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Cachaça

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Vittorio Medioli, prefeito de Betim e ex-CEO do grupo que hoje comanda o Cruzeiro, gerou manchetes anteontem por causa de um vídeo divulgado em sua página no Facebook, especialmente por chamar jogadores de bêbados antiprofissionais. Para que não reste dúvida ou haja terreno para má compreensão: “tem que ter todo um sistema para levar os atletas ao máximo desempenho. Eles tomam cachaça, ficam na gandaia e fica por isso mesmo, ninguém toma providência”, disse.

Talvez seja natural que declarações desse tipo tenham mais repercussão, mesmo que a generalização, sempre um sinal de equívoco, impeça qualquer leitura além do sensacionalismo. Medioli se refere a todos os jogadores do Cruzeiro? À maioria? Apenas a um? Sem falar no perigo de expor um grupo de pessoas que já teve de lidar com ameaça de morte e invasão de eventos familiares, como se deu na festa da mulher do zagueiro Dedé. Atribuir o rebaixamento do Cruzeiro ao comportamento dos futebolistas fora do campo é o recurso mais prático para apontar a discussão na direção de quem está sempre mais exposto.

Neste âmbito, é curioso que o trecho mais sério da manifestação de Medioli não tenha sido recebido com a devida preocupação. É este: “hoje as pessoas ficam tão distraídas em ganhar dinheiro com trambique lá dentro, que não cuida [sic]do atleta, não cuida do clube”. Veja, ganhar dinheiro com trambique. O caos organizacional do Cruzeiro poderia ser descrito de forma mais clara? O pouco tempo de contato entre Medioli e as entranhas do clube – retirar-se foi uma decisão acertada, uma vez que as posições de prefeito de Betim e executivo-chefe de uma entidade desse tamanho exigem dedicação integral – foi suficiente para que ele dissesse publicamente que o Cruzeiro foi assaltado por dentro.

O que não é exatamente uma novidade. As reportagens dos jornalistas Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo, do grupo Globo, e a investigação da polícia de Belo Horizonte indicaram o tamanho do problema e os nomes dos atores. Foram eles que levaram um clube irresponsavelmente endividado ao dilema de sobreviver sem um orçamento de Série A. Já seria criminoso se fosse apenas resultado de incompetência. A desonestidade e o interesse pessoal jogam sal sobre a ferida, transferindo a história do desastre esportivo para o escândalo policial.

Enquanto isso, não se sabe com qual time o Cruzeiro iniciará uma temporada crucial em sua história quase centenária, e as aparições de Adilson Batista são as únicas ocasiões – além do gesto de Léo e, ao que tudo indica, de Fábio – em que o torcedor consciente se sente representado por uma preocupação genuína com a situação do clube e as dificuldades que estão adiante. A falência do Cruzeiro (falar em situação pré-falimentar é um eufemismo, por se tratar de um clube de futebol no Brasil) é causa e efeito do enriquecimento de muita gente beneficiada por gestões predatórias que, como se pôde verificar em outros clubes, terminaram por encaminhá-lo à segunda divisão. Seria bem menos complexo se a culpada fosse a cachaça.

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Cipa

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Tal qual essas campanhas de prevenção de acidentes no local de trabalho, os corredores das sedes do Flamengo deveriam estar repletos de placas celebrando o bom relacionamento com Jorge Jesus: “Estamos há (  ) dias sem irritar nosso treinador”. O humor do técnico português e sua opinião sobre o ambiente interno do departamento de futebol são assuntos sensíveis, que exigem cuidados diários no campeão brasileiro e sul-americano, especialmente por causa da questão contratual que mantém a dúvida sobre a permanência de Jesus a partir de maio. Em posição privilegiadíssima para fazer escolhas profissionais e pessoais, o arquiteto das conquistas de 2019 ganhou, também, o direito de ser tratado como uma espécie de alteza. Pode não ser sempre agradável, mas é necessário e assim funcionam as coisas.

Mas eis que Rodolfo Landim decidiu interferir no horóscopo rubro-negro ao demitir Paulo Pelaipe, um raro funcionário do clube com quem Jesus estabeleceu amizade fraterna. A pergunta, evidentemente, é por quê? A explicação política é só uma parte da verdade, uma vez que a eleição no Flamengo acontecerá no final de 2021. É cedo para que alvos sejam identificados e eliminados em nome da sustentação ou da tomada do poder, mesmo porque o campo de futebol tem muito a dizer sobre o panorama eleitoral até o ano que vem. Sim, a dinâmica Bap versus Braz é conhecida e a saída de Pelaipe pode ter sido uma armadilha para que o vice de futebol, sentindo-se desrespeitado, decidisse se retirar. Em qualquer caso, o motivo pelo qual Landim se arriscou a alienar Jesus, o que logicamente leva o episódio ao território do time de futebol, é a grande questão.

E o grande problema. Beira a insanidade imaginar que qualquer torcedor do Flamengo seja favorável a um movimento que prejudique a trajetória da equipe que encantou o país. A sequência do trabalho de Jorge Jesus não é uma garantia de que o time será bom como foi no ano passado, mas é preciso considerar a hipótese de que, com continuidade de ideias e contratações pontuais, o Flamengo seja ainda melhor em 2020. Com outro técnico, porém, as dúvidas aumentam por razões óbvias. O que leva a uma ponderação que precisa ser feita, no campo das possibilidades sugeridas pelo silêncio – e pela certeza de que a história não será devidamente contada por qualquer pronunciamento oficial – de Landim: é possível que o Flamengo já saiba que Jesus não renovará seu contrato. Essa é a única situação que justifica a demissão de Pelaipe e o desenho de um departamento que operará com outro treinador.

Em qualquer outro cenário, o risco que o presidente do Flamengo decidiu correr é alto demais, independentemente de sua proximidade com Bap, das vaidades que ascendem do sucesso num clube como o Flamengo ou de estratégias de poder que alimentam as telenovelas diárias do futebol brasileiro. O time de futebol deveria ser protegido pelos – e dos – gabinetes, algo que talvez seja complexo demais até para gestões competentes. O incômodo a Jorge Jesus parece uma demonstração de que, embora o time do Flamengo tenha se distanciado da concorrência no país, o clube preserva as mesmas características que se encontram em todos os demais.

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Claro e óbvio

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A neurose, infelizmente, também contaminou a Premier League. A primeira temporada inglesa com utilização do VAR está na metade de sua jornada, e o tipo de chilique ouvido durante o último Campeonato Brasileiro já têm tradução disponível a cada rodada, amplificado pelas redes antissociais. A ideia de que a intepretação britânica do protocolo do árbitro de vídeo teria um efeito esclarecedor para as demais ligas parece, agora, uma alucinação típica das festas de réveillon em seus momentos mais profundos, quando não se sabe ao certo o que é sonho e o que é realidade.

As responsabilidades precisam ser atribuídas e uma delas, obviamente, é do departamento de arbitragem da Premier League. Após um início promissor em que o uso da ferramenta indicou um olhar ponderado para a novidade, os jogos do Campeonato Inglês tomaram um caminho estranho: da aparente relutância a recorrer ao vídeo a um exagero de repetidas e longas intervenções. Por vezes, a opção de ir ao monitor pareceu um recurso incômodo para os árbitros, como se tivessem sido orientados a resistir ao máximo. E desde o início, a impressão de uma forma particular de aplicar o que hoje faz parte da regra do jogo – algo que não deveria ser permitido, por lógico – sugere uma situação problemática.

A última rodada, quando cinco lances em que os chamados “impedimentos ajustados” provocaram histeria generalizada, gerou um posicionamento do International Board (IFAB): os ingleses estão errando na aplicação do VAR ao não abordar jogadas de impedimento com o conceito do “erro claro e óbvio”. Curioso, porque o documento enviado aos detentores de direitos da Premier League informava que esse tipo de lance seria julgado de forma objetiva, ou seja, sim ou não. De modo que, se está errado agora, já estava errado antes. A crítica de que as intervenções do VAR inglês mais parecem “investigações forenses” indica uma pergunta inevitável: a tecnologia atual é capaz de solucionar esses casos com precisão confiável? Se sim, ou um jogador está impedido ou não está, independentemente de “quanto”. Se não, a lei do impedimento, crucial para o aspecto tático do jogo de futebol, precisa se adequar.

Se o IFAB quer que lances de impedimento sejam observados com o filtro do “erro claro”, é sua obrigação definir o que é isso. Menos do que vinte centímetros é ok, mais não? Trinta centímetros? Meio metro? Onde traçar a linha do que é aceitável como margem de erro e o que deve ser corrigido pelo vídeo? Sem esquecer que, onde quer que essa linha esteja, sempre haverá situações limítrofes em que a precisão da tecnologia será questionada. Diz-se que quando são necessários múltiplos replays para chegar a uma conclusão, então a marcação do árbitro de campo deve prevalecer. Mas a questão não é essa, e sim se a tecnologia é capaz de produzir uma decisão confiável. Se é, que se trabalhe para diminuir o tempo das checagens, sempre priorizando o acerto e a devida informação ao público dentro e fora dos estádios. Se não é…

O IFAB promete encaminhar orientações nas próximas semanas a todas as competições que utilizam o VAR, no sentido de corrigir situações que têm causado preocupação. O assunto será revisitado na reunião do órgão, em fevereiro, que pode trazer ajustes ao protocolo de utilização do árbitro de vídeo. O ponto, porém, é a insatisfação crônica e a necessidade de eleger culpados ao final de cada jogo, combinada com a nostalgia infantil de que o futebol era melhor quando árbitros sofriam massacres porque não podiam acionar os mesmos recursos que justificavam seus linchamentos públicos. Ainda há meia Premier League por jogar. Na primeira temporada com VAR. Quem dera a exigência fosse tão rigorosa em temas muito mais importantes do que o futebol.

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Conciliação

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Não é preciso captar o espírito das festividades de fim de ano para compreender o significado da atuação – e da derrota – do Flamengo na final do Mundial de Clubes da Fifa. É perfeitamente possível conciliar o elogio ao comportamento do melhor time brasileiro em muito tempo a disputar a decisão do troféu e a conclusão de que o objetivo principal não foi alcançado, sem converter o jogo contra o Liverpool numa versão clubística do Sarriá em 1982. Numa era caracterizada por extremos irredutíveis, é necessário, primeiro, reconhecer a existência do meio do caminho. É geralmente onde a verdade está.

Para começar, um fato: o Liverpool foi retirado de seu elemento na segunda metade do primeiro tempo em Doha. O que significa que, por um trecho significativo do encontro, as coisas não andaram como desejava o time inglês e o conjunto superior em campo foi o Flamengo. É provável que um recuo planejado após dez, quinze minutos de pressão inicial fosse a ideia traçada por Jurgen Klopp, mas negar que o Liverpool foi conduzido a uma posição desconfortável demais, e por muito tempo, é o equivalente a entender o futebol como um jogo unidimensional. Os sinais inequívocos deste incômodo foram os gritos de van Dijk e as expressões faciais do técnico alemão.

A raridade e as circunstâncias especiais deste tipo de enfrentamento geram impressões momentâneas que podem ser revisitadas à luz de um contexto mais amplo. Quando se percebe o time europeu, favorito evidente, claramente removido do roteiro esperado, a reação instantânea é suspeitar que o desfecho do jogo pode ser outro. Ao final, considerando os 120 minutos, entende-se que aquela janela não foi um indício de algo mais relevante, mas o único período da decisão em que o Flamengo poderia ter influenciado o resultado. O mérito é indiscutível e insuficiente, pois o que se viu no segundo tempo e durante a prorrogação – indesejada por causa do calendário insano do futebol inglês nesta época, mas visivelmente marcada pela superioridade física do Liverpool – justifica, sem ressalvas, a vitória do time de Firmino e Klopp.

O mérito reside na bravura de enfrentar o campeão europeu sem se descaracterizar em nome da diferença técnica e de investimento, provando que é viável jogar de uma outra forma, quando se é capaz. É preferível perder assim a vencer como, por exemplo, o São Paulo em 2005 e o Corinthians em 2012? Essa é uma pergunta retórica cuja resposta é automaticamente oferecida pelo resultado final, mas que não pode deixar de ser elaborada pelas características dessas equipes. O Flamengo de 2019 é consideravelmente a mais forte entre elas, construída para jogar da maneira que foi ratificada no Catar, em seu exame mais rigoroso. São Paulo e Corinthians, em seus momentos, atuaram conforme o que se esperava deles, primordialmente se defendendo e aproveitando ocasiões raras. Seria uma pena ver o Flamengo dispensar as próprias virtudes; seria trágico ver São Paulo e Corinthians simularem virtudes que não tinham.

O debate que se trava desde sábado renova a fantasiosa questão entre “ganhar jogando mal e perder jogando bem”. O futebol, como nenhum outro jogo, permite vitórias improváveis, sim, mas elas jamais serão produtos de coisas mal feitas. A derrota do Flamengo é do tipo que, junto com a frustração que alimenta o competidor, produz o orgulho de quem foi honesto consigo mesmo. É o oposto do arrependimento dos impostores.

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Projeção

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A volatilidade das demandas de Jorge Sampaoli durante as reuniões com o Palmeiras indica um comportamento pouco profissional. O ex-técnico do Santos trocou de representantes e surpreendeu os interlocutores palmeirenses com exigências de última hora, uma postura própria de quem não negocia com o objetivo de encontrar um território comum. Acertou o Palmeiras ao notar os sinais de um relacionamento perigoso adiante e se levantar da mesa – o que não significa concordar com a opção por Vanderlei Luxemburgo –, mas é preciso considerar um dos motivos, ao menos um motivo declarado publicamente, de Sampaoli para justificar o desacordo.

“O Flamengo avançou muito nas comparações com os demais”, explicou Sampaoli à agência de notícias Efe, em passagem por Madri. O raciocínio vale tanto para a decisão de deixar o Santos quanto para não celebrar contrato com o Palmeiras, o único clube brasileiro visto por ele, no início de 2019, como capaz de desafiar o atual campeão nacional e sul-americano. Não está claro se o curso da temporada alterou essa impressão, ou se as conversas de seus agentes com a direção palmeirense mostraram a Sampaoli que o ano que vem seria mais complexo do que ele imaginava. Um fato parece indiscutível: o técnico vice-campeão brasileiro dificilmente terá, em qualquer lugar onde o futebol é importante, uma oportunidade tão atraente para ganhar o título. Mesmo assim, decidiu não trabalhar no país. “Minha ideia de ficar [no Brasil] era para brigar pelo torneio”, disse.

Aí está. A superioridade do Flamengo no plano doméstico, principalmente no campeonato de pontos corridos, não é uma imagem exagerada ou resultado de uma disputa caracterizada por desequilíbrios que não sejam técnicos. Se é correta a referência a um campeonato “atípico”, a razão é o desempenho acima do normal do time que não só colocou os demais – parafraseando Bruno Henrique, embora o momento da declaração tenha sido equivocado – “em outro patamar”, como determinou que este patamar estivesse distante. O Flamengo reescreveu todos os recordes que importam no Campeonato Brasileiro, mas não é exagero dizer que a disparidade de jogo em relação aos concorrentes tenha sido ainda mais significativa do que mostram os números.

A opinião de Sampaoli é o diagnóstico de quem sabe, de um jeito que só técnicos conhecem, o que é necessário para ganhar no futebol. Neste caso específico, a questão é construir e dirigir uma equipe que tenha condições de se apresentar como rival do Flamengo ao longo da temporada, parâmetros que ele não conseguiu enxergar no projeto do Palmeiras para 2020. Alguém poderá dizer que Sampaoli não quis enxergá-los. Ok, mas, se essa é a verdade, por quê? Se o potencial estava ali, por qual motivo um técnico na posição dele optou por negá-lo? Os pedidos repentinos que incomodaram o Palmeiras eram aditivos (passagens aéreas, percentuais em premiações…) a um contrato cujas bases financeiras estavam acordadas.

Para clubes com pouca capacidade de investimento, a esperança de competitividade no ano que vem parece depender de mudanças que levem um time que tem seis meses de vida a ser pior em sua segunda temporada, ou por perdas na comissão técnica e no elenco, ou pela doença da satisfação. Não é uma perspectiva animadora. O sucesso do Flamengo em 2019 pode ser uma projeção da lista de tarefas da concorrência. Sampaoli viu e não gostou.

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Embuste

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Então Argel Fucks quer que você acredite que ele evitou o rebaixamento do Ceará. Em uma das exibições de desfaçatez mais constrangedoras vistas recentemente no futebol brasileiro, o técnico que dirigiu o Ceará nas últimas três rodadas do campeonato incluiu o clube em uma lista de salvamentos que levam sua assinatura, adicionando “missão dada é missão cumprida” para se vangloriar. Não importa que os dois pontos somados no período não tenham feito qualquer diferença para a classificação final, uma vez que o Cruzeiro ficou três pontos abaixo. O que interessa é apresentar a propaganda e ver se funciona.

Não funciona, claro. Na era da imbecilidade orgulhosa, é mais importante falar sobre o próprio trabalho do que permitir que o trabalho fale por si. Gerações estão crescendo, em diversas áreas de atividade, sem qualquer apreço pelo valor de subir a escada, desde que possa mostrar uma foto no último degrau. São enfermos da “doença do eu”, sem perspectiva de cura. Argel os alimenta ao ter a coragem de exibir um “trabalho” de dez dias como uma amostra honesta de sua capacidade, embora um raciocínio de poucos segundos seja suficiente para desnudá-lo: o Ceará estava salvo quando ele chegou, e assim permaneceu.

Na infame noite de 28 de novembro, quando Argel abandonou o CSA após vencer o Cruzeiro no Mineirão, era o clube alagoano que rumava para a Série B. Eis uma oferta razoável do trabalho de um treinador: vinte e seis jogos, sete vitórias, cinco empates e quatorze derrotas. Este é o currículo de Argel no comando do CSA. Um aproveitamento de 33%, mas aparentemente suficiente para que ele declarasse que deixava o clube com o sentimento de “dever cumprido”. Dever cumprido?! Naquela ocasião pareceu apenas um exagero mal colocado, na tentativa de explicar a decisão de largar um time quase condenado antes do final do campeonato. Hoje se percebe que esse nível de abuso propagandístico é, de fato, um hábito. Também se sabe que no mesmo dia em que o CSA caiu, Argel se apropriava da permanência do Ceará na primeira divisão.

Sim, é só futebol. Sim, setores mais importantes da sociedade têm sofrido com a disseminação do que não é real, sempre com interesses embutidos em estratégias de comunicação construídas para enganar e iludir. O oportunismo desavergonhado e desafeto dos fatos talvez seja apenas um produto do tempo, mas certamente conduz a um caminho perigoso. O que pensa a torcida do CSA do ex-técnico de seu time, que se apresenta como um mago? Por que a magia não funcionou em Maceió? O que pensam desse tipo de publicidade os demais treinadores das Séries A e B, que compartilham com Argel um mercado competitivo, composto por apenas quarenta postos de trabalho? O que têm a dizer aqueles que pretendem ingressar neste mercado?

Há uma razão pela qual profissionais inteligentes e capazes não se comportam como se estivessem no set de “Tropa de Elite”, especialmente quando, ao contrário do contexto retratado pelo filme, a postura não passa de um embuste.

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Parede

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A temporada ainda não terminou, mas o futebol brasileiro já discute o ano que vem. Há clubes que escolheram o técnico e tratam das saídas e chegadas no elenco. Há os que convivem com poucas questões entre os jogadores e várias em relação ao treinador. Há os que parecem não saber direito como proceder e os que literalmente não fazem a mais pálida ideia. Cada um administra sua vida e seus problemas como pode, claro, e é natural que, consumidos pela necessidade de planejamento, os clubes que gostam de se considerar candidatos ao que estará em disputa evitem a pergunta que está escrita na parede, em letras inconfundíveis: meu time será capaz de vencer o Flamengo?

Porque é disso que se trata, afinal. Equipes que almejem terminar 2020 com algo para mostrar deverão encontrar uma forma de vencer o Flamengo, porque está claro que o campeão brasileiro e sul-americano enfrentará as competições do calendário do mesmo jeito que fez em 2019, ou seja, sem escolhas. Especialmente no Campeonato Brasileiro, a situação pode parecer melhor, mas é o contrário: não é necessário ganhar do Flamengo, mas ser superior ao Flamengo ao longo de trinta e oito rodadas. Ninguém se aproximou dessa exigência no campeonato que está para acabar, e não parece que alguém esteja prestes a dar um salto de qualidade tão dramático. Enquanto não há nenhuma garantia de que o Flamengo seja tão bom quanto foi, é preciso considerar a possibilidade de ser ainda mais forte. Certamente um pensamento assustador, pois não há o que fazer quanto a isso.

Dois times foram expostos pelo sucesso do Flamengo de Jorgesus (o nome composto é um terrível trava-línguas, por isso a adaptação): Palmeiras e Grêmio. O primeiro era apontado – e se apresentava assim – como o grande concorrente, o rival que se garantia em elenco e orçamento. Um campeonato depois, o placar agregado mostra um mais-do-que-desconfortável 1 x 6 e uma diferença de pontos que pode ultrapassar a marca dos vinte nesta quinta-feira. Com o Grêmio a coisa é ainda mais gráfica, por envolver um confronto direto na Copa Libertadores. A autópsia dos enfrentamentos tem como destaques os 5 x 0 na perna de retorno do torneio continental e um incômodo 0 x 1 no segundo turno do Brasileirão, quando o time reserva do Flamengo disputou vinte minutos do jogo em Porto Alegre com um homem a menos, após a expulsão de Gabriel Gol (42, e contando). A conclusão é automática: não houve concorrência.

O único time que pode falar em um tom pouco mais alto é o Athletico Paranaense, responsável pela eliminação do Flamengo nas quartas de final da Copa do Brasil nos pênaltis, após dois empates em 1 x 1. O Athletico é um dos clubes que ainda não definiram quem será o técnico em 2020, o que no caso específico do time de Curitiba significa algo mais do que uma mudança de comando, por causa da saída do treinador que supervisionou a conquista de dois títulos nas últimas duas temporadas. Apresentado à pergunta que encerra o primeiro parágrafo desta coluna, a resposta será, com otimismo, “talvez”. E, veja, essa é uma boa posição. Nos demais casos, 2019 está terminando com sensações preocupantes, pois, como se sabe, no ano que vem tem mais

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Jogando mais

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O fato de um mesmo clube ter conquistado o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores em 2019 representa uma revolução – sim, não há exagero no termo – na forma como se navega por uma temporada no futebol brasileiro. No que diz respeito à administração de elenco e rotação de jogadores, o Flamengo simplesmente reescreveu o manual utilizado pelas comissões técnicas do país como um código imutável, estendendo um convite ao debate que não deve ser ignorado pelo ambiente do jogo. É sempre complexo comparar grupos e situações distintas, mas Jorge Jesus e os profissionais ao seu redor mostraram que é possível operar de uma outra forma.

Uma parte dessa história pode estar relacionada a métodos, embora o período de trabalho do técnico português à frente do Flamengo não seja tão generoso. Uma outra parte pode se explicar pelo envolvimento de jogadores essencialmente dispostos a atuar mais e respeitar a necessidade de descanso/recuperação para que isso fosse possível. Enquanto uma análise científica da temporada do Flamengo certamente ofereceria respostas sobre carga de treinamento, minutos jogados, frequência de lesões, etc, é obrigatório considerar o aspecto humano decorrente do nível de comprometimento dos jogadores com um olhar, digamos, mais corajoso para enfrentar o calendário.

Um dos aspectos mais curiosos, entre tantos, é relação entre intensidade e qualidade que o Flamengo mostrou. A importância de limitar a utilização de futebolistas costuma estar ligada à manutenção da energia do time, não necessariamente de suas aptidões. Quando Jesus poupou ou perdeu – pois, sim, também não é verdade que o mesmo time disputou todos os jogos, como se tentará vender no futuro – jogadores, especialmente em posições específicas como as laterais, não foi o ritmo de atuação de sua equipe que sofreu, mas o nível técnico. Assumindo que o Flamengo buscará contratações que aliviem essas distâncias para os titulares, os concorrentes passarão a lidar com uma perspectiva ainda mais sombria.

A final da Libertadores ainda apresentou uma situação inesperada em seus minutos derradeiros, quando o River Plate, em tese a equipe mais descansada na ocasião, foi amplamente superada na questão física no trecho em que o jogo se decidiu. A reação anímica dos argentinos ao gol de empate foi devastadora a ponto de sugerir que o 1 x 1 já daria o troféu ao Flamengo, e fazer supor que, houvesse mais tempo no relógio, o placar seria mais largo, talvez até em contornos constrangedores. Se algo faltou ao time de Jesus em Lima foi jogo, na maior parte, mas não na totalidade do tempo. O tema físico, preocupação evidente, mostrou-se satisfatório justamente no momento de maior desgaste e foi crucial para a virada repentina que chocou Marcelo Gallardo e seus jogadores.

O convite está sobre a mesa, assim como a possibilidade de mais surpresas em 2020. Pouca gente acredita que seja viável um clube brasileiro conquistar a versão nacional da “tríplice coroa” (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores), feito que jamais aconteceu. Neste ano, o Flamengo foi eliminado nas quartas de final pelo Atlético Paranaense, eventual campeão, nos pênaltis.

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Melhor pior

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Em um trecho de “Os Números do Jogo”, livro lançado em 2013, os economistas David Sally e Chris Anderson apresentam uma das grandes diferenças entre o futebol e o basquete. Enquanto no basquete – um esporte baseado no “elo forte” de uma equipe – o que mais interessa é o quão bom o seu melhor jogador é, no futebol – um jogo do “elo fraco” – a qualidade do seu pior jogador é um fator determinante. Pense na frequência em que, por exemplo, James Harden tem impacto decisivo no resultado de jogos do Houston Rockets. Agora pense na frequência em que Dudu ganha partidas para o Palmeiras.

O fato de Lionel Messi constantemente ser o motivo pelo qual o Barcelona vence não deve ser utilizado para confrontar a ideia, mas para tentar entender o fenômeno que ele representa. Mesmo porque o raciocínio de Sally e Anderson se verifica sempre que Messi joga muito e seu time não ganha, ocasiões em que o chamado elo fraco aparece para mostrar por que o futebol é o esporte mais coletivo que existe. Um jogo em que a importância dos erros é multiplicada por sua conversão em gols que decidem encontros. E como erros são cometidos, na maioria das vezes, pelos jogadores menos dotados, os futebolistas que destoam de seus companheiros acabam se associando aos resultados finais.

É curioso pois times de futebol são apresentados e se tornam conhecidos por intermédio de suas estrelas, mesmo que o nível de seus jogadores menos cotados esteja mais intimamente relacionado ao sucesso ou fracasso. Se o “pior” jogador de uma equipe é superior a seus equivalentes nos adversários, é possível fazer uma avaliação mais precisa das distâncias técnicas entre os times. O Barcelona de Messi, a Juventus de Cristiano Ronaldo, o Liverpool de… é difícil escolher o melhor jogador do atual campeão europeu, mas eleger o elo fraco do time dirigido por Jurgen Klopp é uma tarefa ainda mais complexa. Num exercício envolvendo outros elencos europeus de destaque, as respostas aparecerão em menos tempo.

Aqui no Brasil, situação semelhante se dá com o Flamengo. Quem é a estrela do campeão brasileiro a ser coroado em breve? Gabriel Gol? Bruno Henrique? Everton Ribeiro (chamado de “o nosso Messi” por Filipe Luís)? Gerson? Ocorre que o raciocínio inverso também não é simples. Considerando o time titular – que representa a maior diferença entre o Flamengo e a concorrência –, qual jogador poderia ser apontado como “mais fraco”? E essa, ainda, não é a pergunta relevante.

O que importa é a comparação entre o “pior titular” do Flamengo e os jogadores que ocupam essa posição nos demais times. É provável que essa relação seja mais realista a respeito da supremacia técnica do time de Jorge Jesus do que a qualidade de Gabriel (se é que ele foi a sua escolha). Está evidente que o Flamengo é uma reunião de futebolistas tecnicamente privilegiados, na qual os que brilham mais recebem aplausos correspondentes. De acordo com Sally e Anderson, também é necessário aplaudir quem brilha menos.

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Uma festa?

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A situação de convulsão social no Chile deu à Conmebol a chance de corrigir o erro da final da Copa Libertadores em jogo único. Era a oportunidade de restaurar a decisão em ida e volta e devolver ao torneio o encerramento ao qual o continente está culturalmente habituado. As garantias oferecidas pelo governo chileno, porém, mantiveram os planos originais, que levarão River Plate e Flamengo à “festa do futebol sul-americano” – inserir emoji de pessoa tapando o rosto com a mão – em Santiago para que todos se sintam numa versão paralela da final da Liga dos Campeões.

Conta-se que, mesmo em caso de impossibilidade de realizar o evento na capital do Chile, o troféu ainda seria disputado numa partida única, por causa de acordos comerciais já firmados. Só que em outro país. De modo que privar as torcidas envolvidas de uma final metade em Buenos Aires, metade no Rio de Janeiro, era uma decisão irrevogável. Tivessem os cartolas da casa de leilões de Luque um pouco de apreço pelo jogo, desistiriam da ideia e produziriam festas de verdade em Nuñez e no Maracanã. Seria uma boa notícia para o Flamengo.

No papel, é cristalina a superioridade técnica do time dirigido por Jorge Jesus. Plano teórico, é óbvio, baseado em qualidade individual e coletiva. Do mesmo modo, um argumento indiscutível a favor do conjunto de Marcelo Gallardo é a experiência recente em decisões continentais. Confrontos em dois jogos costumam expor qual é o melhor time, justamente por equilibrar os componentes de futebol jogado e de fatores aleatórios que podem ter influência decisiva. É difícil estabelecer um favorito destacado para um encontro único em Santiago. Em duas partidas, esse favorito seria o time brasileiro.

Alguém poderá lembrar da forma como o River Plate alcançou a final da edição do ano passado, eliminando o Grêmio em Porto Alegre após ser derrotado em casa. A diferença para o cenário atual é que não só havia equilíbrio técnico entre as equipes, como é perfeitamente razoável apresentar o argumento de que o segundo tempo na Arena gremista provou que o eventual campeão sul-americano era superior. O time que estará diante do River no próximo dia 23 é uma séria ameaça ao plano do terceiro título nas últimas cinco temporadas, com máximo respeito à trajetória de glórias do clube argentino neste período.

O River tem o que os outros desejam; a taça, e obviamente conhece o caminho. Até a semana passada, a diferença de experiência no jogo sul-americano era um dos temas prévios à partida de volta do confronto entre Flamengo e Grêmio. Uma noite no Maracanã e cinco gols mais tarde, o fim da conversa ficou bem evidente. O assunto volta ao debate antes da finalíssima, com a diferença de que desta vez não haverá Maracanã. A Conmebol quer um jogo que vale tudo e assim será, mesmo que pareça um contrassenso realizar uma festa num lugar em que não há ambiente para comemorações.

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