Arquivo da categoria: camisa 12

Microanálise

Leia o post original por André Kfouri

Tiago Volpi levou um gol que é um acidente de trabalho. E um acidente raro. O chute que ele estava posicionado para defender não apenas desviou e percorreu uma rota inimaginável, como, ao cair, encontrou uma fresta rente ao travessão, bateu na trave, em seu corpo e entrou. Lances dessa natureza acontecem de vez em quando, e todo goleiro tem alguma história para contar sobre essas conspirações de falta de sorte. Assim são tratadas essas ocorrências, porém. Como eventos bizarros, cicatrizes de batalhas.

Ocorre que Volpi veste um uniforme que vem acompanhado de um nome, um rosto e uma história com os quais ele não tem como competir. Nem se quisesse. É como se Rogério Ceni estivesse por dentro do fardamento em todos os lances que merecem aplauso, e Volpi, assim como os que vieram antes dele e depois de Ceni, só assumissem a posição nas falhas que o ídolo não cometia – embora cometesse, como qualquer goleiro – , nos gols que não deveriam acontecer, nas ocasiões em que parece que uma solução para a camisa 1 do São Paulo jamais será encontrada.

Volpi tem sido objeto de um nível exagerado de microanálise. A cada gol que o São Paulo sofre, a figura de Ceni é sobreposta na imagem de modo a que se notem as diferenças nos movimentos, nas reações, nas decisões tomadas num piscar de olhos. O ídolo não acertava sempre, mas, enquanto for assim, Volpi não acertará nunca. Se a comparação pura e simples já é prejudicial, enfrentar a noção de que “ninguém é goleiro para o São Paulo até que prove o contrário” é uma sentença de reprovação permanente, agravada pela falta de títulos, pelo rodízio de técnicos, pela instabilidade que caracteriza o clube nos últimos anos, ambiente que permite que um treinador seja criticado publicamente pelo diretor de infraestrutura do estádio.

Isso não quer dizer que as opiniões técnicas sobre o gol do Palmeiras no clássico do fim de semana passado estejam equivocadas. Zetti, por exemplo, detectou que Volpi tentou alcançar a bola com o “braço errado”. Mas o desvio e a trajetória incomum precisam ser considerados para absolvê-lo. Seria completamente diferente se Dudu tivesse anotado outro gol por cobertura – intencional – contra o São Paulo, claro. Com o máximo respeito, é provável que Zetti, mesmo em seus melhores dias, levasse esse gol. Ceni também.

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Microanálise

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Tiago Volpi levou um gol que é um acidente de trabalho. E um acidente raro. O chute que ele estava posicionado para defender não apenas desviou e percorreu uma rota inimaginável, como, ao cair, encontrou uma fresta rente ao travessão, bateu na trave, em seu corpo e entrou. Lances dessa natureza acontecem de vez em quando, e todo goleiro tem alguma história para contar sobre essas conspirações de falta de sorte. Assim são tratadas essas ocorrências, porém. Como eventos bizarros, cicatrizes de batalhas.

Ocorre que Volpi veste um uniforme que vem acompanhado de um nome, um rosto e uma história com os quais ele não tem como competir. Nem se quisesse. É como se Rogério Ceni estivesse por dentro do fardamento em todos os lances que merecem aplauso, e Volpi, assim como os que vieram antes dele e depois de Ceni, só assumissem a posição nas falhas que o ídolo não cometia – embora cometesse, como qualquer goleiro – , nos gols que não deveriam acontecer, nas ocasiões em que parece que uma solução para a camisa 1 do São Paulo jamais será encontrada.

Volpi tem sido objeto de um nível exagerado de microanálise. A cada gol que o São Paulo sofre, a figura de Ceni é sobreposta na imagem de modo a que se notem as diferenças nos movimentos, nas reações, nas decisões tomadas num piscar de olhos. O ídolo não acertava sempre, mas, enquanto for assim, Volpi não acertará nunca. Se a comparação pura e simples já é prejudicial, enfrentar a noção de que “ninguém é goleiro para o São Paulo até que prove o contrário” é uma sentença de reprovação permanente, agravada pela falta de títulos, pelo rodízio de técnicos, pela instabilidade que caracteriza o clube nos últimos anos, ambiente que permite que um treinador seja criticado publicamente pelo diretor de infraestrutura do estádio.

Isso não quer dizer que as opiniões técnicas sobre o gol do Palmeiras no clássico do fim de semana passado estejam equivocadas. Zetti, por exemplo, detectou que Volpi tentou alcançar a bola com o “braço errado”. Mas o desvio e a trajetória incomum precisam ser considerados para absolvê-lo. Seria completamente diferente se Dudu tivesse anotado outro gol por cobertura – intencional – contra o São Paulo, claro. Com o máximo respeito, é provável que Zetti, mesmo em seus melhores dias, levasse esse gol. Ceni também.

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Retorno

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Mais do que vencer sem Neymar, jogar sem Neymar foi o crédito valioso para a seleção brasileira na Copa América. O troféu – obrigatório para muitas opiniões, embora o futebol não reconheça esse termo – legitima a campanha para a sequência do trabalho até a Copa do Mundo, mas, com a permanência de Tite praticamente assegurada, o que importa de verdade é o funcionamento do time a partir do momento em que seu principal jogador retornar. Onde Neymar jogará no ambiente clubístico é um tema nauseante que ocupará o noticiário incessantemente até uma decisão ser tomada. Sua volta à seleção brasileira, porém, é uma simples questão de tempo.

A formação do trio ofensivo com Gabriel Jesus, Roberto Firmino e Everton, no jogo contra o Peru em São Paulo, pode ser identificada como o clique que viabilizou a maneira de atuar que Tite enxergava. E enquanto as preocupações mais urgentes eram com o ataque, o olhar da comissão técnica se concentrava em uma etapa anterior: a recuperação da bola. Nenhum time de elite do futebol de hoje trabalha sem alguma forma de pressão no campo do adversário, o que exige o compromisso de todos os jogadores. A sequência do 2 x 1 no Maracanã ilustra como a seleção aplica essa necessidade. Carrinho de Firmino, condução de Arthur, diagonal e gol de Gabriel Jesus. Considerando o bônus por ter Phillipe Coutinho mais centralizado e menos preocupado com o embate defensivo, esse desenho impõe uma questão sobre o encaixe de Neymar.

O assunto, por óbvio, não é Neymar ou Everton. Embora a contribuição do atacante gremista tenha sido enorme, essa comparação sobrevive apenas na mente de quem não consegue distanciar Neymar Júnior, fonte inesgotável de decisões equivocadas e removidas da realidade, do futebolista que ele é capaz de ser. Erra, também, quem entende que sua ausência no título da Copa América o força a rever sua postura e entender que “é mais um”. O efeito da conquista está do outro lado: o cacife da comissão técnica para mostrar a Neymar que se trata de uma questão de jogo, não de egos ou tratamento. Ao que parece, o retorno ao Barcelona depende de uma redução salarial suficiente para ser compreendida como a admissão de um erro. O retorno ao Brasil depende de condições físicas e de disposição para exercer um papel em campo.

Esse papel pode não ser o que foi ocupado por Everton, porque a capacidade de Neymar oferece outras leituras. Ao mesmo tempo, também não pode representar um obstáculo, ou até um impedimento, para que a equipe atue em seu melhor nível.

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Saudades

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Embutido nas – justas – reclamações da seleção argentina sobre os lances de possíveis pênaltis no jogo contra o Brasil, certamente há um pensamento complementar que ocorre àqueles que acompanham o futebol sul-americano há mais tempo: “na época de Don Julio isso jamais aconteceria”. De fato, se Julio Humberto Grondona ainda desse as cartas na Associação de Futebol da Argentina, é difícil imaginar a seleção de seu país ocupando quase que inteiramente um pós-jogo contra o Brasil com queixas relacionadas à arbitragem. Especialmente porque o homem que mandou no futebol argentino entre 1979 e o dia em que morreu, em julho de 2014, operava em um esporte sem VAR.

Mas é justamente o árbitro de vídeo que está no centro da discussão do momento, por causa de duas situações de pênalti/não pênalti que não foram objeto de revisão – ao menos não com paralisação do jogo – durante o segundo tempo do clássico no Mineirão. Replays de televisão e imagens de ângulos diferentes sugerem que ambos os lances mereciam a atenção do VAR, em especial o choque entre Daniel Alves e Sergio Aguero, na origem da jogada que terminou com o segundo gol do Brasil. Ali há dúvida sobre quem é o autor da ação faltosa. No caso de Arthur e Otamendi, o pênalti é cristalino. Num arcaico futebol sem arbitragem de vídeo, as duas ocorrências seriam apresentadas como desculpas de quem perdeu, sempre com a ressalva de que poderiam ter escapado ao olho do árbitro; no jogo como é hoje, capaz de eliminar essas dúvidas, convertem-se em suspeita de manipulação.

A Conmebol, que já não ficava bem antes, continua mal na foto. Porque ninguém em sã consciência se julga capaz de crer que a entidade esportiva mais corrupta da história dos esportes passou a se comportar exemplarmente após a adoção do VAR. Por outro lado, a reclamação de Lionel Messi de que “o Brasil controla tudo” [na Conmebol] é uma proposta ainda mais ousada, uma vez que a Conmebol e a CBF não são exatamente melhores amigas desde que o coronel Nunes violou o acordo para votar nos EUA, no Canadá e no México como sedes da Copa do Mundo de 2026. A edição de 2019 da Copa América, que já seria lembrada por gramados em condições inaceitáveis e a lambança que atrasou a chegada do Chile à Arena Corinthians, agora tem uma semifinal em que o VAR não checou duas ocasiões de pênaltis.

De resto, o árbitro equatoriano Roddy Zambrano claramente não estava à altura do jogo que dirigia, perdeu-se em um ambiente mais quente do que podia controlar e tomou decisões questionáveis. Por ironia, algo semelhante aconteceu diversas vezes “na época de Don Julio”.

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Sensações

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“Em 1994, nós jogávamos ao meio-dia com trinta e cinco graus. E o Brasil tinha a bola. Dez anos mais tarde, jogando com dez graus a menos, o Barcelona era um espetáculo porque tinha a bola. A mesma coisa, só que um jogava a vinte e cinco graus e o outro a trinta e cinco”. As aspas são de Dunga, em entrevista ao diário espanhol El País.

A seleção brasileira campeã do mundo nos Estados Unidos deveria ser lembrada, especialmente em seu próprio país, de maneira mais calorosa. Era um time formado por jogadores de altíssimo nível, tinha identidade coletiva e brilho individual. É possível que a última imagem, a de um título conquistado nos pênaltis – após um jogo que mereceu vencer – tenha gerado a impressão discreta que caracteriza muitas opiniões. Ou a maneira como o time atuava – defesa sólida, controle pela posse e altas doses de paciência para acionar a dupla de atacantes – provoque lembranças preguiçosas a quem cobra encantamento permanente.

As temperaturas e os horários dos jogos daquele Mundial seguramente têm relação com o futebol apresentado, e, nesse contexto, o time dirigido por Carlos Alberto Parreira também merece o elogio por saber se adaptar às circunstâncias. O técnico do tetra costuma declarar que “não seria possível ganhar a Copa de outra maneira” (referindo-se principalmente à pressão por um troféu que iludia o Brasil havia vinte e quatro anos, o que exigia um time sóbrio), um argumento mais do que respeitável, embora a escolha sobre como jogar evidentemente tenha levado em conta, sobretudo, as características dos futebolistas escolhidos. Contudo, Dunga se equivoca com preocupante gravidade no raciocínio em que menciona o Barcelona.

Supõe-se que ele tenha se referido, por falar em “ter a bola”, ao time construído por Pep Guardiola em 2008/09, quatorze anos, e não dez, após a Copa de 1994. Um lapso de memória quase insignificante diante da última frase, que se inicia com “a mesma coisa” e termina por sugerir que as condições climáticas tornam a comparação favorável àquela seleção brasileira. Não. Em jogo, está muito longe de ser a mesma coisa. E faz pouco sentido relacionar sete partidas a ao menos três temporadas inteiras. Mesmo porque a diferença entre essas equipes está nas sensações que deixaram para o mundo do futebol. Fosse apenas uma questão de graus celsius, o Brasil do tetra seria considerado universalmente um dos grandes times da história.

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Falta cebola

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Uma frase de Marcelo Bielsa vem a calhar no debate sobre os dilemas da seleção brasileira. Há um ano, num simpósio de técnicos de futebol realizado no México, ele disse que “dominar os sistemas de jogo deveria ser necessário porque o drible é a ferramenta que soluciona tudo, mas o problema é que ninguém dribla, com exceção de Messi e Neymar”. Não se trata de uma afirmação sobre o ato de driblar, uma habilidade técnica que não revela a qualidade de nenhum jogador ou mesmo sua utilidade para uma equipe. Bielsa está falando sobre a capacidade de romper estruturas num jogo que depende delas.

A organização ofensiva da seleção foi alterada desde a última ocasião em que o time apresentou desempenho coletivo elogiável, durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia. A mudança se deu no próprio Mundial – processo no qual a lesão de Renato Augusto foi ainda mais determinante do que a lesão de Neymar – e prosseguiu depois dele com o flerte de Tite com o que se chama conceitualmente de ataque posicional. É possível, e isto não passa de uma suposição, que objetivo seja confeccionar uma “interpretação brasileira” desse jeito de jogar em que os espaços têm prioridade sobre a percepção dos futebolistas. O resultado, até agora, é um time mecanizado e domesticado.

As equipes que praticam jogo posicional (o Barcelona dos anos de Guardiola é sua expressão máxima, e o Manchester City, não por coincidência, é o exemplo atual mais evidente) partem da própria rigidez para desorganizar o adversário, acionando jogadores em determinadas regiões do gramado com vantagens sobre os rivais. O City, que não tem Messi ou Iniesta, dá liberdades para De Bruyne e ativa os atacantes de lado para solucionar os problemas apresentados por linhas defensivas extremamente recuadas e próximas. A circulação da bola, o passe infiltrado e as jogadas de um contra um são as ferramentas necessárias para esse trabalho. É neste contexto que Bielsa menciona Messi e Neymar.

A seleção tem um deles, mas não está disponível. E não é uma questão sobre Tite estar correto ou equivocado na escolha do sistema que tenta aplicar, pois esse é o papel de técnicos. A pergunta é se os jogadores escalados são os adequados ao modelo, e se as orientações que recebem em treinamento utilizam o melhor de suas características. Desequilíbrio pelos lados nas proximidades do gol, ou vitórias em duelos individuais, sejam onde forem, não dependem da aptidão de driblar, mas do ímpeto e da sabedoria para que uma ideia prevaleça. Quem representa essas virtudes é Everton, que não pode mais ficar no banco.

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Descompressão

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Supor que a seleção brasileira de futebol é melhor sem Neymar é uma fantasia semelhante a dizer que o Golden State Warriors é mais forte sem Kevin Durant. E segue sendo ficção mesmo que se tente explicar, ainda sobre os atuais campeões da NBA, que a perda de um dos maiores jogadores de ataque da história do basquetebol torna Golden State uma equipe “mais difícil de ser marcada”. Não e não. E não sobre o Brasil sem Neymar, para enfatizar. O que não significa que os Warriors, como ficou claro quando o troféu parecia destinado a Toronto, sejam incapazes de vencer sem KD. Algo nessa linha vale para a seleção nesta Copa América, disputada desde o início com a certeza de que o melhor futebolista brasileiro não estará em campo.

O que se pode fazer, ou melhor, se deve fazer, é observar e tentar compreender de que forma a ausência de Neymar – especificamente no contexto atual, com os assuntos extra-futebol tomando a proporção que tomaram – altera o ambiente interno do time, e também a maneira como o público que irá aos estádios responderá ao que vir no gramado. Nos últimos dias, há relatos e comentários aqui e ali sobre semblantes mais leves e uma atmosfera menos tensa, como se não ter de lidar com o tema, as perguntas, as expectativas, o foco sempre direcionado, representasse uma sensação de alívio geral. Fanboys e fangirls: não há aqui qualquer intenção de sugerir que a seleção prefere não conviver com Neymar, está claro? Ocorre que Neymar não está e não estará, e a adaptação a essa situação pode ser positiva.

A começar pelo fator mais determinante para o sucesso em esportes coletivos: o sentimento de união e sua aplicação em um torneio de curta duração. A saída do jogador diferente, daquele de quem se espera o brilho acessível a poucos, leva obrigatoriamente à noção de que “o problema” terá de ser resolvido pelos que estão e solicita o compromisso de todos em torno do objetivo comum. Não, obviamente não quer dizer que, com Neymar, haveria desunião ou jogadores alheios à ideia de grupo. Mas a celebridade que o acompanha também se verifica nessa dinâmica, da mesma forma que o protagonismo compartilhado é um chamado à contribuição de cada um, com doses de responsabilidade repartidas em frações mais equilibradas e distribuídas por todas as direções.

Por último, a impressão de um jogo que não investirá na capacidade de desequilíbrio de um astro em especial não implica, necessariamente, em uma equipe carente de potencial individual. Num cenário em que o espaço deixado por Neymar está disponível para ser ocupado, não faltam, na seleção, nomes que podem se apresentar a partir de amanhã.

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Duas perguntas

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A trajetória do principal futebolista brasileiro na seleção prossegue com dúvidas às portas de um torneio importante. Seja por lesão, como se deu antes da Copa do Mundo da Rússia, ou por questões pessoais – cujo mérito, por evidente, não será abordado aqui -, com a Copa América para começar, o desempenho de Neymar está novamente sob risco. Seu último êxito como jogador data do ano de 2015, quando foi central para a conquista da Liga dos Campeões da Uefa pelo Barcelona. O tempo dá a medida do desperdício.

Embora a CBF e a comissão técnica da seleção, por enquanto, exibam confiança na participação de Neymar no torneio, é necessário lembrar que isso não basta. O próprio jogador pode não se sentir apto ou se perceber forçado – no caso de passar a ser um empecilho para o grupo – a se afastar. A julgar pela decisão de publicar um vídeo no Instagram, que, além de inapropriado, levou a polícia à Granja Comary, conclui-se que os destinos da seleção brasileira não fazem parte das preocupações momentâneas de sua equipe de conselheiros. Não é uma situação que se possa controlar.

De modo que duas perguntas se apresentam. A primeira é se Tite e seus ajudantes projetam uma versão da seleção sem a presença de seu melhor jogador (a propósito, se você crê no devaneio de que o Brasil não precisa de Neymar, interrompa a leitura sem constrangimentos). A resposta é: tudo indica que não. O técnico da seleção declarou que usaria os amistosos de março para fazer o time da Copa América jogar. Com a lesão de Neymar como único impedimento, Tite mudou de ideia e decidiu por outras observações. Conclusão: a equipe imaginada para a competição obrigatoriamente inclui o astro, sem que se pense em um substituto que possa interpretar seu papel.

A resposta para a segunda pergunta é mais complexa. Um time sem Neymar seria capaz de vencer a Copa América? Treinado e preparado durante o período disponível, não há por que dizer que não. Mas como solução de emergência, especialmente nas circunstâncias atuais, a proposta é mais arriscada. Muito provavelmente seria um time com estrutura diferente, enviado ao gramado sem as provas adequadas, sob máxima pressão por estar em casa.

Por outro lado, também por suposição, seria um conjunto alimentado pelo desejo de se mostrar à altura da exigência, o que pode fazer diferença no delicado processo de funcionamento de equipes. Perder Neymar certamente não é um cenário que torna as noites de Tite mais confortáveis, mas uma realidade que pode se impor de repente, sem aviso.

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O que quer o Cruzeiro?

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A reportagem de Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo sobre irregularidades nas finanças do Cruzeiro foi ao ar no domingo à noite, no Fantástico, e, enquanto você lê essas linhas (como sempre, obrigado por ser um leitor), Itair Machado continua operando como vice-presidente de futebol do clube. Não fosse este o futebol brasileiro – você não acha que o Cruzeiro inventou as práticas que hoje são objeto de inquérito policial, acha? – a entrevista coletiva realizada na segunda-feira teria durado apenas o tempo do anúncio da demissão de mais um cartola especializado em dinheiro que não tem dono.

Mas não. Como se trata do Brasil e do ambiente futebolístico, o senhor Itair não só se julga no dever de explicar – muito mal, diga-se – o que não tem explicação, como no direito de ameaçar o repórter Vinicius Nicoletti, da Fox Sports, diante de câmeras e microfones. Apenas essa demonstração de truculência, para usar um termo gentil, já deveria bastar para o Cruzeiro se livrar de um dirigente envolvido em histórias mal contadas, entre elas a própria remuneração. A propósito, a discreta presença do presidente Wagner Pires de Sá no encontro com os repórteres evidenciou quem de fato dá as cartas no clube, o que não surpreende.

Itair Machado lida com uma investigação criminal, mas acha que só deve satisfações ao torcedor do Cruzeiro. É o velho “nós contra todos” de sempre, estratégia que ignora que quem quer o bem do Cruzeiro, e não quer nada do Cruzeiro além de um bom motivo para se relacionar com o futebol, não se sente adequadamente representado por cartolas que lucram enquanto o clube se endivida. Suspeitas de falsificação de documento particular, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro não se resolvem em entrevistas coletivas em que, mesmo com flagrante dificuldade para se expressar, fica clara a intenção de confundir. A apresentação de um documento assinado um dia depois da reportagem ir ao ar é um exemplo do despreparo do comando do clube, além de um atentado à capacidade alheia de avaliar o que se passa. Não deveria satisfazer nem mesmo os fanáticos.

O Cruzeiro não é o único clube em que essas coisas acontecem, o que não significa, evidentemente, que o caso deva ser tratado como algo sem importância. Enquanto as investigações prosseguem, um clube que se supõe digno da confiança de sua torcida precisa se apresentar como tal, ou seja, assumindo as próprias responsabilidades e se corrigindo com transparência.

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O que falta

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A presença de quatro clubes ingleses no que costumava ser território do futebol espanhol alimenta o debate sobre novos tempos nos gramados europeus. Liverpool e Tottenham vão decidir a Liga dos Campeões da Uefa, enquanto Arsenal e Chelsea são os finalistas da Liga Europa. Nos últimos quatorze anos, só em duas ocasiões um time espanhol deixou de vencer um dos dois torneios.

Onde as aparições do Real Madrid, do Barcelona, do Atlético de Madrid e do Sevilla se tornaram constantes, nesta temporada, pela primeira vez, quatro camisas do mesmo país disputarão os títulos continentais. A Inglaterra monopolizará o cenário em Madri e em Baku, sedes das finais, sugerindo que, enfim, a pujança econômica da Premier League venceu a corrida. Será?

Não resta dúvida de que o campeonato inglês é o melhor produto de futebol que existe quando se fala em ligas nacionais. No empacotamento, na divulgação e na transmissão pela televisão, a Premier League reina tranquila. No jogo jogado, porém, a Liga Espanhola oferece competição técnica e tática mesmo com as diferenças de distribuição de dinheiro e a evidente distância entre os dois gigantes e os demais.

Já há algum tempo o futebol inglês se estabeleceu como a casa dos principais técnicos do mundo. Os finalistas dos torneios continentais da temporada que está terminando são Klopp (alemão), Pochettino (argentino, com formação espanhola), Sarri (italiano) e Emery (espanhol), e o bicampeão nacional é Guardiola (espanhol). Mas o salto para se converter na liga dos melhores jogadores do planeta, crucial para a nova era que se aguarda, ainda não aconteceu.

Messi está em Barcelona, Ronaldo segue em Turim, Neymar – ou, se preferir, Mbappé – por enquanto continua em Paris. No próximo período de transferências, é provável que Hazard enfraqueça a Premier League ao deixar o Chelsea para jogar no Real Madrid, cuja reforma de elenco sob Zidane exercerá imensa atração no mercado. É o tipo de campo de força que os clubes ingleses ainda não têm, especialmente com relação aos sonhos de jovens projetados como futuras estrelas.

Um trecho de um recente artigo escrito por Simon Kuper para o espn.com é ilustrativo. Ao recrutar Frenkie de Jong, o presidente do Barcelona, Josep Bartomeu, lhe disse o seguinte: “Se você procura um técnico, vá com Pep Guardiola. Mas quando ele sair do City, não sei quem será o próximo técnico. Se procura dinheiro, vá para o PSG. Você será um bilionário. Mas se você quer aproveitar a vida nos próximos doze, quatorze anos, venha para o Barcelona”. Formado no Ajax, de Jong seguiu seu coração.

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