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Boleto

Leia o post original por André Kfouri

O portal Superesportes, em trabalho de Bruno Furtado e Tiago Mattar, publicou ontem que uma funcionária do Cruzeiro foi orientada pelo filho do presidente Wagner Pires de Sá a pagar impostos de veículos que pertenciam à ex-mulher do dirigente. À época, janeiro de 2018, a proprietária dos seis carros e duas motos era legalmente casada com Pires de Sá. Foi um dos filhos do casal que enviou um email à secretária do presidente, que trabalha na sede administrativa do clube, para determinar pagamentos de IPVA, licenciamento e seguro DPVAT, no total de 11 mil reais. O que importa aqui evidentemente não é o valor, mas a prática, mais uma evidência da maneira como os clubes do futebol brasileiro são administrados.

Em resposta à reportagem, o Cruzeiro, em tom indignado, não nega as operações feitas pela funcionária, mas afirma que os cartões bancários usados para os pagamentos pertencem a Pires de Sá. Na versão dos fatos apresentada pelo clube, os assuntos pessoais do dirigente não se confundem com os afazeres de sua secretária com objetivo de lesar o Cruzeiro, apenas lhe tomam tempo. Seriam, afinal, contingências decorrentes da mais pura abnegação de um advogado e empresário que doa seus dias ao clube que ama, em detrimento das próprias obrigações. Um ato de sacrifício. Ainda de acordo com a matéria, Pires de Sá, seus dois filhos – um deles, também funcionário do Cruzeiro – e sua ex-mulher são sócios de uma empresa, acredite, de consultoria em gestão. Não se sabe se recomendam a clientes esse tipo de terceirização de funções.

O modelo de administração de clubes no Brasil impede que tenham donos, como se dá em lugares onde o futebol é mais bem tratado. Mas a engenhosidade dos políticos nacionais do esporte se encarregou de solucionar essa questão com o brilho que os caracteriza: não são donos, mas agem como se fossem. Não podem, mas fazem. O que os torna os donos de clubes mais espertos que existem, pois brincam com um patrimônio que não lhes pertence, cientes de que o próprio patrimônio jamais estará sob risco. E exceto nas ocasiões em que desrespeitam os limites do aceitável por tempo suficiente para levar um clube como o Cruzeiro ao rebaixamento, sempre haverá tolos úteis para chacoalhar pompons em sua defesa, dispostos ao papel ridículo de protetores da instituição. Não há nada como a decepção de quem é vagamente perspicaz quando percebe que foi feito de bobo.

Como contraponto a esse nível de usurpação, é frequente a aparição de argumentos como o da “entidade privada” para despistar o evidente interesse público quando o tema é a gestão do futebol. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos já demonstrou como isso funciona durante a condução do chamado “escândalo da Fifa”, e, para quem ainda tem dúvida, basta lembrar que um ex-presidente da CBF é hóspede do sistema carcerário daquele país justamente por agir como se a confederação, entidade privada, pertencesse a ele. Claro, é preciso lembrar que se José Maria Marin não estivesse em Zurique quando recebeu a visita matinal do FBI – ou se tivesse sido ágil como o Marco Polo que não viaja – atualmente ainda seria visto nos seus restaurantes paulistanos prediletos.

No final de maio, reportagens de Rodrigo Capelo e Gabriela Moreira, ambos do grupo Globo, mostraram como eram feias as entranhas administrativas do Cruzeiro, objetos de investigação da polícia em Belo Horizonte. Os cheerleaders de mídia antissocial entraram em modo de escândalo, enquanto os dirigentes envolvidos – entre uma ameaça e outra a jornalistas – tentavam explicar o que filhotes de raposas podem entender por conta própria. As denúncias provavelmente impediram que a diretoria que levou o Cruzeiro à Série B contraísse um empréstimo de 300 milhões de reais. Calcule quantos IPVAs poderiam ser pagos pela secretária da presidência.

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Gabriel Gol, 43

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No início de janeiro, este espaço foi ocupado por um texto sobre Gabriel Barbosa, o Gabriel Gol. A transação do Santos para o Flamengo estava concluída, às vésperas da largada para uma temporada que poderia ser decisiva para o atacante apelidado, com cruel dose de sarcasmo, de “Gabi-não-gol” durante o breve período na Internazionale de Milão. Um dos argumentos da coluna era a apresentação de Gabriel como um futebolista singular no ambiente doméstico: “São raros os jogadores que oferecem nível técnico internacional – ou seja, capacidade para atuar nos principais centros – à disposição de equipes brasileiras, e é mais comum vê-los por aqui antes de serem exportados”. De maneira geral, a reação à caracterização do atacante do Flamengo como um finalizador de elite navegou entre o escárnio e a ofensa, especialmente entre torcedores santistas. O transcorrer do ano tratou de fazer com que comentários dessa natureza envelhecessem mal.

Goleador principal da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro, a questão com Gabriel, como quase tudo relacionado ao futebol, não se resume a números. Ele replicou o que fez Zico na final do torneio sul-americano em 1981, e ultrapassou o lendário 10 rubro-negro em gols marcados em uma edição do campeonato nacional. Não se trata de compará-los. Ocorre que o contar da história mencionará ambos os nomes em sentenças próximas, e sempre que um jogador de futebol for citado ao lado de Zico, será por motivos geradores de orgulho. São figuras centrais em épocas irmãs, ainda mais especiais pela ausência de ocasiões semelhantes entre uma e outra. Na memória afetiva – mesmo no caso de quem não viu Zico, mas tem curiosidade por conhecimento histórico e a apreciação de fatos – popular, no entanto, um sempre será o homem-clube, enquanto o outro fará o papel de ilustre viajante do tempo e das glórias.

Porque para além das mudanças no jogo de futebol, existem as transformações no jogador de futebol. O prospecto de fazer quarenta gols por ano, jogar para uma torcida imensa, ser maravilhosamente bem remunerado e ter expectativas realistas a respeito de todas as competições disputadas pode não satisfazer os sonhos de felicidade de quem a associa a outro tipo de coisa, por nascer e crescer numa era em que a materialização do sucesso está em outras ligas, outras línguas, outras companhias. É natural que a primeira aventura europeia da carreira de Gabriel, origem quase unânime das críticas dirigidas a ele, mantenha até hoje uma espinha em sua garganta que não será removida por nada que se passe em seu país. Nenhuma vitória será como seria; tudo será uma parte, jamais o todo idealizado. Considerando a idade que ainda desperta a possibilidade de uma contratação com retorno técnico e financeiro, a hora de ir e tentar de novo pode não esperar.

O tesouro que está mais perto ele já conhece. Mesmo levando em conta clubes europeus que não se interessam por seu futebol, não parece haver naquele continente um time que represente a oportunidade esportiva que o Flamengo oferece. O texto publicado aqui em janeiro citava a necessidade de um “ajuste de mentalidade, no sentido de entender o significado de 2019 em sua carreira e as exigências que acompanham a chance de jogar no Flamengo”. Quarenta e três gols são mais do que suficientes para ilustrar que o ajuste foi feito. A questão é o significado. Hoje, em nenhum lugar, ninguém se atreve a chamá-lo de “Gabi-não-gol”.

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Paladar

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“O torcedor passa a querer um outro futebol”.

A frase é de Mano Menezes, em entrevista coletiva no Maracanã, após a derrota do Palmeiras para o Fluminense. Mano se referia a uma das repercussões, talvez a mais relevante, da temporada inédita de “dupla coroa” em que o Flamengo obrigou seus concorrentes a perceber que, de fato, eles não alcançam essa estatura. Em troféus e em jogo, especialmente em jogo, não passam de aspirantes resignados pelo reconhecimento de que a distância é muito maior do que imaginavam. É emblemático que o técnico do time que se apresentava no início do ano como o “principal adversário” do futuro campeão brasileiro e sul-americano, dono de um aproveitamento de pontos que permitiria pensar em título no passado imediato, perceba que o futebol do Flamengo alterou todas as percepções. Que o levem a sério, pois é ele quem está sentindo as dores dessa transformação.

Mano, como se sabe, dirigiu o Cruzeiro por boa porção do Campeonato Brasileiro. Enquanto ele falava com os repórteres no Rio de Janeiro, o clube mineiro perdia em casa para o CSA com o requinte cruel de um pênalti desperdiçado por Thiago Neves, o jogador que acumula funções na administração do elenco. O jogo que envolveu dois dos piores times do campeonato entrará para a história infame do futebol no Brasil por levar à demissão DE AMBOS os treinadores envolvidos. Abel Braga não resistiu ao caos absoluto que corrói o clube e o time cruzeirenses; Argel Fucks desistiu do CSA para tentar evitar o rebaixamento do Ceará. Antes da sexta-feira amanhecer, Adilson Batista, demitido pelo Ceará na quarta, acertou sua ida para o Cruzeiro. Alguém ainda criará um app para entregar treinadores a clubes em necessidade, da forma como se pede comida sem falar com ninguém. Faltam três rodadas.

As palavras de Mano Menezes soam como um dilema. A urgência por um “jogo novo” trará complexidades que hoje parecem esmagadoras para a maioria dos clubes. Basta apreciar o tipo de futebol que vem sendo praticado por quem está na vastidão chamada de “zona da Libertadores”. Enquanto se esforçam para assegurar algum tipo de participação na próxima edição do torneio continental, provavelmente não pensam na montanha que os separa do nível que será exigido de quem pretende vencê-lo. Mais parecem banhistas brigando por um palmo de areia numa praia superpopulosa, desatentos aos alarmes sonoros que avisam que um tsunami se avizinha. Talvez seja mais razoável torcer para que Jorge Jesus resolva encerrar sua aventura pelo futebol competitivo com as taças que acaba de erguer.

O que pode significar pouco em termos práticos. O Flamengo de hoje está apto a solucionar problemas futebolísticos, contratando profissionais ou os convencendo a permanecer, com a mesma pujança que construiu o time de 2019. Proliferam análises que minimizam a possibilidade de uma era hegemônica, mencionando outros grandes times que duraram pouco. Ignora-se, porém, que por mais dinheiro que tivesse para gastar num período específico, nenhum clube brasileiro esteve posicionado economicamente como o Flamengo está. E nenhum tem o potencial de receita que o Flamengo tem. O risco – ou a esperança, conforme o ponto de vista – é pensar que o trabalho terminou e o colosso se moverá em piloto automático, um equívoco de proporções semelhantes ao choque pela chegada de um novo tempo, ilustrada pela declaração de Mano.

O jogo brasileiro em seu patamar mais alto é um ambiente inclusivo, em que a tecnologia 5G convive com telefones de disco. Enquanto o Flamengo pensa no Liverpool, três técnicos dirigirão times pela PRIMEIRA VEZ neste fim de semana, começo de dezembro. Mano Menezes está certo, é preciso querer um outro futebol.

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Sentença

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Não acontece sempre, mas decisões como a de hoje costumam assumir um papel mais relevante na eterna discussão sobre sucesso e fracasso no futebol. E já se pode determinar de que forma o final da partida em Lima repercutirá quando o assunto for o Flamengo de 2019 e seu lugar em rankings pessoais ou programas de debates na televisão. A vitória trará a validação esportiva para tudo o que se pensa e se sente sobre o jogo que o Flamengo pós-Copa América apresentou, como se fosse obrigatória para chancelar a jornada. A derrota será a morte na praia, o desfecho que desmente a narrativa, mais um episódio de emoções cantadas, mas não vividas. Ao contrário do que se diz, não é uma questão de como se enxerga este jogo ou mesmo de preferências particulares que formam opiniões predispostas ao conflito, não ao diálogo. Trata-se, sim, de como cada um se relaciona com o que julga amar.

Se você não torce para o Flamengo e/ou resume o futebol a seu time, interrompa a leitura. Além de haver diversas maneiras mais interessantes de gastar os próximos minutos, esta coluna destina-se a outro tipo de leitor. Se prosseguiu, receba um agradecimento e responda: é possível NÃO GOSTAR de ver o Flamengo jogar? É razoável PREFERIR “outro tipo” de futebol? Você tem cinco segundos. Vê? Independentemente do que se aprecie ou não em matéria de comportamento de equipes – há quem se confesse amante de “futebol vertical”, seja lá o que for isso – existe um nível de exibição capaz de agradar a quem, de fato, reserva ao futebol um espaço importante na vida. Não tem nada a ver com modelos ou sistemas (ou melhor, claro que tem, mas esse não é o ponto principal aqui), mas com aquilo que um time proporciona às pessoas quando se apresenta.

Pode-se construir um caso com argumentos respeitáveis de que esse aspecto da “experiência futebolística” está completamente separado do resultado. Há equipes lendárias na linha do tempo do jogo que ali estão, e sempre estarão, não apenas porque venceram. Algumas permanecem intactas como íconesde excelência mesmo sem terem vencido. Quantas estão neste patamar só por causa de uma conquista? Fique à vontade para dissertar sobre o time campeão da Euro 2004 e seus notáveis destaques. Não se discute a importância de qualquer título alcançado em campo, nem o significado da autenticação que troféus conferem ao caminho que os antecede. O problema é a tendência a resumir a influência de times ao que ganharam ou não, porque o jogo é sarcástico a ponto de fazer escolhas inexplicáveis no momento de premiá-los.

O Flamengo será coroado campeão brasileiro em algum momento nos próximos dias, um título – atenção, trolls – mais importante do que o da Copa Libertadores como medida da qualidade de uma equipe. A fábula de 1981, somada à espera pela reforma das finanças do clube e a promessa de um futuro em que haveria craques e alegrias em campo, fermenta o desejo represado por um troféu simbólico cujo valor não está em debate. Mas a conquista, por óbvio, não é uma garantia e sua eventual ausência não pode ser uma sentença para um time que não tem seis meses de vida. Porque um componente fundamental do ambiente em torno do Flamengo nas últimas semanas, por mais incômodo que seja a quem não é Flamengo ou não quer compreender as coisas, reside em algo mais raro do que ganhar um torneio: um futebol do qual não é possível não gostar.                          

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O começo

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O diário espanhol El Mundo perguntou a Filipe Luis “o que o Brasil oferece agora para que tantos jogadores de elite voltem?”. A resposta foi enfática: “Dinheiro”. O lateral do Flamengo, inteligente como é, elaborou sobre clubes que sanearam suas finanças nos últimos anos e podem remunerar jogadores “ao nível da Europa ou mais, em alguns casos”. Também falou sobre dez ou doze clubes dos quais se exige que sejam campeões e que são alimentados por grandes bases de sócios-torcedores. O retorno ao futebol brasileiro, que no início lhe pareceu um passo atrás no âmbito profissional, hoje o agrada em vários aspectos. “Tudo me parece perfeito agora, até os campos ruins em que jogamos e a torcida, que é tão exigente que nos vaia em qualquer momento”, disse.

A etapa carioca de uma carreira essencialmente europeia lhe apresentou um bônus inesperado. Trabalhar com Jorge Jesus tem sido uma espécie de conclusão de curso para um jogador que já sabe o que fará quando descalçar as chuteiras. “Tenho trinta e quatro anos, meu plano é ser treinador e quanto mais coisas diferentes aprender, melhor”, explicou, acrescentando que, depois de jogar sob a orientação de Simeone e Mourinho, Jesus o levou a “descobrir outro futebol”. Quando o jornal espanhol quis saber qual era o estilo de jogo de sua preferência, Filipe respondeu por dois ângulos: “Todo jogador gosta de propor, sair jogando, ter a posse… Isso é o que fazemos no Flamengo e me encanta, claro, mas o futebol não tem verdades absolutas. Como jogador, isso me diverte mais. Como treinador e como vencedor, seria estúpido discutir o modelo do Cholo [Simeone]”.

A conversa naturalmente teve várias referências ao Atlético de Madrid, clube em que Filipe experimentou as melhores temporadas de sua vida. A saudade, contou, bate mais forte quando ele vê a Liga dos Campeões pela televisão. É uma mistura do desejo de participar do que ele qualifica como “a competição da excelência” com a dor de duas finais disputadas e perdidas. “Tenho essa espinha cravada, vi esse troféu de perto duas vezes, mas não consegui vencê-lo. Se não foi como jogador, será como treinador. Vou persegui-lo por toda a vida”, revelou. Ainda no tema do retorno ao Brasil, a Champions marca a grande distância entre o futebol na Europa e no resto do mundo. “Todos os futebolistas querem jogá-la, mesmo que seja perdendo dinheiro. Não é um menosprezo à Libertadores, claro, mas é a melhor competição do mundo com diferença”, disse.

Às portas da final da Copa Libertadores, e em contagem regressiva para um título brasileiro que, pelo que mostra o campo, está conquistado há várias rodadas, Filipe Luís tem convicção de que a decisão de jogar no Flamengo foi correta. Se tudo correr bem, quando voltar a Madri para iniciar sua trajetória como treinador – um plano já desenhado –, ele terá absorvido as experiências de uma temporada verdadeiramente histórica para o clube e o ambiente do futebol no país. Mesmo porque, com mais dois anos de contrato adiante, 2019 pode ser apenas o começo.

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Efêmero

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Vanderlei Luxemburgo surgiu na sala de entrevistas do Maracanã, na madrugada de quinta-feira, para seu momento sublime em 2019. Nada de que o Vasco possa se orgulhar na temporada tem tamanho para se equiparar ao 4 x 4 com o fenômeno do momento, o rival de sempre. De fato, uma pesquisa retrospectiva terá dificuldade para encontrar algo semelhante nos muitos anos recentes, não para o Vasco, mas para seu técnico. É provável que o próprio Luxemburgo não tenha uma resposta imediata para a pergunta sobre quando, onde e por que esteve nesta situação pela última vez.

Suas impressões digitais eram visíveis no resultado. Sua orientações, notáveis no comportamento do time. Sua capacidade de decifrar o adversário, perceptíveis a ponto de expor o que ainda não se tinha visto. Ali naquela sala, com o microfone à disposição e a atenção de todos assegurada pelo tempo que fosse necessário, ele estava prestes a reivindicar o que lhe pertencia. A audiência esperava, com a certeza do nascer do sol, um discurso em primeira pessoa elaborando, em detalhes, como Luxemburgo reviveu suas grandes noites à beira do campo e presenteou seus jogadores com o caminho para o que eles imaginavam impossível. Seu time, seu plano, seu mérito.

Quando Vanderlei Luxemburgo representava a vanguarda dos treinadores do futebol brasileiro, a sala de entrevistas era a arena em que ele derrotava oponentes – reais e imaginários – após vitórias que exibiam seu brilho indiscutível. Nenhum elogio era suficiente, nenhum defeito era reconhecido, nenhum detalhe escapava a seu olhar visionário. Seus times venciam com requinte técnico e surpresas táticas, com classe e energia, com jogo e resultado. Mais ou menos como o Flamengo tem feito, sob o comando de um treinador nascido em outro país, com quem ele compartilha certos traços de personalidade. Numa noite em que o Maracanã monopolizou o debate futebolístico no Brasil, na qual se esperava que seu time aumentasse o rastro de destroços que o Flamengo tem deixado para trás, Luxemburgo tinha, finalmente, seu “momento Cristiano Ronaldo”. A ocasião para declarar da maneira mais enfática possível: eu estou aqui.

Na medida em que as perguntas se sucederam, porém, um moderado Luxemburgo se dispôs a explicar como preparou seu time para jogar o clássico. Não alterou a voz nem mesmo para pedir respeito pela camisa e pela tradição do Vasco da Gama, em busca da pontuação para se manter na primeira divisão. Não tentou se apropriar do produto coletivo da atuação de seus jogadores. Teria sido a menos característica de suas entrevistas em ocasiões como esta, não fosse uma intrigante menção, repetida, sobre seu lugar na profissão: “Se você pegar a minha história dentro do futebol, o meu currículo dentro do futebol, se botar a nível mundial, acho que poucas pessoas têm o currículo que eu tenho”, disse, textualmente, numa declaração que guarda nível de mistério comparável ao fato de o Flamengo ter sofrido quatro gols.

Exceto o arroubo imodesto, a conversa prosseguiu em tom controlado, quase discreto. Havia algo de estranho, uma cena em que fatos e personagem não se complementavam, como se fossem alheios e não devessem se relacionar. Onde estava a persona superlativa, sempre pronta a gravar seu autógrafo em aulas maestras que seriam relatadas com admiração e dissecadas por novas gerações deste ofício? A resposta, como é frequente, está na realidade das coisas. A equipe que lidera e encanta não era a dele. Os futebolistas formidáveis em campo não estavam sob suas ordens. Em última análise, a noite terminou em empate e um empate jamais será um tesouro para quem venceu tanto.

Ao sair da sala, Luxemburgo não conseguiu explicar por que esta versão de seu time só apareceu numa quarta-feira de clássico no Maracanã, algo efêmero demais para ser reivindicado, até mesmo por ele.

 

 

 

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Luxo

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O ano mal tinha começado e Jorge Sampaoli já sabia como terminaria. Ao menos em relação a seu time. A diferença de capacidade de investimento entre o Santos, o Flamengo e o Palmeiras seria determinante, e, embora um trabalho bem feito pudesse gerar elogios por superar expectativas, apenas amenizaria a distância técnica entre os times. O desenrolar da temporada lhe dá razão, mesmo que o líder do Campeonato Brasileiro exiba um desempenho acima de todos os registros, e a pontuação do vice-líder esteja no patamar de títulos anteriores. O que Sampaoli desejava ao chegar ao Santos é a mesma coisa que provavelmente o impedirá de seguir: condições que lhe permitam fazer mais do que perseguir os clubes financeiramente mais potentes do país.

O modismo do “treinador estrangeiro” – expressão que os reúne, todos, independentemente do passaporte, da formação e das ideias, sob um mesmo rótulo – é genitor de outra generalização ignorante; as referências ao “treinador brasileiro”. Em parte, o antagonismo é alimentado por declarações infelizes de técnicos acostumados a um ambiente de competição em que todos, mais ou menos, são colegas conhecidos. Como não há relação prévia com Sampaoli e Jorge Jesus, fica mais fácil estocar, mesmo que soe como despeito. E soa, muito. Por vezes, soa como algo mais profundo. De “o Flamengo joga como o Brasil de setenta”, de Argel Fucks, a “Jesus dirige uma seleção”, de Renato Portaluppi, passando por “não sei que termo é esse (“caça ao homem”, a propósito da violência dos jogadores do Botafogo) que ele veio usar aqui no Brasil”, de Alberto Valentim, há um pouco de tudo. Até dificuldade de relacionamento com a língua portuguesa.

A questão não é diretamente com a pessoa, mesmo porque não haveria razões plausíveis. É com a posição. Note que Sampaoli – trabalho altamente elogiável, mas em terceiro lugar na classificação – não tem sido alvo frequente. Os dardos vão na direção de Jesus, que lidera com muita folga e muito jogo, separando-se do que é normal e, portanto, palatável. E como o treinador português, fazendo jus ao perfil de personalidade que já era conhecido antes de sua chegada, não tira o pé do acelerador também nas entrevistas, os duelos prosseguem mesmo quando os jogos terminam. As diferentes posturas, quase sempre com versões de “com esse time, até eu”, perdem-se entre a depressão e o desconhecido, pois não há como verificá-las. Somente Jesus dirige o Flamengo na rota do título brasileiro e da Copa Libertadores, sem deixar passar qualquer ocasião para que este fato fique bem claro.

E é aí que está. Os demais seguem em outros lugares, em cenários muito distintos, certamente imaginando como seria operar com os luxos que o Flamengo disponibiliza a um treinador recém-chegado de longe. Talvez haja até quem considere inadequado que tanta fartura seja oferecida a um técnico que não tem trajetória no futebol brasileiro, como se houvesse algum pré-requisito além da capacidade. Ainda não se ouviu algo no sentido de “Jesus precisa dirigir um time da Série B para provar que é bom”, mas é conveniente não apostar contra essa possibilidade. Enquanto o ambiente se dividir entre o treinador brasileiro e o estrangeiro, o futebol no país não dará o salto necessário.

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Sarrafo

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A coluna se atreve, mesmo sem ter sido convidada, a dar sequência ao debate sugerido por Carlos Eduardo Mansur em seu espaço no jornal O Globo: “O equívoco é concluirmos que, agora, todos os treinadores do país deverão ser compelidos a implantar o sistema do Flamengo, o modelo de Jorge Jesus”, escreveu Mansur, excelente como de costume, na última segunda-feira. O assunto é a diversidade de ideias e o respeito à maneira como cada técnico enxerga o jogo, pois o idioma futebolístico é composto por vários dialetos. Sob pena de parecer cabotino, mas com satisfação pela companhia, esta mesma página apresentou argumentos semelhantes no sábado passado, em meio a elogios indiscutíveis a Jesus e seu time pela virada na direção do “como” e das sensações que o futebol proporciona.

Nada, obviamente, é tão persuasivo quanto o próprio jogo, e a noite de quarta-feira foi ilustrativa para a conversa. No confronto de dialetos apresentado pelo clássico entre Palmeiras e São Paulo, o vencedor, como é frequente, foi o time mais fluente na forma que escolheu para se expressar. Se houvesse um verbete para a expressão “jogar bem”, um dos significados certamente seria “utilizar as ferramentas de jogo que aproximam uma equipe da vitória”. As ferramentas variam de técnico para técnico, de time para time, e, claro, de jogadores para jogadores. Também variam de uma partida a outra, conforme as características do adversário e as circunstâncias do encontro. Neste aspecto, mais uma vez, o jogo no Allianz Parque foi didático. Após anunciar uma reforma na organização ofensiva do Palmeiras e falar em “ataque posicional” ao comentar a vitória sobre o Avaí, Mano Menezes retornou ao que o time fazia antes mesmo de sua chegada para vencer o São Paulo.

Era o que o clássico pedia, considerando a abordagem que o São Paulo usaria e as virtudes dos jogadores à disposição de Mano. Diante de um oponente que naturalmente teria mais posse e tentaria levar o jogo a ser disputado no campo de ataque, o manual de estratégias indicava um plano de aproveitamento dos espaços, não necessariamente de criação destes. Em resumo, ao invés de estar na metade são-paulina do gramado (condição para o ataque posicional), o Palmeiras deveria chegar a ela. No lugar de atacantes posicionados em áreas delimitadas e circulação da bola com paciência, liberdade de movimentação e transições rápidas. O primeiro gol, que tornou o jogo desconfortável para a equipe dirigida por Fernando Diniz, resultou de um lançamento longo para Dudu e da aparição de Bruno Henrique onde não havia marcação. O terceiro foi um contra-ataque de um escanteio cobrado por Daniel Alves, em que Zé Rafael cruzou o campo até fazer a assistência para Gustavo Scarpa.

A escolha por um jogo mais elaborado, com outros futebolistas escalados e funções alteradas (Dudu atuando como ponta próximo à linha lateral, por exemplo, para esticar o campo e aguardar a bola) também poderia ter conduzido o Palmeiras à vitória, mas certamente não parece a melhor opção de acordo com as qualidades e fraquezas do adversário. O que não quer dizer que o Palmeiras deva jogar assim sempre, pois, quando enfrentar times que se defendem recuados, a tarefa será criar o espaço por intermédio da desorganização do rival. É este tipo de situação, muito mais frequente no futebol brasileiro, que Mano menciona ao falar da exigência de uma “outra maneira de atacar”, como disse em entrevista na semana passada.

O Flamengo é a única equipe brasileira capaz de ser dominante a seu próprio modo, independentemente de oponente, local e condições. Os demais devem se adaptar a contextos de competição na busca da abordagem mais vantajosa, mesmo que seja algo ocasional. Até o mais dogmático dos treinadores atuais, Pep Guardiola, pensa o jogo assim. Para o futebol no Brasil, o legado da forma como Jorge Jesus utiliza as condições que o Flamengo lhe oferece é o dilema sobre ser melhor. O sarrafo foi erguido a uma altura em que, por ora, só há um competidor saltando.

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Miragem

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Se alguém que não soubesse nada do Brasil e do ambiente de futebol no país fosse levado ao Maracanã na noite de quarta-feira, sairia maravilhado com o que viu, ouviu, sentiu. O Flamengo e seus torcedores proporcionaram a grande noite do futebol brasileiro nos últimos anos, com tudo o que se pede de um espetáculo dessa natureza: estádio simbólico, grande público, renda milionária, ótimos jogadores em campo, futebol de ataque e muitos gols. O exemplo anterior a esse foi a goleada sobre o Goiás, em julho, no mesmo local. Mas o tamanho do adversário precisa ser levado em conta. No fechamento do confronto que valia uma vaga na decisão da Copa Libertadores, o oponente era o Grêmio, semifinalista pelo terceiro ano seguido. O fetiche da Conmebol pela Liga dos Campeões da Uefa assegura que outra ocasião como essa não acontecerá nesta edição do torneio, o que, se por um lado impede que dezenas de milhares de torcedores vejam de perto o Flamengo jogar pelo troféu, por outro, ao menos, torna os 5 x 0 ainda mais especiais.

Fosse, de fato, um retrato do que é o futebol nacional, haveria muito a aplaudir. Mas é mais uma miragem do que o jogo pode chegar a ser por aqui, cortesia de um de seus clubes. Como ideal a alcançar, porém, serve como um quadro pendurado nos gabinetes, um estímulo para que se trabalhe melhor. Considerando que a obrigação de dirigentes é administrar clubes com competência (no sentido mais amplo), oferecendo ao torcedor o melhor “produto” possível e facilitando a ocupação de estádios, o Flamengo, como instituição, aponta o caminho certo. Levando a conversa para dentro do campo, o time atual se distingue por apresentar um futebol que agrada e vence, o tipo de jogo que desnuda a escolha mentirosa sobre jogar bem ou ganhar. Ainda não tem a conquista que o valide, parece mera questão de tempo, mas já provou o que acontece quando se elege um perfil ofensivo e se tem coragem para persegui-lo.

Não, não é para todos e muito nesse processo está relacionado a condições distintas. Seria um equívoco tentar replicar o modelo de futebol do Flamengo sem respeitar características e circunstâncias que operam em todos os clubes brasileiros. O ponto é o que se busca, e, especialmente, como. Menotti já disse que jogava “para vencer, não para derrotar”, pois assim “somos mais felizes quando ganhamos e menos tristes quando perdemos”. O Grêmio e sua história recente com Renato Portaluppi ilustram o debate; o time de 2017 costuma ser mencionado como o melhor que o clube já teve, justamente pelas sensações proporcionadas a quem o viu, não apenas por ter sucesso. Não é preciso esperar o Flamengo vencer o Campeonato Brasileiro, ou a Libertadores, ou ambos, para saber onde esse time está no território do que o jogo de futebol provoca nas pessoas.

É o mesmo território que evoca as menções sobre “o Flamengo de Zico”, um patrimônio de honra futebolística utilizado para medir o nível de tudo o que veio depois. Por muito tempo, citá-lo, no Flamengo, foi um devaneio profano, um recurso de tresloucados que ignoram o que não sabem. Não mais. Embora o time dirigido por Jesus não tenha um ícone como ele, seu jogo completa a viagem no tempo e conduz o clube por um caminho semelhante, digno da ilustre companhia. Campeões há todos os anos, sem exceção. As exceções, por óbvio, é que são raras como a noite de quarta-feira, quando tudo conspirou para que o Flamengo do futuro fosse exibido em todas as suas virtudes. No futebol não existem garantias e, especialmente no Brasil, o aleatório ainda é uma força a ser respeitada. Mas o aviso para a concorrência parece claro, e provavelmente já é tarde para a maioria.

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Enquanto isso, na NFL…

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Bob Quinn, gerente geral do Detroit Lions da NFL, estava lívido na porta do vestiário de seu time na segunda-feira passada, após a derrota para o Green Bay Packers exibida em rede nacional de televisão. Quatro decisões da arbitragem foram desfavoráveis aos Lions durante o jogo, entre elas duas faltas de “mãos no rosto” que os replays de vídeo mostraram que não houve. “O vídeo não pode olhar a cor do capacete”, disse Quinn. “O Detroit Lions está revoltado porque algumas situações envolvendo o vídeo são pontuais. Para alguns clubes o vídeo trabalha, e para outros ele não trabalha”, acrescentou, e foi além: “Nós temos essas faltas chamadas em todos os jogos, e ontem um jogador do New England Patriots fez a mesma coisa e o vídeo, me parece, estava desligado”, completou.

As suspeitas sobre o uso da tecnologia como ferramenta de manipulação da arbitragem estão disseminadas na NFL, liga esportiva mais valiosa do mundo. Técnicos e executivos não se entendem em relação ao papel do vídeo como auxílio aos árbitros em campo, a ponto de fazerem acusações diretas de favorecimento. No início da semana, o dono do Miami Dolphins, Stephen Ross, fez coro com as sugestões de que o campeonato deste ano está corrompido. “Se depender do vídeo, os Patriots serão campeões”, disse. Em meio aos disparos, o comissário Roger Goodell mergulhou em profundo silêncio, receoso de que qualquer manifestação poderia inflamar ainda mais as relações entre clubes, com evidentes reflexos nas bases de torcedores.

Mas é tarde. A conectividade se encarregou de alimentar as teses de conspiração entre os torcedores de New England, reunidos em redes sociais e já agindo para defender o clube do que consideram ser uma perseguição declarada. No Twitter, perfis associados aos Patriots divulgaram informações sobre parentes dos árbitros escalados para atuar na próxima rodada. Membros da família de um desses árbitros seriam torcedores do Indianapolis Colts, e por isso, desejam os fãs, ele não deveria trabalhar no jogo na função designada de auxiliar do replay de vídeo. A associação dos árbitros da NFL também não se pronunciou sobre o assunto, embora ameaças virtuais e por mensagens de texto tenham sido registradas em um boletim de ocorrência. Há a informação, não confirmada por canais oficiais, de que o FBI teria aberto uma investigação para apurar responsabilidades.

Mencionado nominalmente por adversários, o New England Patriots não se manifestou enquanto esteve envolvido em jogos importantes. Na tarde de ontem, porém, o clube divulgou uma nota oficial com seu posicionamento, citando equívocos do apito no jogo contra o New York Giants: “O New England Patriots lamenta ter que se posicionar a respeito da arbitragem da NFL. Acreditamos que reclamações por parte de qualquer diretoria mancham a imagem do campeonato e, por isso, vínhamos adotando como postura não nos manifestarmos depois de cada jogo, apesar de já termos presenciado várias situações que, ao nosso ver, prejudicaram claramente nossa equipe. Esperamos que episódios como esses não voltem a ocorrer, especialmente quando o árbitro de hoje estiver envolvido novamente em uma partida importantíssima”.

A nota não respondeu diretamente as acusações dos dirigentes rivais, mas o técnico – e gerente geral de fato – dos Patriots, Bill Belichick, ironizou o proprietário dos Dolphins. “A gente não aguenta mais não reclamar e eles ficam igual a um gatinho miando. Só que eles vão bebendo leite e miando, aí ninguém aguenta. Vão comendo e bebendo leite, e arrebentando com os Patriots. Tem que ver com o dono dos Dolphins se ele viu o vídeo hoje. Vou deixar ele chegar em casa, ver na televisão a ver o que ele fala também”, declarou.

Procurado para comentar a crise, Alberto Riveron, vice-presidente de arbitragem da NFL, minimizou os episódios e se limitou a dizer que “alguns árbitros são meio cabeçudos”.

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