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Incontrolável

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Só é preciso voltar uma temporada no tempo para que a diferença da contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus seja notada. Com a coincidência do retorno ao mesmo local, e também para um jogo entre o time italiano e um adversário de Madri. Foi em três de abril de 2018 que Ronaldo marcou duas vezes pelo Real Madrid no Allianz Stadium, uma delas com a bicicleta que fez Buffon cumprimentá-lo e uma parte da torcida juventina aplaudi-lo apesar da tristeza. Naquela noite, os gols de Cristiano distanciaram a Juventus do sonho europeu e certamente estimularam o clube de Turim a buscá-lo, identificando-o como a peça ausente no projeto de erguer a Liga dos Campeões.

Menos de um ano depois, o mesmo estádio experimentou o que é ter um finalizador como Ronaldo atuando a favor em um confronto desse torneio, com um desempenho que superou até mesmo as projeções mais otimistas. A ideia de fazer três gols em uma equipe com a capacidade defensiva do Atlético de Madrid já é, por si, ousada. Três gols do mesmo jogador são um projeto ainda menos provável, embora a trajetória de Cristiano na UCL seja capaz de desafiar o ceticismo. Nessas ocasiões, a obrigação de estabelecer uma determinada diferença no placar multiplica a dificuldade do feito, uma vez que o adversário pode manejar os diferentes cenários em que mesmo uma derrota não significa a eliminação.

O que não se pode manejar, como se viu anteontem, é Cristiano Ronaldo dentro da área. O ex-jogador inglês Gary Lineker se sentiu obrigado a ir ao Twitter após o segundo gol, e escreveu “eu acho que Cristiano é o melhor cabeceador que já vi”, uma afirmação da qual é difícil discordar. E após uma atuação de super-herói para manter a Juventus nesta edição da Champions, a aparição de Ronaldo na conversa sobre os melhores jogadores europeus de todos os tempos não soa como exagero. É possível enxergá-lo sentado à uma mesa de ícones com Cruyff e Zidane, mesmo considerando os perfis e as características futebolísticas que os distinguem.

Foi a oitava vez em que Cristiano Ronaldo fez três gols em um jogo de Liga dos Campeões, de modo que a noite de terça-feira em Turim não é exatamente um acontecimento raro. Mas não é sempre que um jogador exercita, em campo, todos os motivos que levaram seu clube a contratá-lo, no tipo de ocasião imaginada como um obstáculo intransponível sem sua presença. Pois foi precisamente o que aconteceu, uma temporada depois da bicicleta com a qual Ronaldo conquistou Turim.

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Cura

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O nível de ódio endereçado a Vinicius Júnior nas redes antissociais é doentio. Não se pode considerar normal nem se o garoto tivesse comprado um lugar num colosso do futebol mundial, pagando seus concorrentes de posição para deixá-lo jogar antes do que se planejava. Sabe-se, claro, que é exatamente o oposto: a desastrosa temporada do Real Madrid (encerrada em uma semana após três jogos em casa contra o que se convencionou chamar de Barçajax, o que machuca mais) enxergou no atacante brasileiro uma saída do atoleiro. Sua presença no time titular foi solicitada.

E ele correspondia brilhantemente até se machucar. Brilhantemente. Menos para quem se julga conhecedor do funcionamento do futebol a ponto de determinar, do alto da importância do próprio sofá, que um futebolista ainda em formação tem obrigação de acertar em todas as oportunidades que surgem. Ou que um jovem milionário candidato a astro planetário tem de absorver as pancadas em silêncio, no mínimo, mas melhor seria se sorrisse. É vergonhoso. Pois quando a origem de tanta radioatividade não é a inveja ou o preconceito, é o fato de Vinicius ser associado ao Flamengo, como se isso justificasse o desejo de quem não é Flamengo pelo seu fracasso. Ou então é a combinação de todas essas forças, quer dizer, fraquezas. De caráter.

O ataque do Real Madrid é um território monárquico no futebol. Basta pensar nos nomes que o habitaram ao longo dos tempos. Eis que as coisas andaram tão mal que um clube dessa magnitude teve de olhar para um rapaz contratado para ser parte do futuro, buscando em seus pés o alívio imediato. Mesmo que seus fundamentos técnicos ainda precisem de polimentos. Mesmo que seu corpo ainda esteja em desenvolvimento. Mesmo que suas habilidades ainda não se apresentem com a exuberância necessária para um trabalho tão exigente. Mesmo praticamente desconsiderando o processo de adaptação. Ele não apenas se entendeu rapidamente com os companheiros, como recebeu elogios em tom de agradecimento pelo desempenho. Mas os especialistas de twitter brasileiros “pensam” diferente.

A parte verdadeiramente triste dessa história é a lesão no tornozelo. Não há momento apropriado para um jogador se machucar, mas há ocasiões em que o preço cobrado parece pesado demais: no caso de Vinicius, o chamado da seleção brasileira e a perspectiva de disputar a Copa América. O tempo pode demorar a passar, mas Vinicius voltará inteiro, saudável. Quem o chamou de pipoqueiro, por outro lado, não tem cura.

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Perfil baixo

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Os diários esportivos de cada cidade seguem cobrindo os encontros entre Barcelona e Real Madrid como reality shows futebolísticos, mas o drama já esteve em níveis muito mais altos. Obviamente a tensão entre técnicos jamais voltará aos tempos de Mourinho x Guardiola, mas até mesmo em relação ao que importa, o jogo, o grande clássico espanhol vive dias de baixa estação. Cristiano Ronaldo não está mais por perto e o Real Madrid sofre para reencontrar o elã que costumava acompanhá-lo. Lionel Messi permanece do lado oposto, mais importante e mais solitário do que nunca.

A tradição de esquentar a prévia do encontro na Copa do Rey gerou uma declaração de Vinicius Júnior, estampado nas primeiras páginas dos tabloides de Madri com a frequência de um ator consagrado em revistas de celebridades, recebida com má compreensão. Instado a falar sobre Messi, o jovem brasileiro que colaborou para resgatar a temporada do Madrid disse que “[Messi] É incrível, mas não assusta ninguém”. A resposta padrão de um jogador do rival sobre a figura que personifica o Barcelona foi entendida, especialmente no Brasil, como uma demonstração de arrogância. Tolice. Ninguém que o conhece tem dele essa impressão.

Vinicius esteve envolvido nas principais ocasiões do primeiro tempo no Bernabéu: um passe – se fosse rasteiro, o trabalho do francês seria facilitado – para deixar Benzema em condições de superar Ter Stegen; e uma finalização de pé esquerdo, bem próxima ao gol, que ele certamente lamentará por alguns dias. Além de exibir os defeitos coletivos que o caracterizam neste momento, o Barcelona foi incapaz de acionar a solução individual que tem sido sua salvação durante toda a temporada. A bola não chegou a Messi entre as linhas de marcação brancas, problema que a ausência de Arthur provavelmente agrava. O primeiro tempo foi tímido até para os tempos atuais, mas condizente com duas equipes que não conseguem se aproximar de suas melhores versões.

Três gols na segunda parte, dois marcados por Suárez e um que ele obrigou Varane a anotar contra, deixaram o Barcelona em posição confortabilíssima para vencer mais uma vez em Madri com uma atuação opaca e sem Messi em noite de desequilíbrio. O que diz muito a respeito de uma partida estranha e talvez diga ainda mais sobre o estado de forma do Real Madrid. As manchetes não serão agradáveis. Uma derrota eliminatória em casa num clássico é sempre pesada, mesmo que o encontro não tenha o conteúdo de outrora.

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#loucura

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A era da imbecilidade orgulhosa é farta em espetáculos do absurdo. Enquanto Fluminense e Vasco decidiam a Taça Guanabara, no domingo, num Maracanã usado com irresponsabilidade quase criminosa, o perfil oficial da Ferj no twitter atualizava o andamento do jogo com hashtags como #omaisvisto e #omaischarmoso. Tente conciliar essas expressões com os maus tratos ao público e o risco de acontecimentos trágicos fora do estádio, e a conclusão será um nível doentio de desconexão da realidade, algo comparável com uma briga por um lugar na areia enquanto o tsunami se aproxima.

É difícil crer que não foi uma trama arquitetada por mentes maquiavélicas, tal o patamar de insanidade. Um autêntico manual de como esculachar um jogo de futebol, com fabricação do descontrole popular para produzir cadáveres nas ruas. O que se viu no Rio de Janeiro, com envolvimento dos clubes, da federação e até da Justiça, foi um atentado ao torcedor de futebol. O plano não teve sucesso por falta de sorte, mas mesmo que houvesse mortes ou feridos graves, o twitter da Ferj seguiria falando em #futebolraiz.

O que é isso, porém, diante da abordagem corporativa do Flamengo no trato da catástrofe ocorrida em seu próprio centro de treinamentos? Alguém foi capaz de escrever – e outros foram capazes de aprovar – uma nota oficial em que o clube mencionou o caso da Boate Kiss para se auto-elogiar no que diz respeito ao pagamento de indenizações às famílias das vítimas. O clube também informa que, considerando a tabela de precificação de vidas humanas perdidas, fez ofertas mais generosas do que as habitualmente praticadas. O nível de equívoco da comunicação do Flamengo neste episódio é simplesmente intolerável.

Isto não é uma negociação que requer o emprego de habilidades e estratégias para alcançar um objetivo estabelecido e comemorado ao final. É um processo de extrema sensibilidade, em que um clube de futebol precisa entender o tamanho de sua representatividade e transmitir seu senso de honradez. Não é uma questão de números, mas de dignidade. A importante diferença entre preço e valor deveria ser evidente quando se trata da imaterialidade. O que pode ser mais valioso para o Flamengo do que a pureza de um sonho compartilhado?

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O fator Brasil

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Levir Culpi foi o primeiro a avisar, ainda na última sexta-feira, que haveria uma onda de inspeções a centros de treinamentos dos principais clubes do país. Foi como se o técnico do Atlético tivesse informação privilegiada, pois, desde então, o noticiário tem exibido a repetição de manchetes a respeito de irregularidades verificadas em visitas das autoridades a esses locais. Nota-se, claro, especial atenção a alojamentos das categorias de base e a avaliação dos riscos de incêndio, o equivalente ao aparecimento repentino de viaturas policiais onde não havia nenhuma quando um crime de alta repercussão aconteceu.

Seria um contrassenso criticar medidas cujo objetivo é evitar tragédias, e este não é o ponto. O ponto é o que se pode chamar de “fator Brasil”: o talento nacional para a complacência com irregularidades – de todos os níveis – até que uma barbaridade como a do Ninho do Urubu literalmente obriga as cadeiras a se mexer. É vasta a lista dos clubes que tiveram de tomar providências nos últimos dias, para se adequar ao que é correto ou evitar perigos. Tudo estava perfeitamente em ordem na semana passada. E não é que não haja legislação ou alguém possa explicar que não conhece a diferença entre certo e errado. As burocracias apresentam dificuldades e oferecem vias paralelas sem que ninguém se preocupe.

O pós-tragédia expõe a realidade inaceitável, mas não sem antes revelar reações imediatas quase sempre no sentido de negar responsabilidades ou minimizar danos. É como se ninguém tivesse culpa e se tratasse de um evento espontâneo, que não se compreende e não se explica. A relutância do Flamengo a discutir abertamente o ocorrido e lidar com os questionamentos indica uma conduta corporativa que não se concilia com o papel de clubes de futebol dessa magnitude. A preferência por enviar jogadores – Diego e Willian Arão, por enquanto, merecem aplausos pela dignidade – ao contato público não deixa de ser uma estratégia de comunicação, quando a ocasião pede transparência.

A verdade inescapável é que dez meninos perderam a vida dentro das instalações do Flamengo. Não há gabinete de crise que seja capaz de suavizar algo tão devastador. Mas isso é o que aparece na vitrine. No escritório que fica nos fundos, sentado à mesa e colado ao telefone, está o “fator Brasil”.

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Próprio

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Fernando Diniz não crê que as ideias que tenta aplicar ao time do Fluminense sofram prejuízo ou atraso por causa da qualidade do elenco de que dispõe. Ao contrário, habituado a dirigir jogadores muito mais carentes tecnicamente do que os atuais, o treinador está satisfeito com o material humano com o qual trabalha, e entende que existem jovens nas categorias da base do clube com ótimas possibilidades de se destacar no futebol brasileiro e até mesmo atrair interesse internacional.

Não foi fácil construir o grupo de jogadores do Fluminense para este ano. O processo de recrutamento foi influenciado pela situação financeira do clube, a ponto de dois jogadores procurados terem preferido propostas do Bahia, e um, do Guarani. Outros foram convencidos a aceitar salários inferiores aos oferecidos por equipes de menor visibilidade. O trabalho semanal ainda sofre pela falta de uma estrutura que permita que os jogadores fiquem alojados no centro de treinamentos, o que colaboraria muito nos aspectos de descanso e alimentação.

Diniz está montando um time ainda mais móvel, no sentido da liberdade dos futebolistas, do que era seu Athletico Paranaense. Alguns jogadores já enxergam como circular por diferentes setores do campo quando a equipe tem a bola, de forma a multiplicar opções de passe. Trocas de função no momento defensivo também têm sido mais bem compreendidas, apesar do curto período de trabalho. Boa leitura de jogo e, principalmente, coragem para assumir riscos são exigências inegociáveis para um técnico que prioriza os relacionamentos humanos no ambiente profissional, hoje com a ajuda de uma comissão formada com base nesses valores.

Paulo Henrique Ganso jogará onde e como se sentir mais cômodo, conforme sua influência na circulação da bola e na eficiência das movimentações. Não há planos de um experimento em uma função inédita ou taticamente surpreendente, a ideia é qualificar o que já está em andamento. Quando o Fluminense conversava com Ganso e Nenê, Diniz insistia que ambos poderiam ser contratados e que encontraria uma forma de utilizá-los juntos. O time que ele visualiza investe na capacidade de decisão dos jogadores, sem estruturas rígidas ou papéis limitados. Para além dos conceitos, o que se busca é o envolvimento pessoal dos jogadores em um estilo que interpretem e defendam como próprio.

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Sentimento

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Na primeira reunião de trabalho com a diretoria do Santos num hotel paulistano da região dos Jardins, em dezembro, Jorge Sampaoli revelou uma característica que o define como pessoa e treinador. A conversa era sobre a necessidade de fortalecer o elenco para que o time pudesse atuar da maneira que o técnico deseja, e cerca de sete jogadores foram mencionados. Ao se levantar da mesa para se exercitar na academia do hotel, Sampaoli pediu que a reunião prosseguisse dali a duas horas. “Quando voltarmos, pelo menos duas contratações estarão fechadas, ok?”, disse. Todos os presentes entenderam como uma brincadeira, mas a expressão em seu rosto era de absoluta seriedade.

O desejo de ver tudo funcionando imediatamente ajuda a ilustrar, em um contexto amplo, o que o Santos já exibe sob o comando do argentino, embora o valor esportivo das vitórias iniciais – mesmo a de domingo passado, no clássico com o São Paulo – seja mínimo perto do que se pretende alcançar. Não, Sampaoli não é um iPhone X operando em 5G numa terra de celulares com teclado físico e antena. Ocorre que, além da hierarquia que sua presença impõe, ele sabe exatamente o que quer e como ir de A a B. O Santos lhe deu autonomia total nas decisões futebolísticas, o que, por enquanto, o diferencia da enorme maioria dos técnicos trabalhando no Brasil.

A atuação no jogo contra o São Paulo gerou o tipo de exaltação repentina que caracteriza a esquizofrenia do futebol no país. Até quem fazia objeções sem sentido a um jeito de ser e trabalhar passou a falar em “conceitos”, falhando miseravelmente na tentativa de disfarçar que o real objetivo era apenas bater no técnico derrotado no Pacaembu, que, a exemplo de Sampaoli, mas em condições totalmente distintas, ainda está longe do que almeja. As teses – em janeiro! – e argumentações rasas ignoram o que Sampaoli já conseguiu de fato, algo que pode ser um dos pilares de seu período no Santos: um motivo para o torcedor investir emocionalmente no que vê e se apresentar para ser parte integrante.

O curto trecho divulgado da preleção do último domingo evidenciou a importância que o técnico dá à relação com os santistas. Esse é um tema recorrente em conversas internas, nas quais Sampaoli lamenta a baixa ocupação dos estádios brasileiros. Ele não concebe o futebol sem as pessoas. Se quem carrega o Santos no coração se abraçar ao time e compreender os caprichos deste jogo, as possibilidades se abrirão e as chances de Sampaoli cumprir seu contrato serão maiores. Mesmo se as coisas não funcionarem na velocidade que ele deseja.

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Gabriel Gol, 22

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A contratação que terá mais repercussão é a de De Arrascaeta, pelo processo tumultuado que gerou e, principalmente, pelo valor recorde em uma transação entre dois clubes do futebol brasileiro. Mas, sem absolutamente nenhuma crítica à qualidade do jogador uruguaio, o principal movimento feito pelo Flamengo é a chegada de Gabriel Barbosa, o Gabriel Gol. São raros os jogadores que oferecem nível técnico internacional – ou seja, capacidade para atuar nos principais centros – à disposição de equipes brasileiras, e é mais comum vê-los por aqui antes de serem exportados: Gabriel Jesus, Vinícius Júnior, Rodrygo, Arthur, para ficar em exemplos recentes. O novo atacante do Flamengo é um caso distinto.

O motivo: Gabriel já recebeu sua(s) oportunidade(s), e não teve sucesso por algo que se pode chamar de defeito de mentalidade. Mesmo considerando os contextos de adaptação, principalmente no aspecto tático, ao futebol italiano, cabe ressaltar que ele teria feito mais por si mesmo se tivesse se comportado como um jogador em formação e com um vasto aprendizado por diante. A essa altura, talvez ainda estivesse na Europa reformando opiniões e retomando o caminho que sonhou quando a Internazionale o contratou em 2016, aos vinte anos. O retorno ao Santos pode não ter sido a melhor decisão em relação ao próprio desenvolvimento, mas evidenciou – uma vez mais – o que acontece quando um jogador com esse potencial atua no país. E permitiu ao Flamengo utilizar seu poder de investimento.

A questão agora passa a ser o ajuste da mentalidade, no sentido de entender o significado de 2019 em sua carreira e as exigências que acompanham a chance de jogar no Flamengo. A presença de Abel Braga indica que Gabriel terá suporte, compreensão e cobrança nas medidas certas para vencer, mas a carga mais influente do trabalho obviamente corresponde a ele. Ao que tudo indica, o Flamengo será um time diferente do Santos, que jogava para ativar Gabriel com espaço. O papel que se pedirá a ele como rubro-negro demandará um jogador capaz de ser decisivo em um plano essencialmente de proposição (o que não significa, é claro, que esse será o padrão de atuação durante todo o tempo de todos os jogos da temporada). Todo desafio é uma porta para o crescimento.

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Avalanche

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A intensa programação de jogos do campeonato inglês na virada do calendário costuma ser a salvação dos dependentes de futebol. Neste início de ano, a ajuda oferecerá mais do que partidas interessantes com os melhores times ingleses envolvidos em encontros que entretém, mas não necessariamente sequestram atenções: a visita do Liverpool ao estádio do Manchester City tem um peso determinante na corrida pelo título, além de ser o choque entre equipes dirigidas por técnicos frequentemente mencionados quando o tema é o que se chama de “futebol atraente”.

Pep Guardiola e Jurgen Klopp trocaram cordialidades na prévia do jogo de logo mais. Ambos usaram a expressão “melhor time do mundo” para se referir ao adversário, com sutilezas que diferenciam cada lado. Guardiola adicionou “no momento”, em clara menção ao primeiro turno histórico que posicionou o Liverpool com sete pontos de folga na liderança da Premier League. Klopp usou “ainda” para reforçar que as derrotas recentes do City não alteram a forma como ele enxerga o oponente, atual campeão inglês e terceiro colocado na classificação.

Adicione que o técnico alemão é quem ostenta o melhor retrospecto de enfrentamentos com o catalão, lembre que o histórico de partidas decisivas entre eles remonta aos dias em que trabalhavam na Bundesliga, e o que você terá é um jogo de futebol obrigatório nesta quinta-feira, três de janeiro, época em que a comida das festas ainda não foi totalmente processada e o tempo passa com a preguiça de quem não dormiu direito. Não na Premier League e definitivamente não para os times de Fernandinho e Firmino, De Bruyne (presença não confirmada) e Salah.

Entre o “no momento” e o “ainda”, Guardiola está mais próximo da razão. Não há time no mundo que queira enfrentar o Liverpool na fase atual, em que a fábrica de caos de Klopp opera em modo full. A diferença de pontuação obviamente injeta pressão sobre o City, pois uma derrota levaria a questão para intransponíveis dez pontos. Para os campeões, é uma final com todas as letras, especialmente se o resultado for ruim, o que aumenta a curiosidade sobre como Guardiola desenhará seu time em uma situação limítrofe.

No primeiro turno, o City foi capaz de conter a máquina de Klopp com uma versão futebolística de controle de avalanches: posse defensiva, paciência no nível budista e negação de campo para o Liverpool correr. Um pênalti (mal marcado) desperdiçado por Mahrez manteve o empate a zero. Guardiola assinaria outro jogo assim num piscar de olhos.

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Diferentes

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Jorge Valdano talvez seja quem melhor escreve no mundo sobre futebol. Seus artigos apresentam o ponto de vista do ex-futebolista que segue vivendo o jogo como paixão, sem argumentos de autoridade ou qualquer traço de ressentimento; o manejo do idioma é magistral, ferramenta para a maneira sensível com que aborda questões que parecem simples apenas para quem opta pela superficialidade. Lê-lo é mergulhar no “jogo infinito”, título apropriado para o espaço no diário El País que apresenta seus pensamentos. Mais do que recomendável, necessário.

Em sua peça mais recente publicada no jornal espanhol, Valdano ofereceu o seguinte: “… os futebolistas técnicos e imaginativos são os únicos capazes de romper o jogo rotineiro que pode converter uma grande equipe em uma equipe qualquer. Só necessitam que não os crucifiquem por ser valentes”. O raciocínio é sobre o que se passa com Isco no Real Madrid, mas se aplica a todos os jogadores criticados por “atrapalhar” a ordem coletiva que, paradoxalmente, depende deles para se impor. É um debate conceitual, provavelmente até mais oportuno para o futebol brasileiro.

Figuras como Dudu e Luan, para ficar em exemplos de maior destaque. Ou Neymar, especialmente na seleção. É para eles que os dedos apontam sempre que suas equipes não atuam bem, como se as tentativas infrutíferas que partem de seus pés fossem as razões que explicam o mau desempenho. Ou como se, ao desativar o “modo desequilíbrio”, essa classe de jogadores pudesse colaborar de alguma forma para o objetivo de todos. Além dos goleiros, eles são os únicos que dependem de um índice de aproveitamento quase impecável para não se converterem em um problema, o que contraria a dinâmica do que sabem fazer e o motivo pelo qual estão em campo.

Um dos objetivos do futebol é desorganizar o adversário, algo que pode ser feito de diferentes formas. São raras as equipes – nenhuma delas está no Brasil – em que as qualidades dos jogadores estão a serviço de uma organização posicional soberana, que determina menor influência individual até que a bola chegue a certas regiões. Mais raros ainda são os jogadores dos quais se pode exigir o que há de mais próximo da perfeição. Sobre um deles, Messi, Valdano definiu no mesmo texto: “em efeito, só se encarrega de ganhar as partidas. Cumpre com a parte do contrato que compromete a um gênio: ser o melhor”.

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