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Jogando mais

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O fato de um mesmo clube ter conquistado o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores em 2019 representa uma revolução – sim, não há exagero no termo – na forma como se navega por uma temporada no futebol brasileiro. No que diz respeito à administração de elenco e rotação de jogadores, o Flamengo simplesmente reescreveu o manual utilizado pelas comissões técnicas do país como um código imutável, estendendo um convite ao debate que não deve ser ignorado pelo ambiente do jogo. É sempre complexo comparar grupos e situações distintas, mas Jorge Jesus e os profissionais ao seu redor mostraram que é possível operar de uma outra forma.

Uma parte dessa história pode estar relacionada a métodos, embora o período de trabalho do técnico português à frente do Flamengo não seja tão generoso. Uma outra parte pode se explicar pelo envolvimento de jogadores essencialmente dispostos a atuar mais e respeitar a necessidade de descanso/recuperação para que isso fosse possível. Enquanto uma análise científica da temporada do Flamengo certamente ofereceria respostas sobre carga de treinamento, minutos jogados, frequência de lesões, etc, é obrigatório considerar o aspecto humano decorrente do nível de comprometimento dos jogadores com um olhar, digamos, mais corajoso para enfrentar o calendário.

Um dos aspectos mais curiosos, entre tantos, é relação entre intensidade e qualidade que o Flamengo mostrou. A importância de limitar a utilização de futebolistas costuma estar ligada à manutenção da energia do time, não necessariamente de suas aptidões. Quando Jesus poupou ou perdeu – pois, sim, também não é verdade que o mesmo time disputou todos os jogos, como se tentará vender no futuro – jogadores, especialmente em posições específicas como as laterais, não foi o ritmo de atuação de sua equipe que sofreu, mas o nível técnico. Assumindo que o Flamengo buscará contratações que aliviem essas distâncias para os titulares, os concorrentes passarão a lidar com uma perspectiva ainda mais sombria.

A final da Libertadores ainda apresentou uma situação inesperada em seus minutos derradeiros, quando o River Plate, em tese a equipe mais descansada na ocasião, foi amplamente superada na questão física no trecho em que o jogo se decidiu. A reação anímica dos argentinos ao gol de empate foi devastadora a ponto de sugerir que o 1 x 1 já daria o troféu ao Flamengo, e fazer supor que, houvesse mais tempo no relógio, o placar seria mais largo, talvez até em contornos constrangedores. Se algo faltou ao time de Jesus em Lima foi jogo, na maior parte, mas não na totalidade do tempo. O tema físico, preocupação evidente, mostrou-se satisfatório justamente no momento de maior desgaste e foi crucial para a virada repentina que chocou Marcelo Gallardo e seus jogadores.

O convite está sobre a mesa, assim como a possibilidade de mais surpresas em 2020. Pouca gente acredita que seja viável um clube brasileiro conquistar a versão nacional da “tríplice coroa” (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores), feito que jamais aconteceu. Neste ano, o Flamengo foi eliminado nas quartas de final pelo Atlético Paranaense, eventual campeão, nos pênaltis.

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Melhor pior

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Em um trecho de “Os Números do Jogo”, livro lançado em 2013, os economistas David Sally e Chris Anderson apresentam uma das grandes diferenças entre o futebol e o basquete. Enquanto no basquete – um esporte baseado no “elo forte” de uma equipe – o que mais interessa é o quão bom o seu melhor jogador é, no futebol – um jogo do “elo fraco” – a qualidade do seu pior jogador é um fator determinante. Pense na frequência em que, por exemplo, James Harden tem impacto decisivo no resultado de jogos do Houston Rockets. Agora pense na frequência em que Dudu ganha partidas para o Palmeiras.

O fato de Lionel Messi constantemente ser o motivo pelo qual o Barcelona vence não deve ser utilizado para confrontar a ideia, mas para tentar entender o fenômeno que ele representa. Mesmo porque o raciocínio de Sally e Anderson se verifica sempre que Messi joga muito e seu time não ganha, ocasiões em que o chamado elo fraco aparece para mostrar por que o futebol é o esporte mais coletivo que existe. Um jogo em que a importância dos erros é multiplicada por sua conversão em gols que decidem encontros. E como erros são cometidos, na maioria das vezes, pelos jogadores menos dotados, os futebolistas que destoam de seus companheiros acabam se associando aos resultados finais.

É curioso pois times de futebol são apresentados e se tornam conhecidos por intermédio de suas estrelas, mesmo que o nível de seus jogadores menos cotados esteja mais intimamente relacionado ao sucesso ou fracasso. Se o “pior” jogador de uma equipe é superior a seus equivalentes nos adversários, é possível fazer uma avaliação mais precisa das distâncias técnicas entre os times. O Barcelona de Messi, a Juventus de Cristiano Ronaldo, o Liverpool de… é difícil escolher o melhor jogador do atual campeão europeu, mas eleger o elo fraco do time dirigido por Jurgen Klopp é uma tarefa ainda mais complexa. Num exercício envolvendo outros elencos europeus de destaque, as respostas aparecerão em menos tempo.

Aqui no Brasil, situação semelhante se dá com o Flamengo. Quem é a estrela do campeão brasileiro a ser coroado em breve? Gabriel Gol? Bruno Henrique? Everton Ribeiro (chamado de “o nosso Messi” por Filipe Luís)? Gerson? Ocorre que o raciocínio inverso também não é simples. Considerando o time titular – que representa a maior diferença entre o Flamengo e a concorrência –, qual jogador poderia ser apontado como “mais fraco”? E essa, ainda, não é a pergunta relevante.

O que importa é a comparação entre o “pior titular” do Flamengo e os jogadores que ocupam essa posição nos demais times. É provável que essa relação seja mais realista a respeito da supremacia técnica do time de Jorge Jesus do que a qualidade de Gabriel (se é que ele foi a sua escolha). Está evidente que o Flamengo é uma reunião de futebolistas tecnicamente privilegiados, na qual os que brilham mais recebem aplausos correspondentes. De acordo com Sally e Anderson, também é necessário aplaudir quem brilha menos.

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Uma festa?

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A situação de convulsão social no Chile deu à Conmebol a chance de corrigir o erro da final da Copa Libertadores em jogo único. Era a oportunidade de restaurar a decisão em ida e volta e devolver ao torneio o encerramento ao qual o continente está culturalmente habituado. As garantias oferecidas pelo governo chileno, porém, mantiveram os planos originais, que levarão River Plate e Flamengo à “festa do futebol sul-americano” – inserir emoji de pessoa tapando o rosto com a mão – em Santiago para que todos se sintam numa versão paralela da final da Liga dos Campeões.

Conta-se que, mesmo em caso de impossibilidade de realizar o evento na capital do Chile, o troféu ainda seria disputado numa partida única, por causa de acordos comerciais já firmados. Só que em outro país. De modo que privar as torcidas envolvidas de uma final metade em Buenos Aires, metade no Rio de Janeiro, era uma decisão irrevogável. Tivessem os cartolas da casa de leilões de Luque um pouco de apreço pelo jogo, desistiriam da ideia e produziriam festas de verdade em Nuñez e no Maracanã. Seria uma boa notícia para o Flamengo.

No papel, é cristalina a superioridade técnica do time dirigido por Jorge Jesus. Plano teórico, é óbvio, baseado em qualidade individual e coletiva. Do mesmo modo, um argumento indiscutível a favor do conjunto de Marcelo Gallardo é a experiência recente em decisões continentais. Confrontos em dois jogos costumam expor qual é o melhor time, justamente por equilibrar os componentes de futebol jogado e de fatores aleatórios que podem ter influência decisiva. É difícil estabelecer um favorito destacado para um encontro único em Santiago. Em duas partidas, esse favorito seria o time brasileiro.

Alguém poderá lembrar da forma como o River Plate alcançou a final da edição do ano passado, eliminando o Grêmio em Porto Alegre após ser derrotado em casa. A diferença para o cenário atual é que não só havia equilíbrio técnico entre as equipes, como é perfeitamente razoável apresentar o argumento de que o segundo tempo na Arena gremista provou que o eventual campeão sul-americano era superior. O time que estará diante do River no próximo dia 23 é uma séria ameaça ao plano do terceiro título nas últimas cinco temporadas, com máximo respeito à trajetória de glórias do clube argentino neste período.

O River tem o que os outros desejam; a taça, e obviamente conhece o caminho. Até a semana passada, a diferença de experiência no jogo sul-americano era um dos temas prévios à partida de volta do confronto entre Flamengo e Grêmio. Uma noite no Maracanã e cinco gols mais tarde, o fim da conversa ficou bem evidente. O assunto volta ao debate antes da finalíssima, com a diferença de que desta vez não haverá Maracanã. A Conmebol quer um jogo que vale tudo e assim será, mesmo que pareça um contrassenso realizar uma festa num lugar em que não há ambiente para comemorações.

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Viveza

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Na viagem de oito anos entre a segunda divisão do campeonato argentino e a sétima final continental de sua história, o River Plate ostenta um ressurgimento poucas vezes observado neste patamar de futebol. É uma trajetória de recuperação da camisa e do orgulho que ela representa, construída pelas ideias de um treinador e pelas convicções transmitidas a diferentes grupos de jogadores, pois, nesta região do mundo, times bons duram pouco tempo e precisam ser refeitos praticamente a cada temporada.

As equipes do River Plate dirigidas por Marcelo Gallardo desde 2014 se distinguem por saber quem são, até onde podem ir e pela compostura que as impede de se descaracterizar nas situações de maior exigência. São traços comuns aos times argentinos que alcançam o sucesso, em alguns casos até quando se encontram diante de adversários mais dotados no aspecto técnico. O River que estará na decisão em Santiago evidentemente é distinto, em figuras, dos que o antecederam, mas é composto pela mesma confiança que pavimentou a aparição em três finais de Libertadores nos últimos cinco anos. É difícil superar equipes que exibem esse estágio de amadurecimento.

Pois elas são capazes de exercer papéis não necessariamente elogiáveis sob o ponto de vista do jogo, mas úteis – na falta de um termo mais apropriado – sob o da competição. Foi o que o time de Gallardo conseguiu anteontem na Bombonera, efetivamente comprometendo uma noite de futebol em mais uma edição do superclássico de Buenos Aires, mas garantindo a passagem à decisão e a supremacia recente em encontros com o Boca Juniors, rival supremo. Num encontro decepcionante aos olhos neutros, o Boca fez o que pôde e o River, que pode bem mais, fez menos. Mas o suficiente.

Não é exagero dizer que o atual campeão do torneio sabotou o jogo, justamente por saber que seu adversário tinha pouco a oferecer. Talvez tenha corrido riscos exagerados ao cometer muitas faltas (com colaboração de uma arbitragem brasileira, satisfeita em parar o jogo) próximas à própria área, efeito colateral do plano de retalhar a dinâmica e converter o clássico numa série de ações incompletas. O fato do total de passes da noite não chegar a quatrocentos ilustra uma conversa interrompida frequentemente, por incapacidade do Boca e, com boa vontade, vivacidade do River.

Vivacidade? Sim, no sentido de esperteza utilizada para ludibriar. É a tradução mais precisa para a palavra “viveza”, um componente da vida cotidiana em diversos países sul-americanos onde se fala espanhol. Aplicada ao jogo de futebol – tal qual o lateral cobrado direto na área – não pode ser a virtude primordial de uma equipe, mas é conveniente como recurso para ocasiões específicas, quando um time se faz passar pelo que não é, para seguir sendo o que os demais não conseguem ser.

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Visita Técnica

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Talvez você pense que esses estágios feitos por técnicos brasileiros em clubes europeus sejam meras ferramentas de imagem. Uma foto publicada em rede social ao lado de um treinador consagrado pode ser o resultado de um encontro de cinco minutos, mas passar a impressão da conclusão de uma semana de conversas profundas e observações relevantes. Provavelmente ambos os cenários são reais, pois tudo depende dos níveis de acesso e das intenções envolvidas. Quem deseja investir num período de absorção de conhecimento toma as providências para tanto. Quem quer apenas viajar e aproveitar para fazer uma visita, também. Ao final, o que importa são os efeitos práticos, compatíveis com a dedicação e a capacidade de cada um.

O que parece evidente é que viagens no sentido oposto seriam mais eficientes. As distâncias de condições e percepções de trabalho entre a Série A (principais ligas europeias) e a Série C (campeonato brasileiro) do futebol mundial dificultam demais a aplicação de qualquer aprendizado que se tenha nesse tipo de imersão. É mais ou menos como alguém que trabalha em uma rodoviária ser enviado à Nasa em busca de novas ideias. Ok, há certo exagero no exemplo, mas você captou. Por outro lado, a visita de um funcionário da agência espacial americana a uma rodoviária pode levar a boas sugestões, dentro do que for possível fazer. O problema, claro, é a inviabilidade de trazer um técnico de ponta ao Brasil para um estágio às avessas. Imagine, por exemplo, Carlo Ancelotti passando uma semana no Palmeiras, entre um trabalho e outro, aconselhando a comissão técnica local.

Mas é provável que Jorge Sampaoli e Jorge Jesus estejam fazendo exatamente isso. Como treinadores sem experiência no ambiente do futebol brasileiro, o sucesso que ambos têm experimentado nesta temporada pode servir como um guia de como operar aqui, um conhecimento útil a quem fizer essa mesma viagem nos próximos anos. Colegas de outros países que duraram pouco tempo em clubes do Brasil foram vítimas de diversas circunstâncias – entre elas os próprios equívocos, evidentemente –, mas é inegável que lhes faltou vivência, no sentido prático, por estarem habituados não só a um modo diferente de fazer as coisas, mas a um contexto distinto em relação ao que é oferecido e exigido no país. Quem estiver interessado – Coudet? – fará bem em entrar em contato com os Jorges para entender melhor do que se trata.

A qualidade do jogador brasileiro e a capacidade de investimento dos clubes administrados com competência devem converter o Brasil num centro atraente para técnicos capazes, independentemente do passaporte que portem. A presença desses profissionais só pode acrescentar ao futebol brasileiro em diferentes áreas do jogo, inclusive no estímulo à categoria de treinadores para evoluir num cenário de maior competição. Sampaoli e Jesus se notabilizam pelo impacto imediato nas equipes que dirigem, missão em que outros falharam. O que eles já alcançaram certamente não é uma ferramenta de imagem.

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Hierárquico

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Em 2015, no intervalo de um programa de televisão, Juan Carlos Osorio revelou sua surpresa pelo fato de o River Plate ter conquistado a Copa Libertadores da América. “Não é o melhor time do continente”, disse o treinador colombiano, à época trabalhando no São Paulo. Quatro anos depois, a trajetória do clube argentino sob o comando de Marcelo Gallardo impõe uma revisão dessa ideia. Não há na América do Sul outra equipe que ilustre tão bem os benefícios da continuidade e que tenha desenvolvido uma personalidade vencedora como o River. A vitória de anteontem sobre o Boca Juniors encurtou o caminho para o que seria a terceira decisão continental com a direção de Gallardo, a caminho de completar seis anos no posto.

Período que adquire contornos de uma era no futebol desta parte do mundo, tão acostumada a trabalhos interrompidos em questão de meses, e que, para além das conquistas, deu ao River Plate algo que só equipes maduras alcançam: hierarquia. O termo é empregado, neste caso, como um grau de autoridade, uma ordem de grandeza na qual a simples presença fala por si, sem que sejam necessárias explicações detalhadas. Um time que tem hierarquia gera uma certa aflição, algo que que excede o respeito, um incômodo que convence os demais de que é prudente evitar o confronto. O River é assim na relação com seu maior adversário e por causa das vitórias que reverberam no território da Conmebol como indícios de sua posição superior.

O Boca Juniors pode alterar esse cenário se der a volta no 0 x 2 no final do mês, quando receberá a segunda partida em sua Bombonera. Claro que pode. Mas a montanha a ser conquistada parece muito alta para o derrotado na “final do mundo”, em 2018, superado também na noite de terça-feira em todos os aspectos do encontro em Nuñez. Como acontece vez por outra, foi um choque de representantes de tempos distintos do mesmo jogo. O River, cosmopolita e próximo do que se faz de melhor; o Boca, atrasado e agarrado ao aborrecimento dos que não conseguem enxergar o futuro. O resultado poderia ter sido muito mais drástico e não deixaria de retratar precisamente a distância atual não só em desempenho, mas em mentalidade, entre os dois grandes rivais. Gallardo é o líder que os diferencia, com um trabalho que será lembrado como uma das grandes transformações de um clube de futebol na América do Sul, tanto por longevidade quanto por características de jogo e registros de conquistas.

O representante brasileiro na final da Copa Libertadores, Grêmio ou Flamengo (esta coluna foi escrita antes da abertura do confronto em Porto Alegre), será superior ao Boca Juniors sob qualquer análise. Se for este o adversário da decisão em jogo único, as chances de título aumentam consideravelmente. Mas se o curso da semifinal entre argentinos for o normal, o River Plate estará aguardando em Santiago por um oponente que não tem sua descrição: campeão vigente, em busca do terceiro troféu nas últimas cinco temporadas, condição que permite olhar para os outros, todos, de cima para baixo.

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Receoso

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Ricardo Spinelli, colega de ESPN que mastiga dados numa dieta balanceada, informa que o São Paulo é o único clube da Série A do Campeonato Brasileiro com aproveitamento menor do que 50% nos jogos em casa. O número correto, para não irritá-lo: 48,3%. São seis vitórias, onze empates e três derrotas no Morumbi em 2019, considerando todas as competições. O calendário já passa da metade de setembro, o que conduz a uma leitura razoável sobre a personalidade do time atualmente dirigido por Cuca, com a ressalva de que ele não é o único treinador relacionado a essa campanha. É na posição de mandante, quando precisa estabelecer seu modo de jogar, que os defeitos de uma equipe ficam visíveis.

Cuca começou a trabalhar na última semana do campeonato estadual, jogadores contratados para ser titulares estrearam no mês passado, uma epidemia de lesões parece instalada no vestiário. A temporada são-paulina é um manual de combate ao desenvolvimento de ideias e à continuidade, um ambiente propício para o que aconteceu após o 1 x 1 com o CSA, no domingo passado: uma entrevista do principal jogador do clube, repleta de pequenos focos de incêndio a serem monitorados com atenção nas próximas semanas. Daniel Alves, o jogador que veio para “mudar a cultura” do São Paulo, não demorou a se revelar incomodado com o que encontrou.

Não. O problema não é “a imprensa”. Esse trecho das declarações de Daniel deve ser atribuído à frustração e deixado de lado. Ele sabe que generalizar é um equívoco. Do ponto de vista jornalístico, o que tem valor nas palavras do maior vencedor de títulos na história do jogo são as observações sobre o comportamento do time. No aspecto coletivo: o São Paulo não tem padrão. No individual: ele quer ser utilizado no meio de campo. A última lembrança de identidade data do período de Diego Aguirre, quando o São Paulo sabia ao que jogava – pode-se não gostar, claro, mas esse não é o ponto – e exibia sinais de ter encontrado um caminho que permitia evolução. A preferência por atuar como meia é uma novidade no debate sobre escalação desde que ele e Juanfran chegaram.

Independentemente de nomenclaturas, Daniel Alves é um atacante pelo lado direito do campo, partindo da posição de lateral. Nisso, é muito provável que ele seja o melhor. Utilizá-lo em outro contexto não soa, a princípio, como uma escolha brilhante, a não ser que 1) ele prefira, e 2) o time não seja capaz de fazer as compensações necessárias – como, por exemplo, se dá na seleção brasileira – para maximizar suas virtudes. O argumento sobre “tocar pouco na bola” ao jogar como lateral só se justifica quando a equipe não o aciona suficientemente, cenário que diz mais sobre o time do que sobre Daniel. De qualquer forma, agora se conhece o que ele pensa sobre o assunto, o que cria uma situação com algum nível de incômodo.

Se escalá-lo no meio de campo, Cuca estará “obedecendo” a um de seus jogadores. Se fizer diferente, estará “contrariando” o craque do time. A leitura rasa sempre procura as fendas onde a discórdia se prolifera, caríssimo Dani, algo que só acontecerá porque um tema interno chegou ao outro lado. A solicitação para que Cuca deixe de mexer na estrutura do time vem de carona na mesma entrevista, confirmando o status do São Paulo como um conjunto com mais dúvidas do que convicções sobre si mesmo. Os números coletados por Spinelli descrevem uma equipe que não consegue se impor na hora em que a maioria dos adversários lhe exige que faça exatamente isso: quando seu torcedor está perto, esperando, e, por ora, reclamando.

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Efeito borboleta

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Poucas vezes se viu Zinedine Zidane tão contrariado. A entrevista coletiva do técnico do Real Madrid foi marcada pelo descontentamento com a CBF e o calendário do futebol brasileiro, que manteve a programação de jogos da Série B durante o período das datas Fifa. Com nove jogadores convocados por seleções nacionais – incluindo o brasileiro Rodrygo, chamado para um amistoso da equipe sub-23 do Brasil –, o treinador francês não sabe como escalará seu time nos jogos contra Figueirense e CRB. “Simplesmente não tenho jogadores suficientes”, disse Zidane, por intermédio do tradutor do clube.

Zidane tem se mostrado crítico com a desorganização do futebol no Brasil. Não bastasse o fato de o campeonato não ser paralisado durante as datas de jogos entre seleções, o planejamento do Real Madrid tem sido prejudicado por problemas como a greve de jogadores do Figueirense, por causa de salários atrasados. O protesto dos atletas causou um W.O. na última rodada do campeonato e a possibilidade de uma repetição no próximo fim de semana preocupa o técnico. “Temos de nos preparar para viajar amanhã para Florianópolis e não sabemos se haverá jogo ou não”, disse. “É inadmissível que isso aconteça no futebol profissional”.

O desempenho do multicampeão da Europa na segunda divisão do campeonato brasileiro evidentemente incomoda. Após dois empates seguidos, contra Brasil de Pelotas e Oeste, um grupo de torcedores organizados fez uma manifestação na porta do hotel onde o diretor José Ángel Sánchez se hospeda quando está no país. Os simpatizantes pedem a demissão do dirigente, querem agendar uma reunião para uma “conversa olho no olho e críticas construtivas” com Zidane, na qual pretendem entregar ao treinador um dossiê com as aventuras noturnas de jogadores renomados do elenco nas cidades brasileiras. Um funcionário do hotel que pediu para não ser identificado revelou que Sánchez não compreendeu direito o significado de uma faixa levada pelos torcedores, em que se lia “Si no es por amor es por terror”.

Vale dizer que relação entre Zidane e os setoristas brasileiros que cobrem o dia a dia do Real Madrid é tensa. Os jornalistas reclamam do regime de treinamentos fechados imposto pelo técnico e gostariam que houvesse ao menos duas entrevistas coletivas por semana. Zidane explica que treinar com privacidade é essencial para seu método de trabalho e não pensa em expandir o contato com os repórteres. Há ainda um descontentamento pelo fato das entrevistas terem apenas trinta minutos, dos quais os primeiros dez não têm tradução, por serem exclusivos dos enviados pelos meios de comunicação espanhóis.

Na sessão de ontem, a temperatura subiu quando Zidane foi informado pelos setoristas que Karim Benzema não poderá jogar nas próximas seis rodadas do campeonato. O atacante francês tinha sido suspenso por uma partida – já cumprida – por causa de um desentendimento com o zagueiro Luiz Otávio, do Botafogo de Ribeirão Preto, em jogo realizado há seis semanas. Mas a procuradoria do STJD recorreu e solicitou que os atletas fossem julgados por agressão física, com penas mais longas. O Pleno do tribunal atendeu o pedido ao julgar o recurso pela manhã, o que gerou uma confissão ressentida de Zidane: “nada que vivi no futebol me preparou para o que encontrei aqui”.

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Quimera

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A narrativa da chegada de Mano Menezes ao Palmeiras aponta um caso de rejeição popular motivada pelo “estilo” do sucessor de Luiz Felipe Scolari. Seria maravilhoso se fosse verdade, um indício de que uma das maiores bases de torcedores do futebol brasileiro contempla a maneira como seu time se apresenta em campo, e não, apenas, o produto final. Não que não haja alguém suficientemente interessado no “como” e incomodado com o tipo de jogo extraído de um dos elencos mais valiosos do país. A questão é a relevância que se dá a esse aspecto, e, principalmente, o fato de a origem do incômodo ser, na verdade, outra: o Palmeiras parou de ganhar.

É preciso cavar muito fundo para encontrar um “projeto de futebol” em andamento num clube brasileiro, em termos de construção de ideia de jogo, prospecção e desenvolvimento de jogadores conforme essa ideia, além, é claro, de identificação das lideranças para sua aplicação. Talvez o Athletico seja o que mais se aproxima desse cenário utópico. Uma broca da magnitude de “O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” seria necessária para encontrar um trabalho com essas características e que tenha recebido suporte ao se deparar com uma fase de resultados desagradáveis, exatamente a linha que separa o que se diz e o que se faz na indústria nacional de futebol.

A melhor história que o jogo tem contado por aqui nos últimos anos se dá no Grêmio, mas não alcança o significado de um projeto. Renato Portaluppi tem provado ser o nome certo no lugar perfeito ao dirigir um time – remontado a cada ano – que agrada e vence, mas relacionar sua contratação a seus trabalhos anteriores como exemplo de “perfil futebolístico” que se encaixava com o que o clube entendia ser correto é, simplesmente, um exercício de ficção. Sampaoli no Santos? Um caso clássico de aproveitamento de oportunidade, pela disponibilidade do treinador argentino e a iniciativa do dirigente do momento. Jesus no Flamengo? A temporada começou com Abel Braga, o que encerra o debate. Seja qual for a proposta, a linha de sobrevivência de treinadores no Brasil só está conectada ao “dar liga” e a resultados rápidos e frequentes.

Voltando ao “estilo” de Mano, a opção do Palmeiras ao menos acerta em investir numa abordagem mais próxima do que vinha sendo feito, ao invés de encomendar uma ruptura em setembro. Os times de Mano são diferentes dos de Scolari em algumas áreas, mas, no grande esquema das coisas, estão na mesma gaveta. A propósito: ao deixar o Cruzeiro e considerar o próximo passo (trabalhar na China, em Portugal ou em São Paulo, e não no Corinthians), Mano decidiu se aprofundar na elaboração de movimentos ofensivos e estava preparado para trabalhar nisso, quando Alexandre Mattos telefonou. Não significa que o Palmeiras, com ele, será radicalmente diferente do que se viu desde agosto do ano passado, mas é possível que a narrativa seja surpreendida. Enquanto isso, é natural que um treinador associado a um rival tenha de superar olhos tortos no início, o que obviamente não se resolve com “estilo”.

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A escolha que não há

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Já está em andamento um processo perverso, mais um, relacionado ao futebol no Brasil. A segunda eliminação seguida na Copa Libertadores deu origem ao julgamento do trabalho de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras sob o prisma da maneira de jogar. Nos corredores do clube, nas mensagens instantâneas e em setores da coletividade palmeirense em que só havia interesse por vitórias até a noite de anteontem, agora borbulham “análises” repentinas sobre aproveitamento do elenco, ideia de jogo e demais temas anteriormente percebidos com desdém por se tratarem de “conversa de poetas”. Adeptos da “bola na casinha” e do “quem quer espetáculo que vá ao teatro” descobriram termos como “repertório” e dissertam a respeito de “futebol coletivo”. Que maravilha.

Se essa comovente transformação estivesse em curso apenas em redes antissociais como o Twitter, onde se dá o equivalente atual ao que sempre se chamou de “o que se diz nas ruas…”, ok. Compreende-se o componente passional e o hábito de repetir o que se ouve/lê em algum lugar e faz cabeças de ovos parecerem articulados. Mas não; a reversão total pode ser acompanhada em espaços da crônica especializada em que o resultado sempre foi apresentado como a solução suprema para tudo, o remédio universal para males que não surgiram no Pacaembu ou na Bombonera. Não fosse um desrespeito ao próprio futebol, o que é mais importante, já seria uma afronta à memória das pessoas bombardeadas diariamente pelo discurso cínico que pretende tratar do jogo sem considerá-lo.

Não é uma questão de preferência, mas de critério. Ao justificar a escolha por um certo tipo de jogo por intermédio dos resultados que ele – supostamente – proporciona, fabrica-se a mentira de que outras opções distanciam times de futebol do que é, por óbvio, o objetivo de todos. Mas essa ainda não é a maior crueldade, porque o conjunto de análises também revela uma decisão tomada no momento da apreciação das diversas formas de jogar que o futebol oferece. Enquanto o jogo mais elaborado e primordialmente ofensivo vive sob uma régua de altíssima exigência, as propostas baseadas em solidez defensiva e punição ao erro do oponente recebem generosas doses de paciência. Até que, um dia, quando se perde algo importante, alguém resolve não mais tolerá-las e subitamente olha para o outro lado, como se estivesse dizendo: “eu escolhi ganhar, mas, agora que perdi, escolho jogar”. Nonsense total.

Se o Palmeiras tivesse conseguido converter seus melhores vinte e cinco minutos pós-Copa América – exatamente o trecho inicial do jogo em que o Grêmio fez dois gols – em um placar favorável, ou se Everton não produzisse uma noite de tamanho desequilíbrio, é possível que o resultado estivesse novamente sob exaltação a esta altura. E não haveria nada de diferente na maneira de jogar ou no contexto geral de virtudes e defeitos do time de Scolari. É preciso decidir o que se pretende e que não seja o oportunismo, pecado imperdoável não só no futebol.

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