbitragem independe da presença da tecnologia, de assistentes ao lado dos gols e até da aplicação correta das regras do jogo em uma situação específica. Refutar a marcação do pênalti cometido por Bressan em nome de contextos como a ausência de reclamação dos jogadores do River Plate é, pior do que não compreender o papel do vídeo, crer que o recurso deve ser utilizado conforme a vontade de cada um.

Parece claro que o pênalti não seria marcado no futebol pré-VAR, mas esse argumento alcança o feito de negar duas realidades ao mesmo tempo: 1) o futebol pré-VAR não existe mais, 2) o pênalti aconteceu. Não há discussão quanto a isso, certo? Diante de tamanhas obviedades, é necessário concluir que a interferência do árbitro de vídeo, crucial para a determinação de um classificado à decisão da Copa Libertadores, foi correta. O que não significa que o protocolo do sistema não deva ser discutido com o objetivo de aperfeiçoá-lo, para que seja melhor compreendido por todos.

Por exemplo: em relação à conduta dos árbitros que operam o vídeo, a postura primordial deve ser de correção ou de vigilância? Há uma diferença sutil, porém importante, entre dizer “há um lance aqui que achamos que você deve rever” e “há um lance aqui em que sua decisão foi errada” ao árbitro de campo. Esse nível de ajuste depende do que a regra determina, mas também do que as experiências ensinam. O aprendizado, suficientemente sofrido para quem se encontra do lado triste de um jogo com uso do VAR, tem sido marcado pela esquizofrenia que exige perfeição desde o primeiro minuto.

O post Correção ou vigilância? apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Respeito

Leia o post original por André Kfouri

As cenas dos bate-bocas envolvendo o árbitro Ricardo Marques Ribeiro após Internacional x Santos – nos corredores do Beira-Rio e no aeroporto Salgado Filho – compõem o retrato de um futebol descontrolado, que por sua vez é o espelho de uma sociedade perturbada. Não importa se houve prejuízo ao time gaúcho no triste episódio de segunda-feira, quando a demora da equipe de arbitragem para decidir sobre um lance impossível aos olhos humanos foi mais um depoimento a favor do VAR. Ninguém tem o direito de se dirigir a um árbitro, ou um técnico, ou um jogador, como se fez com Ribeiro, que reagiu com coragem em ambas as situações.

Em um ambiente de futebol respeitável, a atitude de funcionários do Inter no túnel dos vestiários não passaria impune. Entre tantas razões óbvias está o estímulo a comportamentos semelhantes em locais públicos, como aconteceu no dia seguinte no aeroporto, quando o árbitro foi hostilizado por “torcedores” em um episódio que felizmente não foi mais sério. Novamente, a questão não passa por competência, acerto ou erro, mas pelo tipo de convivência que se deseja estabelecer entre todos os envolvidos no jogo. A violência latente no cotidiano não deve ser alimentada, especialmente por quem trabalha no futebol e tem o dever de agir no sentido contrário.

Parece claro que a equipe de arbitragem que atuou no Beira-Rio fez o tempo passar para que uma informação baseada nas imagens da televisão chegasse ao gramado. É assim que árbitros e assistentes aprenderam a se defender do ridículo a que são expostos, ou seja, o fato de ser os últimos a saber o que aconteceu em um lance sobre o qual devem decidir. A arbitragem analógica foi superada há muito tempo pela dinâmica do jogo de futebol, mas descobriu um jeito de se salvar de grandes escândalos: algo que se pode chamar de “VAR pirata”. Como a televisão acertadamente não mostrou o replay, Ribeiro e seus colegas tiveram de jogar a moedinha para o alto.

A responsabilidade precisa ser dividida. É da CBF, que organiza, mas não zela pelo campeonato; dos clubes, incapazes de se unir em torno de tema algum; da comissão de arbitragem, que age como se os problemas não existissem; e dos próprios árbitros, que não buscam a profissionalização e a independência necessárias para exigir melhores condições de trabalho. Mas nem mesmo a implantação da arbitragem eletrônica trará a evolução se o ambiente do jogo não se caracterizar por educação e respeito.

O post Respeito apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Sete dias

Leia o post original por André Kfouri

O período entre 24 e 31 deste mês já estava assinalado no calendário palmeirense como dias decisivos. São as datas do confronto com o Boca Juniors, pelas semifinais da Copa Libertadores, com o jogo de ida em Buenos Aires. Por caprichos do futebol, o sábado que se encontra entre essas duas quartas-feiras adiciona tensão ao pequeno trecho do calendário: é o dia da visita do líder do Campeonato Brasileiro ao Maracanã para enfrentar o Flamengo, quatro pontos abaixo. Se tal diferença não aumentar no próximo fim de semana(Palmeiras x Ceará, Paraná x Flamengo), uma vitória rubro-negra injetará emoção na disputa do título.

É a oportunidade de se ver envolvido em um grande jogo que o Flamengo talvez não imaginasse que ainda teria em 2018, embora, por pontuação, a possibilidade nunca tenha deixado de existir. A chance de frear a arrancada do líder – invicto no segundo turno – e se sentar definitivamente à mesa dos candidatos ao troféu se apresentará em um jogo em casa e ao lado da torcida. Se nada der errado contra o Paraná, claro. A esta altura, após duas vitórias por 3 x 0, boa parte das conversas de Dorival Júnior com sua equipe de trabalho insiste na necessidade de evitar a desconcentração. É hora de ativar o antigo clichê sobre o “próximo jogo”.

O mesmo vale para o Palmeiras, que não só não pode desperdiçar pontos contra o Ceará, como jogará pela Libertadores antes de contemplar o Flamengo. A formação de dois times estabelecida por Scolari já não tem mais contornos tão claros, com o surgimento de uma terceira equipe – eficiente como as outras – na vitória sobre o Grêmio. O planejamento para os encontros com o Boca obviamente prevê a escalação mais forte possível, o que reserva para o Maracanã uma adaptação de quem estiver disponível, estratégia que vem sendo aplicada com sucesso.

Em tese, um empate na Argentina será bem visto, assim como contra o Flamengo. Não se pode esquecer, porém, que esse é exatamente o resultado que interessa ao Internacional (que recebe o Santos e visita o Vasco nas duas próximas rodadas). Tudo está entrelaçado. O que o Palmeiras tem feito sob Scolari não é apenas notável pela decolagem no Campeonato Brasileiro, mas por dividir suas forças em duas campanhas sem queda de desempenho. Durante sete dias no final do mês, este protocolo será testado com nível máximo de exigência e permitirá uma visão mais clara sobre o que pode ser uma temporada histórica.

O post Sete dias apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Ferido

Leia o post original por André Kfouri

Qualquer torcedor do São Paulo com um mínimo de consciência aprovaria, no início do ano, um cenário em que o time estivesse a quatro pontos do líder, com dez rodadas por jogar no Campeonato Brasileiro. Sem pestanejar. Seria, como é, uma completa transformação de perspectiva em relação a um 2017 em que o objetivo do clube foi permanecer na Série A, além de um sinal promissor para o futuro próximo. Enfim, o reposicionamento do time no sentido que deveria ser o habitual e a base para planejar a próxima temporada com possibilidades de conquista em todas as competições do calendário.

Eis que a situação é exatamente a mencionada, mas o noticiário do clube retrata um ambiente de crise, à procura de explicações pelo declínio de desempenho e pressionado pelo descontentamento do setor da torcida que parece incapaz de relacionar a profundidade da equipe com a concorrência pelos primeiros lugares. E quem não consegue fazer essa ponderação evidentemente não enxerga a evolução de um ano para outro ou o que ela significa, porque o raio de visão só alcança a amostra das últimas rodadas. É uma leitura que converte o time em vítima de uma promessa que nunca foi feita.

Jamais existe uma única explicação para a queda técnica de um time de futebol, especialmente em uma competição extensa como o Campeonato Brasileiro. O São Paulo não perdeu terreno por causa das decisões de Diego Aguirre, das lesões de Everton, da inexperiência para se relacionar com a liderança ou da falta de foco de quem se superestima. Provavelmente há um pouco de cada fator no recorte dos sete jogos mais recentes, com apenas uma vitória e a evidência de um time esgotado em argumentos. Até mesmo a observação à distância pode identificar momentos semelhantes na trajetória da maioria das equipes, fases que duram mais ou menos conforme os recursos humanos de cada um.

A dez jogos do encerramento, é difícil imaginar o São Paulo reunindo forças para disputar o título. Se a classificação final representar um lugar entre os cinco, seis primeiros colocados, será compatível com as possibilidades do elenco atual e deveria ser recebida com o que se chama de otimismo cauteloso. Tudo indica, porém, que a conclusão percorrerá outro caminho; o da decepção e da eleição de culpados, principalmente por parte daqueles que não compreendem o jogo e/ou tiveram o orgulho ferido porque a diretoria não autorizou a realização de treinos abertos ao público.

O post Ferido apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Patente

Leia o post original por André Kfouri

Arthur errou um passe no segundo tempo do jogo de ontem, contra o Tottenham. O tipo de bola perdida na região central do campo que aumenta o risco de sofrer um gol. Não foi o primeiro equívoco do ex-gremista em sua estreia na Liga dos Campeões, mas pode-se dizer que, até aquele instante (por volta do minuto sessenta), todas as decisões tomadas por ele foram acertadas, mesmo as malsucedidas. O Barcelona recuperou um padrão de atuação que parecia esquecido ao vencer em Wembley por 4 x 2, e não há como exagerar a contribuição de Arthur.

Suponha que tivesse sido uma partida discreta, fruto da postura de quem sabe que cumprir com as próprias obrigações já seria motivo de satisfação e elogios. Mas foi bem mais do que isso. A necessidade de reencontrar o caráter futebolístico da equipe levou o técnico Ernesto Valverde a posicionar Philippe Coutinho no trio de ataque e escalar Arthur na linha de três meio-campistas, à direita de Sergio Busquets. À parte – se é que é possível – o jogo imperial de Lionel Messi, o funcionamento do meio de campo na circulação da bola foi o destaque da noite, aspecto em que Arthur demonstrou excelência.

Voltando ao lance no segundo tempo, a defesa do Barcelona logo recuperou a bola desperdiçada, fazendo-a chegar novamente a Arthur. Pressionado, girou um par de vezes para afastar marcadores e reiniciar a jogada. Só o próprio pode confirmar, mas Busquets provavelmente teve a sensação de já ter visto aquilo, uma das razões pelas quais Arthur é mencionado como um jogador à semelhança de Xavi, em características e função. O que está embutido na referência é que, para fazer esse papel, o desejo de receber a bola em qualquer circunstância é tão importante quanto a capacidade técnica para protegê-la e fazê-la seguir seu caminho. Arthur tem tudo.

Em Londres, Busquets e Arthur completaram sessenta e seis passes (99% e 87% de aproveitamento, respectivamente) cada um, complementando-se nas tarefas defensivas e de construção. No chamado jogo curto, foram dezesseis passes do espanhol e vinte e um do brasileiro, mais um indício de que o Barcelona encontrou uma réplica do seu “meio-campista patenteado”, um jogador que chegou ao clube aos vinte e dois anos quase como um produto final do que se ensina nas categorias de base. Os técnicos catalães devem imaginar que estão diante de um clone e calcular até onde ele pode ir. Xavi sabe.

O post Patente apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Empacotando

Leia o post original por André Kfouri

Em uma coluna publicada na contracapa deste diário, em junho de 2016, um programa de computador desenvolvido na Alemanha para analisar a velocidade e a eficiência da circulação da bola foi mencionado como uma janela para o futuro do jogo de futebol. A medição da quantidade de jogadores adversários superados a cada passe completo permitia analisar a objetividade do jogo de uma determinada equipe, assim como identificava quais eram os futebolistas mais produtivos neste quesito.

No último dia 21, um artigo do jornal The New York Times ampliou o conhecimento sobre a evolução dessa – relativamente nova – estatística, resultante da frustração de dois jogadores de futebol com as formas como os papeis em campo são avaliados. Stefan Reinartz e Jens Hegeler atuavam como meio-campistas defensivos na Bundesliga, em 2015, quando decidiram fazer algo a respeito: criaram uma métrica chamada “packing” e hoje comandam uma empresa de análise desse dado específico.

“Packing” (a melhor tradução neste contexto é “empacotar”) mede a quantidade de oponentes eliminados da jogada por um determinado movimento com a bola. Um jogador recebe um ponto por cada adversário deixado para trás, seja com um drible ou um passe. No caso de passes e lançamentos, o companheiro que os recebe também é creditado com pontos. A ideia é quantificar a importância de jogadores nem sempre valorizados na construção de movimentos ofensivos e dividir os holofotes com aqueles que os finalizam.

No artigo do jornal americano, Toni Kroos, meio-campista do Real Madrid, aparece como o líder da temporada europeia nessa estatística (79 oponentes eliminados por jogo, em média). Na recepção de passes decisivos, Eden Hazard, do Chelsea, é destaque com 102 adversários superados a cada partida. Quando esses adversários são jogadores de defesa, o que sugere maior proximidade do gol, ninguém está acima de Lionel Messi, com 18 por jogo. Na última Copa do Mundo, a seleção com melhor desempenho em “packing” foi a Bélgica.

O sucesso da empresa de Hegeler (atualmente no Bristol City, da segunda divisão inglesa) e Reinartz (aposentado) revela o interesse de clubes por um aspecto do jogo que nem sempre gera gols, embora aumente sua probabilidade, e por jogadores capazes de mover a bola com precisão na direção da área adversária. Times ingleses, espanhóis, alemães, franceses, belgas e, em breve, americanos, pagam para receber as análises.

O post Empacotando apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Escolhidos

Leia o post original por André Kfouri

O ponto somado na Vila Belmiro não parecia tão grande na noite de domingo passado. Pouco mais de vinte e quatro horas depois, era como uma dessas massas que crescem no forno: não só manteve o São Paulo na liderança do Campeonato Brasileiro (os critérios de desempate só valem na última rodada, e ainda não há registros de uma edição que tenha terminado com igualdade em pontos no primeiro lugar), como determinou distância. Sim, houve colaboração do Internacional, mas esse é o balanço natural da classificação equilibrada, em que uma defesa – ou duas, como Jandrei mostrou em Chapecó – altera a interpretação da rodada e os prognósticos. O empate se revelou bipolar, curiosamente mais animado na segunda-feira.

Em desempenho, os dois melhores pontuadores receberam críticas por não atuar, digamos, com certo senso de urgência. O time gaúcho foi especialmente censurado por “não perceber” que um salto na direção do título poderia ter sido dado na Arena Condá, como se os principais envolvidos nessa corrida não tivessem a real noção do que está em jogo e da importância de uma vitória fora de casa. Não deveria passar pela cabeça de ninguém o pensamento de que, diante da chance de abrir dois pontos em relação ao segundo colocado, um time de futebol tome a decisão coletiva de não se esforçar, escolhendo um outro dia para ser melhor. A questão, além da presença e da capacidade do outro time em campo, é a diferença de percepção entre quem está em ação e quem observa. O futebol jogado nesse nível é algo bem distinto do que se imagina.

A respeito do conservadorismo demonstrado pelo São Paulo no clássico em Santos, é importante lembrar que a confiança de equipes de futebol em sua própria força vem do sucesso que alcançam com uma determinada maneira de atuar. E não do que poderiam fazer se alterassem esse perfil. Cobra-se o chamado “plano B”, seja o que isso for, quando já é suficientemente complexo estabelecer o “plano A” com solidez, por causa das negociações, lesões e oscilações de rendimento que o ameaçam o tempo todo. Uma vez alcançado, e eficiente, não é razoável acionar qualquer outra versão justamente no trecho final do campeonato, quando a briga de quem está na frente é contra a quantidade de pontos disponíveis. É assim que se pode perder tudo, não em um empate na Vila ou uma derrota em Chapecó. São Paulo e Internacional não vão mudar; o campeonato já os escolheu, embora esteja claro que podem ter companhia.

O post Escolhidos apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Tradução

Leia o post original por André Kfouri

– Eu não dou a mínima atenção para a seleção… Você gosta?

– Eu? Não ligo… faz tempo que nem me interesso mais. Nem em Copa do Mundo.

– É, eu também. Nesta última até assisti um pouco dos jogos, achei que o Brasil tinha boas chances, mas o time ficou… sei lá, meio estranho, insistiu muito pelo lado esquerdo.

– Também achei. Se bem que era natural, né? Com o Philippe Coutinho e o Neymar por ali. O que atrapalhou mesmo foi a ausência de um centroavante… o Tite tinha que ter levado um camisa nove.

– Claro, claro… e outras coisas também influenciaram. O Renato Augusto e o próprio Neymar não estavam nas melhores condições, e o time sentiu as mudanças que foram feitas na Copa.

– Falou tudo! O time das Eliminatórias era muito melhor! Era mais seguro no meio de campo, e a mobilidade do Neymar ajudava o Gabriel Jesus, que acabou fazendo uma Copa meio decepcionante.

– Você acha que ele volta?

– Ah, tem que voltar. O Tite disse que vai convocá-lo de novo…

– Nossa… e esse último amistoso contra El Salvador, você viu? Eu até ia assistir uma série, mas o jogo começou naquele gramado horrível…

– (interrompe, em voz mais alta) O que era aquilo?! Como podem levar a seleção brasileira para jogar num campo desses? Que absurdo… vergonha! Quando eu troquei de canal e vi aquilo, não acreditei. Chamei a minha mulher para mostrar e até ela, que não gosta de futebol, ficou impressionada…

– Fato. Palhaçada. Os caras da CBF perderam a vergonha, é tudo negócio. Aí levam o time para jogar onde for necessário. O que interessa é o cachê. Mas eu ia colocar a série na TV quando o juiz deu aquele pênalti logo no começo e…

– Você achou que foi? Não foi, né? O Richarlison sentiu o cara chegar e se jogou…

– Não achei, cara, achei que foi um rapa no pé direito dele. Eu marcaria.

– Bom… coitado de El Salvador… a noite já terminou antes de começar. Cinco a zero foi pouco.

– Ridículo, né? Não entendo por que não marcam amistosos contra seleções europeias. O que adianta jogar com esses pangarés? Não vale nada em termos de observação.

– É por causa dessa Liga das Nações que começou agora.

– Ah, tem razão. Esqueci disso. E o Neymar, você viu? Tentou cavar um pênalti num joguinho desses…

– O cara não aprende. Depois de tudo que aconteceu na Copa, toda a repercussão das simulações, ele vai lá e faz a mesma coisa no primeiro amistoso…

– (interrompe) Segundo.

– Segundo o quê?

– Segundo amistoso. O primeiro foi contra os Estados Unidos, na sexta-feira passada.

– Ah, é… Eu ando tão desinteressado pela seleção que me esqueci.

O post Tradução apareceu primeiro em Blog André Kfouri.

Ah, a Copa…

Leia o post original por André Kfouri

Deve-se ao sempre formidável Filipe Luís o encerramento de um não-debate que insistiu em reaparecer aqui e ali durante a Copa da Rússia: a ideia de que o futebol de seleções, mesmo em seu estágio mais alto, perdeu a razão de ser por causa do crescimento da importância da Liga dos Campeões da Uefa. Um trecho da entrevista coletiva de anteontem, em Nova Jérsei, serve como epígrafe de um conflito inexistente, pois menciona até a comparação utilizada como argumento por quem pensava que tinha descoberto uma nova era: “Tudo o que eu vivi lá na Rússia foi, sem dúvida, o melhor e o pior momento da minha carreira. (…) Nunca imaginava que fosse nesse nível a competição. Cada jogo era como se fosse uma final da Champions”, disse o lateral da seleção brasileira e do Atlético de Madrid.

Em outros termos: para o jogador de futebol, não existe nada como a Copa do Mundo. Não é necessário ir ao Google para lembrar que Filipe disputou duas finais da Liga dos Campeões, portanto deve saber alguma coisa sobre esse tema. Na mesma entrevista, ele lamentou só ter disfrutado de um Mundial. “Não importa se jogasse Panamá contra Tunísia, todo jogo era especial”, comentou, em clara referência ao ambiente e à carga de pressão em todos os sentidos que caracterizam cada rodada de uma Copa, ocasiões que concentram as atenções do que se chama de “mundo do futebol”. Até quem diz que não gosta está na audiência.

Trata-se de uma questão de preferência, um direito indiscutível. Ninguém que acompanha futebol tem o dever de apreciar sua seleção nacional ou os torneios entre países. O equívoco está na tentativa de impor essa escolha, em nome da “paixão pelo clube”, como se uma coisa excluísse a outra. Ou transformá-la em fato universal, sugerindo a decadência de um evento que se encontra na origem da relação de amor com o jogo em tantas vidas e há tanto tempo. A transcendência da Copa do Mundo está evidente na declaração de Filipe, alguém que provavelmente se apaixonou pelo futebol muito antes de decidir fazer dele sua profissão. Vindo de onde vem, esse tipo de percepção não deixa dúvidas.

A propósito: Filipe Luís também abordou a eliminação do Brasil na Rússia, com outra frase que evidencia a maneira como futebolistas se relacionam com o Mundial. “Perder do jeito que a gente perdeu foi muito difícil. Nas férias eu não parei de ter pesadelo e sonhar com essa derrota”, contou. A Copa do Mundo sempre foi o ápice do futebol. Boatos sobre seu declínio mostraram-se infundados.

O post Ah, a Copa… apareceu primeiro em Blog André Kfouri.