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O que falta

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A presença de quatro clubes ingleses no que costumava ser território do futebol espanhol alimenta o debate sobre novos tempos nos gramados europeus. Liverpool e Tottenham vão decidir a Liga dos Campeões da Uefa, enquanto Arsenal e Chelsea são os finalistas da Liga Europa. Nos últimos quatorze anos, só em duas ocasiões um time espanhol deixou de vencer um dos dois torneios.

Onde as aparições do Real Madrid, do Barcelona, do Atlético de Madrid e do Sevilla se tornaram constantes, nesta temporada, pela primeira vez, quatro camisas do mesmo país disputarão os títulos continentais. A Inglaterra monopolizará o cenário em Madri e em Baku, sedes das finais, sugerindo que, enfim, a pujança econômica da Premier League venceu a corrida. Será?

Não resta dúvida de que o campeonato inglês é o melhor produto de futebol que existe quando se fala em ligas nacionais. No empacotamento, na divulgação e na transmissão pela televisão, a Premier League reina tranquila. No jogo jogado, porém, a Liga Espanhola oferece competição técnica e tática mesmo com as diferenças de distribuição de dinheiro e a evidente distância entre os dois gigantes e os demais.

Já há algum tempo o futebol inglês se estabeleceu como a casa dos principais técnicos do mundo. Os finalistas dos torneios continentais da temporada que está terminando são Klopp (alemão), Pochettino (argentino, com formação espanhola), Sarri (italiano) e Emery (espanhol), e o bicampeão nacional é Guardiola (espanhol). Mas o salto para se converter na liga dos melhores jogadores do planeta, crucial para a nova era que se aguarda, ainda não aconteceu.

Messi está em Barcelona, Ronaldo segue em Turim, Neymar – ou, se preferir, Mbappé – por enquanto continua em Paris. No próximo período de transferências, é provável que Hazard enfraqueça a Premier League ao deixar o Chelsea para jogar no Real Madrid, cuja reforma de elenco sob Zidane exercerá imensa atração no mercado. É o tipo de campo de força que os clubes ingleses ainda não têm, especialmente com relação aos sonhos de jovens projetados como futuras estrelas.

Um trecho de um recente artigo escrito por Simon Kuper para o espn.com é ilustrativo. Ao recrutar Frenkie de Jong, o presidente do Barcelona, Josep Bartomeu, lhe disse o seguinte: “Se você procura um técnico, vá com Pep Guardiola. Mas quando ele sair do City, não sei quem será o próximo técnico. Se procura dinheiro, vá para o PSG. Você será um bilionário. Mas se você quer aproveitar a vida nos próximos doze, quatorze anos, venha para o Barcelona”. Formado no Ajax, de Jong seguiu seu coração.

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Manadas

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No dia seguinte à última rodada da Premier League, o New York Times publicou uma reportagem informando que o Manchester City pode ser punido pela Uefa com exclusão da Liga dos Campeões. O bicampeão inglês é acusado de ludibriar os controles financeiros da entidade que supervisiona o futebol na Europa e, ainda que as investigações não estejam concluídas, o tema é indiscutivelmente importante por motivos óbvios. O City não quis falar com o jornal, mas publicou uma nota afirmando-se inocente e mencionando preocupação com o que considera uma campanha de prejuízo de sua imagem.

Em questão de minutos, simpatizantes do time azul de Manchester mobilizaram as redes antissociais com diversas reações à reportagem e à possibilidade de punição. Como é frequente, a disseminação de “teses” sobre os motivos inconfessáveis que estariam escondidos sob a prática de informar ganhou vida. A mais criativa delas, talvez, construía uma teia de interesses sob a qual o Times, que seria acionista do grupo empresarial que controla o Liverpool, estaria apenas agindo para danificar a reputação e os objetivos de um clube rival. Ocorre que nada disso é verdade, embora a verdade não importe a quem evidentemente não deseja ser informado, apenas quer ler/ouvir o que lhe provoca uma sensação de conforto.

O “comportamento de manada”, tão comum nas redes, não precisa de muito esforço para ganhar tração e ao menos gerar baderna suficiente para equilibrar o placar da opinião pública, mesmo que por intermédio de ficção. O problema se agrava quando o motor que impulsiona falsos debates são instituições que deveriam estar empenhadas na vida real. Nesse âmbito, os clubes brasileiros parecem recorrer a um manual de comunicação que só sabe responder a notícias desagradáveis com a carta da “tentativa de desestabilização”, de modo a estabelecer um conflito entre nós (clube e torcida) e eles (o mundo).

O Flamengo – apenas para citar um exemplo, entre tantos, no qual praticamente todos os clubes do país se enxergariam, ok trolls? – tem sido um expoente desse antigo método, com a publicação de notas oficiais em que a desconexão da realidade é flagrante a ponto de sugerir que a autoria dispensa a qualificação para uma função tão relevante. Quando não se peca por argumentação sofrível e/ou claramente disposta a confundir, o equívoco se dá pela ideia de que um clube de futebol deve se comunicar em tom corporativo. Difícil. Mais ainda quando muitos exemplos do futebol de primeiro mundo são ruins.

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Impedido

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Juan relembra com especial orgulho a decisão da Copa América de 2007, quando o Brasil mandou 3 x 0 na Argentina – com Zanetti, Mascherano, Verón, Riquelme, Messi e Tévez em campo – em Maracaibo, na Venezuela. “Foi meu único jogo como capitão da seleção”, diz o agora aposentado zagueiro que deixará saudades por todas as camisas que vestiu. A declaração faz parte de um “Bola da Vez” que a ESPN Brasil exibirá com personagens do torneio sul-americano de seleções, que terá sua quadragésima-sexta edição em estádios brasileiros entre junho e julho.

Se Juan (uma década, 78 jogos, 7 gols e conduta exemplar) ainda servisse a seleção brasileira, não haveria qualquer dúvida sobre quem levaria a faixa no braço. Ele representava não só a liderança frequentemente associada ao “cargo”, mas também a hierarquia silenciosa que impõe respeito no gramado e no vestiário. É exatamente a ausência de sucessores no time atual uma das razões da escolha por Neymar como capitão do time. Não, isso não faz de Tite seu responsável legal, mesmo porque Neymar, além de ser maior de idade, tem um pai bastante próximo e atuante. Mas, sim, o comportamento do capitão da seleção no âmbito do jogo evidentemente é assunto do treinador da equipe.

A ideia da não convocação de Neymar para a Copa América por causa da agressão – inexplicável, inaceitável e de punição necessária pelo PSG e pela federação francesa, independentemente de ter sido provocado – a um espectador no Parque dos Príncipes é uma tolice. A relação com a geladeira a Douglas Costa, há sete meses, por cuspir em um adversário na Itália, não cabe. Douglas deixou de ser chamado para dois amistosos; Neymar está às portas de um torneio de extrema importância para a seleção, para ele mesmo e para Tite. Não é a convocação de Neymar que levará o técnico a um flerte de incoerência com os próprios critérios, mas a manutenção de seu melhor jogador como capitão é perigosa.

Tite declarou a intenção de “dar maior responsabilidade” a Neymar dentro de campo, uma iniciativa que certamente estava acompanhada pelo desejo de ter o futebolista mais influente do time comprometido com os aspectos coletivos. Ocorre que o episódio do último sábado em Paris impõe o questionamento se essa ideia faz qualquer sentido. O capitão de um time de futebol é um representante de seus companheiros e de seu treinador. Não é possível que no vestiário da seleção brasileira – onde não há funcionários da empresa Neymar Júnior – , haja alguém que compactue com violência.

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Ceni acerta

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Excluindo aspectos pessoais que sempre desempenham um papel importante em qualquer decisão, e também a questão conceitual a respeito de cumprimento de contratos, a permanência de Rogério Ceni como técnico do Fortaleza é um acerto profissional sob qualquer ponto de vista. A recusa a um clube de maior estatura nacional, que obviamente significaria uma valorização financeira, também diferencia o ex-goleiro no panorama geral dos movimentos feitos por treinadores de futebol no Brasil.

Ceni já venceu o título estadual em 2019, significativo no âmbito da rivalidade local. A Copa do Nordeste apresenta a possibilidade de outra conquista, mas é o Campeonato Brasileiro que oferecerá o julgamento sobre seu trabalho no Fortaleza. Sem correr o risco de estabelecer objetivos exageradamente modestos, parece claro que concluir a última rodada acima da décima-sétima posição converterá a temporada em missão cumprida. Não que seja simples, mas a noção equivalente a essa num clube com o Atlético Mineiro – apesar dos anos seguidos escrevendo um manual de como não fazer futebol – seria, como mínimo, uma classificação para a Copa Libertadores de 2020. Com um elenco que Ceni não conhece e a responsabilidade de solucionar problemas que não lhe pertencem. Faça as contas.

Só há um caminho possível para o Atlético: desligar a porta giratória pela qual técnicos passam como se fossem colaboradores temporários. Talvez essa decisão tenha sido tomada agora, com a contratação de um executivo para gerenciar o departamento de futebol, protegido da fogueira de vaidades e do ambiente político. A coletividade precisa compreender que nada acontece sem o respeito ao processo de montagem de equipes, mesmo em uma “cultura” de jogo que insiste em fazer as coisas ao contrário. A escolha do próximo treinador é fundamental para essa reforma de método, o que implica em convencer profissionais a implementá-la. Tiago Nunes e Rogério Ceni preferiram o que já conhecem.

Quanto a Ceni, a aversão a mudanças repentinas só seria superada por uma eventual insatisfação momentânea com o clube ou pela descrença na capacidade do time. Quem o viu comemorando os gols do Fortaleza na decisão estadual teve a impressão de um técnico em total sintonia com o ambiente que o cerca. Há ocasiões em que o melhor a fazer é não fazer nada.

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Um presente

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Em tempos de exageros cometidos com frequência assustadora, termos como “épico” e “histórico” são associados a eventos que não os merecem. Mas a classificação do Ajax para as semifinais da Liga dos Campeões é uma dessas ocasiões que precisam ser descritas de forma a reservá-las um lugar especial. É perfeitamente razoável dizer que o jovem time holandês, constituído por futuras estrelas e inspirado pelo espírito que o diferencia, pratica o futebol mais atraente do principal torneio de clubes do mundo. A vitória de virada sobre a Juventus, em Turim, foi uma demonstração autêntica do tipo de jogo que o Ajax representa, numa noite em que o resultado deveria ter sido ainda mais favorável do que 2 x 1.

Este Ajax é a versão mais atualizada do que se chama de “futebol cruyffiano”, ou seja, alicerçado nas ideias da figura mais influente no jogo nas últimas décadas e nas adaptações necessárias para acomodar, nesta visão, futebolistas que as interpretem de acordo com o que aprendem e sentem. Haverá quem diga que não se trata de um modelo clássico do jogo de posição que Cruyff personifica, e é absoluta verdade. Por exemplo: os atacantes de lado não ficam restritos a seus setores próximos à linha lateral, alargando o gramado e aguardando a bola; o meio-campista mais determinante tem autorização para dirigir o time navegando por onde achar conveniente; no aspecto estético, há pouca preocupação com simetria. A movimentação dos jogadores parece desorganizada, embora seja o contrário.

No entanto, independentemente de formatos, o Ajax que eliminou o Real Madrid e a Juventus da Liga dos Campeões guarda íntimos valores do futebol proposto nos momentos mais gloriosos do clube: a posse, o passe, o refinamento técnico, o sentido coletivo, o caráter ofensivo inegociável e, sobretudo, a coragem. Ausência de medo talvez seja uma ideia um tanto quanto subjetiva quando aplicada ao jogo de futebol. Pode sugerir valentia, no sentido de força, vigor, o que não é necessariamente o caso. A coragem que o Ajax exibe como um selo de identidade é algo que se aproxima da insolência e da arrogância, sempre no significado positivo. É o que permite a jogadores na faixa dos vinte e poucos anos – ou nem isso, como no caso do zagueiro Matthis de Ligt, 19 – subir ao gramado de estádios como o Santiago Bernabéu e submeter adversários de mais nome e maior orçamento.

O Ajax é um presente que, de vez em quando, o futebol encomenda para si mesmo.

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Ganhar perdendo

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No futebol, é quando se perde que as atuações coletivas passam por um exame mais rigoroso. Um dos mistérios apaixonantes do jogo é permitir, por vezes, uma desconexão intrigante entre o resultado e o desempenho, motivo pelo qual é obrigatório compreender o que restou – se é que restou algo – após uma jornada frustrante. A noite de segunda-feira passada foi uma ocasião ilustrativa para este propósito, porque ambos os times perderam. O Corinthians foi derrotado na partida. O Santos, nos pênaltis. Após dois jogos, o time que deixou a melhor imagem em campo está eliminado, evento pouco frequente em confrontos dessa natureza.

Raras vezes a temporada no Brasil mostrou um caso de tamanha imposição de um time sobre outro, a ponto de converter as referências estatísticas (68% de posse, 22 x 3 em finalizações, 14 x 0 em escanteios) nos elementos menos impressionantes para efeito de análise. Foi a maneira como o Santos se apropriou da bola e da metade do gramado defendida pelo Corinthians que ficará na memória de quem acompanhou o jogo, sem esquecer que do outro lado estava uma equipe que tinha sido superior ao time dirigido por Jorge Sampaoli nos dois encontros anteriores. Nenhum deles, no entanto, se aproximou do monólogo apresentado no Pacaembu.

Os dois zagueiros santistas ocuparam posições extremamente avançadas dentro do território corintiano, protegidos por um meio-campista defensivo e os dois laterais posicionados por dentro, de forma a fechar a saída da bola e pressionar agressivamente após qualquer perda. Na frente, pisando na área de Cássio, cinco jogadores de branco em constante intercâmbio de posições tornaram longa a noite da defesa do Corinthians. Não se deve ignorar a resposta notavelmente abaixo do que se esperava do time de Carille, mas não há dúvida sobre os aspectos determinantes para a vitória santista em noventa minutos: o plano desenhado por Sampaoli e a maneira como os jogadores do Santos se dedicaram a aplicá-lo.

A injustiça no jogo de futebol só se explica pela ocorrência de fatos importantes proibidos pela regra, como um gol ilegal confirmado por falha da arbitragem. Embora seja lógico afirmar que o Santos jogou para construir a vantagem que lhe permitiria prosseguir sem a necessidade de penalidades, é igualmente evidente que o 1 x 0 prevaleceu pela soma de virtudes e defeitos dos dois times em campo. De onde se conclui que a “classificação sem mérito” do Corinthians é uma ideia absolutamente sem sentido. O Santos venceu. Os pênaltis constituem outra competição, na qual dois santistas falharam. O futebol não perde nada com esse desfecho. Ao contrário, foi uma noite de jogo exuberante.

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Time que treina

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A vitória do Athletico (o termo “paranaense” ou a sigla do estado após o nome do clube se tornaram desnecessários após a alteração) sobre o Boca Juniors não foi apenas um tremendo resultado, produto de uma atuação formidável. Foi mais uma estocada na inutilidade que atrasa o futebol brasileiro, viabilizada pela subserviência dos clubes aos cartórios da bola, as federações estaduais. Ao dedicar ao campeonato paranaense a pouca relevância que merece, o Athletico passou a ser um time que treina, o que faz toda a diferença num ambiente em que a preparação para competir se tornou um luxo.

A noção de que times jogam como treinam adquire um sentido diferente a partir do momento em que a pré-temporada inexiste e o calendário impõe a simples recuperação de jogadores no intervalo entre partidas. Quando muito, técnicos ensaiam o que pretendem, durante trabalhos que não podem se aproximar da intensidade necessária, pois é preciso escolher entre treinar e jogar bem. Os clubes privilegiados em orçamento recorrem a elencos maiores, que oferecem a formação de equipes quase inteiramente diferentes conforme os objetivos, única forma de dividir o peso de uma temporada insana sobre as pernas dos futebolistas.

Já o Athletico exercita o que o orçamento não pode comprar: a coragem. Retirar o campeonato estadual da programação do elenco principal cobra, além dos incômodos institucionais e políticos, a taxa da falta de ritmo no início, mas propicia o lucro de encarar cada encontro significativo com a preparação adequada em todos os aspectos: da concentração à parte física, passando por sessões de treinamento que reproduzem jogos e efetivamente condicionam o time para tarefas específicas. A vitória sobre o Boca revelou uma equipe em esplendor – para o momento – em cada faceta de uma partida de futebol, deixando uma imagem que se distancia do que os demais times brasileiros têm exibido.

Após a temporada de 2018, Tiago Nunes falou sobre a personalidade mutante de seu time, pronto a ativar posturas diferentes de acordo com local, adversário e circunstâncias. Uma equipe que sai de seu campo com elaboração, desarma perto da área adversária, acelera a partir da intermediária ofensiva e fere em ações de bola parada. O Boca Juniors foi vítima dessas ideias anteontem, impotente, por momentos, diante de tanta volúpia. Uma equipe assim é construída enquanto ninguém está olhando, e enquanto os clubes que compartilham os mesmos objetivos estão envolvidos em jogos que valem pouco, ou nada.

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Dicionário

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As dificuldades para tratar do jogo de futebol são tamanhas que há ocasiões em que qualquer desvio, por mais insignificante que seja, se torna sedutor demais para ser ignorado. Aconteceu nos últimos dias, quando a péssima atuação da seleção brasileira contra o Panamá deu origem a um debate requentado sobre terminologia. Até nessa área do jogo impera o resultadismo: tivesse o Brasil vencido por 5 x 0, Tite poderia ter dado uma entrevista coletiva inteira em catalão e ninguém se importaria. Provavelmente seria aplaudido.

O “titês” não é novidade, certo? É a identidade verbal de um treinador que respeita a dinâmica de perguntas e respostas e se esmera para explicar o que pensa. Nem sempre dá certo, seja por exagero num jeito de falar caracterizado por termos habituais dentro do jogo, porém estranhos ao ambiente externo, seja porque a vontade de compreendê-lo inexiste em diversas partes. Poderia ser diferente, mas não seria autêntico, e aqueles que se incomodam tanto com o assunto o criticariam – exceto se o desempenho do time fosse bom, claro – por tentar aparentar o que não é.

Se tanto, o dever de “traduzir” o discurso do técnico da seleção é de quem trabalha entre ele e o público, mas para isso é necessário transitar pelo jogo e o terreno se mostra desafiador. O idioma em questão é composto de elementos pessoais, como é natural para todos, mas também oferece conceitos futebolísticos frequentemente formulados em outras línguas: um duplo problema para as tarefas de compreender e explicar. Mas basta querer. As escolas de futebol cujos vocabulários foram codificados em um estágio avançado – o que não significa mais importante – em relação à brasileira devem ser percebidas como aliadas, não inimigas.

A parte mais desnecessária da conversa é a sugestão de que o jeito de falar de Tite “o distancia” das pessoas, o que colaboraria para a frieza da relação entre o brasileiro e a seleção. Como se o treinador anterior, de diálogo duro, porém simples, fosse próximo do público ou seu time desfrutasse de uma convivência calorosa com a torcida. A temperatura sempre será determinada pela ótica do placar, com o chicote pronto a entrar em ação a cada decepção. O nível de antipatia de Tite depende basicamente da quantidade de gols marcados por seu time.

Dos últimos amistosos ficaram sinais preocupantes. O fato de Tite mencionar a arbitragem após o 1 x 1 com o Panamá é um deles. Os posicionamentos de Arthur e Firmino, outros. Mas aí é preciso tratar do jogo.

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Desastre

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O episódio com Jean é o sinal mais claro do desgoverno no futebol do São Paulo, a página mais constrangedora do manual de como não fazer as coisas que vem sendo aplicado, à risca, desde os últimos meses da temporada de 2018. Ainda mais assustador do que o compêndio de equívocos é o fato de se dar sob a supervisão de dois ex-jogadores absolutamente capacitados para ao menos evitar acidentes esperando para acontecer. O dia a dia são-paulino se converteu numa tragicomédia de baixo orçamento, tal o nível de previsibilidade de que dará tudo errado. É até difícil de acreditar.

Importa pouco, de fato, se procedem as reclamações do goleiro sobre o tratamento que recebe de Vagner Mancini, ou se há relação do problema atual com a época em que ambos coincidiram no futebol baiano. O que interessa é que o São Paulo voltou a gerar notícias desagradáveis em 2019, desta vez por causa de um desentendimento entre um atleta que não atua e um treinador tampão. A maneira como Jean se referiu a Mancini em publicação no Instagram – “o técnico interino…” – é, ao mesmo tempo, um evidente ato de menosprezo e mais uma prova do erro da diretoria ao tentar construir uma ponte entre a saída de André Jardine e a chegada de Cuca.

Ao estabelecer essa transição incomum num ambiente em que a hierarquia técnico-jogadores precisa ser exercitada diariamente, o São Paulo comunicou a quem possa interessar que o período sob a direção de Mancini não tinha qualquer significado. Isto inclui, obviamente, os principais envolvidos na decisão: os futebolistas. Não haveria mínima possibilidade de uma dinâmica saudável, no aspecto competitivo ou na rotina semanal, a partir do momento em que todos sabiam que o comando era provisório e que o trecho do calendário até o aparecimento do técnico definitivo tinha sido descartado. Como cobrar desempenho, ou mesmo conduta, quando o técnico não é técnico e os jogos não têm valor?

É natural que a autoridade seja testada constantemente em times de futebol e que este aspecto do trabalho de treinadores tenha cada vez mais importância. Trata-se de um equilíbrio sensível, sempre sujeito a situações que precisam ser corrigidas, na maior parte das vezes sem que o público tome conhecimento. Mas o que houve no São Paulo nesta semana se diferencia por ser o produto de um plano desastrado que não saiu da mente de neófitos ou incompetentes seriais, mas da lavra de Raí e Lugano, certamente experientes para saber o que estava por vir.

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Incontrolável

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Só é preciso voltar uma temporada no tempo para que a diferença da contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus seja notada. Com a coincidência do retorno ao mesmo local, e também para um jogo entre o time italiano e um adversário de Madri. Foi em três de abril de 2018 que Ronaldo marcou duas vezes pelo Real Madrid no Allianz Stadium, uma delas com a bicicleta que fez Buffon cumprimentá-lo e uma parte da torcida juventina aplaudi-lo apesar da tristeza. Naquela noite, os gols de Cristiano distanciaram a Juventus do sonho europeu e certamente estimularam o clube de Turim a buscá-lo, identificando-o como a peça ausente no projeto de erguer a Liga dos Campeões.

Menos de um ano depois, o mesmo estádio experimentou o que é ter um finalizador como Ronaldo atuando a favor em um confronto desse torneio, com um desempenho que superou até mesmo as projeções mais otimistas. A ideia de fazer três gols em uma equipe com a capacidade defensiva do Atlético de Madrid já é, por si, ousada. Três gols do mesmo jogador são um projeto ainda menos provável, embora a trajetória de Cristiano na UCL seja capaz de desafiar o ceticismo. Nessas ocasiões, a obrigação de estabelecer uma determinada diferença no placar multiplica a dificuldade do feito, uma vez que o adversário pode manejar os diferentes cenários em que mesmo uma derrota não significa a eliminação.

O que não se pode manejar, como se viu anteontem, é Cristiano Ronaldo dentro da área. O ex-jogador inglês Gary Lineker se sentiu obrigado a ir ao Twitter após o segundo gol, e escreveu “eu acho que Cristiano é o melhor cabeceador que já vi”, uma afirmação da qual é difícil discordar. E após uma atuação de super-herói para manter a Juventus nesta edição da Champions, a aparição de Ronaldo na conversa sobre os melhores jogadores europeus de todos os tempos não soa como exagero. É possível enxergá-lo sentado à uma mesa de ícones com Cruyff e Zidane, mesmo considerando os perfis e as características futebolísticas que os distinguem.

Foi a oitava vez em que Cristiano Ronaldo fez três gols em um jogo de Liga dos Campeões, de modo que a noite de terça-feira em Turim não é exatamente um acontecimento raro. Mas não é sempre que um jogador exercita, em campo, todos os motivos que levaram seu clube a contratá-lo, no tipo de ocasião imaginada como um obstáculo intransponível sem sua presença. Pois foi precisamente o que aconteceu, uma temporada depois da bicicleta com a qual Ronaldo conquistou Turim.

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