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Cultura forjada

Leia o post original por Bruno Maia

Afora a “Égide do Mal” que rege a vida do país sobre a batuta do Capeta, há um dado mais frio que precisa ser dito sobre o que aconteceu na final do Carioca14. Sou o primeiro a defender que o torcedor não se valha de racionalidades na hora de comemorar. Sendo franco, se o mesmo assalto acontecesse em favor do Vasco, não hesitaria em tripudiar nas zoações de qualquer mulambo, com a diferença que neste caso, seria justo.

Porém o ponto é outro. É a “cultura” que desde os anos 2000 se criou em torno de duas lendas: a suposta força do Flamengo nos momentos decisivos e que erros fazem parte e alimentam a graça do futebol. Tomando cultura por ritos que são repetidos até se estabelecerem como verdade e raiz de identificação de um grupo social, vemos isso se alastrar no futebol de forma perigosa. Quantas vezes essa suposta capacidade de resolver o jogo no final não esteve diretamente ligadas a erros crassos de arbitragem que os favoreceu? Você lembra alguma vez desses momentos decisivos – mas decisivos de verdade! daqueles em jogos que encerram o campeonato – terem sido contra os rubro-negros?

O que veio primeiro: a série de vitórias “heróicas” dos mulambos de mão-amarela ou a série de apitos amigos nesses mesmos jogos? Aprendi que situações excepcionais acontecem, mas quando se tornam rotina, revelam algo mais profundo que precisa ser analisado e corrigido. Se uma pessoa era uma vez, ok. Quando erra todo dia, não é erro, é incompetência ou má fé. É a mesma coisa aqui. Quem não se lembra das queixas chorosas de Bebeto de Freitas, a respeito das finais do Botafogo contra o Flamengo? Toda vez? O mundo que está errado e eles certos?

Não acredito em conluio, em complô dos árbitros. Como não acredito numa mente regente da Flapress, apesar de ela existir, exatamente por esse processo cultural. O que acredito é que criam um monstro psicológico que entende que no final, o Flamengo vai conseguir. E se passa batido por isso. A imprensa e a tv multiplicam a ideia, porque dá audiência. Instaura-se uma suposta força superior de um lado e o medo do outro. Sim, isso acontece nas pequenas manchetes dia a dia, mesmo quando aparentemente são inofensivas e não foram pensadas pra gerar aquilo intencionalmente. Se os jogadores do Vasco não reclamaram na hora do gol, é porque até eles estavam abatidos por esse medo que tomava a conta da cabeça de todo torcedor naquele instante. Agora, um assistente não ver um impedimento de 69cm? Só poderia estar também esperando acontecer o gol, assistindo ao lance e talvez comemorando por dentro. Não foi por mal. Nunca é. Mas em finais neste século sempre vêm acontecendo para um lado só. Se os erros fossem mais “divididos” pró e contra a eles, não teriam os tricampeonatos recentes que tiveram. Eles já teriam passado pela segunda divisão. Não existiria a fama de chororô sobre o Botafogo e essa diferença que se multiplica ano a ano seria, merecidamente, menor.Essa diferença que justifica mais dinheiro pra um do que para o outro, por exemplo. Isso é uma bola de neve. Mentiras repetidas até que virem verdades: é assim que se criam os mitos e os mitos influenciam nas pessoas. Isso é cultura. No caso, forjada.

É essa mesma cultura que faz o torcedor mulambo não sair do estádio antes do fim. Que faz o torcedor do Vasco ficar na linha tênue de simular uma comemoração antecipada para disfarçar o medo que lhe corrói e manter o time estimulado na esperança de virar o quadro. Que faz o treinador vascaíno recuar muito o time para tentar evitar o que se anuncia em seus medos. Que faz o locutor repetir o bordão de que ‘isso é f*4dwengo’, ‘isso é cor&t#*@ns”. Que o resto é choro. Não é choro. É uma cultura ruim, falsa, que se apropria do futebol, separa ainda mais os times e, a longo prazo, deixa marcas indeléveis tanto cá quanto lá. Enquanto isso, todo mundo parado, na frente da TV para os próximos comerciais.

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Ainda hoje, a última parte dessa trilogia inicial: quem paga a conta?!