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Gabriel Gol, 22

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A contratação que terá mais repercussão é a de De Arrascaeta, pelo processo tumultuado que gerou e, principalmente, pelo valor recorde em uma transação entre dois clubes do futebol brasileiro. Mas, sem absolutamente nenhuma crítica à qualidade do jogador uruguaio, o principal movimento feito pelo Flamengo é a chegada de Gabriel Barbosa, o Gabriel Gol. São raros os jogadores que oferecem nível técnico internacional – ou seja, capacidade para atuar nos principais centros – à disposição de equipes brasileiras, e é mais comum vê-los por aqui antes de serem exportados: Gabriel Jesus, Vinícius Júnior, Rodrygo, Arthur, para ficar em exemplos recentes. O novo atacante do Flamengo é um caso distinto.

O motivo: Gabriel já recebeu sua(s) oportunidade(s), e não teve sucesso por algo que se pode chamar de defeito de mentalidade. Mesmo considerando os contextos de adaptação, principalmente no aspecto tático, ao futebol italiano, cabe ressaltar que ele teria feito mais por si mesmo se tivesse se comportado como um jogador em formação e com um vasto aprendizado por diante. A essa altura, talvez ainda estivesse na Europa reformando opiniões e retomando o caminho que sonhou quando a Internazionale o contratou em 2016, aos vinte anos. O retorno ao Santos pode não ter sido a melhor decisão em relação ao próprio desenvolvimento, mas evidenciou – uma vez mais – o que acontece quando um jogador com esse potencial atua no país. E permitiu ao Flamengo utilizar seu poder de investimento.

A questão agora passa a ser o ajuste da mentalidade, no sentido de entender o significado de 2019 em sua carreira e as exigências que acompanham a chance de jogar no Flamengo. A presença de Abel Braga indica que Gabriel terá suporte, compreensão e cobrança nas medidas certas para vencer, mas a carga mais influente do trabalho obviamente corresponde a ele. Ao que tudo indica, o Flamengo será um time diferente do Santos, que jogava para ativar Gabriel com espaço. O papel que se pedirá a ele como rubro-negro demandará um jogador capaz de ser decisivo em um plano essencialmente de proposição (o que não significa, é claro, que esse será o padrão de atuação durante todo o tempo de todos os jogos da temporada). Todo desafio é uma porta para o crescimento.

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Avalanche

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A intensa programação de jogos do campeonato inglês na virada do calendário costuma ser a salvação dos dependentes de futebol. Neste início de ano, a ajuda oferecerá mais do que partidas interessantes com os melhores times ingleses envolvidos em encontros que entretém, mas não necessariamente sequestram atenções: a visita do Liverpool ao estádio do Manchester City tem um peso determinante na corrida pelo título, além de ser o choque entre equipes dirigidas por técnicos frequentemente mencionados quando o tema é o que se chama de “futebol atraente”.

Pep Guardiola e Jurgen Klopp trocaram cordialidades na prévia do jogo de logo mais. Ambos usaram a expressão “melhor time do mundo” para se referir ao adversário, com sutilezas que diferenciam cada lado. Guardiola adicionou “no momento”, em clara menção ao primeiro turno histórico que posicionou o Liverpool com sete pontos de folga na liderança da Premier League. Klopp usou “ainda” para reforçar que as derrotas recentes do City não alteram a forma como ele enxerga o oponente, atual campeão inglês e terceiro colocado na classificação.

Adicione que o técnico alemão é quem ostenta o melhor retrospecto de enfrentamentos com o catalão, lembre que o histórico de partidas decisivas entre eles remonta aos dias em que trabalhavam na Bundesliga, e o que você terá é um jogo de futebol obrigatório nesta quinta-feira, três de janeiro, época em que a comida das festas ainda não foi totalmente processada e o tempo passa com a preguiça de quem não dormiu direito. Não na Premier League e definitivamente não para os times de Fernandinho e Firmino, De Bruyne (presença não confirmada) e Salah.

Entre o “no momento” e o “ainda”, Guardiola está mais próximo da razão. Não há time no mundo que queira enfrentar o Liverpool na fase atual, em que a fábrica de caos de Klopp opera em modo full. A diferença de pontuação obviamente injeta pressão sobre o City, pois uma derrota levaria a questão para intransponíveis dez pontos. Para os campeões, é uma final com todas as letras, especialmente se o resultado for ruim, o que aumenta a curiosidade sobre como Guardiola desenhará seu time em uma situação limítrofe.

No primeiro turno, o City foi capaz de conter a máquina de Klopp com uma versão futebolística de controle de avalanches: posse defensiva, paciência no nível budista e negação de campo para o Liverpool correr. Um pênalti (mal marcado) desperdiçado por Mahrez manteve o empate a zero. Guardiola assinaria outro jogo assim num piscar de olhos.

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Diferentes

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Jorge Valdano talvez seja quem melhor escreve no mundo sobre futebol. Seus artigos apresentam o ponto de vista do ex-futebolista que segue vivendo o jogo como paixão, sem argumentos de autoridade ou qualquer traço de ressentimento; o manejo do idioma é magistral, ferramenta para a maneira sensível com que aborda questões que parecem simples apenas para quem opta pela superficialidade. Lê-lo é mergulhar no “jogo infinito”, título apropriado para o espaço no diário El País que apresenta seus pensamentos. Mais do que recomendável, necessário.

Em sua peça mais recente publicada no jornal espanhol, Valdano ofereceu o seguinte: “… os futebolistas técnicos e imaginativos são os únicos capazes de romper o jogo rotineiro que pode converter uma grande equipe em uma equipe qualquer. Só necessitam que não os crucifiquem por ser valentes”. O raciocínio é sobre o que se passa com Isco no Real Madrid, mas se aplica a todos os jogadores criticados por “atrapalhar” a ordem coletiva que, paradoxalmente, depende deles para se impor. É um debate conceitual, provavelmente até mais oportuno para o futebol brasileiro.

Figuras como Dudu e Luan, para ficar em exemplos de maior destaque. Ou Neymar, especialmente na seleção. É para eles que os dedos apontam sempre que suas equipes não atuam bem, como se as tentativas infrutíferas que partem de seus pés fossem as razões que explicam o mau desempenho. Ou como se, ao desativar o “modo desequilíbrio”, essa classe de jogadores pudesse colaborar de alguma forma para o objetivo de todos. Além dos goleiros, eles são os únicos que dependem de um índice de aproveitamento quase impecável para não se converterem em um problema, o que contraria a dinâmica do que sabem fazer e o motivo pelo qual estão em campo.

Um dos objetivos do futebol é desorganizar o adversário, algo que pode ser feito de diferentes formas. São raras as equipes – nenhuma delas está no Brasil – em que as qualidades dos jogadores estão a serviço de uma organização posicional soberana, que determina menor influência individual até que a bola chegue a certas regiões. Mais raros ainda são os jogadores dos quais se pode exigir o que há de mais próximo da perfeição. Sobre um deles, Messi, Valdano definiu no mesmo texto: “em efeito, só se encarrega de ganhar as partidas. Cumpre com a parte do contrato que compromete a um gênio: ser o melhor”.

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Apoio

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Jorge Sampaoli tinha propostas do futebol chinês e da Major League Soccer, obviamente para ser remunerado com múltiplos dos valores que o Santos lhe ofereceu para o que ele qualifica como seu “maior desafio” profissional. O fato de assinar um contrato de duas temporadas para trabalhar no futebol brasileiro representa o desejo de retomar a carreira num centro em que, apesar de tantos defeitos, o jogo é mais importante do que a imagem ou o dinheiro. Não apenas o Santos deveria estar esperançoso por causa da escolha, o tipo de novidade agradável para o ambiente futebolístico do país.

Sampaoli surpreendeu seus interlocutores com o nível de informação a respeito do elenco santista e também pelas opiniões formadas sobre determinados jogadores, reflexo de uma forma não convencional – para os padrões locais – de enxergar a montagem de grupo e equipe. O Santos o contratou imaginando um produto final e provavelmente seguirá se surpreendendo com seus métodos de trabalho até que todos se conheçam, um processo que não tem prazo determinado e exigirá não apenas compreensão mútua, mas a vontade de alcançá-la. Haverá?

Com o risco de algum exagero, só existem dois caminhos possíveis: ou Sampaoli mostrará resultados imediatos e empolgará aqueles cujo interesse não vai além dos prazeres efêmeros, ou a comunidade do futebol santista tomará a decisão de se comportar de forma diferente. A primeira opção, improvável, poderia satisfazer os apressados, mas teria o único benefício de comprar tempo. A segunda, quase utópica, permitiria que a comissão técnica recém-contratada se adaptasse às particularidades do futebol no Brasil e fizesse um trabalho autoral que não gera frutos da noite para o dia.

Das escolhas de escalação às substituições, passando pelo posicionamento de jogadores e por experiências que podem não ser bem-sucedidas, o santista terá de se acostumar a um futebol diferente. Mais: terá de apostar nele, apesar das vozes descrentes nas ruas, nas arquibancadas e aos microfones, sempre propagando a ideia de que “o berço de Pelé e Neymar” tem de golear todos os adversários. A aceitação a Sampaoli é um sinal promissor, mas é nos empates com times pequenos na Vila com meia ocupação que o verdadeiro apoio se revela.

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Novo

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Esta coluna foi escrita antes da final da Copa Sul-Americana, de modo que não deve ser lida à luz da primeira conquista internacional do Club Athletico Paranaense ou de uma grande decepção que possa ter ocorrido na Arena na noite de ontem. E a página é fechada por volta de 20h, excluindo a possibilidade de fazer duas versões e publicar a certa (ou a errada, como já se deu tantas vezes na história dos jornais…). De qualquer forma, o tema é o time que nasceu na terça-feira, e não o time que jogou na quarta.

“Nasceu” pode soar exagero, mas, com um novo escudo, novos uniformes e um nome reformado, é razoável dizer que se trata da apresentação de uma entidade que pretende se diferenciar e não mais olhar para trás. Distinguir-se até de si mesma. Além de um passo arrojado e corajoso, é uma forma inovadora, no Brasil, de lidar com as tradições que alimentam o futebol e situar o clube para um futuro que valoriza outros aspectos. A criação de uma marca talvez seja o mais importante deles.

Um distintivo, algo comum a todos os clubes, é um símbolo, não necessariamente uma marca. A marca vai bem mais longe. Enquanto um restaurante com o distintivo antigo do Atlético Paranaense sempre remeteria ao refeitório dos atletas, um bar com a nova marca (as quatro faixas abaixo das letras CAP) teria – terá? – um apelo distinto. O mesmo vale para peças de roupa, joias, acessórios… qualquer coisa que se queira vender para um público que adora o clube mas não a ponto de se sentir confortável ostentando as três letras entrelaçadas usadas até o início da semana.

Foi o que a Juventus fez ao repaginar seu brasão e lançar uma imagem que pode ser reconhecida até mesmo fora do ambiente do futebol, como um logotipo. O choque provocado pela ruptura com o que sempre se associou com a identidade do clube é natural, assim como o debate sobre a “propriedade da paixão”, mesmo em lugares, como a Itália, em que clubes de futebol têm donos. No Brasil, o Athletico começa a trilhar esse caminho para modificar a percepção pública do que é e do que pretende ser, embora esteja claro que o que acontecer no campo será determinante.

Neste âmbito, o Athletico já estava muito bem posicionado em termos estruturais e humanos para crescer no ecossistema do futebol brasileiro e da América do Sul, repetindo campanhas como a desta Copa Sul-Americana. O tratamento de imagem, diga-se, menos complexo do que seria em diversos outros clubes do país, permite planejar outro tipo de conquistas.

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Falante

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A entrevista de Rodrigo Caio ao Esporte Interativo gerou repercussão compatível com o teor de suas declarações, como é natural, mas teve o aditivo de evidenciar que o zagueiro formado pelo São Paulo não se enxerga mais lá. Entre as razões apresentadas, há uma queixa embutida por ser um caso raro de jogador sempre disposto a dar explicações públicas, como se isso o tivesse convertido em uma espécie de porta-voz de fases ruins. A leitura não pode ser essa, por parte de quem o entrevista, de quem o ouve falar e, muito menos, dele próprio.

Ser um jogador disponível após as partidas não deveria gerar arrependimento, ao contrário. Em um mundo ideal, o relacionamento profissional de futebolistas com os meios de comunicação seria pautado pela consistência: os que falam sempre e os que não falam nunca. Mas no mundo real há os que falam apenas quando convém, o que – evidentemente respeitando o direito de cada um, em qualquer profissão/posição, de decidir sobre dar entrevistas ou não – complica um pouco as coisas. A carta da conveniência é sacada conforme o balanço do ônus e do bônus.

Rodrigo costuma agir de outra maneira. Solícito, é a segurança dos repórteres que habitam as zonas mistas dos estádios, pela frequência com que se dispõe a atendê-los. O fato de o São Paulo atravessar um período insatisfatório valoriza sua conduta, independentemente das opiniões a respeito de seu desempenho. Ao invés de aplicar um rosto determinado ao fracasso coletivo, deveria haver curiosidade sobre a ausência de mais gente visível nessa hora. Nos momentos saborosos, faltam microfones para tantas disponibilidades.

Em ambientes esportivos mais maduros, aqueles jogadores com os quais se pode contar para transmitir ao público o que se passa internamente, sobretudo quando as coisas não vão bem, são as chamadas vozes de liderança, referentes, respeitadas. Eles não rejeitam essa posição ou a consideram um fardo. É uma consequência do que representam. O problema de Rodrigo Caio no São Paulo não é personificar temporadas decepcionantes, uma ideia distante da realidade de um esporte em que jogam onze de cada lado. É não ter conseguido atuar bem regularmente nesse período, como tantos outros jogadores do clube.

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Pior

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A pior reação de um torcedor brasileiro ao circo da final da Copa Libertadores é apontar o dedo, como se não fosse um problema compartilhado. Promiscuidade com quadrilhas organizadas, violência latente e incapacidade organizacional, em maior ou menor nível, são características do futebol no continente sul-americano, de modo que a vergonhosa derrota argentina deveria doer também por aqui. Mesmo porque é necessário ressaltar que o único aspecto positivo – se é que há um – do fim de semana em Buenos Aires muito provavelmente não se verificaria em situação semelhante num estádio brasileiro.

Rememorando: foi necessário que Carlitos Tevez saísse do vestiário do Boca Juniors e dissesse que o time sofria pressão para entrar em campo, para que se notasse o alcance da insanidade dos políticos do futebol. Na Argentina, os futebolistas têm representação atuante e força para impedir a barbaridade de realizar uma partida naquelas condições. Quantos jogadores brasileiros, sob ameaças de cartolas e “autoridades”, se posicionariam publicamente contra os interesses da continuidade do espetáculo? É razoável afirmar que, no Brasil, o jogo teria acontecido, desfecho ainda pior do que a obra prima da Conmebol, incapaz de resolver até agora quando, onde e como será a segunda metade da decisão.

Nenhuma determinação dos gabinetes será capaz de apagar os eventos do sábado, especialmente as cenas do ônibus do Boca rasgando pelo trajeto para o Monumental de Núñez como se estivesse nas filmagens de mais uma sequência de “Velocidade Máxima”. Criminoso nível de exposição, que leva obrigatoriamente a uma questão: se houvesse jogo e o River Plate fosse derrotado, o que poderia se passar na saída dos campeões? Diante da tragédia que as pedras quase causaram, a Conmebol deve olhar para o céu e agradecer pelo embaraço de convidar o mundo para ver um encontro que não aconteceu. Poderia ter sido muito pior.

Como os meios de comunicação locais explicam desde o fim de semana, elementos muito particulares da sociedade argentina – refletidos pelo futebol – estão encapsulados na final que não houve. Embora o contexto mais amplo dos episódios seja naturalmente familiar aos demais países sul-americanos, uma região do mundo em que se prefere ser esperto a ser inteligente, é preciso salientar certas distinções. Se fosse no Brasil, por exemplo, a partida teria sido realizada mesmo contra a vontade dos jogadores. Pode parecer um bom cenário, mas é justamente o contrário.

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Mutação

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Durante sua palestra na CBF, em maio do ano passado, Marcelo Bielsa se referiu a Daniel Alves e Marcelo como “atacantes disfarçados de laterais”. A possibilidade de utilizar esse tipo de jogadores como ferramentas ofensivas sempre foi uma marca da seleção brasileira, e, no caso do time que Tite pensou para a Copa do Mundo da Rússia, determinou até como a bola deveria ser movida da defesa ao ataque. Mas, como resultado de um processo natural, é difícil imaginar os sucessores de Cafu e Roberto Carlos em campo no Mundial de 2022, o que significa que o encerramento de uma era se avizinha.

Laterais protagonistas em mecanismos ofensivos caracterizam o futebol brasileiro desde que Nilton Santos ignorou a “fronteira proibida” da linha central e se apresentou como muito mais do que um defensor. Os nomes que deram sequência a esse jeito de atuar, nos dois corredores do campo, poderiam ocupar várias linhas desta coluna, constituindo décadas de fartura que certamente causaram inveja a técnicos de seleções nacionais ao redor do mundo. Ocorre que nada dura para sempre, e o ciclo para a próxima Copa exibirá uma substituição no perfil dos laterais. Obviamente não serão defensores puros, mas também não serão construtores de jogo.

A passagem de guarda está mais próxima no lado direito. Daniel, que seria titular na Rússia se não estivesse machucado, terá trinta e nove anos quando o Catar chegar. Nada sugere que ele não possa seguir em alto nível no futuro imediato, talvez até vestindo a camisa da seleção na Copa América em casa. Mais um Mundial, no entanto, é extremamente improvável e os jogadores disponíveis para a posição não lhe são semelhantes. Danilo, titular nos últimos amistosos do ano, oferece força e chegada ao fundo, mas, em repertório, não faz sombra ao jogador do Paris Saint-Germain.

Na esquerda, o reinado de Marcelo pode se estender até o Mundial do Catar, quando ele terá trinta e quatro anos, mas a linha sucessória apresenta outro DNA. Filipe Luís, reserva imediato e mais velho, é um excelente defensor/passador. Alex Sandro tem explosão, velocidade e gosto pelo ataque, mas não se encaixa na definição de Bielsa de “falso lateral”. Em entrevista recente, Tite declarou que o jogador da Juventus será o titular natural com o passar do tempo, de modo que a mudança de característica – com impacto na maneira coletiva de jogar – está em curso.

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Desconforto

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O estabelecimento da doutrina que culpa o técnico por todos os problemas de um time de futebol não é danoso, apenas, por causa da contínua interrupção de trabalhos e do desrespeito ao processo de construção de equipes. Esse modo de “pensar” e agir – ver: Clube Atlético Mineiro desde 2015; nove trocas de técnicos e um título estadual – cria e alimenta uma espécie de poder paralelo ao redor de um clube, convocando para a tomada de decisões ligadas ao futebol figuras que não deveriam sentar-se à mesa.

A fogueira de vaidades permanentemente acesa nos clubes brasileiros, especialmente naqueles de representatividade popular mais significativa, abriga pessoas que não entendem do assunto e estão mais interessadas em manter suas próprias áreas de influência do que em qualquer outra coisa. O mesmo se dá com os chamados “torcedores profissionais” que julgam representar o pensamento da coletividade sem jamais ter essa autorização, e, claro, com os setores da crítica que não conseguem mais se diferenciar, em comportamento, da volatilidade da arquibancada.

O que vem acontecendo no São Paulo cabe precisamente nesta descrição. E não é curioso somente por se tratar de um clube notabilizado, até há alguns anos, como um modelo de administração dotado de maior quantidade de neurônios do que a concorrência. Mas porque, embora seja uma noção infantil e desconectada da realidade, internamente ainda se enxerga nessa posição de superioridade. A demissão de Diego Aguirre é a página mais recente dessa deterioração, um evento que agrega surpresa ao “mais do mesmo” por causa da presença de Raí como executivo de futebol, alguém que indiscutivelmente conhece os processos e está capacitado para a função.

O esgotamento dos argumentos futebolísticos do time são-paulino é evidente e está relacionado ao trabalho de Aguirre, mas não só. Equívocos foram cometidos na montagem de um elenco desequilibrado e na administração de comportamentos de determinados jogadores, nível que está acima do treinador e tem óbvia influência no campo. Mas não há como sustentar que o potencial da equipe é superior à posição que ocupa na classificação do Campeonato Brasileiro, sem esquecer que o ano de 2018 representou uma importante mudança de perspectiva em relação à temporada anterior. Era o momento de romper com a doutrina que só responsabiliza uma pessoa e tratar de melhorar coletivamente em 2019.

Por isso é decepcionante ouvir Raí soar como todos aqueles que vieram antes dele, no São Paulo e em outros clubes. Mesmo que seu desconforto sugira que ele também percebeu.

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Na mesa

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Além da vaga para o Fortaleza na Série A do ano que vem e do probabilíssimo troféu de campeão, a temporada de Rogério Ceni na segunda divisão do Campeonato Brasileiro gerou um nome para o chamado mercado de fim de ano. Dirigentes pelo país afora devem se sentir mais seguros ao mencioná-lo, agora que uma amostra de trabalho está disponível, com a possibilidade de cruzar o que Ceni dizia ao assumir o time de sua vida com o que fez ao longo de 2018 no clube cearense. E ele certamente está mais confiante, de posse do certificado de conclusão do “estágio” que lhe cobraram quando o São Paulo cometeu a atrocidade de lhe cortar as asas depois de seis meses.

Não que fosse necessário, mas Ceni optou por ir para bem longe do Morumbi e “recomeçar por baixo”, como diria quem entende que o problema foi sua inexperiência e não a impaciência dos que deveriam apoiá-lo. Como estaria o São Paulo ao final do segundo ano sob direção dele? Ninguém pode afirmar, mas Diego Aguirre – cuja permanência para 2019 é debatida – é o quarto treinador a ocupar o cargo desde que o clube mostrou a porta a um de seus ídolos históricos. No Fortaleza, Ceni construiu um time que sabe ao que joga e como pretende vencer, características que destoam em um ambiente de futebol aleatório, marcado pela sobrevivência, seja como for.

Sim, é a Série B, onde a concorrência é distinta. Mas o ponto não é a comparação com a primeira divisão ou o nível de dificuldade de uma conquista que chegará cedo ou tarde. É a quantidade de obstáculos que se apresentam para a montagem de equipe num campeonato em que também há diferenças de orçamento; o trabalho necessário para a implantação e o desenvolvimento de uma forma de jogar. São notáveis nas atuações do Fortaleza as influências relatadas por Ceni ao anunciar a carreira de treinador, notícia agradável reforçada por uma campanha bem-sucedida em resultados.

Há dois anos, Ceni dizia que os clubes rivais do São Paulo não o considerariam por causa de sua identificação, cenário que lhe parecia natural. É possível que o que se deu desde então tenha alterado esse modo de pensar, especialmente pelo trauma do primeiro semestre de 2017. Se decidir por não prosseguir no Fortaleza, as questões que estarão diante de Ceni não diferirão das que se colocam para qualquer técnico: ponderar os prós e contras das ofertas que chegarem, avaliando cada oportunidade sem portas fechadas de antemão. Seu nome está na mesa, com todos os méritos.

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