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Enquanto isso, na NFL…

Leia o post original por André Kfouri

Bob Quinn, gerente geral do Detroit Lions da NFL, estava lívido na porta do vestiário de seu time na segunda-feira passada, após a derrota para o Green Bay Packers exibida em rede nacional de televisão. Quatro decisões da arbitragem foram desfavoráveis aos Lions durante o jogo, entre elas duas faltas de “mãos no rosto” que os replays de vídeo mostraram que não houve. “O vídeo não pode olhar a cor do capacete”, disse Quinn. “O Detroit Lions está revoltado porque algumas situações envolvendo o vídeo são pontuais. Para alguns clubes o vídeo trabalha, e para outros ele não trabalha”, acrescentou, e foi além: “Nós temos essas faltas chamadas em todos os jogos, e ontem um jogador do New England Patriots fez a mesma coisa e o vídeo, me parece, estava desligado”, completou.

As suspeitas sobre o uso da tecnologia como ferramenta de manipulação da arbitragem estão disseminadas na NFL, liga esportiva mais valiosa do mundo. Técnicos e executivos não se entendem em relação ao papel do vídeo como auxílio aos árbitros em campo, a ponto de fazerem acusações diretas de favorecimento. No início da semana, o dono do Miami Dolphins, Stephen Ross, fez coro com as sugestões de que o campeonato deste ano está corrompido. “Se depender do vídeo, os Patriots serão campeões”, disse. Em meio aos disparos, o comissário Roger Goodell mergulhou em profundo silêncio, receoso de que qualquer manifestação poderia inflamar ainda mais as relações entre clubes, com evidentes reflexos nas bases de torcedores.

Mas é tarde. A conectividade se encarregou de alimentar as teses de conspiração entre os torcedores de New England, reunidos em redes sociais e já agindo para defender o clube do que consideram ser uma perseguição declarada. No Twitter, perfis associados aos Patriots divulgaram informações sobre parentes dos árbitros escalados para atuar na próxima rodada. Membros da família de um desses árbitros seriam torcedores do Indianapolis Colts, e por isso, desejam os fãs, ele não deveria trabalhar no jogo na função designada de auxiliar do replay de vídeo. A associação dos árbitros da NFL também não se pronunciou sobre o assunto, embora ameaças virtuais e por mensagens de texto tenham sido registradas em um boletim de ocorrência. Há a informação, não confirmada por canais oficiais, de que o FBI teria aberto uma investigação para apurar responsabilidades.

Mencionado nominalmente por adversários, o New England Patriots não se manifestou enquanto esteve envolvido em jogos importantes. Na tarde de ontem, porém, o clube divulgou uma nota oficial com seu posicionamento, citando equívocos do apito no jogo contra o New York Giants: “O New England Patriots lamenta ter que se posicionar a respeito da arbitragem da NFL. Acreditamos que reclamações por parte de qualquer diretoria mancham a imagem do campeonato e, por isso, vínhamos adotando como postura não nos manifestarmos depois de cada jogo, apesar de já termos presenciado várias situações que, ao nosso ver, prejudicaram claramente nossa equipe. Esperamos que episódios como esses não voltem a ocorrer, especialmente quando o árbitro de hoje estiver envolvido novamente em uma partida importantíssima”.

A nota não respondeu diretamente as acusações dos dirigentes rivais, mas o técnico – e gerente geral de fato – dos Patriots, Bill Belichick, ironizou o proprietário dos Dolphins. “A gente não aguenta mais não reclamar e eles ficam igual a um gatinho miando. Só que eles vão bebendo leite e miando, aí ninguém aguenta. Vão comendo e bebendo leite, e arrebentando com os Patriots. Tem que ver com o dono dos Dolphins se ele viu o vídeo hoje. Vou deixar ele chegar em casa, ver na televisão a ver o que ele fala também”, declarou.

Procurado para comentar a crise, Alberto Riveron, vice-presidente de arbitragem da NFL, minimizou os episódios e se limitou a dizer que “alguns árbitros são meio cabeçudos”.

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Não é patinação

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O que o encontro dos dois melhores times do país deixou evidente é que, em jogo, um é bem superior ao outro. O amplo domínio do Flamengo durante um primeiro tempo em que o dono da arena de Porto Alegre “não viu a bola”, nas palavras de seu próprio treinador, surpreendeu quem esperava uma dinâmica de equilíbrio na primeira partida das semifinais da Copa Libertadores. Não houve nada que se aproximasse desse cenário, o que gera surpresa ainda maior, uma vez que o Grêmio não elaborou um plano em que se alimentaria da posse do Flamengo para explorar o espaço. Ao contrário: o time gaúcho quis discutir a bola com o adversário, que simplesmente não permitiu, como se dissesse “com você eu não converso”. É assim que o conjunto de Jorge Jesus costuma tratar seus rivais, quase sempre menos dotados tecnicamente. Não se imaginava que o Grêmio engrossaria a lista.

O volume ofensivo rubro-negro na noite de quarta-feira, especialmente na primeira metade, impõe perguntar como o Flamengo não ganhou o jogo. A depender de quem responder, se notará o tom de oportunidade perdida ou o de sobrevivência mantida, exatamente o balanço sobre o qual a partida de volta se equilibrará. O 1 x 1 possivelmente se explica pela diferença de idade entre as equipes: o Flamengo, embora capaz de encantar sem fazer esforço, ainda carece da rodagem necessária para identificar o odor de sangue e finalizar o embate; o Grêmio, mesmo em noites de dificuldades e perspectiva sombria, se acalma por intermédio da estrutura que o trouxe até aqui e sabe procurar a saída. O gol de Bruno Henrique desestruturaria a enorme maioria dos adversários, justamente por acontecer num trecho do jogo em que o Flamengo sofria. Mas o time de Renato se mostrou imune a essas desconcentrações ao encontrar o empate que o manteve em pé.

O resultado seria desagradável para qualquer mandante, por não vencer e ainda sofrer um gol em seu campo, mesmo considerando as circunstâncias. Ocorre que o Grêmio se diferencia também neste aspecto. A promessa de Renato sobre um comportamento diferente no Rio de Janeiro se baseia em fatos concretos (ver: o confronto com o Palmeiras, na fase anterior) e na sensação – e isso compõe uma parte importante da personalidade de um time – de que sua equipe é mais fiel ao tecido que a fabrica quando precisa dialogar com os percentuais. Após ser controlado e derrotado pelo Palmeiras em casa, o Grêmio mostrou que bons times não fazem jogos ruins em sequência e saiu do Pacaembu classificado. Também haverá campo para correr e jogar no Maracanã, o que, se obviamente não indica qualquer nível de facilidade, ao menos sugere uma nova oportunidade a um time que sabe do que é capaz e em quais condições é mais perigoso.

Num contexto normal, o Flamengo tem maiores possibilidades de ir a Santiago. É melhor time, tem mais placares a seu lado e receberá o estímulo de um ambiente que não é agradável para nenhum oponente. Mas além do prejuízo lógico das lesões de De Arrascaeta e Filipe Luís, será preciso observar como, aos quatro meses de vida, reagirá ao pico de tensão no dia 23. O desentendimento entre Filipe e Arão excedeu levemente a dose tradicional de rusgas entre companheiros dentro de campo e pode significar o que não parece, embora a distância entre os encontros atue para suavizar essas questões. O jogo, neste estágio, é muito mais do que um choque das quantidades de futebol que há dentro de cada time. Se fosse apenas isso, seria patinação artística, como bem disse Jorge Jesus.

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Realidades

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Não deve ser confortável a tarefa de entrar numa sala cheia de repórteres e explicar os motivos de um resultado ruim. Especialmente quando não se tem a devida preparação para esses encontros, mais ainda quando se pensa que são obrigações desagradáveis, ao invés de oportunidades para se comunicar com o público. Treinadores de futebol geralmente são divididos em três grupos quando falam em entrevistas coletivas: os que não respondem, os que não erram e os que dariam tudo para não estar ali. Há um pequeno contingente que abraça a ocasião e parece até saborear a interação, mas essa abordagem costuma durar pouco e, claro, depende muito do resultado do jogo. É importante que se entenda que, na enorme maioria dos casos, o sujeito que está ali falando é uma figura completamente diferente da pessoa do treinador no dia a dia. Por vezes, é um personagem desenvolvido para o momento. Noutras, é o máximo que se pode fazer.

Fábio Carille tem sido um entrevistado generoso desde que as salas de coletivas passaram a fazer parte de sua rotina, em 2017. À exceção de um par de demonstrações irritadas, o costume do técnico do Corinthians é ser didático e respeitoso ao explicar suas decisões e comentar o que se deu em campo. Em uma palavra, suas entrevistas são sinceras, até em relação a pontos que colegas preferem omitir para proteger estratégias. Na noite de quarta-feira, porém, os comentários de Carille a respeito da derrota para o Independiente del Valle tomaram um rumo diferente. Em vez de reconhecer a atuação impecável do time de Quito em Itaquera – superior do primeiro ao último minuto não só em jogo, mas em postura -, o treinador corintiano preferiu atribuir a frustração a áreas como a inexperiência de determinados jogadores de sua equipe e, pasme, a esperteza de um time de futebol equatoriano.

Seria fantástico, se não fosse inverossímil. Porque o que se viu no gramado foi uma lição de futebol no aspecto técnico mesmo, do jogo jogado, em que o del Valle pressionou o Corinthians com eficiência e o envolveu com qualidade. E houve mais: num exame de compostura, a impressão foi de que o visitante era o time mais tradicional, mais vivido, mais habituado a esse tipo de encontro. Carille optou por conduzir o pós-jogo ao território da imposição física, provavelmente porque Pedrinho e Mateus Vital, franzinos, foram contidos na maior parte do tempo. Pode ter sido uma tentativa de poupá-los de críticas, mas soou como um flagrante desvio de foco do que, de fato, levou ao 0 x 2: a inferioridade de um Corinthians previsível, prosaico, decifrado e desconstruído por um adversário que não deveria se sentir tão cômodo. É curioso que Carille tenha se manifestado de forma a sugerir que chegou a conclusões diferentes após a mesma autópsia.

Mas ele não esteve sozinho. Na mesma quarta-feira, mais cedo e bem longe de São Paulo, ninguém menos que Zinedine Zidane também ofereceu uma leitura surpreendente da derrota de seu time. O técnico francês acusou a falta de intensidade como causa principal da queda do Real Madrid, demolido pelo Paris Saint-Germain na estreia da Liga dos Campeões. O compêndio de erros defensivos e a inoperância de um meio de campo constituído por Toni Kroos, Casemiro e James Rodriguez – subjugados por Marquinhos, Gueye e Verrati – foram os pecados que levaram ao 3 x 0 no Parque dos Príncipes. Há noites, em Itaquera ou em Paris, em que a realidade é óbvia demais para ser distorcida.

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Benjamin

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O montenegrino Nikola Vucevic, pivô do Orlando Magic da NBA, não resistiu ao elogio máximo possível ao ver a Argentina derrotar a França e se classificar para a final do Campeonato Mundial de basquete. Vucevic sacou o telefone do bolso e escreveu para o mundo em seu perfil no Twitter: “Quando eu crescer, quero ser Luis Scola”. Embora já esteja maduro aos vinte e oito anos, Vucevic é uma década mais novo do que o jogador que enxerga como o homem que gostaria de ser. Esse é o nível de admiração gerado por um atleta capaz de, quase aos quarenta, levar sua seleção nacional a uma decisão mundial com números melhores do que quando vivia seu auge físico e técnico.

No Campeonato Mundial de 2006, realizado no Japão, Scola jogou menos tempo, fez menos pontos, pegou menos rebotes e deu menos assistências do que no torneio que termina amanhã em Pequim, na China. Ele tinha vinte e seis anos, dentro da faixa etária apontada como a maturidade de um esportista. Tal e qual Benjamin Button, a criação de David Fincher que rejuvenesce à medida que o tempo passa, Scola descobriu um jeito de inverter os efeitos do tempo e tem produzido atuações individuais espantosas no torneio chinês, liderando uma seleção argentina que provoca afeição quase obsessiva em quem aprecia esportes coletivos. A coesão, o senso de pertencimento, a entrega inegociável… qualidades que por um momento dispensam o requinte técnico – que também se nota, evidentemente – e exibem o que deveria ser o ideal de todos os times.

Ver essa Argentina jogar, mesmo pela manhã, causa vontade de comer ojo de bife e tomar uma taça de malbec. A narrativa da rivalidade entre vizinhos insiste em vender um ambiente de competição acirrada em toda e qualquer modalidade, mas, no basquete, é preciso aceitar uma unilateralidade semelhante ao que se dá entre alemães e ingleses no futebol. É intrigante imaginar o que dirigentes do basquete brasileiro, de hoje e de ontem, pensam ao acompanhar a seleção argentina vencendo quinze anos depois do ápice da chamada “geração de ouro”. Scola é o último remanescente do time campeão olímpico em Atenas, e mesmo assim as lições continuam, o espírito permanece, o exemplo constrange. Um sujeito de trinta e nove anos joga como se pertencesse à geração anterior, e seus companheiros dessa geração jogam como se estar ao lado dele fosse mais importante do que vencer. E eles vencem, claro, mesmo que sejam derrotados pela Espanha na final.

Porque é o que Scola faz desde garoto, quando seu nome começou a circular como promessa de jogador de época. Há quase vinte anos, ele veio ao interior de São Paulo com a seleção sub-21 de seu país para disputar um torneio classificatório para o mundial da categoria. Foi Scola quem levantou o troféu após a final contra os Estados Unidos (com meia dúzia de futuros jogadores da NBA no time) no antigo ginásio do COC, em Ribeirão Preto, com a naturalidade de quem sabia que a vida seria repleta de ocasiões como aquela. Se alguém que nasceu em Montenegro quer ser como ele, imagine o que acontece na Argentina, orgulhosa de um time de basquete encantador, liderado por um gigante que se recusa a envelhecer.

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Próprio

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O encanto do futebol apresentado pelo Flamengo nas últimas semanas tem um componente perceptível a torcedores de todos os times. Basta ser capaz de tratar o que se conhece como rivalidade pelo significado respeitoso do termo, ou seja, a alimentação de um desejo de ser melhor, e não um motivo para destruir. Sem ingressar no território das minúcias táticas – não por serem desimportantes, mas por não serem o ponto central dessa conversa –, quando o Flamengo atual extrai atuações complementares de seus jogadores ofensivos mais capazes, o resultado é uma imagem que remete a momentos saudosos do que se pode chamar de “jogo brasileiro”, sem correr o risco de exagerar.

O futebol é manifestação cultural como tantas outras, e as características de sua evolução como esporte em cada lugar onde é considerado importante traduzem um modo de fazer as coisas que é próprio, no sentido antropológico. O amor pela bola, a necessidade do contato com ela, a reunião de jogadores no entorno dela, a sobrevivência no espaço curto, a movimentação que parece desordenada, a perícia técnica, o drible, o sorriso… traços de uma personalidade futebolística tipicamente brasileira e reconhecível quando jogadores se expressam individual e coletivamente da forma que lhes é natural. O observador casual, de um ponto distante, tem a impressão de que esses futebolistas foram entregues às próprias decisões, totalmente responsáveis por um entendimento espontâneo, regidos por “normas” que aprenderam sem que jamais tenham sido ensinados.

Sabe-se que não é assim, pois, se fosse, bastaria agrupar três ou quatro jogadores privilegiados e tudo aconteceria como mágica. Não deixa de ser interessante que este Flamengo seja a visão de um treinador europeu que ainda está na fase inicial de seu trabalho, e que as mesmas peças que agora se encaixam como se fossem íntimas por toda a vida não transmitissem essa sensação antes de sua chegada. As comparações com times memoráveis e o potencial para marcar época em um clube como o Flamengo são méritos de Jorge Jesus, que soa empolgado com o que vê não apenas como treinador, mas como admirador do bom jogo e dos ambientes que equipes com essas virtudes costumam proporcionar. Ele tem razões para estar orgulhoso do que faz com o time mais talentoso que já dirigiu, mesmo que a caminhada seja longa e o julgamento, de maneira geral, dependa do que houver para mostrar ao final.

O Flamengo não é o único conjunto brasileiro que pratica esse futebol essencialmente “local” e identificado por suas peculiaridades mais admiráveis. O Grêmio tem trilhado esse caminho ao longo dos últimos anos, com menos fartura e indiscutível sucesso (a seleção brasileira foi intérprete desse jogo entre setembro de 2016 e o final das Eliminatórias, e seria na Copa do Mundo se as lesões não impedissem, mas aqui se trata de clubes). O que distingue o time dirigido por Jesus é a quantidade de futebolistas top de linha juntos, algo provavelmente visto no país pela última vez no elenco do Corinthians entre 1998 e 2000. Embora o futebol seja indomável, o que se percebeu nas semanas recentes permite imaginar que o melhor está adiante, e para tanto não é necessário torcer. Apenas gostar.

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Excelência

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O encontro entre Grêmio e Flamengo, nas semifinais da Copa Libertadores, promete oferecer os jogos mais interessantes da temporada no Brasil. Mais ainda do que a finalíssima, entre um deles e o sobrevivente do superclássico argentino, porque o fetiche da Conmebol com a Liga dos Campeões conseguirá a proeza de cassar uma partida do que será, sem dúvida, um confronto colossal. As semifinais ao menos preservarão – mãos para os céus, porque os eventos da decisão do ano passado ensinam que nunca, nunca se sabe – as características dos choques de ida e volta, com cada time em sua casa e ao lado de seus torcedores, em datas (2 e 23/10 no caso de Grêmio e Flamengo, um dia antes para Boca Juniors e River Plate) que devem ser circuladas com caneta marca texto no calendário de quem se interessa por futebol.

Nenhum clube brasileiro tem tantos jogadores tecnicamente privilegiados quanto o Flamengo. A reunião desses futebolistas em um contexto coletivo capaz de acionar tamanha coleção de virtudes tem produzido, desde o clássico com o Vasco, trechos cada vez mais duradouros de completa submissão do adversário. Ao olho neutro, por consequência mais objetivo, não resta outra conclusão a não ser a ideia de que, com continuidade, será cada vez mais complexo conter uma equipe que causa danos quando cria e não perdoa quando o oponente falha. Os jogos contra o Internacional ilustram as qualidades do rubro-negro, transmitindo a sensação de que, assim como a água acaba por encontrar seu caminho cedo ou tarde, o time dirigido por Jorge Jesus prevalecerá de um jeito ou de outro. É muito talento junto.

Nenhum time brasileiro joga bem há tanto tempo quanto o Grêmio, campeão continental em 2017 e remontado nas temporadas seguintes com as mesmas ideias. Considerando que as equipes bem-sucedidas no Brasil normalmente duram pouco, o trabalho de Renato Gaúcho merece elogios ainda mais efusivos por manter, com breves hiatos, um nível de jogo difícil de alcançar e uma clara personalidade de equipe. E além do bom trato da bola, o Grêmio tem uma característica rara: a intenção e a capacidade de se estabelecer em campo mesmo quando atua como visitante, o que o separa de todos – sim, todos, até mesmo o Santos – os concorrentes no país. Na eliminatória contra o Palmeiras, após ser controlado em seu próprio estádio, o time gaúcho ainda mostrou que equipes desse nível não se descaracterizam por dois jogos seguidos.

Com o primeiro encontro marcado para daqui a cerca de um mês, qualquer prognóstico é fútil. Enquanto é óbvio que para ambos será fundamental chegar nas melhores condições possíveis em termos de disponibilidade de jogadores, o intervalo de tempo não permite que se pense nesses jogos agora. E nem mesmo a ordem, pensando na ideia costumeiramente aceita de que o mandante da partida de volta – Flamengo – tem um bônus teórico, serve como fator de desequilíbrio. A Arena do Grêmio e o Maracanã proporcionam atmosferas amplamente favoráveis aos times locais sem que haja influência direta na forma como o jogo é jogado, o que depende unicamente da coragem e dos atributos de cada time. No caso desses dois gigantes, bem dotados e bem treinados como são, a vaga na final da Libertadores será uma questão de futebol de ataque em alto nível. É isso que ambos fazem com excelência.

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Valioso

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Você conversa com Juanfran e percebe um jogador de futebol que enxerga sua profissão como uma forma de se expressar como pessoa e transmitir seus valores. “Aprendi com Raúl [González], quando estava nas categorias de base do Real Madrid, que você deve pensar em futebol vinte e quatro horas por dia”, diz o são-paulino recém-contratado, durante a gravação do programa Bola da Vez, da Espn. Que a mensagem não seja confundida com uma vida monotemática. É seu conceito particular do que é ser um futebolista que está em questão. “Jogadores são figuras importantes na sociedade, e devem ser bons exemplos para os mais jovens”, explica. “Eu quero que meu filho saiba que seu pai é a pessoa mais trabalhadora que existe, alguém que pensa em seu clube e em sua família mais do que em si mesmo”.

A importância ao valor do trabalho permeia respostas e impressões sobre os mais diversos temas. Postura que se espera de alguém que desenvolveu com Diego Simeone uma relação de filho e pai, da qual se origina uma forma peculiar de lidar com os sentimentos gerados pelo jogo. “Para mim é mais importante ser visto como uma boa pessoa e um jogador humilde e dedicado. Pode-se jogar melhor ou pior, mas eu aprendi que a torcida precisa perceber que seu coração está ali e que você ajuda seus companheiros”. O técnico argentino, com quem Juanfran compartilhou vários troféus e algumas decepções no Atlético de Madrid, é a pessoa que lhe ensinou tudo e mostrou o caminho para o sucesso em equipes de futebol. “Os jogadores podem gostar mais ou menos de seu técnico, mas precisam crer em tudo o que ele fala”, opina. “Com Simeone era assim: se ele nos mandasse pular da ponte porque assim venceríamos, nós pulávamos da ponte”.

Assim como o São Paulo buscou muitas referências – Filipe Luís e Miranda, companheiros de vida em Madri, são corresponsáveis pela contratação – sobre o lateral que estreou pelo clube na semana passada, Juanfran também fez sua tarefa preparatória com capricho. “Eu acredito que quanto mais você se identifica com o clube, com a cidade e com as pessoas, aumenta a chance disso se refletir dentro de campo”, explica, ao mencionar a intenção de aprender a falar português o quanto antes, para se comunicar melhor dentro e fora do clube. “Existem jogadores que são mais reservados, que não querem esse contato. Eu não sou melhor ou pior do que eles por isso, é só uma diferença de personalidade”, conta. Aqui cabe outra lição de Simeone: “um jogador se comporta em campo como se comporta na vida, e se comporta na vida como se comporta em campo”, diz. O senso de pertencimento pode parecer um tanto antiquado no futebol de hoje, mas é tão crucial para Juanfran quanto sua coluna vertebral.

Do futebol brasileiro, mesmo em pouco tempo, ele já tem opiniões marcadas. “Os treinos são mais longos e os jogos são mais dinâmicos, tenho que fazer minha parte e me adaptar a isso”, revela. Mas está claro que essa adaptação não é um fim, e sim um pré-requisito para o que ele veio buscar no Brasil, quando tinha escolhas que representavam uma rotina mais tranquila a partir do momento em que decidiu deixar o Atlético. “Eu não vim ao Brasil e ao São Paulo a passeio. Vim para aprender, jogar e ganhar”. Além do futebol que possibilita diferentes contribuições ao time dirigido por Cuca, Juanfran tem um papel a desempenhar na transformação da cultura interna de um clube que precisa voltar a conquistar. Ouvi-lo falar leva à conclusão de que a escolha foi feita a dedo.

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Interessante

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Na semana passada, quando a conversa sobre Balotelli no Flamengo ficou publicamente quente, um áudio de WhatsApp ganhou contornos virais. A mensagem, em um carioquês típico em forma e conteúdo, solicitava à diretoria do clube que apressasse o acerto com o controverso atacante italiano. Reprodução literal: “Balotelli é a cara do Flamengo, porra, a cara da torcida Jovem… jogador maluco, problemático, olho parado, porra. Usa bigodinho da favela do Mandela, pinta o cabelo de louro-pivete, porra. É a cara da Jovem, porra. Tá maluco? Estreia do Balotelli no Maracanã: 2 x 0 Flamengo, dois do Balotelli, porra… ele já vai pra noite, já vai ligar pro Adriano Imperador, já vai pra Vila Cruzeiro, já vai tirar foto de fuzil na favela, porra… Coisa linda… Balotelli batendo com o carro na Linha Amarela, porra, quebrando a mureta… vai aparecer em Madureira jogando ronda, vai pra Vila Mimosa visitar as ‘primas’… porra! Manchete em tudo o que é jornal no domingo de manhã, tu vai comprar o jornal, tá lá: ‘Balotelli estreia, faz dois, bate com o carro, tira foto de fuzil na favela, vai no puteiro..’.

O realismo é fantástico, mas se tratava de uma peça artística, feita por um canal de YouTube especializado em sátiras. É possível estabelecer, no entanto, uma conexão entre o humor escrachado e o impacto da chegada de um jogador como Mario Balotelli ao futebol brasileiro, especialmente ao Rio de Janeiro e a um clube como o Flamengo. A introdução de um personagem do futebol internacional num ambiente inusitado – considerando a trajetória “normal” de um jogador como ele – seria pródiga no aspecto da novidade e um verdadeiro acontecimento, uma história a ser contada semanalmente, por causa da empatia automática com a torcida rubro-negra. Basta pensar na recepção no aeroporto, na apresentação oficial, em cada comemoração de um gol no Maracanã, e, claro, nas aparições de Balotelli como pessoa física, fora do campo de jogo.

Poderia dar errado, mas a história seria relatada da mesma forma, apenas em outro tom. Em caso de sucesso, o que dependeria fundamentalmente do próprio, Balotelli de vermelho e preto seria, de fato, uma série digna de altos níveis de interesse. A propósito, se é verdade que a chance de voltar à seleção italiana era/é um dos fatores determinantes da escolha do atacante e seu superagente, é complexo avaliar o peso da repercussão de um período elogiável no Brasil. Não é o tamanho dos clubes envolvidos que está em debate, mas a percepção do desempenho de um jogador italiano atuando no Campeonato Brasileiro. Do ponto de vista estritamente técnico, não há dúvida de que Balotelli, aos vinte e nove anos, teria todas as condições de brilhar. Não se deve dispensar, porém, a opinião de quem vive o futebol na Itália e tem mais elementos para fazer todos os cálculos.

Ao final, o Flamengo considerou a operação proibitiva, agradeceu e se levantou da mesa. O tom da curta nota oficial para informar o encerramento da negociação foi equivocado, mas coerente com o que tem sido produzido pelo departamento de comunicação do clube. Uma entidade como o Flamengo, em especial nessa era de alta capacidade de investimento, não precisa se preocupar com um possível dano de imagem por não fechar uma contratação desse patamar. Constrangedor é não ter como estabelecer esse tipo de conversa, ou não ser levado a sério. A nota soou mais preocupada em revelar que as partes concordaram em discordar do que em comunicar que Balotelli não vem. O Flamengo pode ter perdido uma oportunidade ou se livrado de um problema. Em ambos os casos, se entendeu que Balotelli era caro, fim de papo. Mas que não reste dúvida de que seria interessante.

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Distinto

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Nas ondas do rádio paulistano num final de noite, ouve-se uma das incoerências mais frequentemente repetidas quando o assunto é Jorge Sampaoli. “Não inventou o futebol, não trouxe nada de novo, mas…”, vaticina a voz desconhecida – o horário era incomum, o volume estava baixo – em suposta análise do trabalho do técnico que lidera o Campeonato Brasileiro não apenas somando mais pontos, mas apresentando um tipo de futebol diferente dos demais. O elogio parcial é sempre uma opção arriscada, pois deixa no ar a dúvida sobre a intenção e parece produto de uma obrigação que não existe. Pior ainda quando o argumento não fica em pé.

A parte sobre “inventar o futebol” é uma figura que pretende esclarecer o que não precisa ser esclarecido: não há uma revolução em curso no futebol brasileiro sob as ordens de um treinador argentino com sete meses de trabalho (a última revolução no jogo se deu há pouco mais de uma década em Barcelona, e, como as anteriores, não introduziu elementos inéditos, mas releituras de conceitos conhecidos, evidenciando o caráter cíclico do futebol). Ocorre que a hipérbole também é uma espécie de julgamento, pois supõe, ou faz supor, que Sampaoli tinha/tem o desejo de revolucionar. Um pensamento que não passa pela mente de um técnico que apenas, e isso já é muito, está determinado a fazer seu time jogar da maneira que sente.

O equívoco mais grave está na negação do novo, uma vertente da resposta-padrão de alguns treinadores brasileiros, não todos, cuja última versão foi oferecida por Vanderlei Luxemburgo, em entrevista ao SporTV: “É legal essa troca, mas não tem ensinamento”. Primeiro, novidade não é sinônimo de lição. Até se compreende a reação do ego à sugestão de que Sampaoli esteja lecionando futebol aos técnicos – aos observadores, torcedores, jornalistas, ex-jogadores, futuros treinadores… – locais, como se todos fossem juvenis na própria profissão. Mas, na frieza do idioma, como existe método envolvido, é bem provável que haja mesmo algo a aprender. E perde tempo quem não presta atenção. Quanto ao que aqui se descreve como “novidade”, talvez seja mais apropriado escrever “distinção”.

Porque é isso. O Santos é muito diferente da grande maioria da concorrência na forma como faz as coisas, e isso fica escandalosamente evidente na comparação direta. Considerando que o processo ainda não tem uma temporada de vida, é necessário ao menos esboçar alguma curiosidade sobre o que Sampaoli aplica no campo de treinamentos. Essa não é uma tarefa para “a imprensa” ou um tema de interesse restrito aos santistas, mas um questionamento que se impõe ao futebol no Brasil. E não, não se trata da “busca incessante pelo gol” mesmo em vantagem. Há várias maneiras de fazê-la, entre elas o recuo proposital para jogar no espaço e chegar ao segundo gol, expediente utilizado pela maioria e por diversas razões. O futebol de Sampaoli é mais intenso, mais ofensivo, mais coletivo e menos saciável, e o que importa é que teclas ele pressiona para extrair do elenco do Santos uma interpretação do jogo que nada mais é do que sua ideia preferida de competição.

Aí está a distinção que salta aos olhos quando o Santos joga, mesmo que tenha falhado nas copas ou sido goleado um par de vezes no campeonato estadual. Para quem não está interessado nas sensações geradas quando um time de futebol se apresenta, sempre haverá um “mas…”. Pode ser em relação ao que o Santos ganhou, ao fato de não ter outras competições em seu calendário, ou mesmo ao clássico de hoje contra o São Paulo. Porque para a cabeça pequena, basta um resultado para que tudo não passe de romantismo, de “conversa de poetas”, e assim se pode dormir tranquilo pois, afinal, tudo já está feito e os inventores do futebol descansam há mais de um século.

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Ideal

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“É minha contratação mais completa, a que reúne todos os passos: jogador jovem, desconhecido e barato. Se adapta, ganha e o vendemos por muito. Uma operação ideal. É um modelo dificilmente repetível, mas com método é possível ter os ingredientes para cozinhar algo similar”. Assim o ex-goleiro Ramón Rodríguez Verdejo, famoso no mundo do futebol como Monchi, descreve a contratação de Daniel Alves, em 2003. A história ocupa um capítulo do livro “El Método Monchi”, um manual sobre o trabalho de diretor esportivo no futebol, cargo que Monchi ocupava no Sevilla – para onde voltou após um curto período na Roma – quando fisgou o lateral brasileiro do Bahia.

Antonio Fernández, o olheiro enviado por Monchi ao Campeonato Sul-Americano Sub-20 realizado naquele ano no Uruguai, conta no livro quais foram os comentários que fez a seu chefe, após observar Daniel em campo: “Imediatamente liguei para Monchi para dizer que havia um futebolista de dezoito anos que era um canhão, que já era um jogador internacional embora ainda jogasse na segunda divisão brasileira, que não iria custar uma fortuna porque não estava numa equipe grande. Transmiti a ele que era um jogador diferente, com muita personalidade e que oferecia múltiplas soluções ao ataque desde a posição de lateral direito. Tinha a alegria dos laterais brasileiros, mas às vezes pensava como um ‘dez’ puro”. A análise, perfeitamente aplicável dezesseis anos mais tarde, foi definitiva para fechar a transação pelo valor de quatrocentos mil euros.

Quando o Sevilla vendeu Daniel Alves para o Barcelona por noventa vezes o montante investido, em 2008, não imaginava estar se desfazendo do jogador que viria a ser o maior vencedor de títulos da história do futebol. A maioria dos troféus de sua coleção pessoal foi conquistada no período em que ele atuou como sócio de Lionel Messi no clube da Catalunha. Além da prataria, Daniel pode se orgulhar por ter sido peça fundamental de um dos melhores – se não o melhor – times que jamais praticaram este jogo, o chamado BarçaPep. Suas digitais são visíveis no funcionamento da equipe que sepultou a ideia de que não se pode vencer com futebol encantador, uma honra muito maior do que a decepção pela forma como foi tratado durante seu último contrato no Camp Nou.

É de Sid Lowe, colunista do diário britânico The Guardian, provavelmente a mais precisa definição de Daniel Alves como futebolista: “eu diria que Dani Alves é o melhor lateral direito que já vi, se ‘lateral direito’ não fosse uma descrição tão inadequada”, escreveu em sua conta no Twitter, em 2015. Marcelo Bielsa, em palestra na sede da CBF, em 2017, referiu-se a ele – e a Marcelo – como um “atacante disfarçado de lateral”. Tite deu a ele a chave do ataque da seleção brasileira na última Copa América, e Daniel respondeu com as melhores atuações individuais do torneio, aos trinta e seis anos e recém-recuperado de uma lesão nos ligamentos do joelho.

O que é verdadeiramente impressionante a respeito de Daniel Alves não é uma sala com quarenta taças, mas o fato de ser um jogador com vaga na elite da elite de sua profissão com a idade que tem. Não fizesse questão de um contrato de no mínimo duas temporadas, ele provavelmente estaria na Juventus, ou na Internazionale, ganhando algo entre sete e oito milhões de euros. Por desejo pessoal, ele se junta a Filipe Luís – por coincidência, os dois laterais titulares da seleção – ao oferecer nível europeu ao futebol brasileiro, em movimentos extremamente valiosos para o jogo que se joga aqui. Se as coisas andarem no São Paulo como andaram desde o garimpo do Sevilla, Monchi terá ainda mais motivos para falar sobre sua operação ideal.

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