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Que perda

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Desde domingo passado, o compartilhamento de histórias sobre Kobe Bryant tem contribuído para que seus fãs iniciem o processo de conciliação com um desaparecimento tão precoce e estúpido. Na maioria, são relatos de pessoas próximas, companheiros, adversários, em que a natureza competitiva de um dos principais esportistas de nossos tempos assume o protagonismo, revelando um caráter obsessivo que só sabia se alimentar de vitórias, mesmo quando perdia. Bryant jogava basquete com a obstinação de quem precisava conquistar tudo em apenas uma noite, e como se a noite anterior tivesse deixado de existir quando o cronômetro zerou. A mitologia a seu respeito tende a aumentar após sua morte, um fenômeno comum quando se trata de ícones que passam a viver no imaginário das pessoas, cuja decisão espontânea é acreditar no que lhes parece apropriado.

Uma dessas histórias remonta ao último jogo da carreira profissional de Bryant, a célebre noite dos sessenta pontos contra o Utah Jazz, quando Kobe foi capaz de transplantar seus melhores momentos para um corpo em declínio físico e oferecer uma atuação inacreditável. Conta a lenda que, ao converter seus últimos dois pontos da linha do lance livre, Bryant teria recebido uma colaboração de Gordon Hayward. O ala do Jazz teria pisado propositalmente dentro do garrafão no momento do segundo arremesso, de modo a dar a Kobe uma nova oportunidade de totalizar sessenta pontos em caso de erro. Não foi necessário, mas o vídeo mostra a invasão claramente. Embora o relato sugira um notável gesto de admiração por parte de Hayward, algo soa incompatível com a imagem que Bryant sempre cultivou: ele jamais, sob nenhuma hipótese e em nenhuma circunstância, faria qualquer tipo de caridade para qualquer adversário. E evidentemente ficaria enfurecido se soubesse que ganhou um presente, em especial em sua última noite na quadra.

Há ocasiões em que o que parece suspeito realmente é. Durante a semana, Hayward abordou a história em seu perfil no Twitter: “O fato é que não é verdade”, esclareceu. “Meu objetivo naquela noite era competir o máximo possível contra Kobe, porque era isso que ele representava e eu queria oferecer a ele o meu melhor”, continuou. “Ele fez sessenta [pontos] em mim e eu não dei a ele nada de graça. O que aconteceu no lance livre não foi intencional. Kobe perderia o respeito por mim se eu fizesse isso”, concluiu. Não só perderia o respeito como viveria com sensações conflitantes sobre seu último jogo, em que a pontuação astronômica poderia ter sido produto não apenas de sua capacidade ofensiva, mas também de uma atitude benevolente por parte de um adversário. O esclarecimento de Hayward restaura o assombro gerado pela atuação final de Bryant, sem permitir uma vírgula relacionada a seu legado como jogador.

Aqueles que o conhecem, sabem. De acordo com Dave McMenamin, repórter da ESPN nos Estados Unidos, a primeira reunião dos jogadores do Los Angeles Lakers após a morte de Bryant foi marcada por uma longa conversa coletiva, em que cada pessoa presente relatou de que forma lembraria de Kobe. LeBron James voltou ao jogo da medalha de ouro em Pequim 2008, entre Estados Unidos e Espanha, quando Bryant jogou Pau Gasol no chão com um golpe violento durante uma tentativa de bloqueio do espanhol. A reação de James foi “uau, você terá de jogar com ele na próxima temporada”, lembrando que Kobe e Gasol eram companheiros nos Lakers. Foi tudo premeditado. Los Angeles tinha perdido a final da NBA na temporada anterior para o Boston Celtics, numa série em que Gasol foi criticado por ter sido “suave” no jogo físico. O encontrão foi uma lembrança para que ele mudasse seu comportamento. No primeiro dia da pré-temporada seguinte, a medalha de ouro que Kobe ganhou naquela noite estava pendurada no armário de Gasol. Que jogador. Que perda.

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Imagem

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É triste a confusão que se faz em torno do aparecimento do zagueiro são-paulino Robert Arboleda, fotografado trajando uma camisa do Palmeiras durante férias no Equador, seu país natal. A dicotomia da condenação sumária de um ato inadmissível e a defesa das “liberdades” de um futebolista profissional revela um debate raso, que não observa camadas importantes de um episódio que deveria ser didático. Não, enquanto for jogador do São Paulo, Arboleda não pode vestir a camisa de qualquer outro clube, em qualquer situação. E não, o fato de ter se permitido flagrar com o uniforme de um rival não deve ser penalizado com expulsão do clube como se ele fosse um pária, ou justifica vaias eternas da arquibancada sempre que tocar na bola.

A razão pela qual um jogador sob contrato com um clube não pode aparecer com outra camisa não é esportiva, ética ou moral. Nem está associada à rivalidade sem a qual o jogo perde essência. E não tem absolutamente nada a ver com fanatismo. É pura e simplesmente uma questão profissional, comercial, traduzida pela figura dos direitos de imagem, cada vez mais importante na remuneração de atletas. Ao licenciar o exercício da exploração de sua imagem a uma entidade esportiva, um jogador permite a utilização de seu alcance popular por ações conjuntas que beneficiem a ambos, evidentemente mediante uma compensação financeira. Essa utilização pode ser a divulgação do programa de sócio-torcedor do clube, uma campanha de um patrocinador, um evento social. É uma relação paralela ao compromisso estritamente esportivo que não pode restringir a liberdade ou prejudicar a personalidade do atleta.

A partir do momento em que uma fotografia de Arboleda com a camisa de outro clube surge nas mídias antissociais, o uso da imagem que ele mesmo autorizou ao São Paulo sofre um sério e claro dano, uma vez que, por um período impossível de calcular com exatidão, a reação automática das pessoas será lembrar do caso. Para fazer um teste, basta imaginar o zagueiro como garoto-propaganda de uma ação do clube para vender ingressos de um setor do Morumbi. Se o São Paulo fica impossibilitado, ainda que temporariamente, de explorar a imagem de um jogador que tomou uma decisão equivocada, o objeto desta relação deixa de fazer sentido. E neste âmbito, não importa se Arboleda estava em férias, fora do Brasil, etc. A própria existência do direito de imagem se alimenta da velocidade de propagação de uma foto nos tempos atuais. Não existem fronteiras geográficas ou distâncias no ambiente virtual, fundamental para a difusão de ideias, boas ou ruins.

O São Paulo multou Arboleda, que se desculpou publicamente e já se expôs ao julgamento do torcedor na estreia do clube pelo campeonato estadual, no Morumbi. Houve vaias do setor mais radical da torcida e compreensão em outras áreas do estádio, o que mostra que agir como vítima de uma ofensa, muitas vezes, é uma opção. Ninguém é proprietário do sentimento de torcer por um clube, nem existe um regulamento que rege a conduta de quem escolhe essa relação. Independentemente da capacidade de acreditar que Arboleda não sabia que usava uma camisa do Palmeiras – versão oferecida pelo superintendente de relações institucionais do São Paulo, Diego Lugano – na fatídica foto, o erro que ele cometeu está muito distante de uma afronta ao “espírito são-paulino”, aos “valores do clube” ou “à paixão do torcedor”. Nem mesmo pode ser descrito como desrespeito. É apenas um deslize do qual o São Paulo deveria lembrá-lo, como reprimenda, a cada vez que depositar seus vencimentos.

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Olhos

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Uma das marcas dos melhores trabalhos de Vanderlei Luxemburgo era a capacidade de identificar virtudes desconhecidas em seus jogadores. Por vezes, desconhecidas até para os próprios. Além de perceber características que possibilitavam a utilização de futebolistas em papéis diferentes do que seria convencional em ocasiões específicas, Luxemburgo orientou o que se poderia chamar de “novas carreiras” para vários comandados. Essas passagens não pertencem a qualquer tipo de folclore motivacional que possa acompanhar a trajetória do atual técnico do Palmeiras, ou mesmo certas cartas potencialmente geniais – mas que nem sempre surtiram efeito – lançadas para confundir adversários em jogos decisivos. São exemplos da inquietação de um treinador que por metade de sua carreira se distanciou da concorrência porque pensava melhor.

Muller, no histórico, porém efêmero Palmeiras de 1996, talvez seja o principal exemplo de jogador redesenhado por Luxemburgo, ao se revelar um passador dotado da leitura e do refinamento necessários para brilhar servindo companheiros. Como viabilizador de um ataque que marcou mais de cem gols num campeonato estadual, Muller criava jogadas para Luizão, Djalminha e Rivaldo (se você não viu, deve ser capaz de ao menos calcular o que eram capazes juntos) como propostas para que eles se divertissem. Não eram passes, mas convites. Mais tarde, no Corinthians, Luxemburgo recuou Freddy Rincón para funções defensivas de meio de campo, com influência direta no início da viagem da bola ao ataque. O colombiano – explicou o técnico à época – não tinha problemas para receber de costas para a maior porção do gramado e, usando o corpo com maestria, saía para os dois lados com a mesma desenvoltura. Viu-se outro jogador, talvez superior ao anterior.

No Cruzeiro que conquistou três troféus em 2003, a visão de Luxemburgo proporcionou a Alex uma das melhores temporadas de sua vida, graças a uma sutil alteração de posicionamento – e, consequentemente, de função – que até hoje passa despercebida aos menos atentos. Sob Scolari, Alex era o quarto jogador do meio de campo, com contornos de armador clássico. Luxemburgo o converteu de arco em flecha, de 10 em 9,5, e o fez se adiantar da região entre o volante e o meia para a faixa entre o meia e o atacante. O interessante é que, mesmo mais próximo do gol adversário, Alex passou a ter maior participação na construção (o time de Scolari se organizava primordialmente com os laterais) do jogo em jornadas que ilustram o termo “craque” com todas as letras.

A versão de Felipe Melo como zagueiro parece um indício do resgate de uma forma de pensar o futebol que não caracterizou o Luxemburgo pós-2004, talvez um dos diagnósticos mais evidentes da segunda metade de sua carreira, opaca não só em conquistas, mas no jogo apresentado pelas equipes que dirigiu. O futebol não admite garantias, mas, mesmo que o experimento não tenha o sucesso desejado, a procura por soluções criativas pode representar uma mudança no modo de se relacionar com a rotina de preparação de equipes, um aspecto da profissão de técnico que não permite a suposição de que tudo já está feito e congelado. É curioso o paradoxo que pede um “novo” Vanderlei Luxemburgo, um profissional que tem insistido em negar a existência da novidade, quando está claro que o “velho” – um treinador claramente à frente de seu tempo – reinaria com suas próprias ideias.

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Livre trânsito

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Está em aquecimento uma temporada caracterizada por um conflito entre duas forças que não existem. E as tentativas de tratar do ano futebolístico com um mínimo de racionalidade serão fúteis, porque as redes antissociais – onde a racionalidade foi banida há muito tempo – já decidiram quem enfrentará quem a cada rodada de futebol, especialmente durante o Campeonato Brasileiro. Não serão clubes, nem mesmo técnicos, mas passaportes. A generalização que pariu o rótulo “treinadores estrangeiros” e, consequentemente, o subproduto “treinadores brasileiros” se encarregará de fomentar um confronto de nacionalidades, no qual o Brasil disputará com o “resto do mundo” o troféu de “melhores ideias sobre futebol”.

A preparação para a batalha se deu durante 2019, quando os Jorges Jesus e Sampaoli fizeram uma dobradinha no Campeonato Brasileiro ao som de uma onda – absolutamente merecida – de elogios que incomodou demais dois tipos de figuras: os técnicos que por algum motivo tenham se sentido preteridos pelos holofotes ao longo do ano; e os torcedores que os enxergam como forasteiros que pretendem ensinar futebol ao país pentacampeão. Por vezes, houve casos de antipatia indireta: o sujeito não tem nada contra um determinado treinador, mesmo porque não há motivo para isso, mas se irrita com o tratamento que “a mídia” lhe dispensa. É quando a incapacidade de formar a própria opinião se abraça à arrogância de querer supervisionar o trabalho alheio, uma combinação explosiva. No ano passado, Jesus e o Flamengo não permitiram que houvesse concorrência, mas o futebol sempre traz um recomeço.

As chegadas de Eduardo Coudet, Rafael Dudamel e Jesualdo Ferreira evidenciam a definitiva ampliação do mercado brasileiro de técnicos. É um movimento lógico: a restrição a profissionais formados em outros países sugere a ideia de que a capacidade para a função só se encontra aqui, um completo absurdo. Furtar-se a buscar competência onde ela estiver é agir declaradamente contra os interesses dos clubes, um contrassenso impensável em qualquer centro onde o futebol é importante. Como disse o novo técnico do Santos, a onda não vai parar. A questão é como ela será percebida enquanto ainda for uma novidade. Por ora, o ambiente do futebol no Brasil tem tido de conviver com coisas como “o que ele ganhou?”, “é bom só porque é português?” ou – essa, a melhor, infelizmente foi repetida durante a semana por um técnico em início de carreira, no momento sem clube – “quero ver ele ganhar com um time ruim”. Mais ou menos como pedir a Michael Phelps para nadar de calça jeans.

Quanto a Jesualdo e os outros treinadores portugueses que têm sido cogitados, ao menos houve um avanço em relação ao que se viu quando Jorge Jesus foi contratado. O desconhecimento da importância da escola portuguesa de formação de técnicos – para a qual Jesualdo Ferreira é uma referência – não levou a gracinhas nos programas de debates, o que não significa uma lição de casa mais caprichada, apenas o receio de passar ridículo. Mas aguarde uma sequência ruim do Atlético Mineiro com Dudamel, algo natural e até esperado, e dissertações sobre o futebol venezuelano serão feitas sem nenhum constrangimento. Enquanto se perder tempo com aparências e pré-conceitos, os benefícios da presença desses profissionais no Brasil, para eles e para quem os observa, serão desperdiçados.

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Hodômetro

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Jurgen Klopp não conseguiu conter uma sonora gargalhada quando ouviu de João Castelo Branco, correspondente da ESPN na Inglaterra, que a final do Mundial de Clubes da Fifa seria a septuagésima-quarta partida do Flamengo em 2019. Foi um riso nervoso, próprio de quem sabe identificar quando certos limites são desrespeitados, mesmo estando em posição de se beneficiar dos problemas alheios. Na conversa às vésperas da decisão em Doha, o técnico do Liverpool lembrou de seu primeiro ano no clube, quando alguns jogadores fizeram sessenta e quatro atuações. “É realmente um número inacreditável”, assustou-se, antes de perguntar se os mesmos onze titulares rubro-negros tinham sido utilizados em todos esses jogos, uma óbvia brincadeira.

Não foram, claro. Embora a gestão do elenco signifique um dos convites a reflexões que a comissão técnica de Jorge Jesus estendeu aos colegas brasileiros, é preciso salientar que a equipe considerada titular iniciou, com o técnico português, um total de oito jogos. Eram sete antes da final no Catar, a única derrota que este time sofreu. Quando Jesus diz, como fez ao diário português Record, que o Flamengo teria sido campeão mundial se o número de atuações fosse invertido, sugere um cenário fictício para inflar a qualidade de seu time. Este quadro só seria possível se o Flamengo jogasse no calendário europeu e o Liverpool no brasileiro. É tão eficiente como exercício quanto a ideia de que o Flamengo terminaria uma temporada da Premier League entre os primeiros colocados.

Os mundos do futebol são muito diferentes, e um dos piores defeitos do ambiente brasileiro é o excesso de jogos. É fácil descobrir onde está o exagero, mas aí será necessário abordar as relações entre clubes e federações estaduais, algo que não se encontra em nenhum outro lugar onde o jogo de futebol é parte importante da vida das pessoas. O erro se dá pelo desgaste acumulado ao final do ano e o preço que se cobra dos times mais bem-sucedidos, especialmente aqueles que conquistam o direito de, no último dos esforços, medir-se com um representante da elite do jogo, quase sempre uma verdadeira seleção internacional em ritmo de meia temporada. O cansaço do Flamengo na meia hora adicional em Doha foi gritante e mesmo assim houve suspense até o final. É fútil, porém, esperar simpatia dos arquitetos do ano futebolístico brasileiro. Os interesses deles são outros.

O que não quer dizer que tudo seja perfeito onde o jogo recebe o melhor tratamento. O mesmo Klopp que se impressionou com o hodômetro do Flamengo criticou a programação insana de jogos durante a virada do ano na Inglaterra. “Nenhum técnico vê problema em jogar no ‘boxing day’ (26/12), mas jogar no dia 26 e no dia 28 é um crime”, reclamou. A oferta de futebol no período festivo é uma antiga tradição inglesa, alimentada pelo desejo do público e pelo dinheiro dos direitos de transmissão, combinação que desrespeita o bem-estar dos principais envolvidos. “O corpo precisa de um tempo específico [de descanso] antes de ir de novo, mas nós ignoramos isso completamente”, disse o treinador alemão. Com quatro rodadas espremidas em dez dias, a Premier League teve cinquenta e três jogadores machucados.

O produto final sofre junto com os futebolístas, mas alguém dirá que as pessoas assistirão de qualquer jeito. Talvez, e aí está um outro problema sobre o qual é importante refletir. Na mesma entrevista a João Castelo Branco, Klopp declarou que “às vezes você pensa que o mundo é pequeno e você encontra todo mundo a todo tempo, mas é claro que, para nós, não é fácil assistir ao futebol brasileiro”. Não deveria ser assim. A única afirmação que pode ser feita, no entanto, é que Klopp continuará rindo.

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Trinta dias

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Flamengo e Athletico vão disputar a Supercopa do Brasil no dia 16 de fevereiro de 2020, em Brasília. Num ambiente de futebol coerente e minimamente preocupado com o produto que oferece, a ocasião deveria marcar a abertura da temporada nacional. Uma decisão de título simbólico entre o campeão brasileiro e o vencedor da Copa do Brasil, algo como um evento de inauguração do ano futebolístico no país. Mas não, claro que não. Os campeonatos estaduais estarão em andamento (um deles já começou, acredite), porque ainda é necessário agradar os cartórios da bola com uma porção do calendário que deveria ser dedicada a um estágio crucial no processo de construção de equipes. E se o 2019 do Flamengo não tivesse terminado tão tarde, a Supercopa do Brasil seria realizada quase um mês antes, coincidindo com o início dos festivais das federações.

Na programação divulgada pela CBF, a data de 22 de janeiro aparece como a largada dos estaduais. Alguns começarão antes, no dia 18, como é o caso no Rio de Janeiro e no Paraná. Ou melhor, não é bem isso. O torneio carioca de 2020 já está em ação em dezembro do ano anterior, com equipes disputando uma fase preliminar à Taça Guanabara. O elenco principal do Flamengo retorna das férias exatamente no dia 22, o que levou à decisão do clube de se fazer representar na competição da FERJ, uma das mais anacrônicas federações do país, pela equipe Sub-20. O Athletico repetirá a estratégia das duas últimas temporadas, utilizando um time formado por jogadores em desenvolvimento no campeonato paranaense, enquanto se apronta para o que realmente importa no longo ano.

Já se comentou amplamente, com os devidos elogios, sobre o impacto do trabalho de Jorge Jesus no 2019 do Flamengo, assim como sobre os convites estendidos aos demais atores do futebol no país. Há reflexões importantes a serem feitas em relação, por exemplo, à administração de elenco em competições simultâneas e ao valor dado ao Campeonato Brasileiro. O nível de jogo, evidentemente, é o argumento mais relevante. Mas é preciso considerar que o grande presente de Jesus ao futebol brasileiro talvez seja a exigência por trinta dias de pré-temporada, algo natural para quem tem formação europeia. Se as loucuras do calendário local impõem um conflito com a programação de competições, que as escolhas sejam feitas conforme a importância de cada uma.

Claro, não é novidade. A conversão do período do estadual em pré-temporada está no planejamento do Athletico, com frutos colhidos em dois anos seguidos. Pode-se atribuir a conquista da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil (e, em nome dos fatos, dos dois estaduais disputados dessa forma) a coincidências permitidas pelo futebol, ou se pode prestar atenção e compreender as relações que se apresentam. A diferença aqui é a reverberação de uma posição semelhante assumida por um clube como o Flamengo, e os efeitos que poderiam estimular os demais. É acintoso que os primeiros três meses do ano competitivo sejam ocupados pelos torneios estaduais, empurrando o Campeonato Brasileiro para a primeira semana de maio. É ainda mais grave que uma parte significativa deste período não sirva para uma adequada preparação.

Em fevereiro, a Supercopa do Brasil reunirá os dois únicos clubes que conquistaram troféus no país em 2019. Que a maneira de olhar o calendário seja mais uma correspondência entre eles, e que inspirem, liderem aqueles que ainda acreditam que os clubes brasileiros precisam obedecer aos tabeliães do futebol. Dois mil e vinte terá mais chances de ser um feliz ano novo.

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Distância

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Três técnicos de clubes do Rio de Janeiro apareceram em entrevistas coletivas nesta semana. Apresentado na quarta-feira em São Januário, o novo treinador do Vasco, Abel Braga, tornou célebre a ocasião por uma declaração elogiosa à sinceridade do presidente do clube, Alexandre Campello. “Ele me disse: vou te pagar, mas não pense que vou te pagar em dia”, revelou Abel. “Se pagar em dia, vai ser uma surpresa legal. Se não pagar, eu já estou sabendo”, completou. O ano que terminaria com o movimento da torcida vascaína para multiplicar o programa de sócio-torcedor do clube será concluído com um certificado de amadorismo. O dito profissionalismo se expõe como uma ação entre amigos que apresenta o Vasco como mau pagador, numa tentativa de sugerir que a simples união de forças será capaz de levar o clube adiante. Não será. O caminho da reestruturação passa obrigatoriamente pelo fim de práticas como a que estabelece compromissos que não podem ser sustentados regiamente.

Os efeitos morais de não negar que deve e pagar quando pode são vários. Um deles é a impressão, aos olhos da opinião pública, de que técnicos e jogadores aceitam a conversão de seu trabalho numa espécie de acordo beneficente com o clube. O que permite a leitura, caso as coisas andem mal, de que qualquer cobrança – algo inerente à natureza desse ambiente profissional – não terá mérito, pois, afinal, são credores de quem deveria remunerá-los em dia. Outro é a sugestão, que já virou discurso, de que não há problema no atraso de salários em clubes de futebol, pois quem ganha tanto não precisa receber todos os meses. A distorção da relação profissional baseada na suposição dos orçamentos alheios é um exercício de ignorância que não conhece limites, porque estabelece parâmetros conforme a opinião de quem o faz e esquece, propositalmente, das obrigações de parte a parte. É possível que a única promessa a Abel que o Vasco cumprirá seja a de não pagar todo dia cinco. Neste caso, o elogio dará lugar ao ressentimento e a união de forças não passará de uma ideia bonita, porém fantasiosa.

No dia seguinte, o Fluminense também introduziu seu técnico para 2020, Odair Hellmann. Na conversa com repórteres no centro de treinamentos do clube, não houve menção a pagamentos infrequentes. Ao contrário, o compromisso dos superiores do treinador é evitar que o ambiente seja contaminado por atrasos de salários, embora a ressalva de que a realidade orçamentária do clube será “mais enxuta” do que em 2019 tenha sido feita com todas as letras. Durante a apresentação, Hellmann lançou um apelo público a Caio Henrique e Allan, jogadores que ainda negociam as renovações de seus contratos. “Que fiquem com a gente e aceitem a proposta do presidente, dentro do esforço máximo, talvez até além do que o Fluminense possa”, disse. Se os futebolistas optarem por jogar em outro lugar, a procura por substitutos se dará num mercado em que o clube “não tem condições de fazer compras de valores muito altos”, completou. Eis um cenário em que o Fluminense tem a companhia de muitos, basta notar a quantidade de dirigentes falando em “trocas de jogadores” na montagem de elencos para o ano que vem.

O terceiro técnico de um clube carioca a ser entrevistado durante a semana, obviamente, foi Jorge Jesus. E o tema, também obviamente, foi o Mundial de Clubes da Fifa e a possibilidade de mais um troféu em 2019. A comparação das três entrevistas leva a um contraste automático. O Flamengo dispõe de quase 140 milhões de reais para contratar jogadores – ou um técnico, se Jesus não permanecer – que serão muito bem remunerados, e rigorosamente em dia. Ao tomar conhecimento do que se disse nas apresentações de Abel e Odair, dirigentes envolvidos na tomada de decisões no clube rubro-negro experimentam a agradável sensação de saber que rivais tradicionais não serão ameaças por muito, mas muito tempo.

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Boleto

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O portal Superesportes, em trabalho de Bruno Furtado e Tiago Mattar, publicou ontem que uma funcionária do Cruzeiro foi orientada pelo filho do presidente Wagner Pires de Sá a pagar impostos de veículos que pertenciam à ex-mulher do dirigente. À época, janeiro de 2018, a proprietária dos seis carros e duas motos era legalmente casada com Pires de Sá. Foi um dos filhos do casal que enviou um email à secretária do presidente, que trabalha na sede administrativa do clube, para determinar pagamentos de IPVA, licenciamento e seguro DPVAT, no total de 11 mil reais. O que importa aqui evidentemente não é o valor, mas a prática, mais uma evidência da maneira como os clubes do futebol brasileiro são administrados.

Em resposta à reportagem, o Cruzeiro, em tom indignado, não nega as operações feitas pela funcionária, mas afirma que os cartões bancários usados para os pagamentos pertencem a Pires de Sá. Na versão dos fatos apresentada pelo clube, os assuntos pessoais do dirigente não se confundem com os afazeres de sua secretária com objetivo de lesar o Cruzeiro, apenas lhe tomam tempo. Seriam, afinal, contingências decorrentes da mais pura abnegação de um advogado e empresário que doa seus dias ao clube que ama, em detrimento das próprias obrigações. Um ato de sacrifício. Ainda de acordo com a matéria, Pires de Sá, seus dois filhos – um deles, também funcionário do Cruzeiro – e sua ex-mulher são sócios de uma empresa, acredite, de consultoria em gestão. Não se sabe se recomendam a clientes esse tipo de terceirização de funções.

O modelo de administração de clubes no Brasil impede que tenham donos, como se dá em lugares onde o futebol é mais bem tratado. Mas a engenhosidade dos políticos nacionais do esporte se encarregou de solucionar essa questão com o brilho que os caracteriza: não são donos, mas agem como se fossem. Não podem, mas fazem. O que os torna os donos de clubes mais espertos que existem, pois brincam com um patrimônio que não lhes pertence, cientes de que o próprio patrimônio jamais estará sob risco. E exceto nas ocasiões em que desrespeitam os limites do aceitável por tempo suficiente para levar um clube como o Cruzeiro ao rebaixamento, sempre haverá tolos úteis para chacoalhar pompons em sua defesa, dispostos ao papel ridículo de protetores da instituição. Não há nada como a decepção de quem é vagamente perspicaz quando percebe que foi feito de bobo.

Como contraponto a esse nível de usurpação, é frequente a aparição de argumentos como o da “entidade privada” para despistar o evidente interesse público quando o tema é a gestão do futebol. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos já demonstrou como isso funciona durante a condução do chamado “escândalo da Fifa”, e, para quem ainda tem dúvida, basta lembrar que um ex-presidente da CBF é hóspede do sistema carcerário daquele país justamente por agir como se a confederação, entidade privada, pertencesse a ele. Claro, é preciso lembrar que se José Maria Marin não estivesse em Zurique quando recebeu a visita matinal do FBI – ou se tivesse sido ágil como o Marco Polo que não viaja – atualmente ainda seria visto nos seus restaurantes paulistanos prediletos.

No final de maio, reportagens de Rodrigo Capelo e Gabriela Moreira, ambos do grupo Globo, mostraram como eram feias as entranhas administrativas do Cruzeiro, objetos de investigação da polícia em Belo Horizonte. Os cheerleaders de mídia antissocial entraram em modo de escândalo, enquanto os dirigentes envolvidos – entre uma ameaça e outra a jornalistas – tentavam explicar o que filhotes de raposas podem entender por conta própria. As denúncias provavelmente impediram que a diretoria que levou o Cruzeiro à Série B contraísse um empréstimo de 300 milhões de reais. Calcule quantos IPVAs poderiam ser pagos pela secretária da presidência.

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Gabriel Gol, 43

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No início de janeiro, este espaço foi ocupado por um texto sobre Gabriel Barbosa, o Gabriel Gol. A transação do Santos para o Flamengo estava concluída, às vésperas da largada para uma temporada que poderia ser decisiva para o atacante apelidado, com cruel dose de sarcasmo, de “Gabi-não-gol” durante o breve período na Internazionale de Milão. Um dos argumentos da coluna era a apresentação de Gabriel como um futebolista singular no ambiente doméstico: “São raros os jogadores que oferecem nível técnico internacional – ou seja, capacidade para atuar nos principais centros – à disposição de equipes brasileiras, e é mais comum vê-los por aqui antes de serem exportados”. De maneira geral, a reação à caracterização do atacante do Flamengo como um finalizador de elite navegou entre o escárnio e a ofensa, especialmente entre torcedores santistas. O transcorrer do ano tratou de fazer com que comentários dessa natureza envelhecessem mal.

Goleador principal da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro, a questão com Gabriel, como quase tudo relacionado ao futebol, não se resume a números. Ele replicou o que fez Zico na final do torneio sul-americano em 1981, e ultrapassou o lendário 10 rubro-negro em gols marcados em uma edição do campeonato nacional. Não se trata de compará-los. Ocorre que o contar da história mencionará ambos os nomes em sentenças próximas, e sempre que um jogador de futebol for citado ao lado de Zico, será por motivos geradores de orgulho. São figuras centrais em épocas irmãs, ainda mais especiais pela ausência de ocasiões semelhantes entre uma e outra. Na memória afetiva – mesmo no caso de quem não viu Zico, mas tem curiosidade por conhecimento histórico e a apreciação de fatos – popular, no entanto, um sempre será o homem-clube, enquanto o outro fará o papel de ilustre viajante do tempo e das glórias.

Porque para além das mudanças no jogo de futebol, existem as transformações no jogador de futebol. O prospecto de fazer quarenta gols por ano, jogar para uma torcida imensa, ser maravilhosamente bem remunerado e ter expectativas realistas a respeito de todas as competições disputadas pode não satisfazer os sonhos de felicidade de quem a associa a outro tipo de coisa, por nascer e crescer numa era em que a materialização do sucesso está em outras ligas, outras línguas, outras companhias. É natural que a primeira aventura europeia da carreira de Gabriel, origem quase unânime das críticas dirigidas a ele, mantenha até hoje uma espinha em sua garganta que não será removida por nada que se passe em seu país. Nenhuma vitória será como seria; tudo será uma parte, jamais o todo idealizado. Considerando a idade que ainda desperta a possibilidade de uma contratação com retorno técnico e financeiro, a hora de ir e tentar de novo pode não esperar.

O tesouro que está mais perto ele já conhece. Mesmo levando em conta clubes europeus que não se interessam por seu futebol, não parece haver naquele continente um time que represente a oportunidade esportiva que o Flamengo oferece. O texto publicado aqui em janeiro citava a necessidade de um “ajuste de mentalidade, no sentido de entender o significado de 2019 em sua carreira e as exigências que acompanham a chance de jogar no Flamengo”. Quarenta e três gols são mais do que suficientes para ilustrar que o ajuste foi feito. A questão é o significado. Hoje, em nenhum lugar, ninguém se atreve a chamá-lo de “Gabi-não-gol”.

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Paladar

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“O torcedor passa a querer um outro futebol”.

A frase é de Mano Menezes, em entrevista coletiva no Maracanã, após a derrota do Palmeiras para o Fluminense. Mano se referia a uma das repercussões, talvez a mais relevante, da temporada inédita de “dupla coroa” em que o Flamengo obrigou seus concorrentes a perceber que, de fato, eles não alcançam essa estatura. Em troféus e em jogo, especialmente em jogo, não passam de aspirantes resignados pelo reconhecimento de que a distância é muito maior do que imaginavam. É emblemático que o técnico do time que se apresentava no início do ano como o “principal adversário” do futuro campeão brasileiro e sul-americano, dono de um aproveitamento de pontos que permitiria pensar em título no passado imediato, perceba que o futebol do Flamengo alterou todas as percepções. Que o levem a sério, pois é ele quem está sentindo as dores dessa transformação.

Mano, como se sabe, dirigiu o Cruzeiro por boa porção do Campeonato Brasileiro. Enquanto ele falava com os repórteres no Rio de Janeiro, o clube mineiro perdia em casa para o CSA com o requinte cruel de um pênalti desperdiçado por Thiago Neves, o jogador que acumula funções na administração do elenco. O jogo que envolveu dois dos piores times do campeonato entrará para a história infame do futebol no Brasil por levar à demissão DE AMBOS os treinadores envolvidos. Abel Braga não resistiu ao caos absoluto que corrói o clube e o time cruzeirenses; Argel Fucks desistiu do CSA para tentar evitar o rebaixamento do Ceará. Antes da sexta-feira amanhecer, Adilson Batista, demitido pelo Ceará na quarta, acertou sua ida para o Cruzeiro. Alguém ainda criará um app para entregar treinadores a clubes em necessidade, da forma como se pede comida sem falar com ninguém. Faltam três rodadas.

As palavras de Mano Menezes soam como um dilema. A urgência por um “jogo novo” trará complexidades que hoje parecem esmagadoras para a maioria dos clubes. Basta apreciar o tipo de futebol que vem sendo praticado por quem está na vastidão chamada de “zona da Libertadores”. Enquanto se esforçam para assegurar algum tipo de participação na próxima edição do torneio continental, provavelmente não pensam na montanha que os separa do nível que será exigido de quem pretende vencê-lo. Mais parecem banhistas brigando por um palmo de areia numa praia superpopulosa, desatentos aos alarmes sonoros que avisam que um tsunami se avizinha. Talvez seja mais razoável torcer para que Jorge Jesus resolva encerrar sua aventura pelo futebol competitivo com as taças que acaba de erguer.

O que pode significar pouco em termos práticos. O Flamengo de hoje está apto a solucionar problemas futebolísticos, contratando profissionais ou os convencendo a permanecer, com a mesma pujança que construiu o time de 2019. Proliferam análises que minimizam a possibilidade de uma era hegemônica, mencionando outros grandes times que duraram pouco. Ignora-se, porém, que por mais dinheiro que tivesse para gastar num período específico, nenhum clube brasileiro esteve posicionado economicamente como o Flamengo está. E nenhum tem o potencial de receita que o Flamengo tem. O risco – ou a esperança, conforme o ponto de vista – é pensar que o trabalho terminou e o colosso se moverá em piloto automático, um equívoco de proporções semelhantes ao choque pela chegada de um novo tempo, ilustrada pela declaração de Mano.

O jogo brasileiro em seu patamar mais alto é um ambiente inclusivo, em que a tecnologia 5G convive com telefones de disco. Enquanto o Flamengo pensa no Liverpool, três técnicos dirigirão times pela PRIMEIRA VEZ neste fim de semana, começo de dezembro. Mano Menezes está certo, é preciso querer um outro futebol.

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